Brasil
e Argentina já estiveram em guerra?
A
rivalidade entre brasileiros e argentinos é recheada de episódios que
transcendem as piadas, as provocações de parte a parte e o mundo do futebol.
Muito
antes das rusgas provocadas por declarações públicas do atual presidente de
direita radical Javier Milei, os dois mais importantes países sul-americanos já
lutaram em lados opostos em duas guerras, viveram tensões por conta de
fronteiras e um século 20 de constantes estranhamentos e atritos — praticamente
uma longa guerra fria, só plena e oficialmente pacificada com a assinatura do
tratado que criaria o Mercosul, em 1991.
"Conflitos
entre Brasil e Argentina remetem ao período em que ambos os países ainda não
eram nações, quando portugueses e espanhóis, colonos, bandeirantes, jesuítas e
povos originários, já conflitavam acerca de interesses principalmente na região
da Bacia do Prata", lembra o historiador Victor Missiato, pesquisador no
Instituto Mackenzie.
"Brasil
e Argentina já estiveram em guerra, e foram duas", afirma o historiador
Fábio Ferreira, professor na Universidade Federal Fluminense (UFF) e criador do
canal no YouTube e da revista Tema Livre.
Mas ele
faz uma ressalva importante: na época, a Argentina ainda não era um Estado
nacional constituído como hoje — e o Brasil era um império.
A
primeira guerra de fato entre os dois países remonta a uma época em que o
Brasil era um império recém-independente de Portugal e a Argentina ainda não
havia se organizado em um Estado federativo — vivia uma longa guerra civil,
concluída apenas em 1861 em consequência da sua independência da Espanha. Desta
forma, oficialmente a contenda foi protagonizada pelo Império do Brasil contra
as Províncias Unidas do Rio da Prata.
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O Uruguai como tampão
Esta
pioneira disputa bélica entre Brasil e Argentina foi a Guerra da Cisplatina.
Historiadores argentinos, aliás, costumam chamar o episódio de Guerra do Brasil
ou de Guerra Argentino-Brasileira. O episódio ocorreu entre 1825 e 1828. Em
disputa, estava o controle da Província Cisplatina, território hoje
correspondente em grande parte ao Uruguai.
Em
linhas gerais, a raiz da questão está no fato de que a Cisplatina havia sido
incorporada pelo então Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1821.
"A
região estava em processo de intensa guerra civil desde 1810", diz
Ferreira. O governo português havia conquistado a região porque se preocupava
tanto com a navegação nos rios de lá quanto com a "própria integridade
territorial" do Brasil, pontua o historiador. Os portugueses se aliaram
com elites locais e puseram um governador em Montevidéu.
"Com
a Independência do Brasil, houve uma divisão: para onde iria a
Cisplatina", conta Ferreira. "Diversos grupos não queriam a
manutenção do vínculo com o Império do Brasil."
Mas a
anexação da região se manteve depois da independência brasileira de Portugal.
Em 1825, contudo, uma insurreição sulista, organizada por um grupo chamado de
Trinta e Três Orientais, proclamou a separação da província.
Ferreira
explica que houve apoio do governo de Buenos Aires e campanhas militares
buscando essa desvinculação do império brasileiro. Depois de apenas observar
por um tempo, o imperador Pedro 1º (1798-1834) declarou guerra aos argentinos.
Pesquisador
do período imperial brasileiro e autor de livros sobre personagens dessa época,
o youtuber Paulo Rezzutti acredita que "a rivalidade histórica entre
Espanha e Portugal" pelo controle do Rio da Prata acabou sendo herdada
pelos países sul-americanos — e isso incensou o início do conflito cisplatino.
"É a mesma rivalidade geopolítica histórica que acabou sendo incorporada
pelas populações em geral", comenta ele.
Houve
batalhas terrestres e operações navais no Atlântico Sul e no estuário platino.
O desfecho veio com a interferência britânica — os ingleses tinham interesses
comerciais no equilíbrio de poder regional. O resultado foi a criação de um
novo país, o Uruguai.
"O
acordo de paz, em 1828, criou o que depois se tornaria a República Oriental do
Uruguai", diz Ferreira.
"Muitos
chamam a solução de 'criação de um país-tampão', justamente para estancar a
rivalidade entre Brasil e Argentina pelo controle da região do Prata",
comenta Missiato.
Para
ele, embora nenhum dos dois países tenha conquistado o território em disputa, a
situação foi mais benéfica para a Argentina, que não só afastou o Brasil
daquele entorno como passou a ter uma proximidade cultural e linguística maior
com o novo país.
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Contra Rosas
Entre
1851 e 1852, houve um novo conflito bélico que opôs Brasil e Argentina: a
Guerra do Prata.
A
contenda foi desencadeada pela ascensão do oficial militar Juan Manuel de Rosas
(1793-1877) como ditador argentino e sua vontade de manter Paraguai e Uruguai
sob suas esferas de influência, deixando o Brasil de escanteio — no horizonte
de seus planos estava a eventual recriação de uma unidade política regional
semelhante ao antigo Vice-Reinado da Prata.
Sob o
pretexto de que isso feria a soberania do império, já que tais planos
incluiriam terras da então província do Rio Grande do Sul, a corte do Rio de
Janeiro declarou guerra. Formou-se uma aliança com Uruguai, Paraguai e forças
argentinas contrárias ao ditador.
"Essa
aliança pretendia derrubar o governo de Rosas", resume Ferreira. Depois de
diversas batalhas, a de Monte Caseros, em 1852, marcou o fim da guerra, com
vitória para os aliados contra os argentinos.
"Com
isso, o Brasil evitou uma expansão territorial argentina que estava no radar do
presidente Rosas", diz Missiato. O ditador deposto conseguiu fugir e
exilou-se no Reino Unido, onde passaria o resto da vida.
Na
década seguinte, ambos os países estiveram no mesmo time. Era a Guerra do
Paraguai, conflito que durou de 1864 a 1870, em que Brasil, Argentina e Uruguai
lutaram contra o Paraguai. Missiato lembra, entretanto, que nem tudo foi
amizade entre brasileiros e argentinos — "houve conflitos
diplomáticos" em diversos momentos entre os países.
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Pelas fronteiras
O outro
grande incidente entre os dois países data de um período em que ambos já eram
Estados plenamente constituídos e republicanos.
Ferreira
salienta que, se for considerado esse período em que ambas as nações estavam
plenamente constituídas, também é possível dizer que Brasil e Argentina nunca
estiveram em guerra armada. "Isso não significa que não houve
desconfianças múltiplas e interesses conflitantes", ressalta.
Neste
terceiro episódio, portanto, o atrito não chegou às armas. Entre 1890 e 1895,
Brasil e Argentina empreenderam uma disputa pela posse de parte dos hoje
Estados brasileiros de Santa Catarina e Paraná. O episódio ficou conhecido como
Questão de Palmas. "Os dois países discordavam quanto aos limites
territoriais", contextualiza Ferreira. "As fronteiras ainda estavam
indefinidas."
Na
realidade, não havia consenso sobre uma extensa área de terras no oeste desses
Estados. Argentinos citavam o Tratado de Madri, de 1750, para argumentar que a
fronteira seria no curso dos rios Chapecó e Chopim. O Brasil não concordava.
Para demarcar posição, o governo imperial de Pedro 2º (1825-1891) mandou fundar
ali duas colônias militares em 1882.
Depois
da proclamação da República, o então ministro das Relações Exteriores Quintino
Bocaiúva (1836-1912) chegou a assinar um acordo que previa a divisão da região
entre as duas nações. Mas o documento acabou rechaçado pelo Congresso, que
entendia que o diplomata havia extrapolado suas atribuições e cedendo demais ao
país vizinho.
O caso
foi submetido à arbitragem internacional e o encarregado de decidir foi o então
presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland (1837-1908). Para defender os
interesses brasileiros, foi nomeado o diplomata e advogado José Paranhos Júnior
(1845-1912), o Barão do Rio Branco. "Ele teve papel fundamental para essa
conquista", ressalta Missiato.
Rio
Branco preparou um amplo arrazoado em seis volumes em torno do argumento de
que, a partir do princípio do uti possidetis — ou seja, quem de fato ocupa, tem
a posse — aquelas terras deveriam ser consideradas brasileiras. Vitória do
Brasil.
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Quase guerra
Ao
longo do século 20 a relação entre os dois países também teve episódios de
atritos mais intensos. "Mas as coisas ganharam contornos mais burocráticos
e diplomáticos", diz Missiato.
"No
início do século passado, quando o Brasil empreendeu seu rearmamento naval,
houve insatisfação de setores políticos argentinos. Mas isso não significou
rompimento nas relações", lembra Ferreira.
Mas
quase houve guerra. Conforme conta a historiadora Érica Cristina Alexandre
Winand, em sua tese de doutorado defendida em 2010 na Universidade Estadual
Paulista (Unesp), o episódio ocorreu na presidência de Figueroa Alcorta, entre
1906 e 1910, quando foi ministério das Relações Exteriores da Argentina o
jurista Estanislao Zeballos (1854-1923) — "declarado
antibrasileirista", ressalta ela.
Utilizando-se
do jornal do qual havia sido um dos fundadores, o La Prensa, ele patrocinou uma
campanha de hostilidades ao Brasil, argumentando que o
"ultraprotecionismo" econômico que estaria sendo praticado pelos
brasileiros estava "desmoronando a economia" da Argentina.
Em
carta do próprio Zeballos, ele admitia que havia sugerido ao governo argentino
que formalizasse um pedido de "partilha da esquadra" brasileira e, em
caso de negativa ou de não resposta em oito dias, o Rio de Janeiro seria
invadido. "Segundo os ministros da Guerra e da Marinha era um ponto
estudado e fácil, pela situação indefesa do Brasil", escreveu ele.
O
ministro foi forçado a renunciar. "Até o apaziguador Rio Branco estava
consciente de que a alternativa à saída de Zeballos era a guerra contra a
Argentina", diz a historiadora, na tese.
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Tensões, Itaipu e energia nuclear
Durante
a Segunda Guerra, quando o Brasil se alinhou ao lado dos Aliados, em 1942,
houve animosidades. Os argentinos desconfiavam que o Brasil fosse um títere dos
norte-americanos a buscar influências no sul. A Argentina só deixaria a
neutralidade na Segunda Guerra em 1944 — também contra o Eixo. "Eles nos
viam como espécie de agentes dos Estados Unidos na América do Sul",
comenta o historiador Ferreira.
Outro
momento de intensas rusgas foi quando o Brasil construía a Usina de Itaipu, de
1975 a 1982. Nos escaninhos dos poderes, circulava o temor de que, em eventual
conflito, os brasileiros poderiam abrir as comportas da usina completamente — e
isso supostamente inundaria Buenos Aires.
Para o
historiador Missiato, foi um momento de tensão diplomática que gerou uma
corrida discursiva e tecnológica. Era um período em que ambos os países
desenvolviam seus programas nucleares — para fins meramente de utilizar a
tecnologia para obtenção de energia elétrica, ressalte-se.
Mas,
nessa verdadeira guerra fria entre Brasil e Argentina, não faltavam
desconfianças de parte a parte. Diversas tratativas diplomáticas e conversas
entre lideranças foram necessárias. Como diz a historiadora Winand,
"fazia-se premente ampliar as bases da confiança mútua e da transparência
neste campo, a fim de eliminar suspeitas de agressão mútua". Em sua tese,
ela classifica a questão nuclear entre os dois países de "sutil".
Ferreira
ressalta que as disputas entre Brasil e Argentina também sempre tiveram em seu
cerne o desejo de ambos os países de "influenciar os destinos dos
vizinhos", assumindo posição de hegemonia no continente sul-americano.
"Tudo
parecia resolvido com a redemocratização", afirma Missiato, lembrando que
os então presidentes brasileiro José Sarney e argentino Raúl Alfonsín
(1927-2009) iniciaram a aproximação que desencadearia no Mercosul na década
seguinte.
A
amizade entre Brasil e Argentina seria selada em 1991, finalmente. "A
rivalidade histórica se diluiu após o tratado", afirma Missiato.
Resta
saber se resistirá ao episódio desencadeado pelas farpas do atual presidente
argentino. "Menos de 100 anos depois da Questão de Palmas houve a
assinatura do Mercosul. Se analisarmos do ponto de vista historiográfico, em um
período relativamente curto, passamos a estar unidos", analisa Ferreira.
"Que a rivalidade entre Brasil e Argentina se restrinja apenas ao
futebol."
Fonte:
BBC News Brasil

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