Estudo
aponta que Milei amplia lavagem de dinheiro e captura do Estado em modelo de
“capitalismo mafioso”
“O
governo Milei e a continuidade do capitalismo mafioso na Argentina”, estudo
apresentado pelo professor Felix Pablo Frigeri, da Universidade
Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em abril de 2025, torna-se a
cada dia mais atual, tanto pela profundidade quanto pela amplitude dos
problemas descritos. “É um poder enraizado em fatos que dão forma concreta à
inclinação em direção ao neoliberalismo e à financeirização”, sustenta.
Citando
uma ampla variedade de fontes e autores, Pablo analisa elementos da
administração de Milei e demonstra sua continuidade “em relação a experiências
neoliberais anteriores na Argentina”: a ditadura militar, a era Menem, o
governo De la Rúa e Cavallo e a presidência de Macri.
Para
interpretar essa continuidade, “recorro ao conceito de ‘capitalismo de máfia’ —
um marco analítico concebido para examinar a configuração do capitalismo
financeirizado contemporâneo em nossa região, destacando paralelos com
operações de tipo mafioso”.
“Enfatizo,
em particular, o papel relevante de mecanismos como lavagem de dinheiro, fuga
de capitais e paraísos fiscais, bem como dos grupos empresariais que deles se
valem como atores-chave nessa configuração estrutural”, explica.
Como
descreve o autor, Milei representa a “violência do mercado” e sua
vice-presidente, Victoria Villarruel, a “violência estatal”, que caracterizam
as opções desastrosas do período. “As diversas tentativas do governo de apagar
a política de Memória, Verdade e Justiça e de justificar a ditadura servem como
evidência adicional dessa continuidade ideológica”, ressalta.
Para o
pós-doutor em Ciências Sociais, o governo argentino acelera a marcha à ré ao
alinhar as políticas públicas aos interesses privados, fazendo com que a
proteção social seja severamente restringida e a regulação do mercado,
desmantelada. “Milei está implementando a estratégia de fazer ‘a mesma coisa,
mas mais rápido’.
A
nomeação de Luis Caputo — a ‘encarnação por excelência das finanças
internacionais’ — para o Ministério da Economia; a designação de Federico
Sturzenegger para
o Ministério da Desregulação e Transformação do Estado; a desvalorização
drástica imediatamente repassada aos preços ao consumidor; o acúmulo massivo de
dívida externa — viabilizado, mais uma vez, pelo apoio político dos EUA —; a
incorporação de ideias, projetos e quadros oriundos da esfera do poder
corporativo concentrado; e a erosão das normas trabalhistas — incluindo a
anistia a empresários que violam leis trabalhistas e a redução das indenizações
por rescisão — remetem à gestão Macri.”
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A máfia como empresa articuladora de ações legais e ilegais
A
primeira característica, esclarece Pablo, “é que a máfia se organiza como uma
‘empresa’ protetora e organiza a ‘proteção privada’ por meio da articulação de
ações legais e ilegais”. Com esse objetivo, “Milei promoveu uma série de
‘proteções’ para grandes capitais concentrados e de propriedade estrangeira e,
sobretudo, para suas atividades de lavagem de dinheiro e fuga de
capitais”.
O fato,
descreve, é que “a propriedade estrangeira de empresas com capital nacional”
tem como objetivo reduzir suas obrigações tributárias globais e escapar ao
controle dos fluxos de capital.
A
segunda particularidade do capital mafioso é a obscuridade e o sigilo por trás
dessa estratégia de negócios, que “servem para ocultar vultosas quantias de
dinheiro, bem como os proprietários e os diversos participantes envolvidos”.
Afinal, salienta, “a Cosa Nostra também prefere operações discretas que não
atraiam atenção”.
“Os
locais que facilitam essa atividade criminosa são ideologicamente denominados
‘paraísos fiscais’ e, no imaginário popular, associados principalmente a ilhas
do Caribe ou de outros mares. No entanto, os principais polos desses paraísos
encontram-se, na verdade, dentro das nações mais poderosas.
Isso é
particularmente verdadeiro no caso dos EUA”, sustenta Pablo, pois “seu regime
bancário permite o recebimento legal de recursos provenientes de evasão
fiscal”, tendo estados como Delaware, Nevada e Wyoming “conhecidos por serem os
mais permissivos no que diz respeito ao sigilo corporativo e aos requisitos
pouco rigorosos para a constituição de empresas”.
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O capital financeirizado tanto molda a legislação quanto a transgride
O
terceiro traço, aponta o professor, são as “zonas cinzentas” que diluem a
fronteira entre o lícito e o ilícito, onde o capital financeirizado tanto molda
a legislação quanto a transgride.
A
marionete de Trump chegou a chamar evasores de “heróis” e elogiou Al Capone. A
“Lei Ônibus” e seu Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) foram
alvo de alerta do Grupo de Ação Financeira da América Latina (Gafilat), que as
descreveu como uma porta de entrada, disfarçada de legalidade, para capitais de
origem ilícita, incluindo narcotráfico e tráfico de pessoas, capaz de
transformar a Argentina em um novo paraíso fiscal.
A
desregulação das Sociedades por Ações Simplificadas (SAS) eliminou controles
contra lavagem de dinheiro e fraude. A desregulação financeira aparece como a
principal “liberdade” efetivamente conquistada por esse governo.
O
quarto ponto trágico é a “criação da própria demanda” por meio do endividamento
externo, um mecanismo de controle e disciplina que corrói a autonomia do Estado
e da população. Historicamente, a correspondência entre os dólares que entram
como dívida e os que saem como fuga de capitais é quase exata desde a
financeirização iniciada na ditadura.
No
governo Milei, a fuga de capitais somava cerca de US$ 5,2 bilhões mensais,
agravada pelo turismo ao exterior e pela deterioração do superávit comercial,
compensada por um novo endividamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI),
em 2025, de US$ 20 bilhões adicionais.
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A violência como última força da ordem neoliberal financeirizada na região
A
quinta característica da natureza “mafiosa” é que seu fundamento — a “última
força” na qual se apoia e se afirma — é a violência. “Na Cosa Nostra, ela
representava ‘a medida extrema, o último recurso, quando outros métodos de
intimidação haviam se mostrado ineficazes’, sendo empregada muitas vezes com
teatralidade e ‘intenção pedagógica’, tanto pelo ato em si quanto pelo
potencial de sua utilização.”
“A
violência é, da mesma forma, a força última do capitalismo. Isso se tornou
evidente, mais uma vez, com o estabelecimento de uma ordem neoliberal
financeirizada em nossa região e com os esforços contínuos para consolidá-la no
momento atual”, acrescenta.
A sexta
manobra do capital mafioso é a “guerra às drogas”, que persegue os setores mais
pobres enquanto protege a sustentação financeira do crime, por meio da lavagem
de dinheiro e da fuga de capitais. Assim, descreve Pablo, a “liberdade”
proclamada pelo presidente argentino é, na prática, a liberdade do capital,
sustentando políticas pró-monopólio sob o discurso do livre mercado.
“A
idolatria do dinheiro — ou mamonismo — articula-se a setores evangélicos e ao
sionismo de direita. O discurso ‘anti-Estado’ mascara a intervenção estatal em
favor da concentração. A corrupção, embora atribuída ao setor público, tem
origem fundamentalmente empresarial.”
O
sétimo mecanismo é a “dinâmica de simbiose”, em que a “máfia e o capital
financeiro se retroalimentam, criando estruturas transestatais com objetivos
econômicos e geopolíticos, referenciadas sobretudo nos Estados Unidos e no
Reino Unido”.
O
oitavo elemento, o “apoio judicial e midiático”, é indispensável à legitimação
do governo neocolonial, mostrando-se conivente com a repressão e a prisão da
principal líder opositora, Cristina Fernández de Kirchner. Conta, para essa
campanha, com o “engajamento coordenado, financiado e organizado de atores das
redes sociais”, ao mesmo tempo em que o Judiciário não investigou, de forma
rápida e minuciosa, as inúmeras alegações de corrupção governamental nem as
manobras sistematicamente opacas do poder dos especuladores.
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A colonização do poder político
A
“colonização do poder político” é citada como o nono ponto: a penetração das
forças de segurança e de setores do Judiciário pelo poder econômico e pelas
máfias em favor dos negócios privados, por meio da “captura” do Estado.
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A trágica aniquilação das organizações populares
A
trágica “aniquilação das organizações populares” é vista como o décimo
instrumento do capital mafioso, uma vez que promove o desmantelamento de toda a
infraestrutura de assistência social, com cortes drásticos no financiamento das
atividades voltadas aos segmentos mais pobres da população.
A
manifestação mais brutal disso foi o boicote do governo aos refeitórios
comunitários que, na avaliação de Pablo, “é impulsionado por uma dinâmica de
ódio, uma forma de vingança classista e racista dirigida às maiorias populares,
especialmente àquelas que estão organizadas”. Essa criminalização ocorre sob o
rótulo de “terrorismo”, com o ataque ao peronismo, veículo histórico das
maiorias populares.
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O alinhamento de Milei com Trump e a subordinação aos centros de poder
financeiro estadunidense
O
décimo primeiro ponto é a “vinculação ao imperialismo”, rechaça o professor da
Unila, uma vez que a dívida externa subordina a Argentina aos centros de poder
financeiro estadunidenses. Assim, o alinhamento de Milei com Trump é descrito
como uma submissão que compromete a soberania nacional, prejudica o país nos
planos comercial e financeiro e enfraquece a capacidade latino-americana de
construir uma cooperação estratégica regional.
O novo
“exército de reserva” é apresentado como o décimo segundo elemento do
capitalismo mafioso. A precarização gerada pelo neoliberalismo fornece força de
trabalho para redes de tráfico transnacional, articulando exclusão econômica e
narcotráfico como duas faces complementares: uma que obriga, outra que
legitima.
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A necessidade da defesa da soberania nacional e do desenvolvimento econômico
Para
coroar o estudo, “a soberania nacional e o desenvolvimento econômico” aparecem
como o décimo terceiro elemento. O eixo da soberania perpassa toda a análise: a
fuga de capitais e o endividamento externo formam um circuito que trava a
autonomia econômica argentina, subordinando o país às exigências dos
“investidores internacionais” e dos organismos de crédito, limitando o
desenvolvimento industrial e reproduzindo a “restrição externa”, que
historicamente interrompeu ciclos de governos populares.
A
financeirização iniciada pela ditadura e aprofundada em cada ciclo neoliberal
reorienta a economia da produção para a especulação, minando a capacidade de
desenvolvimento autônomo. O alinhamento com Washington é apresentado como perda
de soberania e retrocesso em relação aos avanços que a Argentina havia
conquistado em fóruns multilaterais.
O autor
conclui que o governo Milei expõe, talvez mais abertamente do que as etapas
neoliberais anteriores, os pilares de sustentação de uma configuração econômica
injusta, capitalizando o descontentamento popular.
Diante
disso, Pablo aponta três tarefas: enfrentar decididamente essa estrutura
mafiosa do capitalismo financeirizado; reorganizar politicamente as forças
populares a partir das tradições históricas argentinas; e travar uma “batalha
de ideias”, fundamentada em sentimentos, convicções e na linguagem popular,
para desmascarar o cinismo e desafiar certas “verdades” que se sustentam apenas
no exercício do poder.
¨ Milei é denunciado
por usar recursos públicos em viagem ao Brasil para apoiar Flávio Bolsonaro
O presidente da
Argentina, Javier Milei, se tornou alvo de uma denúncia por malversação de
fundos públicos e descumprimento dos deveres da função, após utilizar o avião
oficial e recursos do Estado para participar da convenção em São Paulo que
oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência do
Brasil.
A ação,
apresentada pelos advogados José Magioncalda e Juan Martín Fazio, sustenta que
o deslocamento do mandatário para um ato político da oposição brasileira
representa um desvio de dinheiro público de sua finalidade específica.
Segundo
os denunciantes, o uso do avião presidencial e da comitiva oficial para apoiar
uma candidatura partidária em outro país configuraria os crimes de malversação
de fundos e descumprimento dos deveres de funcionário público.
“Os
recursos estatais foram desviados para satisfazer os interesses de uma facção
política, causando graves danos às relações diplomáticas bilaterais”, diz a
denúncia.
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Viagem de Milei ao Brasil
Durante
a convenção do Partido Liberal (PL), no último sábado (25/07), Milei chamou o
presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, de “presidiário” e o ministro
Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de “lixo careca” — o
magistrado proibiu que o líder argentino visitasse Jair Bolsonaro em sua prisão
domiciliar.
O
governo brasileiro reagiu aos ataques de Milei chamando seu embaixador em
Buenos Aires, Julio Bitelli, de volta a Brasília para consultas. Além disso, o
Itamaraty convocou o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, para
“transmitir a repulsa” pela postura do presidente ultraliberal.
No
entanto, a Casa Rosada não
pretende pedir desculpas ao presidente brasileiro após os
insultos do mandatário argentino, que também xingou o homólogo brasileiro de
“ladrão” e “esquerdista”. A informação é do La Nación, em reportagem publicada
neste domingo (26/07), com base em fontes diplomáticas e governamentais.
“Não
haverá pedido de desculpas”, comentou um alto funcionário da Casa Rosada,
familiarizado com a animosidade do presidente argentino em relação ao líder
brasileiro. Segundo o jornal, apesar do distanciamento entre os dois líderes
latino-americanos, poucas pessoas dentro do governo esperavam um ataque dessas
proporções.
Além de
comparecer à convenção, Milei também
se encontrou com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos),
no Palácio dos Bandeirantes, onde recebeu a Ordem do Ipiranga, a mais alta
honraria concedida pelo governo paulista.
¨ Pesquisa na Argentina
aponta vantagem numérica do voto 'anti-Milei'
A mais
recente pesquisa nacional da consultoria Projection realizada na Argentina
antes das eleições presidenciais de 2027 indicou que a rejeição à continuidade
do mandatário de extrema direita
Javier Milei no
poder supera a de um eventual retorno do peronismo.
De
acordo com uma matéria publicada pelo jornal argentino Página 12 nesta
segunda-feira (27/07), o chamado “anti-voto”, ou seja, a disposição de um
eleitor apoiar um candidato não preferido com o objetivo de impedir a vitória
de outro, segue, desta forma, como “fator relevante no comportamento eleitoral
do país”.
O
levantamento foi realizado entre os dias 1º e 10 de julho, ouvindo, ao todo,
1.817 pessoas em território nacional. Os dados apontaram um cenário polarizado,
com o eleitorado dividido entre quem prefere a continuidade da gestão atual de
extrema direita e quem defende uma mudança governamental.
Segundo
o estudo, 40,1% dos entrevistados afirmaram que estariam dispostos a votar em
um candidato que não fosse de sua preferência apenas para impedir que Milei continue no cargo. Desse total, 24%
disseram concordar “fortemente” com essa decisão, e 16,1% disseram apenas
“concordar”.
Por
outro lado, 37,5% declararam que poderiam apoiar um candidato que não gostam
para impedir o retorno do peronismo. Nesse grupo, 20,8% responderam que
“concordam fortemente” e 16,7% que “concordam” com essa alternativa.
A
diferença entre as duas posições é de 2,6 pontos percentuais, o que representa
uma vantagem do voto de oposição ao atual governo em relação ao voto contra o
peronismo. Essa dinâmica já se manifestou em pleitos anteriores: em 2015,
quando contribuiu para a eleição de Mauricio Macri e, em 2023, quando favoreceu
a eleição de Milei.
O
levantamento também investigou a preferência dos eleitores quanto à
continuidade ou não da atual administração. Os que desejam que o governo
ultradireitista de Milei permaneça compõem 20,3%, enquanto os que preferem que
ele continue, mas com mudanças na equipe e nas políticas implementadas são
19,1%.
Já
entre os que defendem uma mudança de governo, 37,8% disseram preferir uma
administração vinculada ao peronismo, enquanto 13,7% optaram por uma
alternativa fora desse espectro. Os 9,1% restantes afirmaram não saber qual
opção escolher.
Os
resultados foram divulgados dias após outra seção dessa mesma pesquisa, que
apontou um empate técnico em um eventual segundo turno entre Milei e o
governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, além de um cenário
competitivo para um primeiro turno do pleito presidencial.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

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