O
Brasil abrirá, enfim, os olhos para a China?
Poderão
China e Brasil — os dois maiores e mais relevantes países do Sul Global, em
seus respectivos hemisférios — estabelecer colaboração mais intensa e construir
alternativas, num mundo em crise civilizatória profunda? Esta possibilidade,
que tem sido desperdiçada há anos, apesar dos acenos chineses, voltou a
tornar-se possível no último domingo (26/7). Acossado por pressões crescentes
dos EUA, Lula tomou a iniciativa de abrir diálogo com o presidente chinês,
Xi Jinping.
Ambos
conversaram, ao telefone, por cerca de uma hora. Nenhum dos lados revelou o
teor completo da conversa. Mas, dado o contexto em que se deu o diálogo, é
possível ter esperanças de que o governo brasileiro supere, ao menos em parte,
a frieza com que tem tratado as possibilidades de uma colaboração de alto nível
— de governo a governo — entre Brasília e Beijing.
Significaria
ir muito além da relação atual, que se dá essencialmente no terreno do
comércio. Neste terreno, a China é, há mais de uma década, a principal parceira
do Brasil. As trocas bilaterais entre os dois países superaram, em 2025, os 171
bilhões de dólares, com superávit de US$ 29 bi para o Brasil. Os EUA, nosso
segundo maior parceiro, movimentaram US$ 82 bilhões, menos da metade. Mas por
trás deste aparente sucesso, há uma assimetria.
O
Brasil exporta para a China, essencialmente, bens primários — com destaque para
soja, petróleo e minério de ferro. Importa produtos e serviços de alta
tecnologia. O caso da soja é o mais emblemático. Metade das 180 milhões de
toneladas colhidas no país — como se sabe, com ataque permanente aos biomas do
Cerrado, Caatinga e Amazônia — é destinada a compradores chineses.
Nesse
caso, quem determina a colonialidade da relação é a vítima — ou, melhor
dizendo, suas classes dominantes. O governo chinês tem insistido há anos numa
relação mais complexa e mutuamente favorável. O Brasil foi convidado por
diversas vezes a participar da Iniciativa do Cinturão e Rota (“Novas Rotas da
Seda”). A adesão não compromete de nenhum modo a independência do país, e abre
portas para colaboração não-mercantil. Amplia as possibilidades de
investimentos maciços em infraestrutura e políticas públicas.
Os
chineses não estabelecem a relação por benevolência. Têm sofrido ataques
alfandegários crescentes nos EUA e Europa. Temem que os mercados do Ocidente
possam se fechar, em breve, a seus produtos. Querem ter alternativas no Sul
Global. E se dizem abertos à colaboração de mútuo benefício.
A
amplitude que este movimento poderia alcançar foi desenhada em outro artigo. Reindustrialização
brasileira, com transferência de tecnologia. Ultrapassagem do modelo do
agronegócio, aproveitando a experiência chinesa de estímulo às pequenas e
micropropriedades. Uso de automação e IA soberana na Saúde. Desmatamento zero
na Amazônia, com aproveitamento da floresta em pé, de sua biodiversidade e
saberes dos povos tradicionais. Alternativa às big techs norte-americanas.
Livrar as forças armadas brasileiras da dependência tecnológica diante dos EUA
(navios e aviões orientados pelos radares norte-americanos…). Superação da
dependência em relação ao dólar, nas transações internacionais. Etc etc etc. A
agenda é ampla.
[A
China tem lançado sucessivos apelos a uma parceria política. O Brasil os
rejeitou até agora. Em 2023, ao visitar Beijing, Lula evitou comprometer-se com
a Iniciativa do Cinturão e Rota. É possível que os compromissos firmados com o
então presidente dos EUA, Joe Biden, nos preparativos para as eleições
brasileiras de 2022, tenham limitado seus movimentos.
O
cenário agora é outro, e os atos e pressões de Trump contra o Brasil podem
estimular uma virada. Nas últimas semanas, o governo brasileiro permaneceu
firme, diante de um novo tarifaço da Casa Branca (contrariando, por exemplo,
a posição da Federação das Indústrias de São Paulo – Fiesp –, que propunha
recuos). Adotou postura ainda mais confrontativa ao não conceder vistos de
entrada a dois integrantes do governo norte-americano que desejavam entrar
no país para “averiguar a lisura do voto eletrônico”.
Falta
ainda um passo mais decidido. Nesta segunda-feira, após o diálogo Lula-Xi ao
telefone, o jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista
Chinês, destacou a conversa em sua manchete central. Frisou que seu país
“permanece pronto a fortalecer a coordenação estratégica com o Brasil”. A
imprensa brasileira foi mais discreta e defensiva. Preferiu destacar a oposição
dos dois governantes a interferências estrangeiras – como se lhes bastasse
emitir declarações retóricas contra os ataques dos EUA.
Ainda
assim, registrou a novidade. Acossados pelas contradições do país, e pela força
das classes dominantes, a diplomacia e o governo brasileiro são muito lentos em
dar-se conta do novo e suas oportunidades, na cena internacional. Em sua
biografia de Getúlio Vargas, o jornalista Lira Neto relata as hesitações do
então presidente diante de Hitler e Mussolini. Partidários dos dois regimes
fascistas estavam presentes e atuantes no próprio ministério de Getúlio. Até
que a ruptura tornou-se inevitável, em 1942, e o Brasil aliou-se aos EUA de
Franklin Roosevelt, que liderava, no Ocidente, a luta contra a ultradireita.
Oxalá o
telefonema de Lula indique que, assim como Getúlio em relação à Alemanha e
Itália, o presidente tenha percebido que é preciso afastar-se dos EUA — e
enxergue as possibilidades de uma relação autônoma e construtiva com a China.
¨ Como os EUA usam a
lei sobre trabalho forçado para pressionar o Brasil e isolar a China
Em política internacional, os fatos que
emergem na superfície, como tarifas, sanções ou declarações oficiais, raramente
se explicam por si mesmos. A conjuntura, embora visível e imediata, só se torna
compreensível quando articulada às disputas históricas, econômicas e geopolíticas
que moldam o cenário global.
É nesse
entrelaçamento que instrumentos aparentemente técnicos passam a operar como
dispositivos de poder. As recentes tarifas de 12,5% impostas pelos Estados
Unidos sobre produtos brasileiros exemplificam esse movimento, inserindo-se em
uma estratégia mais ampla que combina a securitização, ao transformar cadeias
produtivas em ameaças à ordem internacional, e o lawfare,
caracterizado pela aplicação de leis estadunidenses para além de suas
fronteiras, a fim de controlar o comportamento de outras nações em função de
objetivos geopolíticos.
Nesse
contexto, a questão do trabalho forçado em Xinjiang, pivô de denúncias
internacionais sobre a sujeição da minoria uigur e rebatida por Pequim como uma
narrativa política (O Globo, 2021), converteu-se em um vetor central de
fricção global. A legislação estadunidense direcionada à região não atua como
um mero mecanismo de regulação ética ou humanitária, mas como uma ferramenta
geopolítica.
Ao
restringir o acesso ao mercado e penalizar países que mantêm vínculos com
insumos chineses, Washington desloca o debate do terreno puramente moral e
redesenha as hierarquias de produção, pressionando economias como a brasileira
a redefinir suas alianças em meio a uma disputa sobre quem dita as regras do
jogo e lidera a economia mundial.
Essa
pressão dos Estados Unidos torna-se ainda mais incoerente quando observamos a
realidade do Brasil. O país é reconhecido pela Organização Internacional do
Trabalho (OIT) e pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma referência
mundial no combate ao trabalho escravo contemporâneo.
A
legislação brasileira é considerada uma das mais avançadas do mundo por adotar
um conceito moderno no Código Penal (artigo 149), que pune não apenas a
privação de liberdade, mas também a jornada exaustiva e as condições
degradantes de trabalho. Isso não significa que o problema tenha desaparecido
no país, mas demonstra a existência de um sistema público rigoroso.
Por
esse motivo, a imposição das tarifas ignora esse esforço institucional e
desconsidera essas especificidades, revelando que a pauta moral é mobilizada
como instrumento de pressão comercial e geopolítica.
Sob
essa lógica, a medida imposta pelos EUA opera como um instrumento de coerção
indireta voltado à reorganização das cadeias globais. Ancorada na Seção 301 da
Lei de Comércio de 1974, que visa combater práticas estrangeiras desleais que
afetam o comércio dos EUA (USTR, 2026), ela não acusa diretamente o Brasil de
produzir bens com trabalho escravo, mas transforma a ausência de dispositivos
legais que proíbam a importação de mercadorias associadas ao trabalho forçado
em uma vulnerabilidade passível de penalização.
Ao agir
assim, Washington trata a questão como uma ameaça ao funcionamento do mercado
internacional, erguendo uma barreira em torno da China ao encarecer e tornar
mais arriscado o comércio com insumos de Xinjiang, induzindo empresas e
governos a reconfigurar suas cadeias produtivas e a adaptar seus marcos
regulatórios ao padrão estadunidense.
Trata-se,
portanto, de um protecionismo seletivo e estratégico, no qual o discurso sobre
ética e regulação não é um mero disfarce, mas a própria ferramenta que
impulsiona a contenção da expansão econômica chinesa, inclusive na América
Latina.
Essa
engrenagem ganha ainda maior inteligibilidade quando observada no âmbito
do lawfare. Diferentemente de disputas comerciais tradicionais, que
tenderiam a ser mediadas por instâncias multilaterais como a Organização
Mundial do Comércio (OMC), esse mecanismo opera por meio da exploração de
brechas administrativas e jurídicas que permitem a imposição de restrições sem
recorrer aos canais formais de solução de controvérsias.
É nesse
ponto que a Seção 301 assume centralidade: ao acioná-la, o governo
norte-americano mobiliza uma prerrogativa doméstica unilateral que autoriza a
aplicação acelerada de sanções com base em critérios definidos internamente.
Constrói-se, assim, uma estrutura jurídica interna com fortes efeitos
extraterritoriais.
Dessa
forma, mais do que uma simples resposta a práticas consideradas desleais, a
tarifa insere-se em uma dinâmica na qual o direito deixa de ser apenas um
instrumento regulador e passa a funcionar como uma tecnologia de coerção na
reorganização da ordem econômica internacional.
É
justamente quando esse arranjo jurídico se projeta sobre economias periféricas
que seus efeitos deixam de ser apenas sistêmicos e passam a incidir diretamente
sobre casos concretos. No Brasil, essa pressão não se limita às tarifas, mas
articula-se a um conjunto mais amplo de frentes, que vão desde questionamentos
ao sistema de pagamentos instantâneos (Pix) e disputas em torno do etanol até a
crescente centralidade dos minerais críticos nas negociações bilaterais.
Longe
de serem temas isolados, esses elementos compõem uma mesma arquitetura de
poder, na qual instrumentos financeiros, energéticos e tecnológicos são
mobilizados de forma coordenada para condicionar escolhas internas e
reposicionar o país na disputa entre Estados Unidos e China. É nesse
deslocamento do plano jurídico-comercial para o interior da economia política
brasileira que se abre o terreno para compreender como essa estratégia externa
passa a reconfigurar não apenas a inserção internacional do Brasil, mas também
suas dinâmicas políticas e econômicas internas.
Diante
desse quadro, o Brasil deixa de ser um ator periférico para ocupar uma posição
central na disputa geopolítica contemporânea, integrando-se ao núcleo das
tensões entre Estados Unidos e China. Nesse processo, converte-se em um
território estratégico de incidência de pressões externas, no qual a
preservação de sua soberania, entendida em termos econômicos, regulatórios e
territoriais, surge como condição fundamental para evitar um reposicionamento
subordinado na ordem internacional.
Fonte:
Por Antonio Martins, em Outras Palavras/Diálogos do Sul Global

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