terça-feira, 22 de setembro de 2026

ONU recebe alerta sobre ingerência dos EUA na eleição no Brasil

A ONU recebeu neste fim de semana alertas com relação às possíveis ingerências dos EUA contra as eleições no país. O documento, encaminhado pelo Instituto Vladimir Herzog, chega ao gabinete do secretário-geral da ONU, António Guterres, no dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca para participar, em Nova York, da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Cópias ainda foram enviadas para o Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Turk.

No texto, obtido com exclusividade pelo ICL Notícias, a entidade de direitos humanos no Brasil faz um relato detalhado dos episódios de ataque contra a democracia do país por parte do governo de Donald Trump. O documento também revela como a Abin chegou a soar o alerta em relação à ingerência.

A carta faz parte de uma ação coordenada por parte de diferentes movimentos da sociedade civil para mobilizar a comunidade internacional para reconhecer o resultado da eleição brasileira. O temor é de que, numa eventual vitória de Lula, o governo Trump e seus aliados de extrema direita se recusem a aceitar o resultado das urnas.

O objetivo da carta, portanto, é o de soar o alerta na mais alta instância da ONU e pedir que Guterres conclame países a reconhecer o resultado da eleição no Brasil.

Rogério Sottili, diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, revela que, entre 20 e 24 de julho deste ano, participou da Delegação da Sociedade Civil Brasileira em Defesa das Eleições e da Democracia, recebida em Washington e Nova York e integrada por quinze organizações brasileiras.

“Reunimo-nos com congressistas democratas e republicanos, representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, diplomatas e organizações da sociedade civil”, disse Sottili. “Voltamos dessa última missão com uma preocupação ainda maior”, constatou.

“Entendemos que já existem sinais concretos de uma dinâmica de ingerência externa sobre o processo político e eleitoral brasileiro e de uma tentativa de condicionar decisões soberanas tomadas por nossas instituições”, disse.

A questão de um eventual não reconhecimento do pleito no Brasil foi um dos aspectos alertados:

“Mais grave ainda: tememos que, caso essas pressões não produzam o resultado político pretendido antes da eleição, possam ser sucedidas por uma estratégia destinada a desacreditar o pleito, questionar sua legitimidade, retardar seu reconhecimento internacional e produzir instabilidade política depois da votação”, alertou o diretor.

O pacote de medidas tomado pelos EUA contra o Brasil, segundo a carta, “reúne várias características associadas às formas contemporâneas de coerção e guerra híbrida”.

“Em nossa avaliação, existe um risco que precisa ser considerado seriamente: que essas ferramentas sejam utilizadas para influenciar o ambiente eleitoral brasileiro em benefício de atores politicamente alinhados à administração estadunidense e que, caso o resultado das urnas seja contrário a essa expectativa, a estratégia se desloque para uma segunda etapa — a alegação de fraude, a deslegitimação das instituições e o eventual não reconhecimento do resultado”, disse.

O não reconhecimento internacional da eleição, segundo a entidade, é “particularmente perigoso”. “A proclamação do resultado eleitoral brasileiro é uma atribuição soberana das instituições brasileiras e sua validade não depende da chancela de nenhum governo estrangeiro”, disse.

“Entretanto, a experiência de 2022 mostrou que o reconhecimento internacional rápido contribuiu para reduzir o espaço político das narrativas de fraude e de ruptura institucional”, apontou o documento,.

O alerta do Instituto é de que, em 2026, “o silêncio, a hesitação ou o questionamento coordenado do resultado por governos estrangeiros podem produzir o efeito inverso: alimentar redes de desinformação, oferecer legitimidade externa à contestação interna e prolongar artificialmente um conflito eleitoral”.

“Por isso, entendemos como medida concreta e preventiva que todos os países reconheçam imediatamente o resultado oficialmente proclamado pela Justiça Eleitoral brasileira, independentemente do candidato vencedor”, pediu a entidade.

O grupo pede a Guterres que atue em cinco frentes:

  1. Reafirmar publicamente os princípios da soberania, da não intervenção e do direito exclusivo do povo brasileiro de escolher livremente seus governantes;
  2. Conclamar os Estados-membros das Nações Unidas a respeitar prontamente o resultado oficialmente proclamado pela Justiça Eleitoral brasileira, independentemente do candidato vencedor;
  3. Acompanhar, dentro dos mandatos pertinentes do Sistema das Nações Unidas, sinais de ingerência externa, manipulação informacional transnacional e pressões sobre as instituições democráticas brasileiras;
  4. Defender a independência, a autonomia técnica e a integridade das missões internacionais oficialmente credenciadas para acompanhar o pleito;
  5. Desencorajar o uso de instrumentos econômicos, diplomáticos, tecnológicos ou securitários destinados a condicionar o processo eleitoral de um Estado soberano.

A carta é concluída com um alerta do papel que o país desempenha na defesa da democracia no mundo.

“O que está em risco não concerne somente ao Brasil. Se uma potência puder condicionar negociações econômicas à participação de determinados atores políticos nas eleições de outro país, utilizar sanções contra suas autoridades, interferir na disputa sobre suas instituições e, ao final, decidir politicamente se reconhecerá ou não a escolha soberana de sua população, estaremos diante de uma situação que ameaça a todas as nações e aos próprios princípios sobre os quais se construiu a ordem multilateral”, alerta.

“Para o Instituto Vladimir Herzog, defender as eleições brasileiras significa defender um princípio universal: nenhum povo deve ter sua escolha democrática condicionada pela vontade, pela pressão econômica ou pelo poder político de outro Estado”, insiste.

“A democracia brasileira não diz respeito apenas ao Brasil: o que acontecer aqui repercutirá sobre a força, a credibilidade e o futuro da democracia em todo o mundo”, completou.

<><> Violações de Direitos Humanos

Já na carta para Volker Turk, alto comissário para Direitos Humanos, a entidade brasileira faz os seguintes pedidos:

  • Reafirmar publicamente a importância de proteger o direito do povo brasileiro de participar livremente dos assuntos públicos e de expressar sua vontade por meio de eleições genuínas, em conformidade com o direito internacional dos direitos humanos;
  • Acompanhar de perto, no âmbito do mandato do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, as implicações para os direitos humanos decorrentes de ingerência externa, manipulação transnacional da informação e pressões externas sobre as instituições eleitorais e judiciais brasileiras antes, durante e após as eleições de 2026;
  • Manter diálogo, quando apropriado, com o governo brasileiro e com outros governos relevantes a respeito de ações que possam comprometer a participação política, a independência das instituições, o espaço cívico ou a livre expressão da vontade dos eleitores brasileiros;
  • Incentivar os mecanismos pertinentes de direitos humanos das Nações Unidas e as estruturas regionais do Alto Comissariado a permanecerem atentos a acontecimentos que possam afetar os direitos políticos, a liberdade de expressão, a independência do Poder Judiciário, os defensores de direitos humanos, jornalistas e a sociedade civil durante o período eleitoral;
  • Ressaltar publicamente que instrumentos econômicos, diplomáticos, tecnológicos ou de segurança não devem ser utilizados de maneira a interferir no exercício dos direitos políticos ou comprometer a integridade de um processo democrático soberano.
  • Considerar a emissão de um pronunciamento público alertando para os riscos que eventuais formas de ingerência externa podem representar para o exercício dos direitos políticos e para a integridade do processo eleitoral brasileiro, reafirmando a importância de que a vontade dos eleitores possa ser formada e expressa livremente, sem coerção, manipulação ou pressões externas, e conclamando todos os atores nacionais e internacionais a respeitar os direitos humanos, a independência das instituições democráticas e o resultado oficialmente proclamado pelas autoridades eleitorais brasileiras.

No documento, a entidade insiste que “a ingerência externa em um processo eleitoral não constitui apenas uma ameaça à soberania de um Estado. Ela pode afetar diretamente o exercício de direitos humanos internacionalmente protegidos, em particular o direito de participar dos assuntos públicos e de escolher livremente seus representantes”.

“Pressões econômicas ou diplomáticas, campanhas de desinformação, tentativas de desacreditar instituições eleitorais e judiciais ou ações destinadas a condicionar a participação de atores políticos podem comprometer a livre formação e expressão da vontade dos eleitores. Podem também produzir efeitos mais amplos sobre a liberdade de expressão, o espaço cívico, a independência das instituições e a atuação de jornalistas, defensores de direitos humanos e organizações da sociedade civil. É, portanto, também sob a perspectiva do direito internacional dos direitos humanos que entendemos ser necessário avaliar os riscos atualmente enfrentados pelo processo eleitoral brasileiro”, completa.

¨      Lula irá defender a soberania e a democracia em discurso na ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarou neste domingo (20) para Nova York, onde participará da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Na terça-feira (22), caberá ao presidente brasileiro fazer o primeiro pronunciamento entre os chefes de Estado, seguindo a tradição diplomática que há décadas reserva ao Brasil a abertura dos discursos do debate geral.

A defesa da democracia, da soberania nacional e do princípio da não interferência nos assuntos internos dos países deverá ocupar espaço importante na passagem de Lula pelas Nações Unidas, em um momento de tensão entre Brasília e Washington e a poucas semanas das eleições presidenciais brasileiras.

O presidente tem reiterado publicamente que pretende defender o direito dos brasileiros de decidirem seu próprio futuro sem interferência estrangeira. A posição ganha peso diante das pressões exercidas pelo governo de Donald Trump sobre temas relacionados à política interna brasileira.

Recentemente, veio a público que, durante as negociações comerciais de 2025, representantes do governo Trump apresentaram ao Brasil uma série de exigências que incluíam a participação irrestrita de pessoas descritas pelo lado norte-americano como “dissidentes políticos” nas eleições de 2026. O governo brasileiro rejeitou a formulação e afirmou não reconhecer a existência de presos ou dissidentes políticos no país.

Nesse contexto, Lula já indicou a mensagem que pretende transmitir ao presidente norte-americano: as eleições brasileiras dizem respeito exclusivamente ao povo brasileiro. A soberania, portanto, deverá aparecer em seu discurso não apenas como conceito diplomático, mas também como defesa da autonomia das instituições nacionais.

<><> Eduardo Bolsonaro atua em Washington

A tensão aumentou nos últimos dias com a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro e do comentarista Paulo Figueiredo em Washington. Ambos afirmaram ter mantido reuniões com integrantes do governo Trump e defendido novas sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Eduardo também passou a se definir como “dissidente político” e fez alegações, sem apresentar provas, sobre uma eventual tentativa do STF de impedir uma vitória de seu irmão, Flávio Bolsonaro, na eleição presidencial.

Outra frente de pressão partiu do deputado republicano Chris Smith. O parlamentar enviou uma carta à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), pedindo maior monitoramento da situação brasileira e das eleições. Smith mencionou questões envolvendo o STF, o ministro Alexandre de Moraes e o caso Banco Master.

A OEA, por sua vez, já havia firmado em agosto acordo com o governo brasileiro para o envio de uma Missão de Observação Eleitoral às eleições gerais de 4 de outubro.

<><> Multilateralismo e reforma da ONU

Além da soberania e da democracia, Lula deverá retomar bandeiras tradicionais da política externa brasileira, como o fortalecimento do multilateralismo, a promoção da paz e a reforma das instituições de governança global. Segundo o Itamaraty, a reforma das Nações Unidas está entre os temas previstos para a participação brasileira.

Lula vem defendendo há anos uma mudança na composição e no funcionamento do Conselho de Segurança da ONU, argumentando que a estrutura criada no pós-Segunda Guerra Mundial já não representa adequadamente a distribuição de poder do século XXI.

Em seu discurso na Assembleia Geral de 2024, o presidente afirmou que a reforma deveria alcançar a composição, os métodos de trabalho e o direito de veto do Conselho de Segurança, além de ampliar a representação de regiões como América Latina e África.

O respeito ao direito internacional, a solução pacífica de conflitos e a proteção das populações civis também deverão integrar a mensagem brasileira em Nova York, em meio a conflitos que desafiam a capacidade de atuação das instituições multilaterais.

¨      O crime de lesa-pátria, a ameaça de Trump e a prisão de Flávio Bolsonaro

Guerra Híbrida é o uso de táticas diversas, de um país contra outro, como propagação de fake news na internet, interferência em processos eleitorais, pressões econômicas e políticas etc.

Donald Trump iniciou a Guerra Híbrida contra o Brasil em 2025, quando impôs o tarifaço, criticou o presidente Lula e o STF, e defendeu Jair Bolsonaro. Desde então, estamos sob ataque, com a ajuda de políticos bolsonaristas.

O governo Lula/Alckmin reagiu, acionou a OMC, abriu créditos a exportadores, firmou acordos com União Europeia, Canadá, México, Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Nigéria; Lula conversou com Xi Jinping, Putin, Narenda Modi e demais líderes dos BRICS – e falou com Trump, por três vezes, obtendo uma “trégua”.

O clã Bolsonaro contra-atacou, Flávio e o irmão Eduardo se encontraram com Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio, para pedir novas sanções – conseguiram e comemoraram: “Grande dia!”, postou Flávio. Trump confessou que o Brasil é seu “próximo desafio”; Flávio, então, entregou ao americano um documento, em inglês, explicando como se submeteria aos interesses dele; internamente, o ministro André Mendonça assumiu papel político dentro do STF, atacando o Procurador-Geral e a Polícia Federal. Trump ameaçou, diretamente, o Brasil com “medidas duras”, com a desculpa de “combater facções criminosas”. Lula respondeu: “Não seremos colônia!”.

<><> Risco real e iminente

No dia 12/9, Eduardo Bolsonaro defendeu, publicamente, que “no Brasil pode perfeitamente, ser necessário a vinda de caças F-35 e de navios de guerra [americanos] porque é o atual estágio da Venezuela, e não se consegue mais consertar com remédios diplomáticos como as sanções”, posição que se enquadra no rol dos Crimes contra a Soberania Nacional, especificamente no art. 359-I, do Código Penal (incluído pela Lei n.º 14.197/2021): “Negociar com governo estrangeiro, ou seus agentes, com o fim de provocar atos típicos de guerra contra o País ou invadi-lo. Pena – reclusão de 3 a 8 anos”.

Os irmãos Bolsonaro agem em conluio; a PGR tem provas mais que suficientes da prática de crime de lesa-pátria para pedir a prisão, imediata (cautelar), de ambos – e o STF para acatar o pedido.

O retrospecto de Trump, que passou, rapidamente, da Guerra Híbrida para ataques reais no Irã, Rússia e Venezuela, é motivo para que o Supremo tome a corajosa decisão de prender os traidores da pátria.

Na inércia do Judiciário, o presidente Lula tem que usar as atribuições positivadas no art. 91, da CF/88, e convocar o Conselho de Defesa Nacional, fórum adequado para deliberar sobre riscos à soberania nacional e ao Estado democrático, que é composto pelo Vice-presidente; Presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado; Ministros da Justiça, Defesa, Relações Exteriores e do Planejamento; e os Comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.

Não é prudente esperar que caças F-35 e navios de guerra estadunidenses comecem a despejar bombas e lançar mísseis Tomahawk sobre o território brasileiro para reagir.

Não subestimemos a malignidade do clã Bolsonaro, tampouco a insanidade de Donald Trump.

 

Fonte: Por Jamil Chade, em ICL Notícias/Brasil 247

 

Fernando Horta: Precisamos voltar às bases

Em 23 de outubro de 2018, nos Arcos da Lapa, com Chico Buarque e Caetano Veloso no palco e Fernando Haddad a cinco dias de perder a eleição, Mano Brown pegou o microfone e disse o que ninguém ali queria ouvir: “Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo, nós temos que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta para a base e vai procurar saber.”

E emendou, para quem ainda batia palma, que “há uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada. Ou a gente vai cair no precipício”. Caímos. A frase virou veredito, foi repetida em diretório, em podcast, em mesa de bar, e oito anos depois continua sendo a explicação oficiosa (a oficial não existe) da crise do projeto progressista no Brasil.

Ocorre que a frase é forte mas está errada. O diagnóstico está certo – o partido de fato não sabe mais quem vota nele. O endereço está errado. Quando Mano Brown diz “base”, todo mundo ouve periferia, quebrada, povão, e o partido saiu correndo atrás de um eleitor que nunca foi embora. A multidão que não estava ali na Lapa era outra. É dela que este texto trata.

<><> O “pobre de direita”

O Datafolha de 8 a 10 de setembro ouviu 2.002 pessoas e deu Lula 39, Flávio Bolsonaro 35. O número que importa, contudo, está no recorte de renda. Entre quem ganha até dois salários mínimos, Lula tem 47% e Flávio 29. Acima de cinco salários a coisa inverte: Flávio 44, Lula 28. A faixa do meio, entre dois e cinco salários, ninguém posta no grupo de WhatsApp. Guardem isso, porque volto a ela adiante.

Esse desenho não é novidade de 2026. Em dezembro de 2003, um ano do primeiro governo Lula, o mesmo Datafolha media 42% de ótimo e bom contra 15% de ruim e péssimo, e a aprovação já era maior na base da pirâmide do que no topo. Em 2006 André Singer batizou a coisa de realinhamento. Em 2018, sem Lula na cédula e com o candidato escolhido em setembro, a faixa de até dois salários foi a que menos abandonou o PT. Em 2022, se repetiu a mesma coisa. Vinte e três anos de série histórica dizendo a mesma coisa: quem ganha pouco vota em Lula.

E mesmo assim uma parte da esquerda inventou o “pobre de direita”.

O termo é horrível e a análise é pior. Horrível porque é ódio de classe travestido de sociologia … a mesma burguesia que chamava o nordestino de “paraíba” hoje chama o motoboy de “bolsonarista” e a “esquerda nutella”, vejam só, repete de bom grado. Pior porque é falso: os “pobres de direita” existem desde sempre, como existiam os operários integralistas nos anos 1930, porém, vale lembrar, sempre como minoria. Nunca foi neles que se decidiu uma eleição neste país.

Quando o partido compra a tese, comete três erros num só: erro de análise (persegue um fantasma), erro de comunicação (fala com um eleitor que já é seu, no tom de quem precisa convencê-lo) e erro de estratégia, o mais caro dos três, porque desvia toda a energia militante para a faixa em que o PT ganha e deixa livre a faixa de pessoas em que o PT perde. Foi por essa fresta que o fascismo entrou.

<><> A classe média e o fascismo

Em 1951 Wright Mills descreveu uma classe que não era operária nem proprietária: o assalariado de colarinho, que não tem meios de produção, não tem sindicato que preste e se define pelo consumo, pelo diploma e pela distância que consegue manter de quem está logo abaixo. É uma classe que existe pela posição no status antes que pela posição na produção. Décio Saes já tinha mostrado, para o caso brasileiro, que essa classe procura no Estado o árbitro da sua distinção desde 1930, e que oscila politicamente conforme o Estado a reconhece ou não.

O que o PT fez entre 2003 e 2013 foi criar essa classe média em escala industrial. Carteira assinada, salário mínimo dobrado em termos reais, ProUni, FIES, consignado, Minha Casa Minha Vida, o filho do porteiro na faculdade privada e o próprio porteiro no aeroporto. Marcelo Neri, na FGV, chamou de “nova classe média” e Marcio Pochmann respondeu que não era classe média coisa nenhuma, era trabalhador com emprego. Os dois tinham razão no dado e os dois erraram no que importa: pela renda eram trabalhadores, pelo lugar social ocuparam exatamente a cadeira que Wright Mills descreveu.

Só que responderam a outros condicionantes. O white collar americano de 1951 tinha carreira, previdência e um Estado que o protegia; o de 2 a 5 salários brasileiro tinha crédito, um diploma de EAD, uma prestação e um medo. O jornal Valor econômico, ainda em 2010, publicou uma reportagem cujo título diz tudo, “casa das classes médias esquece a origem e vota na oposição”, e o partido leu como ingratidão (a burguesia sempre foi ingrata, dizia-se, como se a burguesia fosse quem estava ali). Não era ingratidão. Era a classe fazendo o que classe faz, isto é, tentando ficar onde chegou, e, para ficar, precisando se diferenciar de quem chegava atrás.

E é aí que entra a conta que o partido não fez. Essa classe, ampliada, endividada, com o filho na faculdade paga e o carro no consignado, sem herança e sem patrimônio, dependendo do salário do mês e da Selic do mês, foi espremida por dois lados que não se falam: de um lado, um Estado que precisa arrecadar e escolheu arrecadar dela, com uma tabela de Imposto de renda que passou uma década congelada e uma Selic a 14% que enriquece quem tem aplicação e afoga quem tem prestação; de outro, a necessidade, que é constitutiva dela e não moral, de se distinguir dentro do tecido social – e no Brasil a distinção mais barata, a que não custa um centavo, é a cor.

Quando o pobre chegou no aeroporto, o aeroporto “virou rodoviária”. Quando o pobre chegou na faculdade, a faculdade “perdeu o nível”. Quando o pobre chegou no shopping, foi “rolezinho”. O discurso racista, que estava adormecido porque a diferença de renda bastava, foi reativado porque a diferença de renda encolheu, e o partido, que tinha a chave para desmontar isso, entregou a chave.

A chave era a educação, e a educação foi entregue à Kroton, à Cogna, ao ensino médio reformado por consultoria, ao Ensino à distência que forma sem formar, e a um MEC que passou treze anos discutindo cota (necessária) e nem um dia discutindo currículo. Não houve, em todo o período, um único programa de Estado voltado à formar politicamente a classe que o Estado progressista tinha acabado de criar. Nem um. E quando a crise de 2015 veio e a escada virou tobogã, essa classe descobriu que estava sozinha, com a prestação, o diploma que não vale e o vizinho que subiu junto, e procurou quem lhe devolvesse a distinção sem lhe pedir a renda.

Encontrou. O fascismo, para a classe média espremida, não é ideologia. É tábua de sobrevivência. Oferece exatamente o que o PT não ofereceu: um lugar de distinção que não custa dinheiro (o “cidadão de bem” contra o “vagabundo”), um inimigo que explica a queda (o “comunismo”, a “corrupção”, o “sistema”) e uma promessa de ordem para quem tem pouco e tem medo de perder.

Ainda que a promessa seja mentira. Ainda que a ordem seja milícia. É por isso que a pauta de costumes nos machuca tanto: ela não é ruído, ela é o núcleo. É o dispositivo pelo qual se tira da esquerda a classe média como apoio e se recoloca essa classe como massa de manobra, e o partido responde falando de Bolsa Família para quem já tem Bolsa Família.

Confesso que repeti a tese do subproletariado em sala de aula por uns bons anos. Nessa luta a gente erra junto, e tem obrigação de corrigir junto.

<><> Voltar às bases

Quem perdeu o PT não foram os pobres. Quem perdeu o PT foi a classe que o PT criou, e que o André Singer, na análise que virou doutrina de partido, tratou como o “anti”, o outro lado do realinhamento, o eleitor perdido por natureza. Foi perdido por abandono. Prometi voltar à faixa de dois a cinco salários e volto, em uma linha: é ela que decide, foi ela que estabilizou os governos de 2003 a 2013 e é ela, hoje, a ponta de lança do neofascismo.

Mas há um problema anterior ao abandono, e é aqui que a análise do partido erra pela raiz, inclusive a do André Singer. Todo o arranjo explicativo do século XX, o nosso, o que aprendemos e ensinamos, estava calcado nas posições produtivas: você é o que você faz na fábrica, no campo, no escritório, e vota conforme. Proletário, camponês, pequeno-burguês, burguesia. Esse arranjo foi destruído, e não foi um livro que o destruiu, foi a vida: o fim da fábrica como lugar social, o aplicativo, o MEI, a igreja, a televisão e depois o celular. Ninguém mais se identifica como proletário.

Ou, para ser exato, essa é hoje a menor das identificações subjetivas que um brasileiro carrega. O sujeito que entrega comida de moto é, na mesma tarde, evangélico, corintiano, “empreendedor”, pai, nordestino em São Paulo, negro que não se diz negro, cliente do banco digital e devedor do consignado, e cada um desses planos de identificação puxa para um lado. O indivíduo contemporâneo é entrecortado por planos de auto-identificação subjetiva diversos e diversificados, e nenhum deles se chama “trabalhador”.

E a disputa narrativa pelas explicações do mundo – que a direita venceu, diga-se, com muito dinheiro e nenhum escrúpulo – produziu uma coisa nova, que nenhum manual nosso prevê: a subjetivação por objetivo. O sujeito não se identifica mais pelo que é, nem pelo que faz.Identifica-se pelo que quer ser. E isso é totalmente ideacional, não tem lastro em posição nenhuma.

Quem quer “ser CLT”, ter carteira, férias, décimo terceiro, vota na esquerda. Quem quer “ser milionário”, livre e desimpedido (a ironia é que a liberdade do milionário sem patrimônio é a liberdade de trabalhar 14 horas sem direito nenhum), vota no fascismo. Os dois ganham a mesma renda. Os dois moram na mesma rua.

Os dois, pelo critério do século XX, são a mesma classe. E votam em campos opostos porque a identidade que os move está adiante deles, no objetivo, e o objetivo é uma narrativa que alguém vendeu. A nova identidade por objetivo sustenta o ódio ao pobre, o rico por “mérito” e coloca em lados opostos pessoas socialmente advindas no mesmo espaço apenas por terem “diferentes mindsets”.

Isso é o exato oposto de qualquer conceitual materialista que a gente consiga imaginar, e é por isso que todo o discurso político aprendido a fazer pelo PT ficou num espaço de utilização quase marginal. O partido fala para posições produtivas que não se reconhecem mais como tal; fala de “trabalhadores” para quem quer deixar de ser um; fala de direitos para quem aprendeu a ver direito como privilégio (e contra isso pesa toda filosofia cristã religiosa).

Fala, em suma, para os convertidos, no sentido rasteiro que a gente dá à expressão no bar: quem já queria ser CLT ouve, concorda e vota; quem quer ser milionário nem sintoniza. E a classe média estendida, a de dois a cinco salários, é justamente a que mais quer ser outra coisa, porque foi a que mais mudou de lugar em menos tempo.

Voltar às bases, portanto, é disputar o objetivo. É entender que a “base” hoje não é um lugar na produção, é um projeto de vida, e que o fascismo está vendendo um projeto de vida enquanto o partido distribui um relatório de gestão. Significa falar de imposto de renda, de segurança, de escola e de status com quem quer subir, e não só de proteção com quem tem medo de cair. Significa, aliás, admitir que o dentista e o médico falando mal do governo na sala de espera formam mais projeto de vida numa cidade de 50 mil habitantes do que toda a comunicação do partido.

Onde estava a Fundação Perseu Abramo quando a classe C virou “empreendedora”? O Instituto Lula? A secretaria de formação? Os cursos que formam militante para falar com militante?

A multidão que não está aqui, dizia o Mano Brown, precisa ser conquistada. Ela nunca esteve na Lapa. Está no consultório, na fila do consignado, na escola particular de bairro, na igreja e no grupo de família, querendo ser alguma coisa que ninguém do lado de cá se deu ao trabalho de perguntar o que é.

•        Em novo mandato, Lula poderá executar R$ 204 bilhões em projetos de infraestrutura

Caso seja reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciará um novo mandato com uma carteira de ao menos R$ 204 bilhões em projetos de infraestrutura já encaminhados ou em diferentes etapas de preparação pelo governo federal.

Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, parte relevante dos projetos inicialmente previstos para leilão em 2026 foi deslocada para 2027 ou para os anos seguintes. A lista envolve ferrovias, rodovias, portos e hidrovias e inclui empreendimentos que ainda dependem de editais, consultas públicas, ajustes de modelagem ou análise de órgãos de controle.

A maior fatia está nas ferrovias: são R$ 154,9 bilhões em investimentos previstos que deverão avançar no próximo mandato presidencial. Dos oito leilões programados originalmente para este ano, apenas o Corredor Minas-Rio, marcado para dezembro, deve ocorrer ainda em 2026.

O ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou que pretende deixar novos editais publicados antes do fim do atual governo, criando condições para que os leilões sejam realizados já no começo de 2027.

“Concessão é muito mais complexo, eu não vou fazer na afobação. Eu vou fazer seguindo o rito tranquilo: vou publicar os editais, e o próximo governo faz leilão”, afirmou.

<><> Governo prepara projetos para 2027

Entre os empreendimentos ferroviários que podem avançar estão o Anel Ferroviário do Sudeste (EF-118), ligando Rio de Janeiro e Espírito Santo, e a Malha Oeste, entre São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Santoro afirmou que a estruturação dessas concessões exigiu a criação de novos modelos para projetos de grande porte.

“A grande questão é que a gente não tinha uma trajetória de fazer concessões de ferrovias, principalmente greenfield [novos projetos]. A gente está colocando no mercado projetos gigantescos. Sem modelagens, sem previsão de cobertura de ‘gap’ de viabilidade, sem previsão de tudo isso, a gente teve que trabalhar no TCU, e tudo isso foi aprovado recentemente. Eu acredito que a gente vai publicar editais neste ano para os leilões acontecerem no início do próximo ano”, disse.

A pasta também trabalha para encaminhar a Ferrogrão (EF-170) e apresentou recentemente uma carteira de sete ferrovias de curta extensão, as chamadas “shortlines”, destinadas ao transporte de cargas e passageiros.

<><> Rodovias acrescentam R$ 28,8 bilhões à carteira

Outro conjunto de projetos que atravessará a mudança de mandato reúne R$ 28,8 bilhões em investimentos rodoviários.

O Ministério dos Transportes havia programado 13 certames para 2026. A previsão atual é concluir sete neste ano, deixando os demais para os próximos ciclos de concessão.

Já foram realizados os leilões das Rotas Gerais, em Minas Gerais, da Rota dos Sertões, envolvendo Bahia e Pernambuco, e a repactuação de trecho da Régis Bittencourt, entre São Paulo e Paraná.

Entre os projetos que seguirão para 2027 estão as otimizações da Rodovia Transbrasiliana, da Rota Planalto Sul e da Rota Litoral Sul, além dos lotes 1 e 3 das Rodovias Integradas de Santa Catarina.

O ministério afirma ainda manter 32 projetos rodoviários em planejamento e estudos.

<><> Portos têm mais de R$ 20 bilhões em projetos

No setor portuário, 13 projetos já avaliados somam pelo menos R$ 20,8 bilhões em investimentos previstos. Outros empreendimentos ainda não possuem estimativas consolidadas, o que significa que o valor total da carteira poderá ser maior.

Dos 18 leilões portuários anunciados para 2026, três haviam sido realizados até setembro. Permanecem na lista projetos de grande porte como o Tecon Santos 10, no Porto de Santos, estimado em R$ 6,4 bilhões.

Também estão em preparação o ITJ01, em Itajaí, com R$ 2,66 bilhões previstos, e a concessão do canal de acesso ao Porto de Santos, estimada em R$ 6,45 bilhões.

As cinco concessões de hidrovias inicialmente planejadas para 2026 também foram reprogramadas. Os projetos abrangem os rios Paraguai, Madeira, Tocantins e Tapajós, entre outros.

<><> Lula acumula 50 leilões desde 2023

A carteira que seguirá para o próximo mandato se soma a uma agenda de concessões que já registrou 50 leilões federais de infraestrutura entre 2023 e 2025, envolvendo rodovias, portos e aeroportos.

O total é superior ao registrado nas gestões de Jair Bolsonaro e Fernando Henrique Cardoso, segundo levantamento dos ministérios dos Transportes e de Portos e Aeroportos citado pela Folha.

Assim, caso Lula seja reeleito, parte relevante da agenda de infraestrutura do próximo mandato terá origem em projetos estruturados ou iniciados durante a atual gestão, com leilões e investimentos previstos para começar a avançar a partir de 2027.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

Itamaraty e a hora do equilíbrio: aprofundar com a China sem isolar os EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve buscar manter uma posição de equilíbrio internacional diante do atual cenário de fragmentação do comércio global. A diretriz central do Palácio do Planalto consiste em garantir a segurança econômica do país, contendo os efeitos do tarifaço dos Estados Unidos sobre as empresas nacionais — que chega a até 37,5% — e mitigando as consequências econômicas dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.

Há meses, o governo federal vem anunciando medidas, algumas já sancionadas, para conter a alta internacional dos combustíveis e dos fertilizantes. No entanto, diversas análises técnicas demonstram que elas tiveram efeito limitado, especialmente sobre os preços finais nas bombas dos postos de combustíveis em todo o país. É aí que reside o núcleo do aumento do custo de vida, uma preocupação primordial para os brasileiros a apenas duas semanas do primeiro turno de uma acirrada eleição presidencial. Nesse contexto, adquirem valor estratégico inestimável as relações com a China — em ascensão sob a atual gestão —, assim como os vínculos comerciais com a União Europeia, o Mercosul, os países do BRICS+, a ASEAN, a África Austral e o Sul Global em seu conjunto. Cabe sublinhar: nada está garantido nas próximas eleições.

Com serenidade, a diplomacia brasileira e o Palácio do Planalto têm sido prudentes e eficazes na formulação de suas medidas de resposta. Mesmo diante do tarifaço, a expectativa entre interlocutores do presidente Lula é de que as reuniões previstas para as próximas semanas com o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos sirvam para revisar as acusações infundadas de Washington. Espera-se que prevaleça o tratamento cordial entre Lula e Trump, um tom que, de maneira surpreendente, foi impulsionado pelo próprio presidente norte-americano durante a conversa telefônica que mantiveram em 21 de agosto.

A resposta do Brasil também tem profundo alcance político. Hoje, a democracia do país é mais sólida, eficiente e madura. Os Três Poderes — incluindo um Supremo Tribunal Federal envolto em acusações de corrupção e em uma guerra aberta entre seus ministros — não apenas rejeitaram as medidas unilaterais adotadas contra o país, como também reafirmaram de forma proativa que qualquer tentativa de interferência eleitoral destinada a favorecer Flávio Bolsonaro está condenada ao fracasso.

A origem dessa ofensiva política encontra-se no Departamento de Estado, influenciado por brasileiros bolsonaristas instalados em Washington e considerados traidores da pátria. Esses grupos atuam incansavelmente a partir da capital norte-americana e de bases ligadas ao gabinete do ódio da extrema direita, tanto nos Estados Unidos quanto em países vizinhos. Seu objetivo é aproveitar a ala ideológica do governo Trump e a ofensiva mais ampla dos Estados Unidos sobre a América do Sul para arrastar o Brasil para uma agenda desprovida de propostas. As táticas empregadas — como o combate ao narcotráfico por meio do Escudo das Américas, a pressão antinacional e anti-China exercida pela Embaixada dos Estados Unidos e a retórica exacerbada de latino-americanos de extrema direita radicados no estrangeiro — não oferecem soluções nem surtirão efeito, a menos que ocorra uma escalada militar, em um cenário no qual nada está descartado.

Mesmo diante de uma eventual melhora nas relações com os Estados Unidos, o governo Lula deve assimilar que Washington não pode ser considerado um parceiro estável e confiável. Ao mesmo tempo, não pode perder de vista a correlação de forças nem, em última instância, a supremacia militar que os Estados Unidos exercem na América do Sul. É precisamente nesse ponto de inflexão que nasce a necessidade atual de equilíbrio.

Diante desse cenário, o fato mais relevante da última semana foi o respaldo político do presidente da China, Xi Jinping, ao seu homólogo brasileiro, materializado na carta que o assessor especial Celso Amorim entregou ao chanceler chinês Wang Yi, em Pequim. O documento ressalta que a relação estratégica entre Brasil e China avança com firmeza. Além de consolidar Pequim como um ator central no tabuleiro econômico brasileiro, fica claro que a China não vê Luiz Inácio Lula da Silva como um simples candidato, mas como um líder histórico, o único capaz de aprofundar os laços comerciais em perfeita sintonia com a estratégia nacional de reindustrialização.

¨      Leonardo Trevisan: “Trump não pode empurrar o Brasil para o confronto”

O Brasil deve evitar uma escalada no confronto com os Estados Unidos e responder às pressões do governo de Donald Trump reforçando sua autonomia diplomática e suas relações com outros centros de poder. A avaliação é do professor e cientista político Leonardo Trevisan, que, em entrevista ao Boa Noite 247, analisou as manifestações recentes de Washington sobre o Brasil e o caminho que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode adotar na Assembleia Geral das Nações Unidas.

“Deixa a turma do Marco Rubio gritar o suficiente”, afirmou Trevisan ao defender que o governo brasileiro não transforme as declarações vindas de Washington em um confronto permanente. Para ele, a resposta deve combinar defesa da soberania com cautela diplomática, evitando alimentar uma escalada que possa comprometer as relações entre os dois países.

A análise ocorre às vésperas da participação de Lula na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Segundo informações divulgadas pelo Brasil 247, a expectativa é que o presidente trate de soberania, multilateralismo e interferência estrangeira em seu pronunciamento, além de temas como conflitos internacionais, mudanças climáticas e direitos humanos.

Trevisan relacionou a pressão norte-americana à atuação de setores do governo Trump, em particular do secretário de Estado, Marco Rubio. Na avaliação do professor, determinadas manifestações de Washington sobre o Brasil devem ser compreendidas mais como resultado de uma disputa política dentro da administração norte-americana do que como indicação de uma ação concreta contra o país.

Ao comentar uma manifestação dos Estados Unidos envolvendo o combate ao crime organizado em diferentes países, Trevisan afirmou que a referência ao Brasil aparece, em sua leitura, sem uma definição precisa das medidas que poderiam ser tomadas. “É muito mais uma visão específica dentro do Departamento de Estado do que uma realidade efetiva de uma possível invasão”, disse.

O professor evitou, porém, descartar completamente a possibilidade de novas medidas norte-americanas. Para ele, não é possível garantir quais decisões Washington poderá adotar, sobretudo em um período marcado pela disputa eleitoral brasileira. Sua avaliação é que uma escalada teria consequências para a relação bilateral caso Lula conquiste um novo mandato.

É nesse ponto que Trevisan identifica a aproximação entre Brasil e China como um elemento da estratégia diplomática brasileira. Ele chamou atenção para a viagem do assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, a Pequim e para seu encontro com o chanceler chinês, Wang Yi. Segundo o professor, o aprofundamento dessa relação transmite aos Estados Unidos a mensagem de que o Brasil dispõe de alternativas para suas relações econômicas e internacionais.

“Se vocês ficarem tratando a gente muito mal, nós temos outro freguês, nós temos com quem nos aproximar”, resumiu Trevisan ao explicar o significado político que atribui ao movimento.

Na avaliação do cientista político, essa possibilidade também funciona como fator de contenção sobre Washington porque uma parcela do empresariado norte-americano não teria interesse em assistir a uma aproximação ainda maior entre Brasil e China. Dessa forma, a diversificação das relações internacionais ampliaria a margem de negociação brasileira sem exigir o rompimento com os Estados Unidos.

Esse raciocínio, segundo Trevisan, pode aparecer no discurso de Lula na ONU. Em vez de uma resposta baseada no confronto direto, o presidente poderia reafirmar que o país possui compromissos internacionais e alternativas econômicas e diplomáticas.

“Nós temos alternativas. Não adianta vocês, de alguma forma, pressionarem, porque nós temos compromissos com o multilateralismo, nós temos compromissos com a ONU, nós temos compromissos principalmente com a liberdade comercial”, afirmou.

A defesa do multilateralismo também permite ao Brasil apresentar a questão da soberania como um princípio de sua política externa, e não apenas como uma resposta circunstancial ao governo Trump. Em discurso anterior na Assembleia Geral, Lula já havia associado soberania ao direito dos Estados de legislar, julgar conflitos e fazer cumprir suas normas dentro do próprio território.

Ao mesmo tempo, Brasília procura preservar canais de negociação com Washington. Brasil e Estados Unidos retomaram formalmente o diálogo comercial no fim de agosto, após conversas entre Lula e Trump, segundo nota conjunta dos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Trevisan considera que essa combinação entre diálogo e diversificação de parceiros deve orientar a resposta brasileira. “Para o Brasil não convém que a gente se apresente numa área de confronto, principalmente com um governo tão imprevisível quanto o de Trump”, afirmou.

Para o professor, manifestações mais duras de integrantes da administração norte-americana também devem ser analisadas levando em conta a política interna dos Estados Unidos. Em sua avaliação, discursos de confronto cumprem uma função diante da base eleitoral de Trump, razão pela qual uma reação brasileira destinada a responder a cada declaração poderia contribuir para ampliar sua repercussão.

Trevisan também considera possível que as pressões aumentem durante a reta final da eleição brasileira. Ele mencionou episódios recentes em outros países latino-americanos para sustentar que movimentos externos em períodos eleitorais não constituem uma novidade na região. Ainda assim, sua recomendação é que o Brasil mantenha a linha adotada até agora: defesa da soberania sem converter cada declaração de Washington em uma crise bilateral.

O próprio Lula afirmou nesta semana ter pedido diretamente a Trump que não interfira nas eleições brasileiras e que não questione o sistema de votação do país.

Para Trevisan, portanto, a resposta às pressões não passa por reproduzir o tom dos setores mais confrontantes do governo norte-americano. O instrumento brasileiro estaria na capacidade de manter relações com Washington enquanto amplia suas opções comerciais e diplomáticas e reafirma o princípio de que decisões internas pertencem ao país.

“Deixa eles latirem”, concluiu o professor.

¨      É uma questão de soberania. Por Pedro Benedito Maciel Neto

Há coisas que, de tão antigas, parecem novas. A interferência estrangeira na política brasileira é uma delas. Talvez a trágica novidade seja que hoje um dos presidenciáveis já tenha se comprometido a entregar a presidência ao departamento de estado dos EUA, desde a transição.

Basta olhar um pouco para trás – não muito – para perceber que a soberania de um país nunca foi apenas uma palavra bonita nos discursos oficiais. Ela é uma disputa permanente. Disputa econômica, política, diplomática e, às vezes, eleitoral.

O Trump está tentando influenciar a eleição brasileira para favorecer um governo Bolsonaro. Tarifas, sanções, restrições de vistos e ataques políticos fariam parte dessa estratégia. 

A história oferece exemplos.

Em 1946, os Estados Unidos tentaram impedir a ascensão de Juan Domingo Perón na Argentina. Perón venceu, e o nacionalismo argentino encontrou naquela interferência externa um poderoso argumento político; décadas depois, a história parece oferecer uma nova versão do mesmo fenômeno, novamente na Argentina, Trump apoiou abertamente Javier Milhei e antes das eleições legislativas de 2025, Washington chegou a condicionar ajuda financeira ao comportamento eleitoral dos argentinos. E, desta vez, a interferência não encontrou resistência suficiente para produzir o efeito contrário.

No Brasil, ainda não sabemos o resultado da interferência de Trump, mas até que ponto aceitamos que uma potência estrangeira diga aos brasileiros quem deve governar o Brasil? Há incautos ou pessoas vis que desejam que Trump interfira.

Não se trata de defender Lula, Flávio Bolsonaro, Cury ou qualquer outro candidato. Trata-se de uma questão anterior às preferências eleitorais: a decisão sobre o futuro do país pertence aos brasileiros, ou não?

É uma questão de soberania. E soberania, em democracia, não significa concordar com o governo de turno. Significa reconhecer que a escolha do governo deve ser garantida pelas instituições e escolhida pelos cidadãos do próprio país.

Em 2022, a democracia ocupava o centro do debate eleitoral, o ambiente era de enorme polarização e havia uma preocupação concreta com a possibilidade de ruptura institucional, o que quase ocorreu. Lula apresentou-se naquele momento menos como candidato de esquerda e mais como candidato da democracia.

Quatro anos depois, o cenário mudou. A democracia continua sendo uma questão fundamental, mas já não parece ocupar o mesmo espaço no debate público: economia, segurança pública e crime organizado ganharam protagonismo e talvez isso seja natural. 

Democracia não é apenas votar, é também comer, trabalhar, morar, estudar, circular pelas cidades sem medo, pagar as contas e acreditar que amanhã poderá ser um pouco melhor que hoje.

O fato que a História mostra é: quando a melhora que a democracia traz e garante não é percebida pelas pessoas, ela perde parte de sua força simbólica, foi assim na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.

Os números macroeconômicos, por sua vez, contam apenas uma parte da história, pois, apesar de Lula 3 ter reduzido a pobreza e a pobreza extrema, embora o desempenho econômico dos últimos anos seja muito bom, embora os juros elevados tenham atrapalhado, a percepção do cidadão comum é que Lula 3 “não entregou” o que prometeu, apesar de ter entregue muito mais do que as promessas de campanha.

É aí que aparece uma velha questão brasileira: a diferença entre o país que aparece nas planilhas e o país que aparece na mesa de jantar, pois, o PIB pode crescer, a inflação pode estar controlada, o desemprego pode cair, como caiu, mas se o cidadão não percebe isso na sua vida, a estatística não produz confiança.

Política é, em grande medida, percepção.

Se por um lado o STF teve papel importante na defesa da democracia durante o governo Bolsonaro, a forte politização da Corte, fruto da judicialização de alta intensidade, também pode produzir riscos e uma postura mais moderada teria sido desejável.

Defender a democracia torna nenhuma instituição em instituição acima de críticas, afinal, a democracia pressupõe instituições fortes, mas também instituições submetidas às regras, aos limites constitucionais e ao escrutínio público.

Não devemos permitir que Washington escolha nosso presidente, mas também não devemos permitir que Brasília escolha nossa consciência, nem o governo, nem a oposição, nem o Supremo, nem os partidos, nem os influenciadores, nem as redes sociais.

A democracia pressupõe cidadãos livres para escolher, instituições capazes de respeitar as regras e governos que compreendam que o poder recebido nas urnas não lhes pertence.

A democracia pertence, sempre, ao povo, não a outro país ou grupo.

 

Fonte: Insttituto Sul Global/Brasil 247

 

Henrique Iglecio: Quem tem medo do futuro?

A crise do futuro pode ser definida como o medo, a ansiedade ou a paralisia que nos acomete quando nos sentimos incapazes de vislumbrar um futuro positivo, melhor ou mais seguro. Façamos uma simulação: imagine que saímos para um espaço público, qualquer rua ou praça, e perguntamos aos pedestres: “Vocês acham que o futuro será melhor que o presente?”. Muito provavelmente, a maioria responderá que não. Nem sempre foi assim. Pelo contrário, as gerações imediatamente anteriores à nossa — nossos avós, bisavós e assim por diante — estavam entre as gerações que encontraram mais esperança no futuro em toda a história da humanidade.

<><> Uma breve viagem ao passado

A Revolução Industrial foi um fenômeno social com um impacto global sem precedentes na história da humanidade e, por essa razão, pode ser analisada sob diversas perspectivas. Uma delas é o seu impacto no imaginário social da época. Imaginemos, por um instante, a transformação causada pela expansão das ferrovias no século XIX, primeiro na Europa e depois em grande parte do mundo. Centenas de milhares de pessoas começaram a viajar a velocidades antes inimagináveis. Uma viagem de Paris a Moscou, que levava aproximadamente três semanas, foi reduzida a dois dias em três décadas. Como consequência, a circulação de bens manufaturados e alimentos sofreu uma transformação sem precedentes, causando o deslocamento de milhões de camponeses por todo o continente. No espaço de uma geração, viajar pelo mundo deixou de ser uma aventura quase inconcebível para se tornar uma possibilidade concreta, retratada por Júlio Verne no clássico A volta ao mundo em oitenta dias.

O desenvolvimento da indústria em larga escala desencadeou o surgimento de um novo protagonista no palco da história: a classe trabalhadora industrial. Nunca antes na história da humanidade tantas pessoas estiveram concentradas como então no Reino Unido, em Berlim ou em Petrogrado. Quase da noite para o dia, vastas metrópoles começaram a se multiplicar por todo o globo.

Por volta da mesma época, foram inventados os precursores dos telefones, os telégrafos, inaugurando a era da comunicação de longa distância quase instantânea. Informações sobre o resultado de uma eleição, uma batalha em uma guerra, uma partida de futebol ou mesmo o nascimento ou a morte de um parente, que antes levavam dias ou semanas para chegar, passaram a chegar em minutos. Os primeiros aviões alçaram voo e a humanidade iniciou sua conquista dos céus. Os automóveis começaram a ser produzidos em números cada vez maiores e o uso da eletricidade avançou ano após ano. Essa revolução tecnológica produziu uma drástica contração do espaço-tempo: tudo estava ficando cada vez mais rápido, tudo estava em constante evolução.

Esse fenômeno global não se limitou aos setores de energia e comunicações. Outras áreas do conhecimento também experimentaram avanços significativos. No século XIX, Pasteur demonstrou que os microrganismos causavam doenças, possibilitando assim o desenvolvimento de vacinas. Técnicas antissépticas começaram a ser utilizadas em cirurgias. Os avanços nas ciências biomédicas levaram a um aumento na expectativa de vida humana, embora isso tenha sido acompanhado por enormes desigualdades raciais, de classe e regionais de magnitude sem precedentes e avassaladora. Somente em tal caldeirão cultural a escritora visionária Mary Shelley poderia ter imaginado a primeira obra de ficção científica da história, intitulada Frankenstein, ou o Prometeu moderno, na qual, utilizando tecnologia e eletricidade, um médico consegue dar vida a uma criatura feita de fragmentos de corpos humanos.

Mas os grandes eventos dos séculos passados ​​não se restringiram à engenharia, às biociências e à física. Houve também uma contração do espaço-tempo político e social com um impacto incalculável na história. As Revoluções Francesa e Haitiana deslocaram as placas tectônicas geopolíticas do mundo e despertaram o imaginário popular com a poderosa ideia de que era possível derrotar a monarquia, o colonialismo e a escravidão. Em 1871, a Comuna de Paris demonstrou que a burguesia e a monarquia, mesmo unidas, podiam ser desafiadas. Em 1917, a classe trabalhadora russa demonstrou que essa aliança podia ser definitivamente derrotada e criou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

É evidente que esse período não foi um mar de rosas. Pelo contrário, foi nessa época que testemunhamos algumas das maiores tragédias já infligidas à humanidade. Isso incluiu a violência e os genocídios perpetrados pelos colonizadores na África, Ásia e América Latina. Também assistimos à ascensão dos Camisas Negras fascistas liderados por Mussolini e da Gestapo comandada por Hitler. Seu plano de supremacia econômica, geopolítica e racial, responsável em poucos anos pela morte de milhões, foi um projeto que replicou em solo europeu o terror colonialista que as nações europeias cultivaram nos séculos que antecederam a Segunda Guerra Mundial.

Anos mais tarde, o Exército Vermelho marchou sobre Roma e Berlim, derrotando definitivamente o nazismo e o fascismo clássicos. Em 1949, o campesinato chinês construiu a República Popular da China. Em 1959, a ilha rebelde de Cuba desafiou o império ianque “bem debaixo de seu nariz” e construiu o socialismo latino-americano. Em 1962, os argelinos derrotaram os franceses e conquistaram sua independência. Em 1975, os vietnamitas mandaram os estadunidenses de volta para casa após quase um século de resistência à opressão colonial. No final da década de 1960, mais de um terço da população mundial vivia sob regimes socialistas. Em 1979, foi a vez dos iranianos derrotarem a monarquia subserviente aos estadunidenses e construírem uma nação soberana. Poderíamos também falar sobre as revoluções anticoloniais em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde, e seu ímpeto para a Revolução dos Cravos em Portugal e a queda de Salazar. Maio de 1968 e a Revolução Sexual podem ter sido o último impulso de um século que acreditou no futuro.

Não se trata de idealizar o passado ou imaginar que as gerações anteriores acreditavam que o caminho para um futuro melhor seria sereno e pacífico. Elas sabiam que seria árduo, trágico, repleto de sacrifícios, guerras e sofrimento. Mas havia uma visão compartilhada que, de alguma forma, ligava a ideia de futuro à ideia de progresso.

<><> Não há alternativa

Toda a epopeia popular que a humanidade vivenciou nos últimos séculos encontra-se agora num momento de profunda depressão. O ímpeto transformador que impulsionou essa aventura parece estar temporariamente bloqueado. Contudo, isso não aconteceu por acaso: foi o resultado das derrotas dos projetos políticos escolhidos pela liderança da classe trabalhadora no exercício do poder, aliadas ao sucesso de um projeto político concebido pela classe dominante.

No final da década de 1970, a burguesia lançou uma ofensiva política e ideológica com o objetivo de alcançar a hegemonia: o projeto neoliberal. Esse projeto foi liderado por Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos Estados Unidos, que na época ocupavam os dois cargos políticos mais poderosos do mundo.

O neoliberalismo e a ordem que consolidou são objeto de estudos aprofundados e debates acalorados devido ao seu alcance político, econômico e ideológico. Um dos principais pontos de consenso sobre o tema é que o slogan de Thatcher, Não há alternativa, sintetiza perfeitamente os objetivos desse projeto. Essa lógica serviu para justificar as privatizações, a eliminação de direitos já conquistados pelos trabalhadores, a proibição de sua expansão, a repressão e o conservadorismo não como uma escolha, mas sim como o único futuro possível.

O colapso da URSS em 1991 coroou essa perspectiva, consolidou a hegemonia neoliberal e nos cegou, impedindo-nos de vislumbrar o futuro. A era da epopeia popular havia terminado. Não podíamos mais tomar as rédeas da história em nossas próprias mãos porque, em última análise, a própria história havia chegado ao fim. As classes trabalhadoras estariam, dali em diante, condenadas, na melhor das hipóteses, a escolher ocasionalmente quem deveria administrar a vida precária que o capitalismo nos impôs. Entramos, então, na era do realismo capitalista: não havia mais alternativa.

Claramente, esse período não foi isento de resistência. A América Latina, por exemplo, testemunhou revoluções contra o neoliberalismo na Bolívia e no Equador, e a Revolução Bolivariana liderada por Hugo Chávez na Venezuela. A esquerda latino-americana derrotou a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), e Cuba manteve-se de pé. A chamada Onda Rosa elegeu presidentes de esquerda no Brasil, Equador, Bolívia, Paraguai e diversos outros países. Mas, por mais heroico que esse processo possa ter sido, representou uma contracorrente no cenário internacional.

<><> Grande demais para cair

Acrise de 2008 abalou alguns dos pilares do neoliberalismo. As principais potências mundiais injetaram quantias inimagináveis ​​de dinheiro público em algumas das instituições financeiras mais ricas do mundo para evitar o seu colapso, embora essas instituições fossem em grande parte responsáveis ​​pela crise. A hipocrisia do laissez-faire, a não intervenção do Estado na economia, foi flagrantemente exposta para o mundo inteiro.

A injeção de trilhões de euros e dólares no sistema rentista gerou uma subsequente reação de austeridade. Se os Estados-nação mais ricos do mundo se endividaram dando dinheiro às pessoas mais ricas do mundo, agora, na Europa, nos Estados Unidos e em todo o mundo, a solução seria “economizar” eliminando direitos básicos da classe trabalhadora ou impedindo sua implementação: aposentadoria, educação, saúde, saneamento básico, segurança alimentar, seguro-desemprego e assim por diante.

A luta contra esses planos de austeridade foi responsável pela última grande onda de mobilizações que o mundo viu. A Primavera Árabe, os protestos de junho de 2013, as lutas da juventude grega e espanhola, entre muitas outras, permitiram-nos, ainda que por breves instantes, vislumbrar o nosso futuro no horizonte.

Essa crise econômica acelerou o surgimento de outras crises, incluindo a crise climática, a crise do sistema global de Estados e a crise do sistema político. Gradualmente, a ideia de uma existência sem futuro, de uma estagnação neoliberal precarizadora, começou a ceder lugar à ideia de um futuro cada vez mais apocalíptico. Filmes sobre o “fim do mundo” devido à proliferação de zumbis, vírus ou radiação existiam há décadas, mas nunca foram tão amplamente consumidos, onipresentes e, de certa forma, reificados como nos últimos quinze anos. Não é coincidência que, ao abrirmos uma plataforma de streaming hoje, possamos ter a impressão de que esse é o único gênero existente. O mundo está em maus lençóis e só tende a piorar.

<><> O surgimento de uma alternativa catastrófica

Aconsequência mais significativa dessa crise foi o surgimento de uma nova espécie política, um monstro que, após anos de intenso debate na esquerda, foi apelidado de neofascismo. Mobilizando ideias de violência, limpeza étnica, ódio e ressentimento, tornou-se a força política mais dinâmica do mundo na última década. A eleição de Trump em 2016 e a campanha xenófoba do Brexit na Inglaterra foram marcos políticos que inauguraram uma nova era, capaz de alterar paradigmas, remodelar o cenário geopolítico, reposicionar nossas alianças, atualizar nossa estratégia e redefinir nossas táticas.

A ascensão e consolidação do neofascismo, portanto, não são acidentais. Hoje, é o movimento político que, em escala internacional, melhor se posicionou diante da crise da governança neoliberal. Após o declínio dos governos tradicionais de direita e as limitações dos governos de esquerda, que raramente conseguiram se apresentar como alternativas de longo prazo à lógica neoliberal, quando não sucumbiram a ela de forma direta, o neofascismo surge como uma promessa de mobilização e pertencimento. Apresenta uma missão e um propósito para sua base social, agita sua política e, quando possível, implementa seu programa. O futuro que defende é metafísico, escatológico e cruel. Mas tem um plano e o implementa resolutamente. Com isso, ganha terreno.

Este texto não defende a ideia de que o cancelamento do futuro seja um destino irrevogável, nem que estejamos diante de um fim natural para a experiência das sociedades humanas. Portanto, afirmamos que não estamos diante de um desfecho neofascista inevitável, nem de um cataclismo iminente. Pelo contrário, o objetivo deste texto é afirmar que o cancelamento do futuro é um projeto político-ideológico teoricamente desenvolvido ao longo de décadas, testado na prática em diversos países e, por ora, vitorioso. E precisamente por essa razão, ele pode ser derrotado.

<><> Recupere o futuro, construa a alternativa

Contra a mentalidade individualista voltada para o presente e o imediatismo do consumo, a esquerda deve cultivar uma mentalidade coletiva voltada para o futuro. No presente, por mais que a ideologia neoliberal e a ameaça neofascista trabalhem diariamente para desviar nossa atenção, vislumbramos um futuro potencial muito melhor do que o presente. Em certo sentido, precisamos premeditar o futuro: vê-lo e construí-lo antes mesmo que ele exista.

No desenvolvimento tecnológico impulsionado pelo lucro em detrimento da vida, o capitalismo só nos permite vislumbrar o desemprego em massa no avanço da inteligência artificial ou da robótica. Contudo, por trás de toda essa camada ideológica, reside a possibilidade de reduzir a jornada de trabalho. Isso significa que a humanidade poderia ter mais tempo para nutrir sua alma, para conquistar, como disse um antigo visionário, também o direito à poesia.

Embora o futuro seja tema de debates apaixonados e obras de arte épicas, ele não existe de fato: existe em potencial. Nosso papel é descobrir, sob o véu catastrófico que o capitalismo tardio lançou sobre nosso horizonte, quais caminhos, com quais valores, com qual programa e com qual passado podemos construir um futuro diferente.

A memória das experiências socialistas passadas, por sua vez, não pode ser tratada como uma bela peça de museu do século passado, nem como parte dos regimes nazifascistas de horror produzidos no século XX, como proclama a lógica neoliberal. Pelo contrário, se devidamente examinadas, refinadas e criticadas, podem constituir parte integrante do futuro socialista que almejamos. Parte da nossa crise de visão de futuro decorre da crise da nossa memória histórica.

Nessa jornada, precisaremos identificar os atores sociais e políticos que serão os arquitetos e construtores desse novo mundo. Já conhecemos alguns deles: são os movimentos sociais que resistem à fome, à falta de moradia, à contaminação dos alimentos e à destruição da natureza. Em suma, são as organizações que se opõem ao capitalismo em seu sentido mais amplo.

Mas, para derrotar o capitalismo, o planejamento estratégico é essencial. É necessária uma compreensão flexível da realidade, que rejeite tanto a rigidez de tentar forçar os eventos a se encaixarem em previsões dogmáticas quanto o desejo espontâneo que enfraquece nossos objetivos estratégicos.

Para esse fim, a organização leninista, fundada no centralismo democrático, deve funcionar como um instrumento de inteligência coletiva e concentração de esforços. A democracia interna é um componente determinante desse mecanismo, não por representar o indivíduo dentro da organização, mas por fomentar a colaboração entre mentes diversas e permitir que o pensamento coletivo se traduza em ações eficazes e adaptáveis ​​às complexidades do cenário atual. A organização política é também uma memória coletiva que pode nos auxiliar na navegação, carregando consigo as lições do passado e do presente.

Para superar a classe dominante numa era marcada pelo culto da experiência individual, pela opinião infundada e pela negação dos registros simbólicos, a teoria pode ser, mais do que nunca, uma ferramenta libertadora. Num momento de crescente precariedade e sofrimento na vida humana, dispor de ferramentas que nos permitam analisar diferentes escalas, enxergar além do que está imediatamente presente em nossa experiência concreta, é crucial para uma ação política eficaz.

A teoria pode nos ajudar a libertar-nos da ideia de que todas as dificuldades da vida residem em nós mesmos. Dessa forma, podemos, por exemplo, conectar a epidemia de sofrimento mental que testemunhamos em nosso cotidiano com a realidade sistêmica mais ampla da precariedade do mundo do trabalho. Ao mesmo tempo, ela pode nos ajudar a enxergar quem é responsável por isso e quem se beneficia dessa situação.

Essa precariedade agrava um dilema que aflige os revolucionários há séculos: a relação entre as demandas concretas e urgentes das classes trabalhadoras e a luta pela construção de uma sociedade diferente. O “cancelamento do futuro” tornou esse problema ainda mais dramático, pois gerou duas reações interligadas em nossa esfera de influência. Por um lado, há a visão conformista de que a era da aventura revolucionária humana chegou ao fim e, portanto, tudo o que nos resta é administrar o estado atual das coisas da melhor maneira possível. Por outro lado, há a outra face da mesma moeda: a declaração melancólica do socialismo imediato, sem apresentar um caminho concreto a seguir para alcançá-lo de fato.

Aqui enfatizamos a conexão dialética entre as demandas econômicas e a construção de uma sociedade diferente; entre a necessidade de aliviar a fome e a necessidade de alimentar a alma; entre a conquista de melhorias materiais e a consolidação de ideias emancipatórias. Para nós, uma luta vitoriosa por moradia é de enorme importância, mas quando acompanhada da constatação, por parte de seus participantes, de que essa vitória só foi possível graças à força de sua mobilização, ela adquire uma qualidade superior.

Esta é uma parte crucial da luta pela hegemonia contra o neofascismo, que permeia todas as esferas da sociabilidade humana. Hoje, ele disputa cada centímetro da consciência da classe trabalhadora: prega o individualismo, a violência, a covardia e a desonestidade. Glorifica a mitomania e a transforma em uma qualidade necessária para a “prosperidade”.

Defender os valores humanos do coletivo contra o individualismo, a solidariedade contra o egoísmo, a honestidade contra as mentiras utilitaristas, o sacrifício em nome dos outros contra o hiperindividualismo, são componentes indispensáveis ​​para a nossa vitória.

Contudo, a luta pela hegemonia social não pode ter sucesso se ficar confinada à esfera cultural. Para vencer a guerra em que estamos envolvidos, é necessário conquistar o poder político e exercê-lo de forma consistente, guiados pelos interesses da classe trabalhadora e pelos valores socialistas. Ou seja, é necessário construir uma sociedade em que os meios de produção sejam socializados, livres de opressão e exploração, e em que as pessoas possam desfrutar plenamente de suas vidas.

Para que as gerações futuras possam olhar para o futuro com esperança novamente!

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil