sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A eleição será decidida na vida real

A campanha presidencial está entrando em sua fase decisiva com uma lição que não podemos ignorar: uma eleição nacional é uma disputa sobre o futuro do país, mas o eleitor julga esse futuro a partir da vida que leva no presente. O Brasil precisa discutir soberania, reindustrialização, transição energética, ciência e tecnologia e seu lugar no mundo. São agendas definidoras do que queremos e podemos ser no futuro. Mas esses temas só ganham força política quando chegam à mesa da família, ao salário, à prestação que vence no fim do mês, à fila do SUS, à escola dos filhos e ao medo da violência.

O presidente Lula tem resultados concretos para apresentar. O desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em julho, o menor patamar para o período na série do IBGE, com 103,3 milhões de pessoas ocupadas e 39,4 milhões de trabalhadores com carteira assinada. O salário mínimo voltou a ter aumento real e, desde janeiro, quem recebe até R$ 5 mil está isento do Imposto de Renda. Isso mexe diretamente com o orçamento familiar e confirma uma experiência histórica dos governos Lula, segundo a qual crescimento, emprego, renda e inclusão social precisam caminhar juntos.

Mas bons indicadores não eliminam as dificuldades da vida real. O trabalhador que conseguiu emprego pode continuar pagando uma dívida antiga a juros extorsivos. A família que teve ganho de renda pode seguir comprimida pelo cartão, aluguel, comida e crédito caro. Em agosto, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas; entre as que recebem até três salários mínimos, eram 85,1%, e 38,8% estavam inadimplentes. A campanha precisa partir dessa contradição, sem escondê-la.

É aí que o debate sobre os juros se mostra tão relevante. A Selic começou a cair, mas permanece em 14% ao ano, e o crédito cobrado das famílias custa muito mais. O endividamento vem em parte daí, assim como das bets, e não é explicado pela fórmula simplista de que a dívida de cada família seria consequência direta do gasto público. Há uma estrutura de juros, spreads, rotativo do cartão e crédito predatório que precisa ser enfrentada. Reduzir os juros, ampliar a renegociação de dívidas e devolver capacidade de consumo às famílias têm de estar no centro da agenda econômica.

A inflação exige a mesma franqueza. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto e os alimentos caíram, em média, 0,34% no mês. É uma boa notícia, mas nenhuma campanha deve dizer ao cidadão que sua percepção está errada. Preço é memória. A família compara o que consegue colocar hoje no carrinho com o que comprava antes. A disputa não será vencida numa guerra de etiquetas de supermercado, como tentou fazer recentemente Flávio Bolsonaro, mas mostrando como aumentar de forma duradoura a renda disponível: salário melhor, comida mais barata, imposto mais justo, menos juros e menos dívida.

Isso vale também para a soberania. Defendo uma estratégia nacional que proteja nossos recursos naturais, minerais críticos, energia, indústria de defesa e capacidade tecnológica. Um país como o Brasil não pode abrir mão disso. Mas a soberania não pode aparecer como uma palavra separada da vida do povo. Soberania é produzir aqui o remédio que falta no posto, o fertilizante da agricultura, o semicondutor da indústria, a tecnologia que gera empregos qualificados e a energia que chega com segurança e preço justo. Política de defesa também deve ser política industrial, tecnológica e de emprego. A soberania nacional precisa chegar à cozinha, à fábrica e ao contracheque.

É preciso, portanto, acertar também a hierarquia da comunicação. Uma questão pode ser estratégica para o Estado e, ainda assim, não ser aquela que mais mobiliza o eleitor naquele momento. Se uma campanha fala principalmente de ameaças externas enquanto a população está preocupada com a dívida, o preço da comida e o roubo do celular, abre espaço para que o adversário pareça mais próximo da vida cotidiana, mesmo quando oferece diagnósticos falsos e soluções ruins. Não precisamos imitá-lo. Precisamos disputar os mesmos problemas reais com respostas melhores e mais críveis.

Esse é o sentido da atualização programática que a esquerda deve oferecer. Não se trata de escolher entre o social e o desenvolvimento, mas de voltar a crescer para sustentar a elevação do padrão de vida, o Estado de bem-estar social e a redução das desigualdades. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre e 1,9% em quatro trimestres, mas a taxa de investimento estava em apenas 16,1% do PIB. Precisamos de um novo pacto nacional pelo crescimento, reunindo Estado, trabalhadores, empresários, universidades, agricultura e sistema financeiro em torno do investimento, da reindustrialização, da infraestrutura, da inovação e da transição energética.

E esse pacto precisa ser traduzido em compromissos claros: emprego de qualidade para os jovens, crédito para a pequena empresa, salário mínimo valorizado, formação profissional ligada à nova indústria, moradia, transporte e redução da jornada sem redução de salário. O fim da escala 6 por 1, por exemplo, é uma discussão sobre tempo, saúde, família e qualidade de vida. Trata-se de um exemplo notável de como a grande estratégia de desenvolvimento encontra a experiência concreta do cidadão.

Nenhum tema mostra essa necessidade com tanta força quanto a segurança pública. A violência é hoje a principal preocupação dos brasileiros: 31% a apontaram como o maior problema do país em pesquisa Quaest divulgada neste mês. Não podemos entregar esse terreno à extrema direita, nem responder ao medo real apenas dizendo que as soluções do adversário são simplistas. Reduzir a maioridade penal, prometer encarceramento em massa ou transformar segurança em espetáculo de força não desmonta a economia das facções. Mas a esquerda precisa dizer com clareza o que fará para que o trabalhador não tenha o celular roubado, uma mulher volte para casa em segurança e o crime organizado não controle territórios.

Há base concreta para essa resposta. O governo Lula propôs e sancionou a Lei Antifacção. A PEC da Segurança avança no Congresso propondo integração das forças, constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública e mais coordenação. A agenda deve combinar inteligência, investigação, controle de fronteiras, tecnologia, combate à lavagem de dinheiro e ao braço financeiro das facções, reforma e valorização das polícias, prevenção e punição efetiva dos criminosos violentos e dos chefes que comandam o crime de longe. Segurança pública não pode ser nem licença para matar nem licença para o crime.

Saúde e educação também precisam falar a linguagem do cotidiano. O cidadão quer saber quanto tempo vai esperar pela consulta, pelo exame e pela cirurgia. O “Agora Tem Especialistas” já contratou hospitais de 21 estados para realizar mais de 600 mil procedimentos gratuitos para pacientes do SUS. O próximo passo é transformar isso em compromisso mensurável de redução das filas, fortalecimento da atenção básica, Mais Médicos e atendimento no interior. Na educação, o Pé-de-Meia, que pode chegar a R$ 9,2 mil por estudante ao longo do ensino médio, deve se combinar com escola em tempo integral, ensino técnico, Institutos Federais e formação para os empregos da nova economia.

Há uma tarefa decisiva para as campanhas estaduais, candidaturas parlamentares e militância: o projeto nacional precisa ter endereço. Cada estado deve mostrar quais investimentos recebeu, quais obras foram retomadas, quais políticas chegaram aos municípios e o que o próximo governo fará naquele território. Não basta reproduzir a mensagem nacional. É preciso responder a três perguntas: o que mudou aqui, o que ainda não mudou e o que vamos fazer nos próximos quatro anos para mudar.

É assim também que se disputa o eleitor moderado, o indeciso e aquele que não se considera lulista. Precisamos conversar com quem reconhece avanços, mas está preocupado com a dívida; com quem tem emprego, mas não consegue crédito; com quem usa o SUS e espera por um especialista; com quem teme a violência; com o jovem que trabalha muito e não enxerga mobilidade; com o pequeno empresário sufocado pelo custo financeiro. Ouvir essas pessoas não significa abandonar nossas convicções. Significa demonstrar para que elas servem.

Lula continua sendo o candidato mais preparado para conduzir esse novo ciclo porque associa democracia, crescimento, valorização do trabalho e inclusão social e porque seu governo tem resultados concretos. Mas a melhor defesa de um governo não é o ufanismo. É reconhecer o que avançou, admitir o que ainda dói e apresentar uma solução crível para o próximo passo. As pesquisas mostram uma disputa competitiva. Isso exige menos autocomplacência e mais capacidade de transformar programa em esperança concreta.

O Brasil precisa defender sua soberania, reconstruir sua indústria, dominar tecnologias estratégicas e proteger suas riquezas. Mas precisa fazer tudo isso para que a vida do povo melhore. A grande política ganha sentido quando cabe no carrinho do supermercado, na fatura do cartão, no salário, no ônibus, na escola, na fila do SUS e na segurança da rua. É aí que a esquerda deve travar e vencer a principal batalha desta eleição.

¨      Campanha de Lula demanda ajustes, ainda há tempo, mas não parece que correção profunda será feita. Por Marco Damiani

A olhos vistos na sociedade e diante das pesquisas na mídia, todos reconhecem que os riscos para a reeleição do presidente Lula aumentam. A ofensiva bolsonarista em todas as frentes, do STF à Casa Branca, o acirramento das interferências, a desonestidade no discurso, as malas de dinheiro que começam a aparecer destinadas a compra de votos, as distorções editoriais dos grandes grupos de comunicação, entre outras adversidades, são chumbo é grosso para cima do presidente.

Lula resiste, mas com cada vez mais dificuldades. A avaliação negativa do governo voltou a subir. Há dois meses o candidato não cresce nas pesquisas, e as retas de desempenho dele e do filho de Jair Bolsonaro já se cruzam nas projeções de segundo turno, com prejuízo para o presidente. Nos dois maiores colégios eleitorais do País, o desempenho de Fernando Haddad, em São Paulo, e Patrus Ananias, em Minas Gerais, está aquém do que se esperava.

Pesquisa Quaest divulgada no último dia 14 indicou que o candidato da extrema-direita está 16 pontos percentuais à frente do democrata na região Sudeste, a mais populosa. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro passou de 43% para 47% das preferências em relação ao levantamento divulgado pelo mesmo instituto em 7 de setembro. Lula oscilou de 34% para 31%. Um balanço, dos dois lados, muito acentuado em muito pouco tempo, amplamente favorável para o candidato ligado historicamente às milícias do Rio de Janeiro. A agenda de Flávio Bolsonaro para os próximos dias é a fazer uma razia nos estados do Sul e Sudeste, contando com o apoio, em São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas, e do ex-juiz Sérgio Moro, que lidera as pesquisas no Paraná.

Enquanto isso, há queixas na campanha de Lula que incluem desde o básico, como falta de materiais impressos nos estados para a sustentação da candidatura, até o mais sofisticado – ajustar a linha política para a conquista do eleitor independente, a partir da compreensão de que petistas e admiradores já estão garantidos e firmes.

As informações dão conta de que a campanha de Lula está muito burocratizada internamente. O que se vê de fora é um presidente com ares de herói, pelejando praticamente sozinho como o santo guerreiro contra o dragão da maldade. Ele vai enfrentando de peito aberto todas as adversidades, pronunciando-se sobre tudo, todos os dias, mas ao mesmo tempo parece um tanto solitário. O presidente não tem um porta-voz de referência para acompanhá-lo e dividir a abordagem sobre a pauta do dia-a-dia. À exceção do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que ativa a política econômica diariamente, qual é mesmo o ministro que tem procurado criar fatos, dar sustentação ao discurso do presidente e ser útil como anteparo aos ataques que Lula sofre? Com a agenda jurídica dominando os debates e definindo os rumos do eleitorado, o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, é que não.

A executiva do PT definiu que o momento é o de acirrar o enfrentamento com o bolsonarismo. Ok. Sem uma estratégia mais ampla para Lula reconquistar a confiança do eleitor independente, porém, talvez só isso não seja o suficiente. A campanha saberá fazer as correções necessárias no seu conteúdo político?

 

Fonte: Por José Dirceu, em Opera Mundi/Brasil 247

 

O que Lula entrega ao Brasil – e o que Flávio Bolsonaro teria a oferecer?

alta menos de um mês. Em 4 de outubro os brasileiros irão às urnas em uma eleição que promete ser umas das mais disputadas da história do Brasil.

Há eleições em que se escolhe entre programas. Há outras em que se escolhe, antes de tudo, entre experiências de país. A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro não pode ser reduzida a uma guerra de slogans, sobrenomes e pesquisas de opinião. O que está em jogo é uma comparação concreta: de um lado, uma trajetória de governo que pode ser examinada, medida e criticada; de outro, uma candidatura cuja principal credencial é a continuidade de uma família política e de um campo ideológico que ainda precisa responder por suas escolhas.

Lula não chegou à Presidência como herdeiro de uma estrutura familiar. Chegou depois de décadas de militância sindical, organização popular e disputa democrática. Governou o Brasil em dois mandatos, entre 2003 e 2010, e voltou ao cargo em 2023. Não são vinte anos de governo, como às vezes se afirma, mas é uma experiência presidencial incomparavelmente mais extensa do que a de qualquer outro nome hoje lançado ao debate no campo bolsonarista.

Essa trajetória não transforma Lula em personagem acima da crítica. Ao contrário: quanto maior a experiência, maior a responsabilidade. Seus governos devem ser avaliados por resultados econômicos, políticas sociais, qualidade dos serviços públicos, compromissos fiscais e decisões tomadas ao longo dos anos.

Durante os primeiros governos Lula, o Brasil combinou crescimento econômico, expansão do emprego, valorização do salário mínimo e redução da pobreza. Programas de transferência de renda foram ampliados e integrados a uma política social de alcance nacional. Milhões de brasileiros passaram a ter maior acesso a universidades, institutos federais, crédito, mercado de trabalho e bens de consumo. A fome deixou de ser tratada como fatalidade privada e passou a ser enfrentada como problema de Estado.

Nada disso autoriza complacência. A desigualdade continua profunda. A qualidade dos serviços públicos permanece insuficiente. O país ainda enfrenta problemas de produtividade, violência, precarização do trabalho e concentração de renda. Mas reconhecer limites não exige negar conquistas. A política pública deve ser julgada pela vida concreta das pessoas, não pelo interesse de quem pretende transformar toda ação estatal em desperdício e toda política social em favor pessoal.

A dimensão internacional também importa. Lula devolveu ao Brasil uma presença diplomática compatível com o peso econômico, territorial e populacional do país. Sob sua liderança, o Brasil ampliou a interlocução com a América Latina, a África, a Europa, os Estados Unidos e as grandes economias emergentes da Ásia. O país voltou a participar ativamente de debates sobre fome, mudanças climáticas, desenvolvimento, reforma das instituições multilaterais e governança global.

Pode-se discordar de declarações, estratégias e resultados diplomáticos específicos. Isso faz parte do debate democrático. O que não se pode negar é que Lula trata a política externa como instrumento de soberania e desenvolvimento, e não como extensão de uma guerra cultural doméstica ou como demonstração de lealdade a líderes estrangeiros.

É nesse ponto que a comparação com o candidato Flávio Bolsonaro se torna incontornável.

Flávio Bolsonaro exerceu mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro e é senador desde 2019. Trata-se de uma experiência política real, mas essencialmente legislativa. O eleitor tem o direito de perguntar quais políticas nacionais ele formulou, que resultados administrativos liderou e qual projeto de governo está preparado para executar. Um país de dimensões continentais, marcado por desigualdades sociais e desafios econômicos complexos, não pode ser governado apenas por identidade ideológica, presença nas redes sociais ou fidelidade familiar.

Há ainda questões políticas e éticas que não podem ser simplesmente varridas para debaixo do tapete.

As suspeitas relacionadas à prática conhecida como “rachadinha” estiveram no centro de investigações envolvendo o antigo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

É preciso ser rigoroso: investigação não equivale a condenação, e responsabilidade penal depende de prova e julgamento conforme o devido processo legal. Mas também é incorreto sugerir que controvérsias dessa natureza deixem de ter relevância política. Um candidato à Presidência deve estar disposto a explicar sua atuação, suas relações e os fatos que marcaram sua trajetória pública.

Há ainda episódios mais recentes que exigem esclarecimento público. A proximidade de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, dirigente do Banco Master que protagonizou o maior escândalo financeiro que o Brasil já viu, e as notícias sobre o financiamento milionário do filme Dark Horse, levantaram questionamentos sobre relações entre política, instituições financeiras, produção cultural e interesses privados. A existência de contatos, apoio ou financiamento não prova, por si só, qualquer irregularidade. Mas, quando estão envolvidos um parlamentar, um banqueiro e cifras expressivas, a transparência deixa de ser uma questão opcional.

Quem participou das negociações? Qual foi a origem dos recursos? Houve contratos, garantias, intermediações ou contrapartidas? O parlamentar atuou apenas como apoiador político ou exerceu influência em favor de interesses empresariais? Houve comunicação com órgãos públicos, autoridades regulatórias ou instituições sob responsabilidade do Estado? Essas perguntas não configuram condenação antecipada. Configuram o mínimo de respostas que se pode exigir de alguém que pretende governar o país.

O problema é que a política brasileira já conhece bem o expediente da indignação seletiva. Para adversários, qualquer suspeita é apresentada como prova definitiva; para aliados, até relações documentadas são tratadas como perseguição. O padrão democrático deve ser outro: investigar tudo, divulgar documentos, seguir o dinheiro e responsabilizar quem tiver cometido ilícitos — seja qual for o partido, o sobrenome ou a posição econômica.

Flávio Bolsonaro não pode responder por crimes que não tenham sido provados, mas tampouco pode reivindicar imunidade política diante de conexões controversas. Se pretende apresentar-se como alternativa nacional, precisa explicar com clareza suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro do já liquidado e controverso Banco Master, a natureza do financiamento do filme Dark Horse e qualquer eventual participação sua ou de pessoas próximas nas tratativas. O silêncio pode ser uma escolha jurídica; politicamente, porém, não elimina as perguntas.

Também merece atenção a relação do bolsonarismo com o presidente estadunidense Donald Trump e com a extrema direita internacional. A aproximação política entre setores desse campo e o trumpismo não é um detalhe folclórico. Ela envolve uma concepção de poder baseada no confronto permanente com a imprensa, na deslegitimação das eleições, no ataque às instituições e na transformação do adversário em inimigo nacional.

Flávio Bolsonaro pode defender as alianças internacionais que considerar adequadas. Mas precisa explicar o que elas significariam para o Brasil. A política externa seria orientada pelos interesses nacionais ou por alinhamentos ideológicos? O país preservaria relações comerciais e diplomáticas com parceiros diversos ou adotaria uma postura de submissão a governos estrangeiros? Em um mundo atravessado por guerras, disputas tecnológicas, crises ambientais e reorganização das cadeias produtivas, o Brasil não pode trocar diplomacia por fotografia nem soberania por admiração política.

A diferença entre os dois nomes, portanto, não é apenas de estilo. Lula carrega uma experiência de governo que pode ser examinada em programas, indicadores, decisões e resultados. Flávio Bolsonaro carrega uma experiência legislativa e o sobrenome de uma família que dominou a política brasileira nos últimos anos, mas cuja relação com as instituições democráticas deixou perguntas ainda sem resposta satisfatória.

Experiência não é salvo-conduto. Lula deve ser cobrado por tudo o que fez, pelo que deixou de fazer e pelos problemas que permanecem. Mas crítica responsável não é sinônimo de falsa equivalência. Não há honestidade em colocar no mesmo plano uma trajetória presidencial de décadas e uma candidatura sustentada principalmente pela continuidade familiar e pela polarização política.

O eleitor brasileiro não precisa escolher entre propaganda e demonização. Precisa comparar. Deve perguntar quem já demonstrou capacidade de governar, quem apresenta propostas viáveis, quem respeita os limites institucionais e quem tem condições de representar o Brasil diante do mundo.

Lula pode ser criticado — e deve ser. Mas sua trajetória oferece um balanço concreto, com avanços, erros, contradições e resultados verificáveis. Flávio Bolsonaro também tem o direito de disputar a Presidência, mas não pode exigir que o país trate como experiência de governo aquilo que, até aqui, é sobretudo uma carreira parlamentar e uma herança política.

No fundo, a pergunta é simples: o Brasil deve escolher uma experiência de governo sujeita à crítica ou uma candidatura cuja principal força é o sobrenome? Responder a essa pergunta não exige paixão cega. Exige memória.

¨      Lula muda estratégia de campanha: “Quem vota em Flávio Bolsonaro vota em Vorcaro”

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu mudar o eixo da disputa presidencial e passou a orientá-lo a confrontar diretamente o candidato Flávio Bolsonaro (PL), com foco na investigação sobre recursos ligados ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL).

Segundo o blog do jornalista Valdo Cruz, no G1, integrantes da campanha petista avaliam que o debate em torno da crise no Supremo Tribunal Federal acabou desviando a atenção de um tema considerado mais sensível para Flávio: a apuração em curso no STF sobre valores solicitados ao empresário para a produção do filme.

A nova estratégia prevê que Lula deixe de delegar os ataques mais duros a aliados e à propaganda eleitoral e passe a assumir pessoalmente o embate com o adversário. Nesta semana, o presidente já adotou esse tom em discursos e entrevistas. “Flávio, onde está o dinheiro da corrupção do Master?”, questionou Lula.

Nas redes sociais ligadas ao PT, a mudança também apareceu em mensagens com o slogan “quem vota em Flávio vota em Vorcaro”. A tentativa é associar politicamente o candidato do PL ao empresário investigado e recolocar o caso Dark Horse no centro da campanha.

A ofensiva petista surge como resposta à estratégia adotada por apoiadores de Flávio Bolsonaro, que passaram a difundir a frase “quem vota em Lula vota em Moraes”, em referência ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. Para aliados de Lula, a pauta sobre o Supremo ganhou espaço excessivo nos últimos dias e acabou favorecendo o candidato do PL.

O comando da campanha discutiu diferentes alternativas para reagir ao cenário considerado adverso. Uma ala defendia que Lula mantivesse distância do confronto direto com Flávio e evitasse ampliar a crise institucional envolvendo o STF. Outra defendia que o presidente assumisse o embate e deslocasse o foco para a relação do adversário com Daniel Vorcaro.

Prevaleceu a segunda linha. Na avaliação de integrantes da campanha, o erro recente foi permitir que a disputa eleitoral ficasse concentrada na crise do Supremo, reduzindo o espaço para questionamentos sobre a investigação envolvendo o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro.

Assessores presidenciais afirmam que aliados de Flávio conseguiram impor uma pauta favorável ao senador desde as manifestações de Sete de Setembro. Dentro desse diagnóstico, petistas também atribuem parte do movimento a decisões do ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, que teriam ampliado a pressão sobre Alexandre de Moraes e beneficiado politicamente o candidato do PL.

Mendonça, no entanto, rejeita qualquer atuação político-partidária e nega ter participado de articulações em favor de qualquer candidato.

Segundo integrantes da campanha petista, Lula passou dias discutindo qual deveria ser sua posição pública em relação a Moraes. Para assessores do presidente, esse debate produziu um efeito indesejado: enquanto a campanha se concentrava no ministro do STF, Flávio Bolsonaro deixava de ser o alvo principal dos ataques.

A orientação agora é reduzir o protagonismo da crise do Supremo na disputa eleitoral e concentrar a ofensiva sobre Flávio, suas relações com Vorcaro e a investigação em andamento no STF. A expectativa do PT é conter o avanço do candidato do PL nas pesquisas e reposicionar a campanha em torno de temas considerados mais vulneráveis para o adversário.

¨      Governo Lula deu resposta firme às “exigências” dos EUA para as eleições

O governo do presidente Lula (PT) rejeitou sumariamente incluir nas negociações comerciais com os Estados Unidos uma exigência formulada pela gestão de Donald Trump referente à participação de supostos “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais brasileiras deste ano, informa o jornal O Globo. A tentativa de ingerência norte-americana constava de um documento entregue a representantes diplomáticos do Brasil em outubro de 2025, reunindo 21 demandas em meio aos diálogos sobre o tarifaço imposto contra os produtos nacionais.

A lista de exigências foi apresentada após Washington aplicar uma sobretaxa de 50% sobre bens de exportação brasileiros. Um dos pontos do documento estabelecia que o Brasil deveria se comprometer formalmente a realizar eleições presidenciais “livres e justas”, além de não deter, prender ou limitar “arbitrariamente” a atuação e a disputa eleitoral de “dissidentes políticos”.

A posição adotada pelas autoridades brasileiras foi a de recusar integralmente que assuntos de ordem política, soberana e institucional interna fizessem parte de tratativas comerciais entre as duas nações. Em virtude dessa postura firme, o texto norte-americano não foi acolhido e nem incorporado às negociações oficiais conduzidas pelos governos.

Ao anunciar a imposição do tarifaço em julho do ano passado, Trump havia associado publicamente a decisão ao tratamento dado pela Justiça brasileira a Jair Bolsonaro (PL), seu aliado, que na época respondia a uma ação penal por tentativa de golpe de Estado. Bolsonaro foi condenado em setembro pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Embora o documento de 21 pontos não citasse nominalmente o ex-mandatário, o teor da exigência dialogava diretamente com a sua situação política.

Além das menções ao processo eleitoral, o relatório do governo Trump apresentava exigências sobre a liberdade de expressão e sobre as decisões da Justiça brasileira que envolvia a atuação de plataformas digitais. O texto trazia também condicionantes relacionadas ao cumprimento de sanções financeiras impostas unilateralmente pelos Estados Unidos. Uma dessas cláusulas previa que o Brasil não aplicasse punições a instituições financeiras nacionais que acatassem medidas restritivas norte-americanas, no âmbito das discussões sobre a legislação extraterritorial conhecida como Lei Magnitsky.

Durante o período de apresentação do documento, Washington vinculava abertamente as tarifas impostas ao Brasil aos desdobramentos judiciais envolvendo Bolsonaro e às ordens do STF dirigidas às empresas de tecnologia dos EUA. Em contrapartida, o governo Lula acusava publicamente as autoridades norte-americanas de interferir nos assuntos internos do país e de instrumentalizar medidas de comércio internacional como mecanismo de coerção e pressão política.

Sem a incorporação das demandas políticas impostas pelos Estados Unidos, as negociações bilaterais prosseguiram. Em novembro, o Brasil encaminhou a Washington uma contraproposta delimitando exclusivamente os temas econômicos que aceitava discutir. Os dois países seguem em tratativas, havendo a previsão de uma nova rodada de conversas para o fim deste mês, à margem da reunião do G20.

A sobretaxa original que motivou o impasse consistia em uma alíquota adicional de 40% anunciada por Trump em julho do ano passado que, somada à taxa de 10% então em vigor, elevou para 50% a cobrança sobre parte das exportações brasileiras. Embora a medida tenha sido derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro deste ano, Washington voltou a aplicar novas sobretaxas ao Brasil meses depois, justificando a decisão com alegações ligadas a práticas comerciais consideradas desleais, a questões ambientais e à atuação do país no combate ao crime organizado.

 

Fonte: Maria Luiza Falcão, na Fórum/Brasil 247

 

Por que o Brasil sempre abre a Assembleia Geral da ONU

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva anunciou na quarta-feira (17/9) que irá para Nova York no domingo para a Assembleia Geral da ONU.

"No domingo, eu vou para a reunião da ONU para ter um bate-papo com o [presidente americano Donald] Trump e dizer: não se meta nas eleições do Brasil. O Brasil só tem um dono, que é o povo brasileiro", disse Lula.

Na próxima terça-feira, dia 22, quando subir à tribuna da Assembleia Geral da ONU, Lula será o primeiro chefe de Estado a fazer um discurso no evento de 2026 — algo que se repete a cada ano no mais importante debate diplomático global.

Mas, afinal, por que cabe sempre ao Brasil o papel de iniciar o evento?

A resposta está menos em regras escritas e mais em tradição diplomática.

Segundo o livro O Brasil nas Nações Unidas, 1946-2011, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão no aniversário de 50 anos da ONU, a prática teria começado em 1949, em meio ao clima de confronto da Guerra Fria, justamente para evitar dar primazia aos Estados Unidos ou à União Soviética.

Desde então, tornou-se praxe: antes de abrir a lista de oradores, o secretário-geral envia uma nota à missão brasileira perguntando se o país deseja manter a tradição.

A resposta invariavelmente positiva mantém viva uma prática que "honra e distingue o Brasil", nas palavras da publicação.

Ainda conforme o livro, essa circunstância consolidou na diplomacia brasileira a percepção de que o discurso de abertura possui peso estratégico.

Segundo a publicação, ao contrário da maioria das delegações, que costumam centrar-se em questões tópicas, o Brasil passou a usar esse espaço para fazer análises mais amplas da conjuntura internacional, projetando sua visão de mundo e defendendo temas estruturais, como o combate à fome, o desenvolvimento e a reforma de instituições multilaterais.

<><> Tradição com 'raízes formais'

Segundo Lucas Leite, professor da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), essa tradição também tem raízes formais: "O Brasil foi muito importante na constituição da Carta da ONU e nas discussões para a criação da organização. O diplomata Oswaldo Aranha teve papel essencial na primeira Assembleia Geral, inclusive conduzindo o processo que levou à criação do Estado de Israel. Além disso, a diplomacia brasileira sempre foi respeitada como capaz de mediar conflitos e criar consensos, o que ajuda a explicar a continuidade dessa tradição".

O gesto também dialogava com o papel que o país buscava exercer no pós-guerra: uma voz ativa no multilateralismo, mesmo sem figurar entre as grandes potências vencedoras do conflito.

"Existe um argumento de que isso funcionou como uma espécie de prêmio de consolação, já que o Brasil não entrou como membro permanente do Conselho de Segurança, principalmente por resistência da União Soviética e de países europeus. Mas, mais do que isso, mostra a confiança que os países depositavam na diplomacia brasileira", complementa Leite.

Desde 1955, o Brasil passou a abrir de maneira constante o Debate Geral, seguido pelo país anfitrião, os Estados Unidos. O arranjo deu estabilidade ao protocolo: depois desses dois, a ordem dos discursos é definida por critérios como o nível da autoridade presente, equilíbrio geográfico e ordem de inscrição.

A tradição atravessou décadas, com raríssimas exceções motivadas por atrasos ou ajustes de agenda. Em 1983 e 1984, por exemplo, os EUA falaram antes do Brasil; em 2016, o segundo lugar coube ao Chade, porque o presidente americano não chegou a tempo.

<><> Vitrine brasileira

Mais do que uma curiosidade protocolar, a abertura dos discursos na ONU dá ao Brasil uma visibilidade singular. É uma vitrine para projetar sua política externa, expor prioridades nacionais e marcar posição em temas globais diante de chefes de Estado, diplomatas e da imprensa internacional. "Essa tradição pode ser entendida como simbólica, sim, mas também como um elemento concreto de poder do Brasil", observa Leite.

O professor aponta que o país sempre defendeu a solução pacífica de controvérsias, o papel das instituições e o multilateralismo. "Nesse sentido, o simbolismo se traduz em prática: ser o primeiro a falar garante que o Brasil seja ouvido."

"Brinco às vezes dizendo que muitos não estão ali para ouvir o representante brasileiro, mas sim o americano, que fala logo depois. Mas como já estão sentados, o Brasil acaba tendo mais repercussão do que outros países, que falam em dias seguintes, em momentos de menor atenção", complementa Paulo Velasco.

É, portanto, segundo os especialistas, uma tradição que beneficia o país e coloca o Brasil sob os holofotes. "Podemos dar recados, às vezes com maior contundência, às vezes menos, mas sempre em um espaço privilegiado", diz Velasco.

Ao longo das décadas, a diplomacia brasileira oscilou entre diferentes linhas: de uma lógica americanista, alinhada aos Estados Unidos, até uma postura mais globalista, promovendo autonomia e desenvolvimento dos países do Sul Global.

Segundo Leite, "essa 'pendulação' é visível nos discursos do Brasil na Assembleia Geral. Mesmo governos não alinhados à esquerda, como Temer, Fernando Henrique ou Sarney, repetiam linhas mestras: desenvolvimento, combate à pobreza, meio ambiente e democracia. Já a exceção foi o governo Bolsonaro, que adotou discurso populista e subserviente aos EUA, negando o multilateralismo".

Historicamente, defende Leite, os discursos brasileiros ajudam a definir o tom do debate, chamando atenção para fome, pobreza, reforma de instituições globais e missões de paz. "Simbolicamente e na prática, o Brasil representa uma ponte entre mundos: Ocidente e Oriente, Norte e Sul, autonomia e desenvolvimento".

<><> O Brasil e a ONU

O Brasil é um dos 51 membros fundadores das Nações Unidas, tendo depositado sua ratificação da Carta da ONU em 21 de setembro de 1945. A Missão Permanente do Brasil junto à ONU em Nova York representa o país nas principais áreas de atuação da Organização: paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos.

Em 1947, o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha presidiu a 1ª sessão especial da Assembleia Geral da ONU, sobre Palestina, e presidiu a 2ª sessão da AGNU. O país, desde 1955, profere o discurso de abertura do Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas. 

O Brasil foi um dos pouquíssimos países a contar com mulheres na delegação na Conferência de São Francisco, onde foi assinada a Carta da ONU. Bertha Lutz foi cientista, parlamentar e diplomata. Graças à sua atuação, e à da dominicana Minerva Bernardino, a igualdade de gêneros está inscrita como princípio na Carta da ONU.

O Brasil já participou do Conselho de Segurança em 11 mandatos, como membro não permanente, nos seguintes períodos: 1946-1947; 1951-1952; 1954-1955; 1963-1964; 1967-1968; 1988-1989; 1993-1994; 1998-1999; 2004-2005; 2010-2011; 2022-2023. O Brasil é o segundo país com maior número de participações no Conselho, atrás do Japão. Do Conselho Econômico e Social, ECOSOC, participou em: 1948-1950; 1956-1958; 1960-1962; 1970-2003; 2005-2010; 2012-2017; 2019-2021; e 2023-2025. Foi eleito para voltar no período 2027-2029.

 

O Brasil é membro fundador da ONU e atua como ponte de diálogo entre o Sul Global e o Ocidente, com foco em multilateralismo, reforma da governança global e combate à fome.

>>> Paz e Segurança Internacional

  • Conselho de Segurança (CSNU): Eleito 11 vezes (mandato mais recente em 2022–2023), é um dos países não permanentes com mais mandatos na história do órgão. Luta por um assento permanente.
  • Missões de paz: Participa desde 1948 (mais de 30 missões), com destaques históricos na MINUSTAH (Haiti, 2004–2017) e na UNIFIL (Líbano).

>>> Desenvolvimento Sustentável e Fome

  • Liderança social: Protagonista na Aliança Global contra a Fome e a Pobreza (impulsionada pelo G20).
  • Modelos exportados: Programas como Bolsa Família, PAA e Merenda Escolar servem de referência técnica para mais de 70 países em parceria com agências da ONU.

>>> Direitos Humanos e Inclusão

  • Alinhamento interno e externo baseado em marcos como o SUS, Lei Maria da Penha, Estatuto da Igualdade Racial e ECA.

>>> Governança Global

  • Defesa constante da reforma do Conselho de Segurança e de instituições financeiras/multilaterais para ampliar o peso de países em desenvolvimento.

<><> PRIMEIRO A DISCURSAR

O Brasil não abre os trabalhos oficiais da ONU (a sessão é aberta pelo Secretário-Geral e pelo Presidente da Assembleia Geral), mas é o primeiro país a discursar no Debate Geral anual desde 1955, seguido pelos Estados Unidos (país-sede).

Essa primazia não está escrita em regras formais, mas em uma tradição diplomática consolidada. As principais razões e teorias incluem:

>>> 1. Voluntariado inicial (Guerra Fria)

  • Nos primeiros anos da ONU (criada em 1945), muitos países relutavam em inaugurar os discursos por expor posições polêmicas em um cenário tenso de pós-guerra e Guerra Fria.
  • O Brasil se voluntariou em sessões como 1949, 1950 e 1951, fixando o hábito de se inscrever primeiro. Desde 1955, o arranjo virou costume constante.

>>> 2. O papel de Oswaldo Aranha

  • O diplomata brasileiro presidiu a Primeira Assembleia Geral Especial (1947) e a Segunda Ordinária (1947), marcadas pela partilha da Palestina e criação de Israel.
  • A atuação de Aranha deu grande prestígio inicial ao Brasil na condução dos debates.

>>> 3. "Prêmio de consolação" geopolítico

  • O Brasil ficou de fora de um assento permanente no Conselho de Segurança em 1945 (com resistência da União Soviética e de europeus).
  • A primazia na tribuna funcionou como reconhecimento simbólico do peso diplomático brasileiro no multilateralismo.

>>> 4. Perfil de "ponte" global

  • A diplomacia brasileira consolidou-se historicamente como neutra ou mediadora entre blocos (Ocidente/Oriente, Norte/Sul), o que dava estabilidade protocolar para abrir o debate global antes das grandes potências.

<><> Exceções à regra

>>>> 1983 e 1984: Os Estados Unidos falaram antes do Brasil.

>>>> 2016 e 2018: O Chade (2016) e o Equador (2018) falaram em 2º lugar porque o presidente americano atrasou, mantendo o Brasil em 1º.

¨      O que é a Assembleia Geral da ONU e para que ela serve?

A Assembleia Geral das Nações Unidas, principal órgão deliberativo da ONU, realiza sua 80ª edição em meio a um período de turbilhão na diplomacia global.

A sessão deste ano, que teve início em 9 de setembro, conta com delegações de todos os 193 Estados-membros da ONU, que têm representação igual em uma base de "um Estado, um voto". A partir do dia 23 deste mês, o debate sobe um degrau e passa a ocorrer entre representantes de alto nível dos países.

É nesta data que acontecerá o tradicional discurso de chefes de governo, o Debate Geral, na sede da organização em Nova York. Tradicionalmente, a cúpula é aberta por um representante brasileiro, neste caso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao contrário de outros órgãos da ONU, como o Conselho de Segurança, todos os membros têm o mesmo poder para votar resoluções na Assembleia Geral, único fórum onde todos os países estão representados. Muitas delas, porém, não são vinculativas, e se restringem ao posicionamento formal dos países.

<><> O que é discutido na Assembleia Geral?

Há uma ampla agenda discutida em cada Assembleia Geral, que normalmente inclui questões políticas, econômicas, sociais, ambientais e de segurança.

A Assembleia também recebe eventos independentes, como cúpulas sobre clima, economia global e atualizações sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que foram adotados pela ONU em 2015 como um chamado à ação para acabar com a pobreza e proteger o planeta.

Na agenda de Lula, por exemplo, estão previstas cúpulas sobre os territórios palestinos e encontros preparativos à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que ocorre em Belém em novembro.

Este ano também haverá o lançamento de um novo diálogo sobre governança internacional para inteligência artificial.

<><> Assembleia sob pressão de disputas internacionais

Embora o objetivo da Assembleia Geral seja reunir todos os Estados-membros para estabelecer consensos, o evento é sempre atravessado pelo contexto dos assuntos globais atuais. Este ano, a cúpula acontece diante do agravo de conflitos em andamento, como a guerra na Ucrânia e a ofensiva de Israel em Gaza, além de uma disparada do protecionismo e da guerra comercial fomentada pelos EUA.

Edições recentes também ocorreram em meio a retrocessos democráticos em algumas regiões do mundo. "Há um retrocesso geral da democracia em vários Estados", disse à DW Diana Panke, professora de Relações Internacionais da Universidade Livre de Berlim. "Esse é um aspecto que torna a dinâmica da mais difícil e desafiadora."

Prioridades e dinâmicas de poder em mudança, como a ascensão da China e sua crescente lista de aliados por meio da expansiva iniciativa Nova Rota da Seda, bem como a abordagem cada vez mais reclusa dos EUA em relação a órgãos internacionais, também podem influenciar os procedimentos e a redação final das resoluções. No encontro deste ano, as tensões se iniciaram já em agosto, com o veto americano à concessão de vistos para representantes da Autoridade Palestina participarem do encontro.

<><> Quem dirige a Assembleia Geral?

Todos os anos, um novo presidente dos trabalhos da Assembleia Geral da ONU é eleito a partir de um dos cinco grupos geográficos representados no órgão.

O presidente é responsável por abrir e encerrar debates, bem como por facilitar discussões e regular o tempo de fala.

<><> As resoluções não são vinculantes. Então, qual é o objetivo da Assembleia Geral?

Um ponto da Assembleia Geral da ONU é que suas resoluções não obrigam os Estados a agir, já que nenhum desses acordos é vinculante.

Isso significa que um país pode apoiar todas as resoluções aprovadas na Assembleia, mas nunca seguir ou implementar os princípios acordados. Um exemplo é a resolução amplamente aceita para a constituição de um Estado palestino, aprovada neste mês, mas que não tem efeitos práticos.

A natureza não vinculante da tomada de decisões na Assembleia Geral levou a críticas sobre sua eficácia nos últimos anos.

Para Panke, as resoluções ainda proporcionam uma plataforma para que as nações indiquem sua posição e preparem o terreno para construir acordos mais contundentes e juridicamente vinculativos. "Eles podem iniciar o processo no contexto da Assembleia Geral e, posteriormente, convocar uma Conferência das Partes e aprovar um tratado internacional juridicamente vinculativo", disse Panke. Um não necessariamente exclui o outro.

A especialista também destacou que as resoluções formadas na cúpula têm poder normativo, apesar de sua natureza não vinculante. "Elas estabelecem padrões de adequação pelos quais o público pode responsabilizar os Estados."

 

Fonte: BBC News Brasil/Gov.BR/DW Brasil

 

O Supremo de Fachin, a vergonha de Cármen

A última sessão do Supremo foi um espetáculo medíocre, de gosto duvidoso e frustrante para 10 em cada 10 que acreditavam ser aquela uma sessão para entrar na história. Essa minha impressão se consolidava a cada hora: Edson Fachin havia puxado para a Presidência um volume de poder quando demonstrava pouca capacidade para liderar o colegiado.

O homem que deveria enxergar o todo escolheu uma posição dentro da fratura. Presidiu a crise como parte dela. Deu no que deu: ministros de bronze não conseguem criar um tribunal de ouro.

Esse foi, para mim, o ponto central da sessão.

Fachin recolheu processos sensíveis para perto de sua mesa, suspendeu decisões, assumiu relatoria e fez da Presidência filtro obrigatório de procedimentos capazes de alcançar seus próprios ministros. Poder concentrado exige autoridade proporcional. Na sessão ocorreu o contrário: quanto mais poder aparecia reunido em sua cadeira de presidente, menor parecia sua capacidade de produzir unidade entre os onze. Menos, entre os 10. Menos ainda, entre os oito que protagonizaram o deprimente espetáculo.

A abertura prometia serenidade, colegialidade e respeito.

Poucas minutos depois, o plenário oferecia interrupções, ironias, acusações cruzadas, discussão sobre apartes, impedimentos, suspeições, grosserias, competência e relatoria.

Fachin precisava simultaneamente presidir os ministros e defender Fachin. A sobreposição contaminou a condução. Flávio Dino chamou a sessão de desastrada. O adjetivo dispensou esforço de comprovação. gostaria Dino estivesse errado. Não estava.

<><> Poder sem centro

Entre o fim de agosto e 15 de setembro, a Presidência ampliou sua presença na crise.

A Petição 16.662, originada de relatório da Polícia Federal com dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, estivera sob relatoria de André Mendonça.

Fachin abriu a Petição 16.704, suspendeu decisões de Mendonça e Dino, sobrestou a 16.662, suspendeu procedimento de controle externo da PGR e, em 12 de setembro, assumiu a relatoria da 16.662, além de determinar o envio à Presidência das Petições 15.041 e 15.556, relativas ao INSS e ao Banco Master, com processos relacionados.

Três dias depois, conduzia o julgamento. Antes precisava ter se conduzido melhor.

A sequência importa: o Regimento fala em duas direções.

O artigo 13 entrega ao presidente o dever de velar pelas prerrogativas do Tribunal. Mas a que prerrogativas ele se referia? Tendo como pano de fundo o processo de liquidação do banco Master e o Escorpião-rei Daniel Vorcaro, a lista dos supremos ministros que merecem serem investigados não ficou restrito apenas a Alexandre de Moraes, André Mendonça e Dias Toffoli, juntaram-se a ele Kassio Nunes e Luiz Fux. A menos que metade da composição atual do STF, uma vez que a vaga de Luiz Roberto Barroso ainda não foi preenchida.

Se fôssemos levar ao pé da letra o próprio regimento interno no Supremo, todos os cinco deveriam se sentir impedidos. O avanço das investigações já coloca luz potente sobre Morais, Mendonça e Toffoli.nas próximas semanas avançarão sobre Nunes e Fux.

O artigo 66 do Regimento da Corte estabelece distribuição por sorteio ou prevenção; o 67 determina a distribuição e excetua o presidente.

O problema começa quando a defesa institucional vira fundamento elástico para concentrar relatorias e procedimentos que nasceram em outras mãos.

Fachin precisava demonstrar com solidez por que aquela arquitetura preservava o juiz natural, a distribuição regimental e o devido processo. Não conseguiu. Gilmar Mendes propôs reunir as Petições 16.662 e 16.704, sortear novo relator, identificar formalmente os magistrados citados e só depois abrir prazos às manifestações. Fachin resistiu. Dino questionou a inexistência de previsão regimental para “avocação” de processos pelo presidente.

O plenário terminou discutindo o caminho antes de alcançar o mérito.

A Presidência falhou exatamente aí. O rito deveria estar amadurecido. Os impedimentos, mapeados. A Corte chegou ao caso mais explosivo de sua agenda recente sem consenso sobre quem deveria relatar, quem poderia votar e se os procedimentos deveriam caminhar juntos.

Fachin centralizou processos e descentralizou autoridade. A imponente cadeira presidencial se transformou em cadeira de praia, dessas que se dobram se colocam no bagageiro do carro.

<><> Vergonha em plenário

Cármen Lúcia percebeu o desastre, mas sua resposta me pareceu igualmente pobre. Falou em tristeza, consternação, vergonha, serenidade, respeito e pediu desculpas ao povo brasileiro. Concordo com quase todas essas palavras.

Quem desejaria uma Suprema Corte sem equilíbrio, respeito entre seus membros, conhecimento jurídico e senso de justiça? Nesse trecho faço parte da entidade “povo” invocada pela ministra. A essas alturas, já se pode colocar em seu verbete biográfico como Platitude Duprena do STF. Isso porque não quero pegar pesado demais. Gosto da ministra, dentro de outras coisas, porque nós dois admiramos o autor de grande sertão veredas. Já demos até uma palestra juntos sobre o grande Roma que criou a palavra nonada para abrir sua obra-prima. Paro por aqui. Porque a sessão de ontem tinha tudo menos a boa e inconfundível literatura do Rosa.

Cármen estava ali para julgar. Seu voto exigia Constituição, Regimento, precedentes e resposta frontal às objeções levantadas contra Fachin.

Em vez disso, entregou uma manifestação repetitiva, redundante, coisa de quem procura a terceira margem do rio .

Seu voto — se é que podemos chamar aquilo de voto — chegou carregado de sentimentos e mais próxima de comentário cívico do que de voto de Suprema Corte.

Faltou explicar juridicamente por que a relatoria deveria permanecer com o presidente, por que a distribuição regimental cederia naquele caso e por que a questão de ordem deveria ser rejeitada. ao contrário saiu-se com essa: “A pauta é do presidente e eu costuma acompanhar o presidente e acompanhar o relator”.

É isso que a sociedade brasileira espera de alguém que vira e mexe tem que julgar os destinos do país?

Em vários momentos, Cármen parecia falar do Supremo como quem observa a Corte da calçada.

Estava, porém, sentada dentro dela, com um voto capaz de definir seu rumo. Repetiu sua vergonha enquanto deixava quase intacto o núcleo jurídico que produzira parte daquela vergonha. E falou tanto de sua vergonha que sentia até uma vergonha alheia do tamanho do Brasil.

Carmen falou para a plateia num tribunal cujos integrantes não disputam eleições: recebem enorme poder para fundamentar decisões, não para procurar aplausos. em certo momento pensei comigo “talvez ela esteja fazendo o que gosta de fazer, facilitar o trabalho de edição do Jornal Nacional” E foi o que aconteceu. sua fala serviu de escada para que o telejornal continuasse o trabalho de destruir o STF, insuflando na população contra a Corte. Bem Organizações Globo.

As mensagens extraídas do celular de Vorcaro, as referências a ministros, as acusações cruzadas e a disputa em torno da Polícia Federal exigiam precisão cirúrgica.

Seu significado jurídico segue contestado e exige rigor.

Diante disso, frases de conciliação servem pouco. A Constituição serve mais.

Ao final, Fachin concentrou mais poder do que conseguiu administrar; Cármen ofereceu mais emoção do que fundamentação; e o Supremo passou horas expondo sua divisão sem alcançar o mérito.

Dino pediu vista. A crise ficou onde estava, acrescida de outra: a dificuldade do próprio Tribunal para definir as regras pelas quais pretende julgá-la.

Fachin trouxe a crise para perto demais de sua cadeira e acabou levando sua cadeira para dentro da crise.

Esse foi, para mim, o retrato mais inquietante de 15 de setembro.

•        O conflito entre Mendonça e Moraes: dividir para reinar. Por Tamara Tania Cohen Egles

O conflito entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes pode ser compreendido como politicamente produzido: trata-se da velha estratégia de dividir para reinar.

Para compreender a complexidade dos acontecimentos, é necessário considerar que estamos diante de um amplo conjunto de atores e instituições, de diferentes processos de informação e comunicação e de narrativas que selecionam, representam e reinterpretam os fatos. No espaço público, entretanto, o que aparece em primeiro plano é, sobretudo, um embate entre dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Essa interpretação parece insuficiente diante da complexidade dos processos em curso.

A primeira pergunta que devemos formular é: quem vaza as informações e a quais interesses esses vazamentos atendem?

Cabe à Polícia Federal investigar os fatos. Entretanto, informações relacionadas às investigações são vazadas, publicadas e rapidamente transformadas em acontecimentos públicos. Antes mesmo que as instituições responsáveis concluam a apuração, elas já circulam pelas plataformas digitais, são processadas por sistemas algorítmicos e incorporadas às disputas políticas.

Não podemos ignorar, nesse processo, a participação das big techs, que possuem enorme capacidade de registrar, organizar e processar dados referentes aos comportamentos, sentimentos e modos de comunicação dos usuários do espaço digital. Mensagens, deslocamentos, desejos, preferências e emoções alimentam continuamente os bancos de dados das plataformas.

Isso significa que uma parcela expressiva de nossas interações digitais permanece registrada e pode ser processada por sistemas algorítmicos. Não se trata de afirmar que os algoritmos “sabem tudo”, mas de reconhecer que as plataformas dispõem de extraordinária capacidade para identificar padrões de comportamento, conexões entre atores, circulação de mensagens e formação de redes. Podem, portanto, apreender determinadas dimensões das relações sociais antes mesmo que elas sejam plenamente compreendidas pelas instituições públicas.

Nesse sentido, é preciso deslocar o olhar.

Existe uma articulação internacional de movimentos e lideranças de extrema direita que vem conquistando importantes espaços eleitorais em diferentes países e estabelecendo conexões políticas e comunicacionais transnacionais. No Brasil, a família Bolsonaro e outros atores políticos participam dessas redes de articulação (Egler, 2023).

Também são conhecidas as relações entre o sistema político e as corporações-plataformas, analisadas por diferentes autores, entre os quais Pessanha, Varoufakis e Zuboff. Essas contribuições permitem formular uma questão mais abrangente: quais relações se estabelecem entre o sistema político e os interesses das big techs?

Essa questão é fundamental.

As plataformas não apenas viabilizam a comunicação. Elas organizam a visibilidade das informações, selecionam conteúdos, estabelecem hierarquias de relevância e interferem na formação da atenção pública. Dessa maneira, participam da própria constituição do campo político.

É a partir dessa perspectiva que podemos formular nossa hipótese.

O conflito entre Mendonça e Moraes não deve ser analisado apenas como uma divergência pessoal ou institucional entre os dois ministros. Pode ser compreendido como parte de um processo mais amplo de produção política de conflitos, alimentado pela circulação seletiva de informações e por sua amplificação no espaço digital. Nesse contexto, a intervenção do presidente do STF, Edson Fachin, em defesa da unidade institucional, também deve ser compreendida como parte da dinâmica em curso.

Podemos, então, enunciar uma hipótese mais abrangente: a produção e a amplificação desses conflitos podem contribuir para desestabilizar as instituições democráticas em um momento particularmente sensível, às vésperas das eleições de 2026.

Essa perspectiva permite compreender como dois ministros podem ser colocados em campos opostos, convertendo-se divergências em um conflito institucional de grandes proporções. O resultado pode ser o enfraquecimento das instituições responsáveis pela defesa da ordem democrática, justamente quando o país se aproxima de uma eleição decisiva.

Por isso, talvez o principal desafio seja não observar apenas aquilo que aparece imediatamente diante de nossos olhos.

É preciso examinar as redes, seguir os atores, identificar quem produz e quem faz circular as informações, compreender quais narrativas são amplificadas e perguntar a quem elas beneficiam politicamente.

O desafio consiste em ver e interpretar o que está acontecendo para não morder a isca.

 

Fonte: Por Washington Araújo, em Brasil 247