A
eleição será decidida na vida real
A
campanha presidencial está entrando em sua fase decisiva com uma lição que não
podemos ignorar: uma eleição nacional é uma disputa sobre o futuro do país, mas
o eleitor julga esse futuro a partir da vida que leva no presente. O Brasil
precisa discutir soberania, reindustrialização, transição energética, ciência e
tecnologia e seu lugar no mundo. São agendas definidoras do que queremos e
podemos ser no futuro. Mas esses temas só ganham força política quando chegam à
mesa da família, ao salário, à prestação que vence no fim do mês, à fila do
SUS, à escola dos filhos e ao medo da violência.
O
presidente Lula tem resultados concretos para apresentar. O desemprego chegou a
5,3% no trimestre encerrado em julho, o menor patamar para o período na série
do IBGE, com 103,3 milhões de pessoas ocupadas e 39,4 milhões de trabalhadores
com carteira assinada. O salário mínimo voltou a ter aumento real e, desde
janeiro, quem recebe até R$ 5 mil está isento do Imposto de Renda. Isso mexe
diretamente com o orçamento familiar e confirma uma experiência histórica dos
governos Lula, segundo a qual crescimento, emprego, renda e inclusão social
precisam caminhar juntos.
Mas
bons indicadores não eliminam as dificuldades da vida real. O trabalhador que
conseguiu emprego pode continuar pagando uma dívida antiga a juros extorsivos.
A família que teve ganho de renda pode seguir comprimida pelo cartão, aluguel,
comida e crédito caro. Em agosto, 82% das famílias brasileiras estavam
endividadas; entre as que recebem até três salários mínimos, eram 85,1%, e
38,8% estavam inadimplentes. A campanha precisa partir dessa contradição, sem
escondê-la.
É aí
que o debate sobre os juros se mostra tão relevante. A Selic começou a cair,
mas permanece em 14% ao ano, e o crédito cobrado das famílias custa muito mais.
O endividamento vem em parte daí, assim como das bets, e não é explicado pela
fórmula simplista de que a dívida de cada família seria consequência direta do
gasto público. Há uma estrutura de juros, spreads, rotativo do cartão e crédito
predatório que precisa ser enfrentada. Reduzir os juros, ampliar a renegociação
de dívidas e devolver capacidade de consumo às famílias têm de estar no centro
da agenda econômica.
A
inflação exige a mesma franqueza. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto
e os alimentos caíram, em média, 0,34% no mês. É uma boa notícia, mas nenhuma
campanha deve dizer ao cidadão que sua percepção está errada. Preço é memória.
A família compara o que consegue colocar hoje no carrinho com o que comprava
antes. A disputa não será vencida numa guerra de etiquetas de supermercado,
como tentou fazer recentemente Flávio Bolsonaro, mas mostrando como aumentar de
forma duradoura a renda disponível: salário melhor, comida mais barata, imposto
mais justo, menos juros e menos dívida.
Isso
vale também para a soberania. Defendo uma estratégia nacional que proteja
nossos recursos naturais, minerais críticos, energia, indústria de defesa e
capacidade tecnológica. Um país como o Brasil não pode abrir mão disso. Mas a
soberania não pode aparecer como uma palavra separada da vida do povo.
Soberania é produzir aqui o remédio que falta no posto, o fertilizante da
agricultura, o semicondutor da indústria, a tecnologia que gera empregos
qualificados e a energia que chega com segurança e preço justo. Política de
defesa também deve ser política industrial, tecnológica e de emprego. A
soberania nacional precisa chegar à cozinha, à fábrica e ao contracheque.
É
preciso, portanto, acertar também a hierarquia da comunicação. Uma questão pode
ser estratégica para o Estado e, ainda assim, não ser aquela que mais mobiliza
o eleitor naquele momento. Se uma campanha fala principalmente de ameaças
externas enquanto a população está preocupada com a dívida, o preço da comida e
o roubo do celular, abre espaço para que o adversário pareça mais próximo da
vida cotidiana, mesmo quando oferece diagnósticos falsos e soluções ruins. Não
precisamos imitá-lo. Precisamos disputar os mesmos problemas reais com
respostas melhores e mais críveis.
Esse é
o sentido da atualização programática que a esquerda deve oferecer. Não se
trata de escolher entre o social e o desenvolvimento, mas de voltar a crescer
para sustentar a elevação do padrão de vida, o Estado de bem-estar social e a
redução das desigualdades. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre e 1,9% em
quatro trimestres, mas a taxa de investimento estava em apenas 16,1% do PIB.
Precisamos de um novo pacto nacional pelo crescimento, reunindo Estado,
trabalhadores, empresários, universidades, agricultura e sistema financeiro em
torno do investimento, da reindustrialização, da infraestrutura, da inovação e
da transição energética.
E esse
pacto precisa ser traduzido em compromissos claros: emprego de qualidade para
os jovens, crédito para a pequena empresa, salário mínimo valorizado, formação
profissional ligada à nova indústria, moradia, transporte e redução da jornada
sem redução de salário. O fim da escala 6 por 1, por exemplo, é uma discussão
sobre tempo, saúde, família e qualidade de vida. Trata-se de um exemplo notável
de como a grande estratégia de desenvolvimento encontra a experiência concreta
do cidadão.
Nenhum
tema mostra essa necessidade com tanta força quanto a segurança pública. A
violência é hoje a principal preocupação dos brasileiros: 31% a apontaram como
o maior problema do país em pesquisa Quaest divulgada neste mês. Não podemos
entregar esse terreno à extrema direita, nem responder ao medo real apenas
dizendo que as soluções do adversário são simplistas. Reduzir a maioridade
penal, prometer encarceramento em massa ou transformar segurança em espetáculo
de força não desmonta a economia das facções. Mas a esquerda precisa dizer com
clareza o que fará para que o trabalhador não tenha o celular roubado, uma
mulher volte para casa em segurança e o crime organizado não controle
territórios.
Há base
concreta para essa resposta. O governo Lula propôs e sancionou a Lei
Antifacção. A PEC da Segurança avança no Congresso propondo integração das
forças, constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública e mais
coordenação. A agenda deve combinar inteligência, investigação, controle de
fronteiras, tecnologia, combate à lavagem de dinheiro e ao braço financeiro das
facções, reforma e valorização das polícias, prevenção e punição efetiva dos
criminosos violentos e dos chefes que comandam o crime de longe. Segurança
pública não pode ser nem licença para matar nem licença para o crime.
Saúde e
educação também precisam falar a linguagem do cotidiano. O cidadão quer saber
quanto tempo vai esperar pela consulta, pelo exame e pela cirurgia. O “Agora
Tem Especialistas” já contratou hospitais de 21 estados para realizar mais de
600 mil procedimentos gratuitos para pacientes do SUS. O próximo passo é
transformar isso em compromisso mensurável de redução das filas, fortalecimento
da atenção básica, Mais Médicos e atendimento no interior. Na educação, o
Pé-de-Meia, que pode chegar a R$ 9,2 mil por estudante ao longo do ensino
médio, deve se combinar com escola em tempo integral, ensino técnico,
Institutos Federais e formação para os empregos da nova economia.
Há uma
tarefa decisiva para as campanhas estaduais, candidaturas parlamentares e
militância: o projeto nacional precisa ter endereço. Cada estado deve mostrar
quais investimentos recebeu, quais obras foram retomadas, quais políticas
chegaram aos municípios e o que o próximo governo fará naquele território. Não
basta reproduzir a mensagem nacional. É preciso responder a três perguntas: o
que mudou aqui, o que ainda não mudou e o que vamos fazer nos próximos quatro
anos para mudar.
É assim
também que se disputa o eleitor moderado, o indeciso e aquele que não se
considera lulista. Precisamos conversar com quem reconhece avanços, mas está
preocupado com a dívida; com quem tem emprego, mas não consegue crédito; com
quem usa o SUS e espera por um especialista; com quem teme a violência; com o
jovem que trabalha muito e não enxerga mobilidade; com o pequeno empresário
sufocado pelo custo financeiro. Ouvir essas pessoas não significa abandonar
nossas convicções. Significa demonstrar para que elas servem.
Lula
continua sendo o candidato mais preparado para conduzir esse novo ciclo porque
associa democracia, crescimento, valorização do trabalho e inclusão social e
porque seu governo tem resultados concretos. Mas a melhor defesa de um governo
não é o ufanismo. É reconhecer o que avançou, admitir o que ainda dói e
apresentar uma solução crível para o próximo passo. As pesquisas mostram uma
disputa competitiva. Isso exige menos autocomplacência e mais capacidade de
transformar programa em esperança concreta.
O
Brasil precisa defender sua soberania, reconstruir sua indústria, dominar
tecnologias estratégicas e proteger suas riquezas. Mas precisa fazer tudo isso
para que a vida do povo melhore. A grande política ganha sentido quando cabe no
carrinho do supermercado, na fatura do cartão, no salário, no ônibus, na
escola, na fila do SUS e na segurança da rua. É aí que a esquerda deve travar e
vencer a principal batalha desta eleição.
¨
Campanha de Lula demanda ajustes, ainda há tempo, mas não
parece que correção profunda será feita. Por Marco Damiani
A olhos
vistos na sociedade e diante das pesquisas na mídia, todos reconhecem que os
riscos para a reeleição do presidente Lula aumentam. A ofensiva bolsonarista em
todas as frentes, do STF à Casa Branca, o acirramento das interferências, a
desonestidade no discurso, as malas de dinheiro que começam a aparecer
destinadas a compra de votos, as distorções editoriais dos grandes grupos de
comunicação, entre outras adversidades, são chumbo é grosso para cima do
presidente.
Lula
resiste, mas com cada vez mais dificuldades. A avaliação negativa do governo
voltou a subir. Há dois meses o candidato não cresce nas pesquisas, e as retas
de desempenho dele e do filho de Jair Bolsonaro já se cruzam nas projeções de
segundo turno, com prejuízo para o presidente. Nos dois maiores colégios
eleitorais do País, o desempenho de Fernando Haddad, em São Paulo, e Patrus
Ananias, em Minas Gerais, está aquém do que se esperava.
Pesquisa
Quaest divulgada no último dia 14 indicou que o candidato da extrema-direita
está 16 pontos percentuais à frente do democrata na região Sudeste, a mais
populosa. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro passou de 43% para 47% das
preferências em relação ao levantamento divulgado pelo mesmo instituto em 7 de
setembro. Lula oscilou de 34% para 31%. Um balanço, dos dois lados, muito
acentuado em muito pouco tempo, amplamente favorável para o candidato ligado
historicamente às milícias do Rio de Janeiro. A agenda de Flávio Bolsonaro para
os próximos dias é a fazer uma razia nos estados do Sul e Sudeste, contando com
o apoio, em São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas, e do ex-juiz Sérgio
Moro, que lidera as pesquisas no Paraná.
Enquanto
isso, há queixas na campanha de Lula que incluem desde o básico, como falta de
materiais impressos nos estados para a sustentação da candidatura, até o mais
sofisticado – ajustar a linha política para a conquista do eleitor
independente, a partir da compreensão de que petistas e admiradores já estão
garantidos e firmes.
As
informações dão conta de que a campanha de Lula está muito burocratizada
internamente. O que se vê de fora é um presidente com ares de herói, pelejando
praticamente sozinho como o santo guerreiro contra o dragão da maldade. Ele vai
enfrentando de peito aberto todas as adversidades, pronunciando-se sobre tudo,
todos os dias, mas ao mesmo tempo parece um tanto solitário. O presidente não
tem um porta-voz de referência para acompanhá-lo e dividir a abordagem sobre a
pauta do dia-a-dia. À exceção do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que ativa
a política econômica diariamente, qual é mesmo o ministro que tem procurado
criar fatos, dar sustentação ao discurso do presidente e ser útil como anteparo
aos ataques que Lula sofre? Com a agenda jurídica dominando os debates e
definindo os rumos do eleitorado, o ministro da Justiça, Wellington César Lima
e Silva, é que não.
A
executiva do PT definiu que o momento é o de acirrar o enfrentamento com o
bolsonarismo. Ok. Sem uma estratégia mais ampla para Lula reconquistar a
confiança do eleitor independente, porém, talvez só isso não seja o suficiente.
A campanha saberá fazer as correções necessárias no seu conteúdo político?
Fonte:
Por José Dirceu, em Opera Mundi/Brasil 247



