quinta-feira, 30 de julho de 2026

A guerra que o Brasil insiste em não reconhecer

O dado mais comentado do novo Mapa da Violência é a redução dos homicídios. À primeira vista, a notícia parece animadora: em 2025, foram registrados 40.775 assassinatos no país, uma taxa de 19,1 mortes para cada 100 mil habitantes, redução de 8,2% em relação ao ano anterior. Mas essa leitura é enganosa.

Os próprios estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que a diminuição da violência letal pode ser menos resultado da eficácia das políticas públicas do que da consolidação do domínio territorial exercido pelas organizações criminosas. Em outras palavras, a melhora dos indicadores pode estar revelando, paradoxalmente, o fortalecimento do crime organizado.

O Brasil vive uma guerra não declarada. Não se trata de um conflito convencional, mas de uma disputa permanente pelo controle do território, das economias ilegais e da autoridade sobre milhões de cidadãos. O número de mortos continua compatível com o de muitos conflitos armados ao redor do mundo. A violência apenas mudou de configuração.

Quando uma única facção impõe seu controle sobre determinado território, desaparecem as disputas entre grupos rivais e, consequentemente, diminuem os assassinatos decorrentes desses confrontos. A paz aparente não é a paz do Estado de Direito. É a paz imposta pelo vencedor. Os índices melhoram porque o monopólio da violência deixa de ser disputado entre criminosos, não porque tenha voltado às mãos do Estado.

Esse é um dado que exige cautela na interpretação das estatísticas. Reduções quantitativas podem esconder transformações qualitativas muito mais graves: a substituição gradual da autoridade pública pelo poder paralelo. A queda dos homicídios, isoladamente, não significa que o país esteja mais seguro. Pode significar exatamente o contrário.

O levantamento do Fórum revela, ainda, que quatro em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais reconhecem a presença, no bairro onde vivem, de grupos ligados ao tráfico de drogas ou às milícias. São cerca de 68,7 milhões de pessoas convivendo diariamente com organizações criminosas que exercem poder sobre a vida cotidiana. Isso significa que parcelas crescentes do território nacional deixaram de ser plenamente governadas pelo Estado.

Embora a maioria dos estados tenha registrado queda nos homicídios, sete apresentaram aumento: Rio Grande do Norte, Rondônia, Acre, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro. A violência continua distribuída de forma desigual, mas permanece como um problema nacional.

Outro dado alarmante é a letalidade policial. Em 2025, 6.263 pessoas morreram em ações policiais, alta de 5,4% em relação ao ano anterior. Em outras palavras, aproximadamente um em cada seis homicídios registrados no país teve como autor um agente do próprio Estado. Ao mesmo tempo em que perde territórios para o crime organizado, o Estado amplia o uso da força letal. A população acaba espremida entre dois poderes armados: o das organizações criminosas e o da repressão estatal.

Também bateu recorde o número de feminicídios: 1.571 mulheres assassinadas simplesmente por serem mulheres.

É mais uma demonstração de que a violência brasileira não se limita ao confronto entre facções ou às ações policiais.

Ela atravessa as relações familiares, sociais e culturais, revelando uma profunda crise da convivência nacional.

Diante desse quadro, é um erro tratar a segurança pública apenas como um problema das polícias ou dos governos estaduais.

O avanço do crime organizado deixou de ser uma questão localizada. Tornou-se um desafio à soberania nacional.

Organizações criminosas controlam territórios, movimentam bilhões de reais, infiltram-se nas instituições, impõem normas próprias e desafiam, na prática, o monopólio da força que deveria pertencer exclusivamente ao Estado.

O Brasil precisa construir uma verdadeira Estratégia Nacional de Segurança, articulando União, estados e municípios em torno da inteligência, do combate às estruturas financeiras do crime, do fortalecimento das instituições de Justiça e da recuperação dos territórios dominados pelas facções. Mas essa estratégia, por si só, não bastará.

Ela deverá estar harmonizada com um Projeto Nacional de Desenvolvimento Integral e Sustentado. Não haverá segurança duradoura sem crescimento econômico, redução das desigualdades, geração de empregos, educação de qualidade, urbanização das periferias e fortalecimento das instituições públicas. Segurança e desenvolvimento são partes inseparáveis de uma mesma política de Estado.

Enquanto o país continuar tratando a violência apenas como um problema policial, continuará combatendo os efeitos e ignorando as causas. O verdadeiro desafio brasileiro não é apenas reduzir as estatísticas de homicídios. É reconstruir a presença do Estado, recuperar a autoridade da República sobre todo o território nacional e oferecer à sociedade um Projeto Nacional de Desenvolvimento Integral e Sustentado, capaz de retirar do crime organizado o espaço que hoje ocupa. Somente assim deixaremos de celebrar indicadores aparentemente melhores enquanto a realidade continua se deteriorando.

•        Brasil, um narcoestado?

Os números impressionam e, justamente por isso, não podem ser ignorados. Não se trata de estimativas produzidas por centros acadêmicos ou organizações privadas, mas de informações do Centro de Inteligência do Exército (CIE), confirmadas por seu chefe, o general Carlos Eduardo Barbosa da Costa.

Em palestra recente, o oficial revelou que os sistemas digitais brasileiros sofreram 754 bilhões de tentativas de invasão, evidenciando a intensidade da ofensiva cibernética permanente contra estruturas estratégicas do país. Segundo o general, muitas dessas ações são favorecidas pela fragilidade das instituições nacionais e contam com o apoio de atores estatais que financiam esse tipo de atividade.

Mas a principal preocupação apresentada pelo comandante do CIE foi o avanço do crime organizado. Há décadas, o Brasil consolidou-se como o maior corredor da cocaína produzida na Bolívia, no Peru e na Colômbia, além de servir de rota para mais de 80% da maconha produzida no Paraguai.

Pelos cálculos do Centro de Inteligência do Exército, o mercado interno brasileiro consome cerca de oito mil toneladas anuais de maconha e skunk e entre 170 e 200 toneladas de cocaína, movimentando aproximadamente R$ 30 bilhões por ano. Ao mesmo tempo, estima-se que pelo menos 250 toneladas de cocaína deixem o território nacional em direção à Europa, aos Estados Unidos e à África, gerando receitas de dezenas de bilhões de reais para as organizações criminosas.

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Em reportagem de Marcelo Godoy publicada pelo Estado de S. Paulo, com base nas informações do Centro de Inteligência do Exército, estima-se que a cocaína que transita pelo Brasil represente um negócio da ordem de R$ 50 bilhões anuais, controlado principalmente pelas duas maiores facções criminosas do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). São valores equivalentes ao faturamento de grandes conglomerados empresariais, o que demonstra a extraordinária capacidade financeira dessas organizações.

O narcotráfico, porém, é apenas uma parte de um complexo sistema de atividades ilícitas. As facções expandiram seus negócios para o garimpo ilegal, a pesca predatória, a exploração clandestina de recursos naturais, a extorsão, a lavagem de dinheiro e sofisticadas operações financeiras. Ao mesmo tempo, procuram infiltrar-se em órgãos públicos e em estruturas do Estado, ampliando sua influência econômica, política e territorial.

Foi exatamente por isso que o general Carlos Eduardo Barbosa da Costa fez um alerta que merece ser levado a sério. Em suas palavras, trata-se de “um negócio que ameaça, de certa forma, a soberania do país e, portanto, ameaça uma parte da defesa”. Quando organizações criminosas movimentam dezenas de bilhões de reais por ano, controlam rotas internacionais, disputam territórios com o Estado e desafiam as instituições públicas, deixam de representar apenas um problema policial para se transformar em uma questão estratégica de defesa nacional.

Essa preocupação ganha ainda mais relevância diante das investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo sobre a possível relação entre integrantes do PCC e oficiais da cúpula da Polícia Militar paulista.

Entre os citados estão os coronéis Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da PM e ex-comandante da Rota.

Coutinho era homem de confiança do então secretário da Segurança Pública, hoje deputado federal Guilherme Derrite, durante o governo do capitão Tarcísio de Freitas.

Segundo as investigações, ele não teria adotado providências mesmo após receber gravações indicando que policiais da Rota estariam vendendo informações ao PCC.

O atual comandante-geral da Polícia Militar participou da operação do Ministério Público, demonstrando a gravidade das suspeitas e a necessidade de uma apuração rigorosa.

A pergunta do título, portanto, não é mero recurso retórico. Ela nasce dos próprios fatos. Quando o crime organizado movimenta dezenas de bilhões de reais por ano, infiltra-se em instituições públicas, controla corredores internacionais do narcotráfico, atua no garimpo ilegal, na pesca predatória, na extorsão, na lavagem de dinheiro e ainda desafia o Estado no campo cibernético, o problema ultrapassa em muito a esfera da segurança pública.

O enfrentamento dessa realidade exige mais do que operações policiais. O Brasil precisa de um projeto nacional de desenvolvimento que fortaleça as instituições, recupere o controle efetivo das fronteiras, integre inteligência, Forças Armadas, polícias e Ministério Público e reafirme a soberania nacional. Um Estado enfraquecido abre espaço para o crime organizado; um Estado forte, democrático e comprometido com o interesse público é a primeira condição para derrotá-lo.

 

Fonte: Por Paulo Cannabrava Filho, em Diálogos do Sul Global

 

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