Reparações
históricas unem legados na luta pelos direitos humanos
Em
2008, a União indenizou em R$ 260 mil a família do soldado Roberto Vicente da
Silva, que residia no bairro Santo Agostinho, em Volta Redonda. Segundo
investigações, ele foi morto sob tortura em 25 de janeiro de 1972, nas
dependências do 1º Batalhão de Infantaria Blindado (1º BIB), em Barra Mansa. Na
ocasião, Roberto e outros três soldados foram vítimas de torturas durante
investigações conduzidas pelo Exército Brasileiro.
A
decisão remete a outra reparação histórica. Recentemente, a Justiça Federal
condenou a União a indenizar em R$ 300 mil um filho de João Cândido Felisberto,
líder da Revolta da Chibata, [o que] representa um importante reconhecimento
das violações de direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro. A sentença
reconhece os danos causados à memória de João Cândido e seus reflexos sobre
seus descendentes.
Separados
por quase um século, os dois casos revelam a longa caminhada das famílias em
busca de justiça e reparação. Também aproximam histórias marcadas pela
resistência, pela defesa dos direitos humanos e pela luta contra violações
praticadas pelo Estado. No caso da Revolta da Chibata, o procurador da
República Júlio José Araújo Júnior foi responsável pela ação coletiva que levou
à condenação da União, destacando também a participação do advogado Edson Silva
Júnior, autor da ação individual. Ao comentar a decisão, o advogado ressaltou a
importância do trabalho conjunto. “Nenhuma vitória é construída sozinha”,
disse.
Para o
procurador Júlio Araújo, a conquista representa uma sensação de dever cumprido.
“Muitas vezes enfrentamos dificuldades e situações adversas, mas é gratificante
perceber que é possível construir um caminho de justiça”, declarou. A
trajetória de Júlio Araújo também está ligada à preservação da memória
histórica de Volta Redonda. Durante sua atuação na região, manteve uma relação
de colaboração institucional com a Comissão Municipal da Verdade, contribuindo
com apoio técnico-jurídico no processo de resgate da memória e na apuração de
violações de direitos humanos cometidas durante a Ditadura Militar.
DIGNIDADE
HUMANA E MEMÓRIA
No caso
do soldado Roberto Vicente, Dom Waldyr Calheiros, que neste dia 29 completaria
103 anos, dedicou 38 anos de sua vida ao acompanhamento da família em busca de
verdade, justiça e reparação. Dom Waldyr, morreu no dia 30 de dezembro de 2013,
aos 90 anos. Para os envolvidos nessas questões, às vésperas do aniversário do
religioso, sua memória ganha novo significado diante de mais uma decisão que
reafirma a importância da luta pelos direitos humanos. Em agosto de 2008, Dom
Waldyr, já bispo emérito da Diocese de Barra do Piraí-Volta Redonda, esteve na
casa de Maria Aparecida da Silva, de 89, mãe de Roberto, no bairro Santo
Agostinho, em Volta Redonda, para entregar os documentos da reparação. José
Maria da Silva, o Zezinho do Movimento Pela Ética na Política, acompanhou o
encontro.
Na
ocasião, ao entregar a documentação reparadora, o bispo destacou a importância
do momento. “A senhora me desculpe pela demora em ajudar no que me pediu”,
disse na ocasião. Em lágrimas, Maria respondeu ao bispo que havia perdido o
filho para o quartel. “Deus é maior. Agradeço ao senhor bispo por nunca ter
abandonado a gente”, falou.
Desta
vez, Zezinho do MEP, ao cumprimentar o procurador Júlio Araújo pela conquista
do caso João Cândico, também reportou a história da luta da família de Roberto
e a atuação de Dom Waldyr. Para ele, há uma conexão profunda entre essas
trajetórias. Lembrou que são pessoas que, em diferentes espaços, dedicam suas
vidas à defesa da dignidade humana. Ao ouvir a comparação, o procurador reagiu
com humildade e emoção. “Fico constrangido com essa comparação. Dom Waldyr é
único no cenário da história da luta pelos direitos humanos no Brasil. Eu
procuro apenas cumprir o meu papel e seguir esse caminho positivo de defesa dos
direitos humanos”, ressaltou o procurador.
Para os
que sempre estiveram envolvidas nesta luta, as duas reparações demonstram o
valor da Justiça quando reconhece a dignidade das vítimas e preserva a memória.
Também revelam que a defesa dos direitos humanos é construída por diferentes
instituições e pessoas comprometidas com o bem comum. As histórias de João
Cândido e Roberto Vicente também carregam uma dimensão racial que precisa ser
lembrada. Homens negros, em momentos históricos distintos, foram vítimas de
estruturas de violência e exclusão, mas suas trajetórias também se
transformaram em símbolos de resistência, dignidade e luta por reconhecimento.
Fonte:
Jornal A Voz da Cidade

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