O
acesso ao ensino superior
Em
momentos de restrição fiscal, o financiamento das universidades públicas
costuma retornar ao centro do debate nacional. Não são raras as vozes que, em
nome da austeridade, da eficiência administrativa ou da redução do tamanho do
Estado, defendem a diminuição dos investimentos no ensino superior público, a
cobrança de mensalidades ou mesmo a ampliação da participação privada nesse
setor. Em comum, tais propostas compartilham uma premissa fundamental: a de que
a universidade representa essencialmente um custo para os cofres públicos e
que, portanto, deveria ser submetida à mesma lógica de racionalização aplicada
a qualquer outra despesa estatal.
Essa
interpretação, contudo, ignora a natureza singular da educação e desconsidera o
fato de que investimentos em formação, pesquisa e inovação produzem
externalidades positivas amplamente reconhecidas na literatura da economia do
desenvolvimento (Becker, 1993; Schultz, 1973). Além disso, reduz a educação a
uma lógica estritamente utilitarista, desconsiderando sua dimensão de ampliação
de capacidades humanas e da “liberdade substantiva” (Sen, 2000).
Em
diversos países, a expansão do ensino superior esteve diretamente associada à
consolidação de projetos nacionais de industrialização e modernização
econômica. A Alemanha, por exemplo, estruturou desde o século XIX um robusto
sistema de universidades públicas de pesquisa, profundamente articulado ao
desenvolvimento científico e tecnológico do país (Ringer, 2004). Da mesma
forma, países europeus consolidaram sistemas de ensino superior
majoritariamente públicos ou fortemente subsidiados, compreendendo a educação
superior como infraestrutura estratégica de longo prazo e não apenas como uma
mercadoria.
Na
América Latina, o caso argentino é frequentemente citado como uma das
experiências mais abrangentes de acesso universal ao ensino superior público.
Desde as reformas universitárias do início do século XX e, especialmente, a
consolidação do modelo a partir da década de 1940, a Argentina adotou um
sistema de universidades públicas gratuitas e de acesso irrestrito, sem
mecanismos de seleção baseados em vestibulares tradicionais na maior parte de
suas instituições.
Esse
arranjo, embora não isento de desafios relacionados à permanência e à evasão,
expressa uma escolha política clara: tratar o acesso à universidade como
direito social (Kent, 1993; Trow, 1973). O resultado histórico é a formação de
uma das maiores taxas de matrícula universitária da região, ainda que com
oscilações decorrentes de crises econômicas recorrentes.
Esses
exemplos reforçam a ideia de que a universalização do ensino superior não é
utópica, mas uma alternativa institucional concreta que já foi adotada, em
diferentes graus, por economias centrais e periféricas. A própria literatura da
economia do desenvolvimento sugere que sistemas educacionais amplos e
inclusivos tendem a produzir efeitos positivos sobre a produtividade, a
inovação e a coesão social, especialmente quando articulados com políticas
industriais e científicas consistentes (Furtado, 1961; Mazzucato, 2014).
A
experiência internacional e a literatura do desenvolvimento reconhecem os
sistemas de ensino superior como elementos centrais da capacidade produtiva
nacional. Estudos da economia evolucionária e da inovação indicam que o
progresso tecnológico está associado à formação de recursos humanos
qualificados, à produção científica contínua e à existência de instituições
capazes de gerar, acumular e difundir conhecimento (Freeman; Soete, 1997;
Romer, 1990).
Nesse
contexto, a universidade pública constitui uma instituição essencial para o
desenvolvimento econômico, ao concentrar atividades de pesquisa, formação
profissional e produção científica que sustentam processos de inovação e
aumento da produtividade.
No caso
brasileiro, a maior parte da pesquisa científica de ponta, especialmente em
áreas estratégicas como agricultura tropical, saúde pública, engenharia e
ciências básicas, é produzida no interior de universidades públicas e
institutos estatais de pesquisa. A consolidação da Embrapa como referência
mundial em tecnologia agrícola tropical, por exemplo, ilustra como o
investimento público em ciência pode transformar profundamente a estrutura
produtiva de um país e sua inserção no comércio internacional (Akerman;
Moscona; Pellegrina; Sastry, 2026).
De modo
semelhante, o Sistema Único de Saúde (SUS), ao articular formação médica,
pesquisa epidemiológica e inovação em saúde pública, depende diretamente da
infraestrutura universitária para sua sustentação e renovação contínua
(Gadelha; Temporão, 2018).
Essa
realidade reforça um ponto frequentemente negligenciado no debate público: a
inovação científica e tecnológica possui características de bem público, com
elevados efeitos de transbordamento (spillovers) e baixa apropriabilidade
privada em suas fases iniciais.
Por
essa razão, as economias avançadas mantêm forte presença do Estado no
financiamento da pesquisa básica e na formação de pesquisadores, como
demonstram os estudos de Mariana Mazzucato (2014) ao analisar o papel do setor
público na criação de tecnologias disruptivas posteriormente apropriadas pelo
setor privado. O mercado, por si só, tende a investir preferencialmente em
atividades de retorno rápido e previsível, deixando lacunas justamente nas
áreas mais estratégicas para o desenvolvimento de longo prazo.
Nessa
perspectiva, o fortalecimento das universidades públicas constitui uma condição
estratégica para ampliar a autonomia tecnológica do país, diversificar sua
estrutura produtiva e qualificar sua inserção na economia internacional. Como
já argumentava Raúl Prebisch (1949), a estrutura econômica de países
periféricos tende a se caracterizar pela especialização em bens primários e
pela dependência tecnológica em relação aos centros dinâmicos do capitalismo
mundial. Nesse contexto, universidades públicas robustas ampliam a capacidade
nacional de desenvolver tecnologias próprias, agregar valor à produção e
fortalecer trajetórias de desenvolvimento econômico sustentadas em conhecimento
e inovação.
O
processo de expansão e democratização do ensino superior no Brasil constitui
uma das transformações mais significativas do sistema educacional nas últimas
décadas. A combinação entre a interiorização das universidades federais, a
ampliação de vagas e a institucionalização de políticas de ação afirmativa
redefiniu profundamente o perfil social do corpo discente.
A
adoção da Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012) consolidou um marco jurídico de
ampliação do acesso, ao estabelecer critérios de ingresso baseados em origem
escolar, renda e pertencimento a grupos historicamente sub-representados no
ensino superior público brasileiro. Esse processo resultou em uma
reconfiguração progressiva da composição estudantil, tornando as universidades
federais mais representativas da diversidade social do país (Brasil, 2012;
Andifes, 2019).
A
literatura internacional sobre a massificação do ensino superior descreve esse
movimento como a transição de sistemas de educação superior de caráter elitista
para sistemas de acesso ampliado, nos quais o ingresso deixa de ser restrito a
pequenos grupos sociais e passa a se constituir como componente estrutural do
desenvolvimento econômico e social (Trow, 1973). No caso brasileiro, essa
transição ocorreu de forma articulada à expansão do sistema público federal,
que desempenhou papel central na redução de desigualdades regionais e na
criação de novas oportunidades educacionais em territórios historicamente
afastados da infraestrutura universitária.
O
aumento da diversidade social no interior das universidades não apenas amplia a
mobilidade intergeracional, como também contribui para a qualificação geral da
força de trabalho e para a ampliação do estoque de capital humano disponível na
economia (Becker, 1993; Schultz, 1973). A presença de estudantes oriundos de
diferentes trajetórias sociais também enriquece o ambiente acadêmico, ampliando
a pluralidade de perspectivas e fortalecendo a produção de conhecimento em
múltiplas áreas.
Dados
consolidados por instituições como o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais (INEP) e pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições
Federais de Ensino Superior (ANDIFES) indicam que a composição socioeconômica
das universidades federais passou por mudanças estruturais na última década,
com aumento significativo da participação de estudantes de baixa renda e
oriundos de escolas públicas.
Esse
processo evidencia que a universidade pública brasileira deixou de ser um
espaço restrito a determinados estratos sociais e passou a desempenhar, de
forma crescente, a função de integração social e qualificação educacional em
escala nacional (Andifes, 2019; Inep, 2024).
A
consolidação do acesso ao ensino superior, para se converter em efetivo
processo de desenvolvimento, depende diretamente da capacidade de garantir as
condições materiais de permanência dos estudantes ao longo de sua trajetória
formativa. As políticas de permanência estudantil – como bolsas de assistência,
moradia universitária, alimentação subsidiada, transporte e apoio acadêmico –
devem ser compreendidas como instrumentos estruturais de eficiência alocativa
do investimento público em educação. Isso porque a formação universitária
representa um processo de investimento de longo prazo em capital humano, cujo
retorno social depende da conclusão efetiva dos ciclos formativos (Becker,
1993; Schultz, 1973).
Sob
essa perspectiva, a evasão estudantil constitui uma forma de desperdício de
recursos públicos já mobilizados na etapa de ingresso e início da formação
acadêmica. A interrupção precoce da trajetória universitária implica perda de
produtividade futura, redução do estoque de qualificação da força de trabalho e
limitação do potencial de inovação da economia. Assim, políticas de permanência
atuam como mecanismos de preservação e maximização do retorno social do
investimento educacional, ao reduzir barreiras materiais que impedem a
continuidade dos estudos e ao assegurar que a formação superior se converta em
efetiva capacidade produtiva.
A
discussão sobre permanência estudantil e democratização do acesso ao ensino
superior se articula diretamente a um problema estrutural mais amplo: as
condições de continuidade da trajetória acadêmica e de inserção na carreira
universitária. Estudos sobre educação superior e reprodução social indicam que
a ampliação do acesso às universidades não é suficiente para eliminar
desigualdades estruturais, uma vez que mecanismos relacionados ao capital
econômico, cultural e social continuam influenciando as trajetórias acadêmicas
e profissionais dos indivíduos (Bourdieu; Passeron, 1982).
No
contexto da carreira científica, pesquisas apontam que a progressão acadêmica
permanece marcada por assimetrias de oportunidades, afetando especialmente
grupos historicamente sub-representados e reforçando padrões de concentração de
prestígio e recursos no sistema universitário (Balbachevsky, 2005; Merton,
1968).
Essa
dimensão pode ser observada na própria estrutura da carreira acadêmica,
frequentemente marcada por elevados níveis de competição, proficiência em
línguas estrangeiras, exigência de dedicação integral e dependência de capital
cultural e econômico acumulado ao longo da trajetória formativa. A carreira
acadêmica tende a reproduzir, em diferentes graus, mecanismos de seletividade
que limitam a permanência de estudantes oriundos de grupos sociais menos
favorecidos no interior da produção científica e da vida universitária
(Ramirez-Aleixo, 2023).
Dessa
forma, a permanência estudantil integra um processo amplo de formação de
cientistas, pesquisadores e docentes, cuja continuidade requer condições
materiais e institucionais adequadas. A democratização do ensino superior
envolve a ampliação do acesso, a garantia de condições efetivas de permanência
e a promoção da progressão na produção do conhecimento, consolidando
trajetórias acadêmicas capazes de fortalecer o desenvolvimento científico e
social.
Para
além de sua dimensão econômica e produtiva, a universidade pública desempenha
uma função central na sustentação das democracias contemporâneas, ao constituir
um espaço institucional de produção e circulação do pensamento crítico, de
formação intelectual e da construção de repertórios interpretativos sobre a
realidade social (Santos, 2011; Dewey, 1916;).
A
presença da universidade na vida social contribui diretamente para a formação
de cidadãos capazes de compreender a complexidade das instituições políticas,
econômicas e culturais que estruturam a sociedade. Ao promover a reflexão
crítica, a análise fundamentada de evidências e a problematização de consensos
estabelecidos, a universidade fortalece a capacidade coletiva de deliberação e
amplia a qualidade da esfera pública.
Esse
processo se articula ao próprio conceito de democracia como forma de vida
baseada na educação e na participação informada, conforme formulado por John
Dewey (1916), para quem a experiência democrática depende de instituições
capazes de produzir inteligência social e reflexão compartilhada.
Nesse
contexto, a universidade também exerce um papel civilizatório ao funcionar como
espaço de mediação entre diferentes grupos sociais, contribuindo para a
construção da coesão social em sociedades marcadas por desigualdades
estruturais. A convivência entre estudantes oriundos de distintas trajetórias
sociais, culturais e regionais favorece a ampliação da compreensão mútua e a
formação de um tecido social mais integrado. Essa função é particularmente
relevante em sociedades periféricas, nas quais a desigualdade histórica tende a
produzir fragmentações sociais profundas.
A
existência de instituições científicas autônomas e pluralistas constitui um dos
pilares das democracias modernas, na medida em que impede a redução do debate
público a narrativas únicas e favorece a circulação de diferentes
interpretações sobre os problemas sociais. Como destaca Boaventura de Sousa
Santos (2011), a universidade pública, ao manter sua função de produção de
conhecimento crítico, contribui para a ampliação dos horizontes democráticos e
para a resistência a formas autoritárias.
A
consolidação de um projeto nacional de desenvolvimento no século XXI depende,
de forma decisiva, da capacidade de reconhecer a universidade pública como um
dos pilares estruturantes da sociedade contemporânea. Em sua dimensão
econômica, ela sustenta processos de inovação, qualificação da força de
trabalho e ampliação da produtividade; em sua dimensão social, promove
mobilidade, inclusão e redução de desigualdades; em sua dimensão democrática,
fortalece a formação crítica, a deliberação pública e a coesão social; e, em
sua dimensão mais ampla, contribui para o próprio avanço civilizatório baseado
na produção e democratização do conhecimento.
Nesse
sentido, a universidade pública constitui um elemento central da infraestrutura
intelectual e institucional dos países que buscam autonomia, desenvolvimento
humano e complexidade econômica. Sua preservação, expansão e fortalecimento
representam uma decisão estratégica de longo prazo, capaz de impulsionar a
inovação, ampliar oportunidades, consolidar a democracia e elevar a capacidade
nacional de produzir conhecimento.
Investir
na universidade pública significa investir nas bases que sustentam o progresso
econômico, a justiça social e a soberania nacional. Em última instância, o
futuro de uma nação é construído pela força do conhecimento que ela produz,
compartilha e transforma em desenvolvimento.
Fonte:
Por Gustavo Ramirez-Aleixo, em A Terra é Redonda

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