quinta-feira, 30 de julho de 2026

Estudo aponta que Milei amplia lavagem de dinheiro e captura do Estado em modelo de “capitalismo mafioso”

“O governo Milei e a continuidade do capitalismo mafioso na Argentina”, estudo apresentado pelo professor Felix Pablo Frigeri, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em abril de 2025, torna-se a cada dia mais atual, tanto pela profundidade quanto pela amplitude dos problemas descritos. “É um poder enraizado em fatos que dão forma concreta à inclinação em direção ao neoliberalismo e à financeirização”, sustenta.

Citando uma ampla variedade de fontes e autores, Pablo analisa elementos da administração de Milei e demonstra sua continuidade “em relação a experiências neoliberais anteriores na Argentina”: a ditadura militar, a era Menem, o governo De la Rúa e Cavallo e a presidência de Macri.

Para interpretar essa continuidade, “recorro ao conceito de ‘capitalismo de máfia’ — um marco analítico concebido para examinar a configuração do capitalismo financeirizado contemporâneo em nossa região, destacando paralelos com operações de tipo mafioso”.

“Enfatizo, em particular, o papel relevante de mecanismos como lavagem de dinheiro, fuga de capitais e paraísos fiscais, bem como dos grupos empresariais que deles se valem como atores-chave nessa configuração estrutural”, explica.

Como descreve o autor, Milei representa a “violência do mercado” e sua vice-presidente, Victoria Villarruel, a “violência estatal”, que caracterizam as opções desastrosas do período. “As diversas tentativas do governo de apagar a política de Memória, Verdade e Justiça e de justificar a ditadura servem como evidência adicional dessa continuidade ideológica”, ressalta.

Para o pós-doutor em Ciências Sociais, o governo argentino acelera a marcha à ré ao alinhar as políticas públicas aos interesses privados, fazendo com que a proteção social seja severamente restringida e a regulação do mercado, desmantelada. “Milei está implementando a estratégia de fazer ‘a mesma coisa, mas mais rápido’.

A nomeação de Luis Caputo — a ‘encarnação por excelência das finanças internacionais’ — para o Ministério da Economia; a designação de Federico Sturzenegger para o Ministério da Desregulação e Transformação do Estado; a desvalorização drástica imediatamente repassada aos preços ao consumidor; o acúmulo massivo de dívida externa — viabilizado, mais uma vez, pelo apoio político dos EUA —; a incorporação de ideias, projetos e quadros oriundos da esfera do poder corporativo concentrado; e a erosão das normas trabalhistas — incluindo a anistia a empresários que violam leis trabalhistas e a redução das indenizações por rescisão — remetem à gestão Macri.”

<><> A máfia como empresa articuladora de ações legais e ilegais

A primeira característica, esclarece Pablo, “é que a máfia se organiza como uma ‘empresa’ protetora e organiza a ‘proteção privada’ por meio da articulação de ações legais e ilegais”. Com esse objetivo, “Milei promoveu uma série de ‘proteções’ para grandes capitais concentrados e de propriedade estrangeira e, sobretudo, para suas atividades de lavagem de dinheiro e fuga de capitais”. 

O fato, descreve, é que “a propriedade estrangeira de empresas com capital nacional” tem como objetivo reduzir suas obrigações tributárias globais e escapar ao controle dos fluxos de capital.

A segunda particularidade do capital mafioso é a obscuridade e o sigilo por trás dessa estratégia de negócios, que “servem para ocultar vultosas quantias de dinheiro, bem como os proprietários e os diversos participantes envolvidos”. Afinal, salienta, “a Cosa Nostra também prefere operações discretas que não atraiam atenção”.

“Os locais que facilitam essa atividade criminosa são ideologicamente denominados ‘paraísos fiscais’ e, no imaginário popular, associados principalmente a ilhas do Caribe ou de outros mares. No entanto, os principais polos desses paraísos encontram-se, na verdade, dentro das nações mais poderosas. 

Isso é particularmente verdadeiro no caso dos EUA”, sustenta Pablo, pois “seu regime bancário permite o recebimento legal de recursos provenientes de evasão fiscal”, tendo estados como Delaware, Nevada e Wyoming “conhecidos por serem os mais permissivos no que diz respeito ao sigilo corporativo e aos requisitos pouco rigorosos para a constituição de empresas”.

<><> O capital financeirizado tanto molda a legislação quanto a transgride

O terceiro traço, aponta o professor, são as “zonas cinzentas” que diluem a fronteira entre o lícito e o ilícito, onde o capital financeirizado tanto molda a legislação quanto a transgride.

A marionete de Trump chegou a chamar evasores de “heróis” e elogiou Al Capone. A “Lei Ônibus” e seu Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) foram alvo de alerta do Grupo de Ação Financeira da América Latina (Gafilat), que as descreveu como uma porta de entrada, disfarçada de legalidade, para capitais de origem ilícita, incluindo narcotráfico e tráfico de pessoas, capaz de transformar a Argentina em um novo paraíso fiscal.

A desregulação das Sociedades por Ações Simplificadas (SAS) eliminou controles contra lavagem de dinheiro e fraude. A desregulação financeira aparece como a principal “liberdade” efetivamente conquistada por esse governo.

O quarto ponto trágico é a “criação da própria demanda” por meio do endividamento externo, um mecanismo de controle e disciplina que corrói a autonomia do Estado e da população. Historicamente, a correspondência entre os dólares que entram como dívida e os que saem como fuga de capitais é quase exata desde a financeirização iniciada na ditadura. 

No governo Milei, a fuga de capitais somava cerca de US$ 5,2 bilhões mensais, agravada pelo turismo ao exterior e pela deterioração do superávit comercial, compensada por um novo endividamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2025, de US$ 20 bilhões adicionais.

<><> A violência como última força da ordem neoliberal financeirizada na região

A quinta característica da natureza “mafiosa” é que seu fundamento — a “última força” na qual se apoia e se afirma — é a violência. “Na Cosa Nostra, ela representava ‘a medida extrema, o último recurso, quando outros métodos de intimidação haviam se mostrado ineficazes’, sendo empregada muitas vezes com teatralidade e ‘intenção pedagógica’, tanto pelo ato em si quanto pelo potencial de sua utilização.”

“A violência é, da mesma forma, a força última do capitalismo. Isso se tornou evidente, mais uma vez, com o estabelecimento de uma ordem neoliberal financeirizada em nossa região e com os esforços contínuos para consolidá-la no momento atual”, acrescenta.

A sexta manobra do capital mafioso é a “guerra às drogas”, que persegue os setores mais pobres enquanto protege a sustentação financeira do crime, por meio da lavagem de dinheiro e da fuga de capitais. Assim, descreve Pablo, a “liberdade” proclamada pelo presidente argentino é, na prática, a liberdade do capital, sustentando políticas pró-monopólio sob o discurso do livre mercado.

“A idolatria do dinheiro — ou mamonismo — articula-se a setores evangélicos e ao sionismo de direita. O discurso ‘anti-Estado’ mascara a intervenção estatal em favor da concentração. A corrupção, embora atribuída ao setor público, tem origem fundamentalmente empresarial.”

O sétimo mecanismo é a “dinâmica de simbiose”, em que a “máfia e o capital financeiro se retroalimentam, criando estruturas transestatais com objetivos econômicos e geopolíticos, referenciadas sobretudo nos Estados Unidos e no Reino Unido”.

O oitavo elemento, o “apoio judicial e midiático”, é indispensável à legitimação do governo neocolonial, mostrando-se conivente com a repressão e a prisão da principal líder opositora, Cristina Fernández de Kirchner. Conta, para essa campanha, com o “engajamento coordenado, financiado e organizado de atores das redes sociais”, ao mesmo tempo em que o Judiciário não investigou, de forma rápida e minuciosa, as inúmeras alegações de corrupção governamental nem as manobras sistematicamente opacas do poder dos especuladores.

<><> A colonização do poder político

A “colonização do poder político” é citada como o nono ponto: a penetração das forças de segurança e de setores do Judiciário pelo poder econômico e pelas máfias em favor dos negócios privados, por meio da “captura” do Estado.

<><> A trágica aniquilação das organizações populares

A trágica “aniquilação das organizações populares” é vista como o décimo instrumento do capital mafioso, uma vez que promove o desmantelamento de toda a infraestrutura de assistência social, com cortes drásticos no financiamento das atividades voltadas aos segmentos mais pobres da população.

A manifestação mais brutal disso foi o boicote do governo aos refeitórios comunitários que, na avaliação de Pablo, “é impulsionado por uma dinâmica de ódio, uma forma de vingança classista e racista dirigida às maiorias populares, especialmente àquelas que estão organizadas”. Essa criminalização ocorre sob o rótulo de “terrorismo”, com o ataque ao peronismo, veículo histórico das maiorias populares.

<><> O alinhamento de Milei com Trump e a subordinação aos centros de poder financeiro estadunidense

O décimo primeiro ponto é a “vinculação ao imperialismo”, rechaça o professor da Unila, uma vez que a dívida externa subordina a Argentina aos centros de poder financeiro estadunidenses. Assim, o alinhamento de Milei com Trump é descrito como uma submissão que compromete a soberania nacional, prejudica o país nos planos comercial e financeiro e enfraquece a capacidade latino-americana de construir uma cooperação estratégica regional.

O novo “exército de reserva” é apresentado como o décimo segundo elemento do capitalismo mafioso. A precarização gerada pelo neoliberalismo fornece força de trabalho para redes de tráfico transnacional, articulando exclusão econômica e narcotráfico como duas faces complementares: uma que obriga, outra que legitima.

<><> A necessidade da defesa da soberania nacional e do desenvolvimento econômico

Para coroar o estudo, “a soberania nacional e o desenvolvimento econômico” aparecem como o décimo terceiro elemento. O eixo da soberania perpassa toda a análise: a fuga de capitais e o endividamento externo formam um circuito que trava a autonomia econômica argentina, subordinando o país às exigências dos “investidores internacionais” e dos organismos de crédito, limitando o desenvolvimento industrial e reproduzindo a “restrição externa”, que historicamente interrompeu ciclos de governos populares.

A financeirização iniciada pela ditadura e aprofundada em cada ciclo neoliberal reorienta a economia da produção para a especulação, minando a capacidade de desenvolvimento autônomo. O alinhamento com Washington é apresentado como perda de soberania e retrocesso em relação aos avanços que a Argentina havia conquistado em fóruns multilaterais.

O autor conclui que o governo Milei expõe, talvez mais abertamente do que as etapas neoliberais anteriores, os pilares de sustentação de uma configuração econômica injusta, capitalizando o descontentamento popular. 

Diante disso, Pablo aponta três tarefas: enfrentar decididamente essa estrutura mafiosa do capitalismo financeirizado; reorganizar politicamente as forças populares a partir das tradições históricas argentinas; e travar uma “batalha de ideias”, fundamentada em sentimentos, convicções e na linguagem popular, para desmascarar o cinismo e desafiar certas “verdades” que se sustentam apenas no exercício do poder.

¨      Milei é denunciado por usar recursos públicos em viagem ao Brasil para apoiar Flávio Bolsonaro

O presidente da Argentina, Javier Milei, se tornou alvo de uma denúncia por malversação de fundos públicos e descumprimento dos deveres da função, após utilizar o avião oficial e recursos do Estado para participar da convenção em São Paulo que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência do Brasil.

A ação, apresentada pelos advogados José Magioncalda e Juan Martín Fazio, sustenta que o deslocamento do mandatário para um ato político da oposição brasileira representa um desvio de dinheiro público de sua finalidade específica.

Segundo os denunciantes, o uso do avião presidencial e da comitiva oficial para apoiar uma candidatura partidária em outro país configuraria os crimes de malversação de fundos e descumprimento dos deveres de funcionário público.

“Os recursos estatais foram desviados para satisfazer os interesses de uma facção política, causando graves danos às relações diplomáticas bilaterais”, diz a denúncia.

<><> Viagem de Milei ao Brasil

Durante a convenção do Partido Liberal (PL), no último sábado (25/07), Milei chamou o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de “lixo careca” — o magistrado proibiu que o líder argentino visitasse Jair Bolsonaro em sua prisão domiciliar.

O governo brasileiro reagiu aos ataques de Milei chamando seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, de volta a Brasília para consultas. Além disso, o Itamaraty convocou o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, para “transmitir a repulsa” pela postura do presidente ultraliberal.

No entanto, a Casa Rosada não pretende pedir desculpas ao presidente brasileiro após os insultos do mandatário argentino, que também xingou o homólogo brasileiro de “ladrão” e “esquerdista”. A informação é do La Nación, em reportagem publicada neste domingo (26/07), com base em fontes diplomáticas e governamentais.

“Não haverá pedido de desculpas”, comentou um alto funcionário da Casa Rosada, familiarizado com a animosidade do presidente argentino em relação ao líder brasileiro. Segundo o jornal, apesar do distanciamento entre os dois líderes latino-americanos, poucas pessoas dentro do governo esperavam um ataque dessas proporções.

Além de comparecer à convenção, Milei também se encontrou com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no Palácio dos Bandeirantes, onde recebeu a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo governo paulista.

¨      Pesquisa na Argentina aponta vantagem numérica do voto 'anti-Milei'

A mais recente pesquisa nacional da consultoria Projection realizada na Argentina antes das eleições presidenciais de 2027 indicou que a rejeição à continuidade do mandatário de extrema direita Javier Milei no poder supera a de um eventual retorno do peronismo.

De acordo com uma matéria publicada pelo jornal argentino Página 12 nesta segunda-feira (27/07), o chamado “anti-voto”, ou seja, a disposição de um eleitor apoiar um candidato não preferido com o objetivo de impedir a vitória de outro, segue, desta forma, como “fator relevante no comportamento eleitoral do país”. 

O levantamento foi realizado entre os dias 1º e 10 de julho, ouvindo, ao todo, 1.817 pessoas em território nacional. Os dados apontaram um cenário polarizado, com o eleitorado dividido entre quem prefere a continuidade da gestão atual de extrema direita e quem defende uma mudança governamental.

Segundo o estudo, 40,1% dos entrevistados afirmaram que estariam dispostos a votar em um candidato que não fosse de sua preferência apenas para impedir que Milei continue no cargo. Desse total, 24% disseram concordar “fortemente” com essa decisão, e 16,1% disseram apenas “concordar”.

Por outro lado, 37,5% declararam que poderiam apoiar um candidato que não gostam para impedir o retorno do peronismo. Nesse grupo, 20,8% responderam que “concordam fortemente” e 16,7% que “concordam” com essa alternativa.

A diferença entre as duas posições é de 2,6 pontos percentuais, o que representa uma vantagem do voto de oposição ao atual governo em relação ao voto contra o peronismo. Essa dinâmica já se manifestou em pleitos anteriores: em 2015, quando contribuiu para a eleição de Mauricio Macri e, em 2023, quando favoreceu a eleição de Milei.

O levantamento também investigou a preferência dos eleitores quanto à continuidade ou não da atual administração. Os que desejam que o governo ultradireitista de Milei permaneça compõem 20,3%, enquanto os que preferem que ele continue, mas com mudanças na equipe e nas políticas implementadas são 19,1%. 

Já entre os que defendem uma mudança de governo, 37,8% disseram preferir uma administração vinculada ao peronismo, enquanto 13,7% optaram por uma alternativa fora desse espectro. Os 9,1% restantes afirmaram não saber qual opção escolher.

Os resultados foram divulgados dias após outra seção dessa mesma pesquisa, que apontou um empate técnico em um eventual segundo turno entre Milei e o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, além de um cenário competitivo para um primeiro turno do pleito presidencial.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

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