quinta-feira, 30 de julho de 2026

O Brasil abrirá, enfim, os olhos para a China?

Poderão China e Brasil — os dois maiores e mais relevantes países do Sul Global, em seus respectivos hemisférios — estabelecer colaboração mais intensa e construir alternativas, num mundo em crise civilizatória profunda? Esta possibilidade, que tem sido desperdiçada há anos, apesar dos acenos chineses, voltou a tornar-se possível no último domingo (26/7). Acossado por pressões crescentes dos EUA, Lula tomou a iniciativa de abrir diálogo com o presidente chinês, Xi Jinping.

Ambos conversaram, ao telefone, por cerca de uma hora. Nenhum dos lados revelou o teor completo da conversa. Mas, dado o contexto em que se deu o diálogo, é possível ter esperanças de que o governo brasileiro supere, ao menos em parte, a frieza com que tem tratado as possibilidades de uma colaboração de alto nível — de governo a governo — entre Brasília e Beijing.

Significaria ir muito além da relação atual, que se dá essencialmente no terreno do comércio. Neste terreno, a China é, há mais de uma década, a principal parceira do Brasil. As trocas bilaterais entre os dois países superaram, em 2025, os 171 bilhões de dólares, com superávit de US$ 29 bi para o Brasil. Os EUA, nosso segundo maior parceiro, movimentaram US$ 82 bilhões, menos da metade. Mas por trás deste aparente sucesso, há uma assimetria.

O Brasil exporta para a China, essencialmente, bens primários — com destaque para soja, petróleo e minério de ferro. Importa produtos e serviços de alta tecnologia. O caso da soja é o mais emblemático. Metade das 180 milhões de toneladas colhidas no país — como se sabe, com ataque permanente aos biomas do Cerrado, Caatinga e Amazônia — é destinada a compradores chineses.

Nesse caso, quem determina a colonialidade da relação é a vítima — ou, melhor dizendo, suas classes dominantes. O governo chinês tem insistido há anos numa relação mais complexa e mutuamente favorável. O Brasil foi convidado por diversas vezes a participar da Iniciativa do Cinturão e Rota (“Novas Rotas da Seda”). A adesão não compromete de nenhum modo a independência do país, e abre portas para colaboração não-mercantil. Amplia as possibilidades de investimentos maciços em infraestrutura e políticas públicas.

Os chineses não estabelecem a relação por benevolência. Têm sofrido ataques alfandegários crescentes nos EUA e Europa. Temem que os mercados do Ocidente possam se fechar, em breve, a seus produtos. Querem ter alternativas no Sul Global. E se dizem abertos à colaboração de mútuo benefício.

A amplitude que este movimento poderia alcançar foi desenhada em outro artigo. Reindustrialização brasileira, com transferência de tecnologia. Ultrapassagem do modelo do agronegócio, aproveitando a experiência chinesa de estímulo às pequenas e micropropriedades. Uso de automação e IA soberana na Saúde. Desmatamento zero na Amazônia, com aproveitamento da floresta em pé, de sua biodiversidade e saberes dos povos tradicionais. Alternativa às big techs norte-americanas. Livrar as forças armadas brasileiras da dependência tecnológica diante dos EUA (navios e aviões orientados pelos radares norte-americanos…). Superação da dependência em relação ao dólar, nas transações internacionais. Etc etc etc. A agenda é ampla.

[A China tem lançado sucessivos apelos a uma parceria política. O Brasil os rejeitou até agora. Em 2023, ao visitar Beijing, Lula evitou comprometer-se com a Iniciativa do Cinturão e Rota. É possível que os compromissos firmados com o então presidente dos EUA, Joe Biden, nos preparativos para as eleições brasileiras de 2022, tenham limitado seus movimentos.

O cenário agora é outro, e os atos e pressões de Trump contra o Brasil podem estimular uma virada. Nas últimas semanas, o governo brasileiro permaneceu firme, diante de um novo tarifaço da Casa Branca (contrariando, por exemplo, a posição da Federação das Indústrias de São Paulo – Fiesp –, que propunha recuos). Adotou postura ainda mais confrontativa ao não conceder vistos de entrada a dois integrantes do governo norte-americano que desejavam entrar no país para “averiguar a lisura do voto eletrônico”.

Falta ainda um passo mais decidido. Nesta segunda-feira, após o diálogo Lula-Xi ao telefone, o jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista Chinês, destacou a conversa em sua manchete central. Frisou que seu país “permanece pronto a fortalecer a coordenação estratégica com o Brasil”. A imprensa brasileira foi mais discreta e defensiva. Preferiu destacar a oposição dos dois governantes a interferências estrangeiras – como se lhes bastasse emitir declarações retóricas contra os ataques dos EUA.

Ainda assim, registrou a novidade. Acossados pelas contradições do país, e pela força das classes dominantes, a diplomacia e o governo brasileiro são muito lentos em dar-se conta do novo e suas oportunidades, na cena internacional. Em sua biografia de Getúlio Vargas, o jornalista Lira Neto relata as hesitações do então presidente diante de Hitler e Mussolini. Partidários dos dois regimes fascistas estavam presentes e atuantes no próprio ministério de Getúlio. Até que a ruptura tornou-se inevitável, em 1942, e o Brasil aliou-se aos EUA de Franklin Roosevelt, que liderava, no Ocidente, a luta contra a ultradireita.

Oxalá o telefonema de Lula indique que, assim como Getúlio em relação à Alemanha e Itália, o presidente tenha percebido que é preciso afastar-se dos EUA — e enxergue as possibilidades de uma relação autônoma e construtiva com a China.

¨      Como os EUA usam a lei sobre trabalho forçado para pressionar o Brasil e isolar a China

Em política internacional, os fatos que emergem na superfície, como tarifas, sanções ou declarações oficiais, raramente se explicam por si mesmos. A conjuntura, embora visível e imediata, só se torna compreensível quando articulada às disputas históricas, econômicas e geopolíticas que moldam o cenário global.

É nesse entrelaçamento que instrumentos aparentemente técnicos passam a operar como dispositivos de poder. As recentes tarifas de 12,5% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros exemplificam esse movimento, inserindo-se em uma estratégia mais ampla que combina a securitização, ao transformar cadeias produtivas em ameaças à ordem internacional, e o lawfare, caracterizado pela aplicação de leis estadunidenses para além de suas fronteiras, a fim de controlar o comportamento de outras nações em função de objetivos geopolíticos.

Nesse contexto, a questão do trabalho forçado em Xinjiang, pivô de denúncias internacionais sobre a sujeição da minoria uigur e rebatida por Pequim como uma narrativa política (O Globo, 2021), converteu-se em um vetor central de fricção global. A legislação estadunidense direcionada à região não atua como um mero mecanismo de regulação ética ou humanitária, mas como uma ferramenta geopolítica.

Ao restringir o acesso ao mercado e penalizar países que mantêm vínculos com insumos chineses, Washington desloca o debate do terreno puramente moral e redesenha as hierarquias de produção, pressionando economias como a brasileira a redefinir suas alianças em meio a uma disputa sobre quem dita as regras do jogo e lidera a economia mundial.

Essa pressão dos Estados Unidos torna-se ainda mais incoerente quando observamos a realidade do Brasil. O país é reconhecido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma referência mundial no combate ao trabalho escravo contemporâneo.

A legislação brasileira é considerada uma das mais avançadas do mundo por adotar um conceito moderno no Código Penal (artigo 149), que pune não apenas a privação de liberdade, mas também a jornada exaustiva e as condições degradantes de trabalho. Isso não significa que o problema tenha desaparecido no país, mas demonstra a existência de um sistema público rigoroso.

Por esse motivo, a imposição das tarifas ignora esse esforço institucional e desconsidera essas especificidades, revelando que a pauta moral é mobilizada como instrumento de pressão comercial e geopolítica.

Sob essa lógica, a medida imposta pelos EUA opera como um instrumento de coerção indireta voltado à reorganização das cadeias globais. Ancorada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que visa combater práticas estrangeiras desleais que afetam o comércio dos EUA (USTR, 2026), ela não acusa diretamente o Brasil de produzir bens com trabalho escravo, mas transforma a ausência de dispositivos legais que proíbam a importação de mercadorias associadas ao trabalho forçado em uma vulnerabilidade passível de penalização.

Ao agir assim, Washington trata a questão como uma ameaça ao funcionamento do mercado internacional, erguendo uma barreira em torno da China ao encarecer e tornar mais arriscado o comércio com insumos de Xinjiang, induzindo empresas e governos a reconfigurar suas cadeias produtivas e a adaptar seus marcos regulatórios ao padrão estadunidense.

Trata-se, portanto, de um protecionismo seletivo e estratégico, no qual o discurso sobre ética e regulação não é um mero disfarce, mas a própria ferramenta que impulsiona a contenção da expansão econômica chinesa, inclusive na América Latina.

Essa engrenagem ganha ainda maior inteligibilidade quando observada no âmbito do lawfare. Diferentemente de disputas comerciais tradicionais, que tenderiam a ser mediadas por instâncias multilaterais como a Organização Mundial do Comércio (OMC), esse mecanismo opera por meio da exploração de brechas administrativas e jurídicas que permitem a imposição de restrições sem recorrer aos canais formais de solução de controvérsias.

É nesse ponto que a Seção 301 assume centralidade: ao acioná-la, o governo norte-americano mobiliza uma prerrogativa doméstica unilateral que autoriza a aplicação acelerada de sanções com base em critérios definidos internamente. Constrói-se, assim, uma estrutura jurídica interna com fortes efeitos extraterritoriais.

Dessa forma, mais do que uma simples resposta a práticas consideradas desleais, a tarifa insere-se em uma dinâmica na qual o direito deixa de ser apenas um instrumento regulador e passa a funcionar como uma tecnologia de coerção na reorganização da ordem econômica internacional.

É justamente quando esse arranjo jurídico se projeta sobre economias periféricas que seus efeitos deixam de ser apenas sistêmicos e passam a incidir diretamente sobre casos concretos. No Brasil, essa pressão não se limita às tarifas, mas articula-se a um conjunto mais amplo de frentes, que vão desde questionamentos ao sistema de pagamentos instantâneos (Pix) e disputas em torno do etanol até a crescente centralidade dos minerais críticos nas negociações bilaterais.

Longe de serem temas isolados, esses elementos compõem uma mesma arquitetura de poder, na qual instrumentos financeiros, energéticos e tecnológicos são mobilizados de forma coordenada para condicionar escolhas internas e reposicionar o país na disputa entre Estados Unidos e China. É nesse deslocamento do plano jurídico-comercial para o interior da economia política brasileira que se abre o terreno para compreender como essa estratégia externa passa a reconfigurar não apenas a inserção internacional do Brasil, mas também suas dinâmicas políticas e econômicas internas.

Diante desse quadro, o Brasil deixa de ser um ator periférico para ocupar uma posição central na disputa geopolítica contemporânea, integrando-se ao núcleo das tensões entre Estados Unidos e China. Nesse processo, converte-se em um território estratégico de incidência de pressões externas, no qual a preservação de sua soberania, entendida em termos econômicos, regulatórios e territoriais, surge como condição fundamental para evitar um reposicionamento subordinado na ordem internacional.

 

Fonte: Por Antonio Martins, em Outras Palavras/Diálogos do Sul Global

 

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