quinta-feira, 30 de julho de 2026

Ao contrário do Brasil de Lula, a Argentina de Milei não tem soberania econômica

A crise diplomática provocada por Javier Milei durante sua passagem pelo Brasil não pode ser compreendida apenas como mais um episódio do repertório histriônico do presidente argentino. Seus ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelam também um desconforto mais profundo: a distância que hoje separa Brasil e Argentina em termos de soberania econômica.

Quando Milei insulta Lula, não está apenas atacando um adversário ideológico. Está confrontando o líder de um país que construiu, ao longo das últimas duas décadas, os instrumentos necessários para preservar sua autonomia diante das turbulências internacionais. A agressividade do presidente argentino expressa, em alguma medida, a frustração de quem governa uma economia extremamente vulnerável e dependente de decisões tomadas fora de suas fronteiras.

Essa diferença começou a ser construída ainda no primeiro governo Lula. Ao assumir a Presidência, em 2003, Lula encontrou um Brasil que carregava as marcas da dependência financeira externa. Herdou do governo Fernando Henrique Cardoso uma economia submetida aos programas do Fundo Monetário Internacional. Em vez de aceitar essa condição como permanente, adotou uma estratégia clara: fortalecer as contas externas, acumular reservas internacionais e libertar o país da tutela do FMI.

A decisão de quitar antecipadamente a dívida com o Fundo, em 2005, teve um enorme significado político e econômico. O Brasil deixou de ser um país que precisava pedir autorização para conduzir sua política econômica e passou a dispor de maior margem de decisão sobre seu próprio destino.

Ao final do segundo mandato de Lula, em 2010, o país acumulava mais de US$ 350 bilhões em reservas internacionais. Não se tratava de um simples indicador contábil. Era um seguro contra crises financeiras, ataques especulativos e choques cambiais. Esse colchão de liquidez permitiu ao Brasil enfrentar períodos de enorme instabilidade sem perder o controle sobre sua política econômica.

Inclusive durante os anos do governo Jair Bolsonaro, marcados por graves erros na condução econômica e institucional, o país preservou uma estabilidade macroeconômica que seria muito mais difícil sem esse patrimônio acumulado ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores. As reservas internacionais, ampliadas durante o governo da presidenta Dilma Rousseff, continuaram funcionando como um escudo contra crises externas e contra movimentos abruptos do mercado financeiro.

A situação argentina é exatamente a oposta. Sem reservas suficientes e profundamente endividada, a Argentina voltou a depender do Fundo Monetário Internacional para financiar sua sobrevivência econômica. A visita recente da diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, a Buenos Aires evidenciou essa realidade. Mais do que uma parceira financeira, a instituição tornou-se um ator com enorme influência sobre os rumos da política econômica argentina.

É difícil falar em plena soberania quando decisões fundamentais dependem da aprovação de credores internacionais.

Nesse contexto, Javier Milei aparece como um dirigente cuja margem de manobra é extremamente reduzida. Sua estratégia internacional consiste em buscar proteção política em Washington e demonstrar lealdade absoluta ao trumpismo. Seus ataques permanentes ao Brasil, à China e aos projetos de integração regional não decorrem apenas de convicções ideológicas. Também refletem a necessidade de permanecer alinhado ao único centro de poder capaz de sustentar seu projeto político fascista em um país economicamente fragilizado.

O contraste com o Brasil é evidente. Enquanto Lula trabalha para ampliar a inserção internacional do país por meio dos BRICS, da integração sul-americana e de uma política externa voltada ao multilateralismo, Milei aposta numa vinculação quase exclusiva aos interesses dos Estados Unidos e, em especial, ao universo político de Donald Trump.

Foi justamente por compreender essa assimetria que Lula respondeu da forma mais inteligente possível aos insultos do presidente argentino: com desprezo.

Responder no mesmo tom significaria conferir a Milei a relevância política que ele procura desesperadamente obter. O silêncio irônico de Lula – e a mensagem “quem é esse cara?” – transmite uma mensagem mais poderosa do que qualquer troca de ofensas: o Brasil não precisa transformar a política externa em espetáculo, porque fala a partir de uma posição de estabilidade, autonomia e confiança.

Isso não significa hostilidade em relação à Argentina. Pelo contrário. O Brasil tem interesse estratégico em uma Argentina forte, estável e soberana. Os laços entre os dois povos são profundos demais para serem comprometidos pelas circunstâncias políticas de um governo fascista e passageiro. A integração econômica, a cooperação industrial e a construção de uma América do Sul mais forte continuam sendo objetivos permanentes da diplomacia brasileira.

Os governos passam. As nações permanecem.

Por isso, a melhor resposta aos ataques de Milei não é alimentar a polarização, mas continuar trabalhando para fortalecer uma parceria de longo prazo com o povo argentino, na expectativa de que, no futuro, os dois países possam voltar a compartilhar um projeto comum de desenvolvimento, autonomia e integração regional.

A verdadeira diferença entre Brasil e Argentina, hoje, não está no tamanho de suas economias nem na retórica de seus presidentes. Está no grau de soberania que cada país conseguiu preservar. E soberania econômica, como a história demonstra, não se improvisa: constrói-se com planejamento, reservas, instituições sólidas e independência para decidir o próprio destino.

<><> Sempre pela elite! Lula defende ‘baixar a poeira’ com a Argentina para proteger a indústria nacional

O presidente Lula (PT) determinou que o governo brasileiro adote uma postura de desescalada e “baixe a poeira” em relação ao embate travado com o repugnante presidente da Argentina, Javier Milei, homenageado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e aliado de Flávio Bolsonaro (PL). Lula busca evitar que a escalada da crise política entre os dois países possa desencadear graves consequências econômicas e comerciais, prejudicando o setor produtivo nacional, informa Gustavo Uribe, da CNN Brasil.

Em conversas reservadas, Lula tem ressaltado de forma categórica que o recado diplomático ao governo vizinho já foi devidamente dado. Segundo a avaliação do presidente, a convocação do embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para retornar ao país constituiu uma resposta firme e à altura das críticas desferidas pelo governante argentino.

Além disso, o diagnóstico formulado pela cúpula do governo é de que responder aos ataques de Milei na mesma moeda significaria embarcar na estratégia política articulada pelo líder argentino. Tal movimento, segundo a avaliação interna, acabaria apequenando a diplomacia do governo brasileiro e a própria figura do presidente Lula. Para os assessores presidenciais, Milei tem mergulhado deliberadamente em um embate ideológico ostensivo na tentativa de fidelizar o seu eleitorado na Argentina, que se mostra insatisfeito com os trágicos resultados econômicos de sua gestão.

Diante desse cenário, a ordem que vigora agora no Palácio do Planalto é redirecionar o foco das disputas políticas. A orientação interna estabelece que o contencioso prioritário deve ser voltado para o embate com o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à sucessão presidencial, utilizando sobretudo comparativos diretos entre as realizações da atual gestão e os indicadores do governo de Jair Bolsonaro (PL).

A determinação de Lula visa preservar a relação comercial estratégica entre as duas maiores economias da América do Sul. Atualmente, a balança comercial entre Brasil e Argentina gira em torno de US$ 31 bilhões. No entanto, o fluxo de trocas já registra uma queda recente nas exportações brasileiras.

•        Há vida inteligente depois de Milei. Por Emir Sader

Rejeição generalizada aqui, vergonha generalizada na Argentina. E nenhuma menção ao candidato ao qual ele supostamente vinha apoiar, tal a atitude estrambótica que ele assumiu. Esse o balanço desastrado da vinda do presidente argentino ao Brasil. 

O País segue bem, com a economia crescendo, a inflação e o desemprego sob controle. A vinda do presidente argentino só afetou pelo maior desgaste do seu candidato e a rejeição generalizada, da esquerda, do centro e da direita, da viagem de Milei.

Enquanto a Argentina, com a política de Estado mínimo, apresenta uma situação social desastrosa, resultado da adoção das políticas neoliberais, absolutamente fracassadas na América Latina.

 Há viagens que vem para mal. Milei achou que ia arrasar, que destruiria a imagem do Lula e do Moraes. Partia de uma visão absolutamente equivocada da situação brasileira, da mesma forma que acredita que está arrasando no seu país, quando seu apoio está na casa dos 30% e sua rejeição na casa dos 70%.

A vida e a história não são feitas da vontade das pessoas, por mais fervorosas que sejam estas. A América Latina exibe hoje três governos que andam muito bem, com políticas antineoliberais – México, Brasil e Uruguai, fortalecimento do Estado e da democracia. E alguns outros – Argentina, Equador, Chile, entre outros mais – que apresentam resultados sociais absolutamente negativos e debilitamento do papel do Estado.

Inclusive o Chile, em que o recém empossado presidente de extrema direita, já começa seu mandato com grande desgaste, apontando se o sucesso entre direita e esquerda, característica do país, vai se suceder naquele país.

Não é verdade que a direita e a extrema direita se fortalecem no continente. A contraposição entre os governos neoliberais e antineoliberais favorece claramente a esquerda.

Milei se tornou um fenômeno ridículo. A ponto que quase nos esquecemos que ele é presidente de um país importante como a Argentina.

Enquanto o Lula tem assegurada sua reeleição, Milei tem a perspectiva de ser derrotado nas eleições do próximo ano, com o favoritismo do governador da província de Buenos Aires, Axel Kiciloff. Enquanto o Lula terá um quarto mandato, Milei provavelmente não passará do primeiro.

Assim segue a vida inteligente depois da vergonhosa passagem do Milei pelo Brasil.

•        Chilique da mídia à reação do Brasil contra estupidez de Milei é puro suco de viralatismo. Por Tiago Barbosa

A ofensiva externa contra o Brasil reativou na mídia o chilique de acovardamento típico de republiquetas sem compromisso com soberania.

É indigno. E onipresente. Exala medo, miudeza e paralisia – fede a vassalagem.

A fraqueza ocupa o noticiário com viralatismo para obrigar o Brasil e o governo a se curvar a detratores em nome de pseudo pacificação.

Exige de Lula um código de conduta imaginário de polidez para exaltar uma superioridade de contenção traduzida como corpo mole e apatia.

A mídia movida a tibieza tenta revestir de grandeza a inércia e a resignação comuns a líderes minúsculos sem respeito ou amor ao país.

Inverte o sentido da valentia e da soberania para macular a reação do ofendido em favor do vale-tudo exercido por quem agride e violenta.

No glossário da cretinice, retaliar vira ato de desespero – e não defesa ou justiça.

Responder é se rebaixar – e não responder à ofensa descabida.

Denunciar desatinos, barbáries e arbítrios na ordem internacional é “falar demais” – e nunca manifestação de independência e humanidade.

Essa mídia rastejante por um país subalterno, dócil e entreguista tem alergia e abomina a coragem indispensável a posturas estadistas.

Quer reduzir o país à imagem e semelhança da própria pequenez – a estatura da submissão ideológica ao imperialismo branco e nortista.

Lula não pode condenar o genocídio em Gaza – é “se meter onde não deve”.

Nem ironizar um decrépito argentino avesso à limpeza (literalmente) e à dignidade – é “baixar o nível”

O ministro da Economia fica – sob a mordaça dos capachos – proibido de usar a palavra mais adequada para descrever Milei: “palhaço”.

A cobrança é por queda e coice – mudez após ofensa para elogiar capitulação pela covardia.

Mentira – o antipetismo ensina.

O acanhamento do governo precederia a crítica por fraqueza e condescendência.

Se tivesse respeito pelo Brasil (bastaria amor próprio), a imprensa aplaudiria quem não se verga a bravatas para acoelhar a soberania e o país.

Mas se insurge contra a reação das vítimas para dar vazão à índole marginal dos agressores – não à toa, esse comportamento viceja entre bolsonaristas entreguistas e antipatriotas.

Toda a gritaria é solidariedade instituída por afinidade – a mídia perfila com inúteis estrangeiros contra a nação.

A altivez contra a indigência sempre respinga nos cúmplices e covardes.

 

Fonte: Por Leonardo Attuf, em Brasil 247

 

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