quinta-feira, 28 de maio de 2026

Submissão e proximidade política: especialistas avaliam diferenças entre fotos de Trump com Flávio Bolsonaro e Lula

O presidente Donald Trump é peça importante no tabuleiro eleitoral do Brasil. No começo do mês, o Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visitou o mandatário norte-americano para discutir interesses de Brasil e Estados Unidos. Na tarde de terça-feira, 26, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato ao Planalto, também esteve na Casa Branca e posou ao lado do estadounidense. 

Porém, apesar de ambos os encontros terem acontecidos na Casa Branca, os registros foram diferentes e transmitem mensagens bem distintas. Na imagem divulgada por Flávio, ele aparece em pé no Salão Oval, enquanto Trump está sentado atrás da mesa presidencial.

No registro do encontro entre Lula e Trump, ambos aparecem em pé, apertando as mãos, formato mais comum em reuniões entre chefes de Estado. O presidente dos Estados Unidos, inclusive, apareceu recebendo o brasileiro e posaram sorridentes para fotos. 

De acordo com o cientista político Valdir Pucci, a foto de Flávio com Trump transmite uma relação menos horizontal, já que o presidente americano aparece sentado enquanto o senador está em pé, o que pode sugerir hierarquia ou submissão.

“A imagem parece mais o registro de uma visita rápida do que de uma negociação entre líderes e, por isso, teria menos força simbólica do que a foto entre Lula e Trump, marcada por aperto de mãos e posição de igualdade”, explicou. 

Para Deividi Lira, analista político e especialista em marketing político, a foto entre Flávio e Trump foi construída para sinalizar proximidade política, mas tem alcance limitado fora da base bolsonarista. “A imagem, com Trump sentado e expressão protocolar, difere do padrão adotado em encontros entre chefes de Estado.”

<><> PCC e CV como terroristas

Para os analistas, a defesa de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pode consolidar a segurança pública como uma das principais bandeiras de uma eventual campanha presidencial de Flávio em 2026.

Durante entrevista coletiva após o encontro, o senador afirmou ter pedido a Trump que avalie a possibilidade de enquadrar as facções brasileiras como grupos terroristas, medida que, segundo ele, fortaleceria a cooperação internacional no combate ao crime organizado.

Segundo Pucci, a proposta dialoga diretamente com a base bolsonarista e pode fortalecer a fidelização desse eleitorado. O desafio, porém, é ampliar o alcance da pauta para além dos apoiadores mais próximos. “O discurso reforça o eleitor que ele já possui. A dúvida é se isso consegue atingir outros segmentos da sociedade, principalmente os indecisos”.

Já Deividi Lira avalia que o encontro com Trump e a defesa da classificação das facções como terroristas ajudam Flávio a construir a imagem de um candidato associado ao endurecimento do combate ao crime. “A segurança pública pode ser um mote para a campanha eleitoral. Ele vai utilizar essa reunião com Trump para reforçar a narrativa de que é um candidato preocupado com o tema”.

Para Lira, o assunto ganha relevância porque a segurança pública ainda é considerada um ponto vulnerável para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Apesar disso, ambos os especialistas avaliam que o discurso enfrenta limites. Além das dúvidas sobre efetividade, existe o risco de a aproximação com Trump ser interpretada por parte do eleitorado como alinhamento excessivo aos Estados Unidos, e não necessariamente como fortalecimento da soberania brasileira.

Na avaliação dos analistas, medidas mais rígidas contra o crime organizado tendem a permanecer no centro da narrativa bolsonarista, mas o impacto eleitoral dependerá da capacidade de transformar propostas simbólicas em soluções percebidas como concretas pelos eleitores.

Para Pucci, a segurança pública deve ocupar espaço central na estratégia eleitoral da direita nos próximos anos.

“Com certeza, a segurança pública será um dos grandes motes da oposição nesta eleição. Hoje, parte dos brasileiros aponta corrupção e outra parte aponta segurança pública como os principais problemas do país, e a direita já possui um discurso consolidado nessa área”, afirmou.

Pesquisa Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira, 25, mostrou que corrupção, saúde pública e segurança pública (violência e criminalidade) são considerados, respectivamente, os principais problemas do Brasil.

Apesar de avaliarem que a direita leva vantagem no debate sobre segurança, os especialistas consideram que as conversas entre Vorcaro e Flávio podem prejudicar o senador em outro tema central: corrupção. Para eles, o caso Banco Master passou a ser associado a esse debate.

¨      Trump fez elogios a Lula em conversa com Flávio Bolsonaro

A jornalista Mariana Sanches, do UOL, revelou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elogiou o presidente Lula (PT) diante do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e também comentou reformas na Casa Branca durante encontro no Salão Oval na terça-feira (26).

Segundo o relato de Sanches, Trump fez uma avaliação pessoal do presidente brasileiro mesmo na presença de um aliado do bolsonarismo. Para a jornalista, o episódio contrasta com a tentativa de transformar a imagem do encontro em um ativo político-eleitoral. “O Trump teria dito que o Lula aparentava ser muito velho, mas que, quando ele falava e agia, ele passava uma impressão diferente, de uma pessoa muito dinâmica e de uma pessoa muito esperta. Portanto, Donald Trump fez elogios ao Lula diante de Flávio Bolsonaro, foi isso que aconteceu”, afirmou Mariana Sanches.

A declaração, de acordo com a jornalista, indica que Trump teria feito comentários positivos sobre Lula em um contexto considerado sensível para apoiadores de Jair Bolsonaro (PL). O relato também acrescenta um novo elemento aos bastidores da conversa, ao mostrar que o presidente norte-americano teria se afastado da leitura política esperada por seus interlocutores.

¨      Bajulação de Flávio Bolsonaro a Trump reforça posição de Lula em defesa da soberania brasileira

Aliados do presidente Lula (PT) pretendem transformar a reunião do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em um novo elemento da disputa política sobre soberania nacional, em meio à estratégia do governo de contrastar a postura diplomática do presidente brasileiro com a movimentação do clã Bolsonaro nos Estados Unidos, relata a Folha de São Paulo.

A avaliação entre governistas é que o encontro do senador com o presidente norte-americano pode ser usado para reforçar a posição de Lula em defesa dos interesses brasileiros, enquanto adversários buscam interlocução externa em temas sensíveis para o país.

<><> Recepção a Lula e Flávio deve ser comparada

Integrantes do PT pretendem explorar a diferença entre a recepção oferecida por Trump a Lula, no início do mês, e o tratamento dispensado a Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro nesta terça-feira (26). A leitura entre aliados do presidente é que a visita oficial de Lula teve sinais políticos mais fortes, como tapete vermelho, registro de aperto de mãos e declarações positivas de Trump após a conversa.

No caso de Flávio, a imagem divulgada pelo próprio senador mostrou Trump sentado à mesa, em uma composição considerada mais fria por governistas. Para interlocutores do Palácio do Planalto, o episódio tende a mobilizar sobretudo a base mais fiel ao bolsonarismo, sem alterar de forma relevante o cenário para Lula.

<><> Crise na pré-campanha de Flávio

A viagem ocorre em um momento delicado para Flávio Bolsonaro, que enfrenta desgaste em sua pré-campanha após revelações sobre sua relação com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O senador negociou cerca de R$ 134 milhões para o patrocínio de "Dark Horse", filme sobre Jair Bolsonaro (PL).

Petistas avaliam que a agenda nos Estados Unidos busca deslocar o foco político do caso, que teria afetado o desempenho de Flávio nas pesquisas. Levantamento do Datafolha mostrou Lula com 40% das intenções de voto em uma simulação de primeiro turno, contra 31% do senador.

<><> Negociações com os EUA entram na disputa

Auxiliares do governo também veem risco para Flávio Bolsonaro caso o encontro passe a ser associado a eventuais dificuldades nas negociações entre Brasil e Estados Unidos. O senador afirmou ter tratado com Trump de temas já discutidos oficialmente entre os dois governos, como o tarifaço e o crime organizado.

A tendência, segundo interlocutores governistas, é que qualquer recuo de Trump no diálogo com o Brasil seja politicamente vinculado à atuação de Flávio. Nesse enquadramento, Lula buscaria se apresentar como o líder que defende a soberania nacional diante de pressões externas.

Nos últimos meses, o presidente tem associado a família Bolsonaro a uma postura de subordinação aos Estados Unidos. A visita de Flávio, portanto, deve ser incorporada ao discurso político do Planalto em um contexto de disputa eleitoral e de tensão em torno da relação bilateral.

<><> Divergência sobre facções criminosas

Após a reunião, Flávio afirmou ter pedido a Donald Trump que classifique o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como grupos terroristas. O tema é visto como ponto de divergência entre os governos brasileiro e americano.

A posição defendida pelo senador contraria o conceito adotado pela ONU (Organização das Nações Unidas), que conta com apoio público da diplomacia brasileira. Lula afirmou que o assunto não foi tratado em sua reunião com Trump, realizada no último dia 7.

<><> Ironia entre governistas

Antes da confirmação pública da reunião, Flávio publicou nas redes sociais um vídeo dizendo que estava em Washington e que teria uma conversa "muito bacana". Em seguida, acrescentou: "Daqui a pouquinho vocês vão saber com quem".

O senador também afirmou que a embaixada do Brasil nos Estados Unidos não autorizou que sua fala a jornalistas depois da reunião ocorresse no local. Entre governistas, a agenda foi recebida com ironia.

Questionado sobre a visita, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) afirmou que já bastava "um da família Bolsonaro" trabalhando contra o Brasil. Nas redes sociais, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) disse que o encontro buscava esconder o escândalo e chamou o episódio de "Três patetas com Trump".

Para aliados de Lula, a agenda de Flávio na Casa Branca não necessariamente fortalece sua pré-campanha. A avaliação no entorno do presidente é que o encontro pode ampliar a exploração política do tema da soberania nacional e reforçar a estratégia governista de apresentar Lula como defensor dos interesses do Brasil nas negociações com Washington.

¨      "Cara de pau", diz Zarattini sobre Flávio Bolsonaro "preocupado com o combate ao crime no Brasil"

O deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) criticou, nesta quarta-feira (27), a postura do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington, e afirmou que o parlamentar usa o tema da segurança pública como palanque político.

Em postagem nas redes sociais, Zarattini reagiu à declaração de Flávio Bolsonaro de que pediu a Trump que as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) sejam classificadas como organizações terroristas.

“A demagogia do clã Bolsonaro chega a níveis impressionantes. Flávio Bolsonaro vai aos Estados Unidos posar como alguém preocupado com o combate ao crime organizado no Brasil. É muita cara de pau”, escreveu o deputado.

Segundo Zarattini, o senador tenta explorar o medo da população diante da violência para construir uma imagem de “defensor da segurança”. Para o parlamentar petista, Flávio Bolsonaro transforma um tema grave em instrumento de disputa política. “Na prática, ele tenta explorar o medo real da população diante da violência para construir uma imagem de ‘defensor da segurança’, enquanto transforma um tema grave em palanque político”, afirmou.

O deputado também criticou a ausência, segundo ele, de uma proposta efetiva para enfrentar o crime organizado no país. Zarattini mencionou temas como facções criminosas, lavagem de dinheiro, corrupção policial e expansão das organizações criminosas. “Não existe projeto consistente para enfrentar facções criminosas, lavagem de dinheiro, corrupção policial ou expansão do crime organizado. O objetivo é outro: manter poder político, mobilizar a própria base e tentar criar condições para proteger Jair Bolsonaro dos problemas judiciais que enfrenta”, declarou.

Flávio Bolsonaro afirmou na terça-feira (26) que viajou aos Estados Unidos após ser convidado para uma reunião com Trump na Casa Branca. Em coletiva de imprensa realizada logo após o encontro, o senador disse que tratou com o presidente norte-americano de temas como segurança pública, tarifas e terras raras.

¨      Foto de Flávio Bolsonaro com Trump rende enxurrada de memes nas redes

A foto que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou ao lado do presidente Donald Trump, na Casa Branca, inspirou uma enxurrada de memes nas redes sociais.

Na maior parte das montagens, Flávio é mostrado como alguém subserviente ao presidente dos Estados Unidos e aparece como se fosse garçom ou entregador de delivery.

A percepção é de que o presidenciável do PL fez de tudo para conseguir um rápido encontro com Trump apenas para obter a foto que vai usar como promoção pessoal, mesmo sem ter participado de qualquer reunião com o governante estadunidense.

Nos dois retratos divulgados, Trump não se deu ao trabalho de levantar para cumprimentar Flávio, o irmão Eduardo e o blogueiro Paulo Figueiredo.

 

Fonte: Portal Terra/Brasil 247/ICL Notícias

 

Caminhos para o socialismo em tempos de IA

O debate sobre inteligência artificial e socialismo entrou, nos últimos anos, em um patamar mais exigente. Já não se trata de discutir apenas os efeitos da tecnologia, mas de reconhecer que a própria técnica passou a ocupar um lugar estrutural na organização da vida social. Esse deslocamento obriga a abandonar de vez a ideia de neutralidade tecnológica e a enfrentar a questão em termos mais densos.

É nesse terreno que se destacam as reflexões de Evgeny Morozov e Aaron Benanav. Em registros distintos, ambos contribuem para afastar leituras simplificadoras. De um lado, ganha força a crítica à noção de que a tecnologia possa ser simplesmente apropriada e redirecionada sem que se considerem as formas de vida que ela engendra. A inteligência artificial não se limita a operar sobre o mundo social; ela participa da sua configuração, reorganizando práticas, rotinas e possibilidades de ação.

De outro, reafirma-se algo que não pode ser contornado: o desenvolvimento tecnológico está inscrito em relações concretas de poder. Investimento, infraestrutura, energia, trabalho qualificado e direção social definem quais trajetórias técnicas se consolidam e quais permanecem marginais. A questão da decisão — quem decide, com base em quais critérios e com que horizonte — retorna ao centro do problema.

Nesse ponto, o debate atinge um grau relevante de elaboração. A técnica deixa de ser pensada como mero instrumento e passa a ser compreendida como elemento constitutivo das relações sociais, ao mesmo tempo em que se reconhece que sua direção não está dada, mas depende de disputas e escolhas historicamente situadas. É a partir desse nível que se torna possível avançar.

<><> O limite comum: técnica e decisão não esgotam o problema

Esse avanço teórico, no entanto, carrega um limite que não é imediatamente visível. Ao articular a crítica à neutralidade da técnica com a necessidade de coordenação política, o debate tende a se organizar em torno de dois polos: de um lado, a forma como a tecnologia estrutura o mundo social; de outro, a capacidade coletiva de orientar seus rumos. A disputa aparece, assim, como uma questão de direção.

Essa formulação é forte, mas parte de uma suposição que permanece pouco interrogada. Supõe-se, ainda que implicitamente, que o sujeito que percebe, avalia e decide mantém uma certa estabilidade. A técnica pode reorganizar o contexto, o planejamento pode estruturar escolhas, mas a instância que julga essas escolhas continua a ser tratada como um dado relativamente preservado.

É justamente aqui que o problema se estreita. Ao concentrar a análise na relação entre infraestrutura tecnológica e decisão institucional, perde-se de vista o modo como essas próprias capacidades de julgamento são formadas. Não se trata apenas de perguntar quem decide ou o que é decidido, mas de compreender em que condições materiais se constitui a própria possibilidade de decidir.

Esse deslocamento não nega a centralidade da técnica nem a importância do planejamento. Ele apenas indica que ambos se apoiam em uma dimensão anterior, frequentemente naturalizada: a produção histórica das formas de percepção, avaliação e escolha. É nesse terreno que o debate precisa avançar.

<><> A questão decisiva: a produção da subjetividade

Se o debate avança ao reconhecer o peso da técnica e a necessidade de decisão coletiva, há um ponto que começa a se impor quase como um incômodo. Não dá mais para tratar como evidente aquilo que, por muito tempo, foi tomado como dado: a própria formação do sujeito que percebe, avalia e decide.

Esse sujeito não está fora das relações que estruturam a técnica. Ele se forma dentro delas. É atravessado por dispositivos, por rotinas, por ambientes que organizam a experiência antes mesmo que ela se torne consciente. O que se vê, o que chama atenção, o que parece relevante ou urgente não surge de forma espontânea.

Percepção, desejo e julgamento, nesse sentido, deixam de ser categorias naturais. Passam a aparecer como resultados de mediações concretas, historicamente situadas. A inteligência artificial, integrada a plataformas e sistemas de recomendação, não atua apenas reorganizando fluxos de informação. Ela intervém diretamente na forma como esses fluxos são percebidos, interpretados e incorporados à ação.

Isso muda o problema de lugar. Já não basta perguntar como a técnica molda o mundo social ou como a sociedade pode orientá-la. A questão se desloca: em que condições se formam as capacidades que permitem essa orientação? Como se produz, materialmente, a possibilidade de perceber, comparar e decidir?

Quando essa dimensão entra em cena, o debate muda de escala. A técnica deixa de ser apenas objeto de decisão e passa a participar da constituição daqueles que decidem. É aí que o problema ganha densidade real.

<><> Fricção zero: a eliminação da resistência como forma de poder

Quando se observa mais de perto como essa modulação ocorre, uma tendência aparece com nitidez. Não se trata apenas de organizar melhor a informação ou tornar sistemas mais eficientes. O que se consolida é uma lógica orientada a reduzir ao máximo qualquer forma de atrito entre estímulo e resposta.

A ideia de fricção zero ajuda a dar nome a esse movimento. Ela não diz respeito apenas à facilidade de uso ou à fluidez das interfaces. O que está em jogo é a tentativa sistemática de encurtar o caminho entre a exposição a um estímulo e a ação correspondente. Quanto menos tempo, menos dúvida, menos interrupção, melhor o desempenho do sistema.

Isso vai muito além de conveniência. Ambientes digitais são desenhados para evitar desvios, antecipar preferências e oferecer respostas antes mesmo que uma pergunta se consolide plenamente. A experiência passa a ser conduzida de modo contínuo, quase sem pausas, com poucas oportunidades reais de suspensão ou recuo.

Do ponto de vista comportamental, os mecanismos são conhecidos. Reforço intermitente, expectativa de recompensa, simplificação de escolhas, repetição de padrões. O que muda é a escala e a integração desses elementos em sistemas que operam de forma permanente, ajustando-se em tempo real.

Nesse cenário, a fricção deixa de ser um obstáculo e passa a revelar seu valor. É ela que abre espaço para a dúvida, para o conflito interno, para a comparação entre alternativas. Quando desaparece, algo se altera na própria estrutura da decisão. A ação continua existindo, mas ocorre dentro de um campo cada vez mais estreito.

É assim que a técnica passa a operar de outra forma. Não apenas como meio, mas como organização da conduta. A eliminação da resistência não é um detalhe técnico. É uma forma específica de exercício de poder, discreta, contínua e profundamente eficaz.

<><> Metaintermediação algorítmica: a organização invisível do real

Mas esse processo não se limita ao momento da ação. Antes mesmo de qualquer escolha, já existe uma camada que organiza o campo no qual essa escolha vai acontecer. É aí que a ideia de metaintermediação ganha força.

Não se trata mais apenas de intermediar relações entre pessoas, conteúdos ou serviços. O que está em jogo é algo anterior: a definição das condições sob as quais algo aparece, se torna visível, relevante ou sequer chega a existir como possibilidade.

Plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial operam como filtros permanentes. Eles selecionam, ordenam, repetem, ocultam. O que circula não é simplesmente o mundo tal como ele é, mas uma versão continuamente reorganizada a partir de critérios que combinam dados, objetivos econômicos e padrões de comportamento já identificados.

Isso muda a natureza da mediação. Ela deixa de ser um canal e passa a funcionar como infraestrutura. A experiência cotidiana acontece dentro de um ambiente previamente estruturado, no qual certas informações ganham centralidade enquanto outras desaparecem quase sem deixar rastro.

O ponto decisivo está no fato de que essa organização ocorre antes da relação direta entre sujeito e objeto. Não se escolhe entre todas as opções possíveis, mas entre aquelas que já foram previamente dispostas. A percepção, nesse sentido, não começa do zero. Ela já chega orientada.

Nada disso elimina completamente a agência individual. Mas a desloca. A ação continua existindo, só que dentro de um espaço delimitado por sistemas que operam de forma contínua e, muitas vezes, invisível. É nesse plano que a técnica passa a atuar não apenas como mediadora, mas como condição de possibilidade do próprio real vivido.

<><> Economia política do comportamento

Quando se traz esse quadro para o terreno da economia política, o que aparece é um deslocamento importante. A modulação do comportamento deixa de ser algo periférico e passa a ocupar um lugar central na própria dinâmica de produção e acumulação.

A atividade dos indivíduos, aqui, não importa apenas enquanto trabalho direto. Ela passa a ter valor enquanto fonte contínua de dados, padrões e previsibilidade. Cada interação, cada escolha, cada trajetória de navegação vai sendo incorporada como informação que pode ser processada, comparada e, sobretudo, antecipada.

Nesse contexto, a atenção ganha outro estatuto. Não é apenas um recurso subjetivo, algo difuso. Torna-se algo disputado, capturado e organizado como variável econômica. Manter alguém engajado, prolongar sua permanência, direcionar seu foco — tudo isso passa a ter implicações diretas na geração de valor.

O comportamento, assim, entra no circuito produtivo de forma ampliada. Não apenas como resposta a estímulos de mercado, mas como matéria-prima a partir da qual novos padrões são construídos. A previsibilidade torna-se um ativo. Quanto mais previsível a conduta, maior a capacidade de orientar fluxos, ajustar ofertas e reduzir incertezas.

Isso implica uma mudança de escala. A produção de valor não se limita ao espaço tradicional do trabalho. Ela se estende para a gestão contínua das condutas. Percepção, ação e resposta passam a ser integradas em sistemas que operam em tempo real, convertendo experiência em informação e informação em capacidade de intervenção.

Ao colocar isso no plano das relações de produção, evita-se tanto a abstração quanto a moralização. Não se trata apenas de dizer que há influência ou manipulação. Trata-se de reconhecer que a subjetividade entra, de forma material, no processo de valorização do capital. E isso muda o problema por completo.

<><> Guerra híbrida e disputa cognitiva

Quando essa engrenagem é observada fora do estritamente econômico, o quadro se amplia. As mesmas estruturas que organizam atenção e comportamento passam a operar também como instrumentos de influência em escala social. Não há uma ruptura clara entre essas dimensões. Elas se sobrepõem.

Ambientes digitais baseados em inteligência artificial oferecem condições muito particulares para isso. Segmentação fina de públicos, teste constante de mensagens, acompanhamento de reações quase em tempo real. O que antes exigia campanhas pontuais passa a ser conduzido de forma contínua, incorporado ao próprio fluxo das interações.

Nesse cenário, operações psicológicas deixam de ser eventos excepcionais. Elas se diluem no cotidiano. Não aparecem como algo externo, mas como parte do ambiente informacional no qual as pessoas vivem. A disputa não se restringe ao conteúdo de uma ideia, mas alcança os critérios pelos quais ela será percebida como plausível, urgente ou irrelevante.

Confiança, credibilidade, familiaridade — tudo isso pode ser trabalhado tecnicamente. Pequenos deslocamentos acumulados ao longo do tempo tendem a produzir efeitos mais consistentes do que intervenções abruptas. A percepção vai sendo ajustada de maneira gradual, quase imperceptível.

A guerra híbrida, nesse contexto, ganha outro contorno. Não se trata apenas da combinação de instrumentos militares, econômicos e informacionais. Trata-se da capacidade de atuar sobre a formação de juízos, de influenciar o modo como a realidade é interpretada e de orientar, por essa via, a ação coletiva.

Isso não é um desvio da lógica econômica. É um desdobramento dela. A mesma infraestrutura que transforma comportamento em valor permite que esse comportamento seja mobilizado estrategicamente. Previsibilidade e influência passam a caminhar juntas. E é nesse ponto que a técnica revela toda a sua dimensão política. Não se trata de exceção, mas de funcionamento normal.

<><> Sul Global e soberania informacional

Observado a partir do Sul Global, esse processo ganha contornos mais duros. O que, em contextos centrais, pode aparecer como disputa interna sobre tecnologia e regulação, nas formações periféricas se apresenta como problema estrutural de dependência.

A infraestrutura não é neutra e tampouco está distribuída de forma equilibrada. Plataformas, centros de processamento, sistemas de armazenamento, modelos de inteligência artificial — tudo isso tende a se concentrar em poucos polos. A maior parte dos países opera a partir de tecnologias que não controla e sobre as quais tem pouca margem de intervenção.

Isso desloca o problema. A inteligência artificial deixa de ser apenas uma questão de inovação ou eficiência produtiva. Passa a ser também uma questão de soberania. Quem controla os dados, define os padrões e organiza os fluxos de informação acaba por influenciar diretamente as condições sob as quais decisões são tomadas.

Essa dependência não se restringe ao plano técnico. Ela atravessa a formação da percepção. Ao operar dentro de ambientes estruturados externamente, os próprios critérios de relevância, urgência e verdade passam a ser mediados por lógicas que não se originam no interior dessas sociedades.

O resultado é uma assimetria mais profunda do que a simples diferença de acesso à tecnologia. Trata-se de uma diferença na capacidade de definir o que conta como realidade compartilhada. E isso tem implicações diretas sobre a política, sobre a economia e sobre a própria possibilidade de ação coletiva.

Falar em soberania informacional, nesse cenário, não é um gesto abstrato. É reconhecer a necessidade de construir capacidade própria: infraestrutura, processamento, desenvolvimento de modelos, organização de dados. Sem isso, qualquer tentativa de reorientar a técnica esbarra em limites que não são apenas internos.

A questão deixa de ser apenas “como usar” a tecnologia e passa a ser “em que condições essa tecnologia é produzida, controlada e integrada à vida social”. É nesse ponto que o problema se conecta diretamente com a ideia de autonomia.

<><> Síntese: técnica, decisão e subjetividade como totalidade

Quando essas dimensões são colocadas lado a lado, o quadro deixa de ser fragmentado. A discussão sobre a inteligência artificial não pode mais ser reduzida nem à crítica da técnica, nem à defesa do planejamento. As duas continuam centrais, mas passam a exigir um nível de articulação maior.

A técnica não apenas organiza processos produtivos, nem a decisão política se limita a orientar seus usos. Entre uma coisa e outra, há um campo inteiro em funcionamento: a produção das condições sob as quais algo pode ser percebido, avaliado e transformado em ação.

É nesse ponto que o problema ganha consistência. A modulação do comportamento, a filtragem algorítmica da experiência e a organização prévia do campo perceptivo não operam isoladamente. Elas se integram às dinâmicas de acumulação e às disputas por direção social, formando um mesmo movimento.

Separar essas dimensões já não ajuda a compreender o que está em jogo. Produção de valor, formação de juízo e orientação da ação coletiva passam a acontecer dentro de circuitos interligados, nos quais dados, modelos e infraestruturas técnicas desempenham papel decisivo.

Isso não invalida as abordagens anteriores. Pelo contrário. A crítica da técnica continua necessária para evitar qualquer ilusão de neutralidade. A economia política segue indispensável para compreender as relações de poder que orientam o desenvolvimento tecnológico. O que muda é que nenhuma delas, isoladamente, dá conta do problema.

A incorporação da subjetividade não vem para substituir esses enfoques, mas para revelar aquilo que os atravessa. A decisão não é apenas um ato consciente sobre alternativas disponíveis. Ela depende de condições materiais que organizam o que aparece como alternativa, o que parece desejável e o que se apresenta como possível.

É nesse nível que a discussão se torna mais exigente. Não se trata apenas de decidir sobre a técnica, mas de compreender como a própria capacidade de decisão é produzida dentro das mesmas estruturas que se pretende transformar.

<><> Conclusão: a condição da transformação

Quando se chega a esse ponto, a questão já não pode ser formulada apenas em termos de controle da técnica ou de reorganização da produção. Isso continua sendo fundamental, mas não esgota o problema. A transformação social passa a depender também das condições sob as quais a ação coletiva se torna possível.

A questão já não pode ser formulada apenas como decisão sobre a técnica, mas de garantir que essa decisão possa, de fato, existir como prática efetiva. Isso implica ambientes nos quais percepção, julgamento e escolha não estejam integralmente condicionados por estruturas que operam fora do alcance da coletividade.

A reorganização da produção, por si só, não resolve esse impasse. Sem capacidade de compreender, interpretar e disputar o campo no qual a realidade se apresenta, qualquer projeto de transformação tende a operar dentro de limites que não controla plenamente.

É por isso que a questão da soberania precisa ser pensada de forma ampliada. Técnica, informação e cognição não aparecem como esferas separadas, mas como dimensões interdependentes de um mesmo processo. A capacidade de desenvolver infraestrutura, organizar fluxos informacionais e sustentar formas próprias de interpretação da realidade torna-se parte integrante da possibilidade de orientar o futuro.

A inteligência artificial intensifica essa exigência. Ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades, também aprofunda mecanismos de antecipação e dependência. O sentido desses processos não está dado na técnica em si, mas nas relações sociais que a estruturam e nas formas de poder que se consolidam a partir dela.

A questão, portanto, não é apenas o que fazer com a técnica, mas em que condições esse “fazer” pode ser construído coletivamente. É nesse terreno que a discussão sobre socialismo após a inteligência artificial encontra seu ponto mais exigente — e também mais decisivo.

 

Fonte: Por Reynaldo Aragon Gonçalves, em Outras Palavras

 

Luís Nassif: Lula 4 e os ensinamentos da história

Marcos Nobre é um cientista político bastante articulado, um dos melhores observadores da cena política. Em entrevista à BBC ele analisa as eleições, à luz da descoberta das relações Master-Flávio Bolsonaro. E diz, acertadamente, que o timing do escândalo foi bom para Flávio, porque dará tempo de corrigir problemas de comunicação e, até às eleições, haverá a diluição do escândalo.

Traz, também, um bom diagnóstico dos governos Lula, mas com uma conclusão discutível.

Em linhas gerais, ele divide a polarização brasileira, pós-Lula, em dois campos: os distributivistas (sem afrontar os interesses do andar de cima) e os não-distributivistas. Lula teve sucesso na primeira fase do distributivismo, contando com folga no orçamento, em função do boom das commodities. Essa folga permitiu o Bolsa Família sem afrontar os interesses das classes altas.

Em Lula 3 não havia mais esse espaço, e houve a necessidade das trocas: isenção de Imposto de Renda para quem ganha menor em troca de tributação sobre os altos ganhos e sobre os dividendos.

Um Lula 4 teria que aprofundar esse conflito, se não quiser perder a base eleitoral.

A grande questão é: como enfrentar essa batalha sendo minoritário no Congresso e com um Supremo Tribunal Federal disposto a desconstruir a legislação trabalhista?

<><> Os pactos políticos

A história não recomenda esse tipo de confronto.

O segundo governo Vargas conseguiu lançar as bases da industrialização e conquistar o apoio de grandes grupos empresariais, como os Matarazzo, os Klabin, os Lafer, Walther Moreira Salles. Sua bancada apoiou a CPI da Última Hora, sabendo que os demais grupos jornalísticos haviam recebido muito mais favores do que o jornal de Samuel Wainer.

De nada adiantou. A CPI gerava uma profusão de notícias, mas o controle das narrativas era do cartel de jornais. Com todos esses apoios, Vargas terminou esmagado pela campanha midiática, liderada pela rádio Globo, aliada ao militarismo golpista.

Já Juscelino Kubitscheck recorreu a uma estratégia absolutamente inovadora, para períodos democráticos.

No Brasil, a emergência de setores empresariais novos sempre acaba esmagado pela ação da mídia, empenhada em defender os setores já estabelecidos. O que JK fez foi cooptar os donos do dinheiro, para que participassem da empreitada de industrialização.

O Plano de Metas foi desenhado por técnicos, abrigados no recém-criado BNDE. Eles planejavam os novos setores e o espaço que caberia ao capital nacional, com o apoio adicional do BNDE.

O Plano criou três camadas distintas de beneficiários nacionais:

(1) as estatais herdadas de Vargas, que foram expandidas e capitalizadas;

(2) as empreiteiras de obras públicas, que cresceram institucionalmente com o rodoviarismo e Brasília; e

(3) a indústria de base privada nacional em setores como cimento, celulose e metais.

O capital estrangeiro ficou concentrado nos bens de consumo duráveis — e mesmo aí, como no caso da Vemag, havia sócios nacionais. A Instrução 113 da SUMOC beneficiou multinacionais, mas os incentivos cambiais, fiscais e creditícios beneficiaram a todos, inclusive aos estados onde se localizariam os empreendimentos.

Os exemplos:

>>> 1. Energia (Furnas, Três Marias, Paulo Afonso)

JK investiu maciçamente em energia, realizando as obras de Três Marias, multiplicando o potencial da hidrelétrica de Paulo Afonso e cuidando da primeira etapa de Furnas. O setor de energia elétrica tinha dois grandes projetos: a construção da barragem de Três Marias (480 MW) e a Central Elétrica de Furnas S.A. (1.100 MW), ambas em Minas Gerais, num projeto de interligação da produção e distribuição no Centro-Sul.

## Beneficiários nacionais:

- Estado diretamente, via Chesf, Furnas e Cemig — empresas de capital nacional estatal. O setor de engenharia pesada nacional se capitalizou nas obras civis das barragens.

>>> 2. Transportes (rodovias)

A construção de Brasília ampliou a malha rodoviária, gerando a Belém-Brasília (2.400 km), a Brasília-Rio via Belo Horizonte (1.200 km), a São Paulo via Goiânia (1.150 km), além de eixos para o Acre e Fortaleza. Esse conjunto estimulou a engenharia brasileira em todas as suas vertentes e multiplicou as atividades das empresas construtoras e empreiteiras.

## Beneficiários nacionais:

- Beneficiamento e fortalecimento do componente privado na relação entre o sistema DNER/DER e as empreiteiras de obras públicas. Os crescentes contatos levaram à capitalização das empresas, que puderam comprar equipamentos, incrementar produtividade e ampliar seu poder de influência com a burocracia. É nesse período que empreiteiras como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão dão um salto qualitativo de porte e articulação institucional.

>>> 3. Siderurgia e Indústria de Base

O setor siderúrgico recebeu investimentos na Companhia Siderúrgica Nacional e na Belgo-Mineira (capital misto), com crescimento de 80%. A indústria de base abrangia siderurgia, alumínio, cimento, álcalis, papel e celulose, borracha, metais não ferrosos, mecânica e material elétrico.

## Beneficiários nacionais:

- A siderurgia se montou com capitais nacionais estatais (BNDE) e japoneses (Usiminas). Ao final do governo JK, os principais setores industriais brasileiros, à exceção de automóveis, autopeças e farmacêuticas, tinham participação majoritária de capital nacional. Além disso, não houve desnacionalização de nenhuma das empresas estatais criadas por Vargas: Petrobras, Vale do Rio Doce, BNDE, FNM, CSN, Cosipa e Álcalis permaneceram estatais e foram fortalecidas, sendo cruciais para o êxito do Plano.

>>> 4. Indústria Automobilística (GEIA)

Um dos maiores legados do Plano de Metas foi a criação do parque industrial automotivo. Empresas como Volkswagen, Ford e General Motors se estabeleceram no país. O governo incentivou a produção nacional por meio de políticas de isenção fiscal e construção de estradas.

## Beneficiários nacionais:

- A automobilística se montou predominantemente com capitais alemães (Volkswagen), franceses (Simca) e nacionais (Vemag), mas com participação de capital nacional em todas as montadoras. O setor de autopeças, por exigência de índice de nacionalização progressivo estabelecido pelo GEIA, gerou um amplo parque nacional de fornecedores no ABC paulista. Entre as empresas responsáveis figuravam também a Fábrica Nacional de Motores, de capital estatal.

>>> 5. Construção Naval (GEICON)

A indústria de construção naval se montou com capitais japoneses, holandeses e brasileiros. O GEICON tinha como objetivo coordenar e aprovar as medidas necessárias à realização dos projetos de estaleiros.

## Beneficiários nacionais:

- estaleiros de capital misto, especialmente no Rio de Janeiro (Ilha do Governador), com participação do Lloyd Brasileiro e da Petrobras como âncoras da demanda.

>>> 6. Brasília (meta-síntese)

Setor de maior acumulação concentrada de capital nacional, com o Estado como contratante exclusivo via NOVACAP. O DNER promoveu a adjudicação dos serviços por concorrências públicas por especialidade, agrupando firmas para pavimentação, terraplanagem e obras de arte especiais, em várias frentes simultâneas para adequar ao cronograma. A acusação de corrupção nas contratadas foi constante desde o início — mas o resultado estrutural foi a formação das grandes empreiteiras nacionais como atores políticos permanentes.

<><> A nova indústria

O segredo está em desenhar o Plano de Metas do Lula 4, para terras raras, datacenters e energia verde, economia da Amazônia, indústria de defesa, indústria de bem estar, e abrir espaço para dois atores relevantes: o capital industrial nacional e a transição do capital financeiro para as novas oportunidades. Tratando de incluir em cada plano metas para pequenas e médias empresas e para emprego.

¨      O custo político do recuo ideológico no terceiro mandato. Por Paulo Nogueira Batista Jr.

Um tema do momento é a dificuldade de traduzir os resultados econômicos do governo Lula em intenções de voto para outubro. A recente crise da candidatura do principal opositor, Flávio Bolsonaro, tranquilizou os apoiadores de Lula, mas a eleição está longe de ganha, como sabemos, e o problema persiste.

O governo Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área econômica – crescimento do PIB (ainda que modesto, próximo de 3% a.a. em média), desemprego aberto em queda (para os menores níveis registrados), inflação controlada (embora com preços elevados de produtos críticos como alimentos), entre outros feitos. É nítida a melhora em relação à situação que vigorava nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Como explicar que a eleição se mostre apertada, com grande parte das intenções de voto direcionada a Flávio Bolsonaro?

But it’s not the economy, stupid! (mas não é a economia, estúpido!),poderíamos dizer, invertendo o célebre chavão oriundo dos Estados Unidos. Fatores não econômico pesam. E mesmo a economia não está lá essas coisas – vide os juros escorchantes, o elevado endividamento das famílias, as políticas governamentais inibidas pelo arcabouço fiscal, o reduzido investimento público e privado etc. E não vamos perder de vista que a base de comparação Temer/Bolsonaro é bem modesta, para dizer o mínimo.

Mas, para além da economia, falta algo fundamental que talvez ajude a entender as intenções de voto – o governo não tem marca, não tem audácia, não tem alma.

Desde o seu início, em 2023, o governo federal e a sua precária base parlamentar estão infestados de pessoas que pouco ou nada têm a ver com a transformação real do país. Temos de tudo: neoliberais, carreiristas, fisiológicos, até sionistas. E, meio perdidos nesse ambiente hostil, uma minoria de brasileiros que lutam dentro do governo para defender e mudar o Brasil.

Não sei se  preciso dar exemplos, mas vamos lá. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), ficou quase totalmente dominado por neoliberais. Uma recente entrevista de página inteira do atual chefe do MDIC, Elias Rosa, ao jornal Valor (4 de maio, p. A6) é sintomática do estado das artes nesse ministério. Rosa foi secretário-executivo durante toda a gestão de Geraldo Alckmin, ele próprio um neoliberal. Na entrevista, o flamante ministro defende o desvantajoso acordo econômico com a União Europeia – no qual abrimos nossos mercados industriais em troca de concessões pequenas e facilmente revogáveis para o setor agroexportador – e se vangloria de ter assinado acordos do mesmo naipe com Singapura e EFTA (European Free Trade Association – a associação de livre comércio que inclui alguns países europeus não-membros da União Europeia). Para completar o quadro, promete um acordo com o Canadá até o final do ano.  Com essa condução da política comercial, o Brasil terminará amarrado a uma teia de acordos de corte neoliberal em que abrimos nossos mercados à competição irrestrita com as empresas de países desenvolvidos, condenando ao fracasso qualquer tentativa de reindustrialização do país. Na verdade, seria melhor passar a chamar o MDIC de Ministério do Subdesenvolvimento e da Desindustrialização.

O Itamaraty, apesar dos esforços de muitos bons diplomatas, ficou prejudicado pela presença insuficiente de quadros ligadas à tradição nacional-desenvolvimentista, que já foi tão forte na casa. Isso se reflete na condução das já referidas negociações comerciais externas, que foram levados a cabo principalmente pelo Itamaraty e pelo MDIC. Os diplomatas envolvidos nessa negociação são corresponsáveis pelo desastre.

 No Ministério da Fazenda, também faz falta a presença de quadros menos comprometidos com o neoliberalismo e o carreirismo. Há exceções, notadamente entre os mais jovens da equipe, mas foi fraca a atuação da Fazenda em vários temas candentes – na construção do arcabouço fiscal (que acabou ficando excessivamente ambicioso), na definição da diretoria do Banco Central (com a escolha de nomes que não trazem qualquer perspectiva de mudança) e na quase total omissão nas negociações comerciais externas. Foi fraca, também, a participação do ministério no processo BRICS que o Brasil presidiu em 2025. Juntamente com o Itamaraty e o Banco Central, a Fazenda liderou uma presidência vazia de resultados importantes.

No Ministério do Planejamento, pelos menos no tempo da ministra Simone Tebet que deixou o cargo há pouco, a equipe quase inteira, com poucas exceções, era de orientação neoliberal – e se existe algo que não combina de jeito nenhum com planejamento é precisamente o neoliberalismo. E do Banco Central, bem, deste nem preciso falar mais. Já tratei dele em artigo recente (“A política de juros do Banco Central é um desastre”, 1 de maio de 2026).

Meu pai, que morreu em 1994, costumava dizer: “O problema do Brasil é que deixamos o adversário escalar nosso time.” Esse problema crônico, que se manifestou, em maior ou menor medida, em todos os governos nas décadas recentes, aparece claramente no atual. Um dos maiores diplomatas, se não o maior da sua geração, meu pai era um exemplo notável desse problema. Ele teve carreira brilhante, mas nunca chegou a ser ministro de Estado e nem secretário-geral. E, no entanto, posso dizer com tranquilidade, e sem favor de filho para pai: ele era, como diplomata e homem público, muito superior à maioria dos que exerceram essas funções. Havia um problema, entretanto. A sua nomeação incomodaria os nossos amigos do Norte. Melhor não arriscar, pensaram sucessivos presidentes.

Imagine, leitor ou leitora, quantos brasileiras e brasileiros existem em todas as áreas que têm inclinação para atuar no setor público, que possuem qualidades para tal, mas não são convocados por serem honestos demais, independentes demais, combativos demais! São vetados por políticos venais, por interesses econômicos e por forças estrangeiras e seus aliados domésticos. Refiro-me ao sistema financeiro e outros lobbies empresariais, à mídia corporativa, e a entidades locais que representam ou são controladas por ideologias e interesses estrangeiros. Da Febraban à Conib, da Fiesp à Rede Globo, da CNA à CNI.

Resultado: o time escalado fica, na melhor das hipóteses, repleto de pessoas hábeis, jeitosas, mas sem coragem e imaginação. São poucos os que entram em bola dividida. E há muito cabeça de bagre. No fundo, no fundo, infelizmente, a escalação é a própria imagem do Brasil – país em que sobra jogo de cintura, mas falta espinha dorsal.

Na nossa seleção atual, temos como centroavante, capitão e técnico do time um presidente da República experiente, tarimbado, um jogador de fama internacional. Perde uns gols incríveis, é verdade, mas a sua capacidade é inegável. Eis o problema, porém: a bola chega nele? Ou ele é forçado a voltar à intermediária para buscá-la? A verdade é que o centroavante acaba sem opções de jogo, uma vez que boa parte do resto do time passa a bola para o lado ou para trás – quando não faz gol contra!

Porém, convenhamos, o capitão pode reclamar? Afinal, quem senão ele permitiu que os adversários escalassem a nossa seleção?

E ficamos  assim com um time que joga para o empate ou até para perder de pouco. Com esse tipo de time, claro, não se ganha partida nenhuma e muito menos campeonato.

 

Fonte: Jornal GGN/A Terra é Redonda

 

Em vez de recuar diante do preconceito, geração prateada cria as próprias oportunidades

Às 11h de uma quarta-feira, Maurício Ferreira esperava para se encontrar com a reportagem em frente à Livraria do Chico, no prédio principal da Universidade de Brasília (UnB). Com um fichário e um livro, escrito por ele próprio, em mãos, dispensou ser chamado de senhor e avisou que a próxima aula seria apenas às 14h. Durante a conversa, ao menos cinco pessoas o reconheceram e o cumprimentaram. Aos 67 anos, Maurício é um fenômeno. Com 13 mil seguidores no Instagram, ele movimenta o perfil @IdosonaUnB, onde conta com irreverência os causos e desafios de um estudante 60 .

"Só faltei uma vez quando precisei viajar a trabalho, mas detesto perder aulas", comenta. Aluno do terceiro semestre de ciências econômicas, o morador de Sobradinho diz sentir-se em casa na universidade. "Nunca percebi qualquer situação que remetesse a preconceito por idade. Ao contrário, sou muito querido. Sinto que, se eu levantar a mão, os 'meninos' vêm me ajudar. Eu aprendo com eles e eles, comigo. É uma troca de experiências", afirma. E a cumplicidade não se restringe à sala de aula. "Outro dia, joguei ping-pong com eles (demais alunos) no centro acadêmico e dei uma 'surra' no pessoal", conta, orgulhoso.

O profissional da área de tecnologia, aposentado há dois anos do Ministério da Saúde, é um dos 594 estudantes idosos da UnB ingressos no Vestibular 60 . "Como não consigo ficar parado, escutei o conselho do meu filho e fiz a prova. Depois que terminar esse curso, quero fazer dupla diplomação com psicologia", revela. Foram os três filhos, inclusive, que o incentivaram a criar o perfil na rede social.

"Muitas pessoas da minha idade mandam mensagens falando que ficaram animadas para voltar a estudar após assistir a meus vídeos. Curiosas, perguntam como o processo funciona. Os jovens também gostam, mostram aos pais. Isso me enche de satisfação e me motiva a continuar gravando. Agora, estou no TikTok também", avisa. Fora da universidade e das redes, no entanto, as pessoas nem sempre são tão amistosas.

Esta é a quarta reportagem da série Envelhecer é moderno, que traça um diagnóstico sobre o que significa ter mais de 60 anos no Distrito Federal em 2026. Nesta edição, o Correio aborda o etarismo, preconceito que tenta rotular a terceira idade, mas que esbarra na energia de quem decidiu ignorar os estereótipos de incapacidade, infantilização e perda de produtividade. Maurício e Sylvia Yano são exemplos.

<><> Viajante bem-vivida

Foi na farra dentro do Fusca da mãe, a caminho de diferentes cidades no Brasil, que Sylvia Yano descobriu o gosto pelas viagens. Mais velha de cinco irmãos, ela adorava passar o tempo ao lado da família. "Era emocionante conhecer novos destinos com quem amamos", comenta. No decorrer de cada ano, ela esperava ansiosamente as férias, quando teria a oportunidade de ver de perto São Paulo (SP) ou Teresina (PI). "O 'bichinho' de viajar foi instaurado em mim ali", conta.

Sylvia visitou todas as capitais do Brasil — "menos Palmas" — e conhece 56 países. Aos 67 anos, aposentada, ela e a amiga Lilian Azevedo são as vozes no podcast Viajantes Bem-Vividas, no qual dão dicas de viagens e procuram incentivar as pessoas, independentemente da idade, a se aventurar no mundo. Com 103 episódios, o programa também desmistifica os mitos em torno de viajar sozinha depois dos 60.

O projeto nasceu há cinco anos, durante a pandemia. As duas, que tinham os próprios blogs, decidiram unir forças para alimentar a imaginação do público em um período de isolamento. Sylvia, além de viajar acompanhada, passou a conhecer lugares mais distantes somente depois dos 40. "Uma das principais dificuldades advindas da idade é a vulnerabilidade a golpes e furtos. Criminosos costumam enxergar o público 60 como alvo mais fácil. O essencial é ter malícia e atenção redobrada para não se deixar enganar", alerta.

Suas aventuras, com frequência, despertam o receio de amigas, que perguntam como superar o medo, e o julgamento de terceiros, que rotulam suas experiências como loucura. Para Sylvia, o essencial é se planejar. Ela defende que o preparo minucioso, muitas vezes negligenciado pelos jovens, é indispensável para a segurança. "Medo tem que ser um estímulo para não se deixar congelar. Cada vez que você viaja sozinha, você se empodera", destaca.

Para acompanhar o ritmo de caminhadas nas viagens, a podcaster diz fazer musculação toda semana. Com a idade, ela reconhece que seus limites físicos mudaram, mas a prática de exercícios físicos a permite seguir na ativa. Com relação à aparência, Sylvia não se preocupa. "Deixei de ser uma gatinha para virar uma 'gatosa'", brinca. O importante, segundo a viajante bem-vivida, é não deixar as ideias do que corresponde a cada idade ditarem seu comportamento. "Limitante é a forma de ver a vida, tanto para jovens quanto para idosos", destaca.

<><> Competição desleal

De acordo com Otávio de Toledo Nóbrega, professor da UnB e conselheiro titular dos direitos do idoso do DF, estudos mostram que o contato frequente entre diferentes gerações estimula a memória, a linguagem e a atenção, além de reduzir a solidão e o sentimento de inutilidade. "Esse convívio ajuda a desconstruir o etarismo e favorece relações mais empáticas. Idosos com uma rede familiar ativa e próxima de filhos e netos tendem a preservar a memória e a funcionalidade por mais tempo", defende.

O pesquisador da área do envelhecimento e longevidade também destaca que o DF tem idosos mais escolarizados e de renda mais alta, mas que sofrem com a exclusão laboral. "Há um paradoxo: profissionais qualificados e estáveis são vistos como ultrapassados. Isso ocorre porque o Brasil é um país maduro que ainda lida com angústias adolescentes, valorizando apenas a juventude. As empresas operam focadas na jovialidade, desperdiçando um capital humano experiente e valioso", explica Otávio.

"Brinco que tenho o dom de fazer os jovens dormirem. Basta eu subir no ônibus para todos pegarem no sono. Alguns até babam", conta o estudante 60 da UnB Maurício Ferreira. A atitude, porém, não o chateia. "Não ligo. Eu mesmo já dei lugar para pessoas mais novas sentarem, até porque, muitas vezes, me vejo com mais energia do que elas. Mas, claro, não é assim com todos os idosos. Então, é preciso ter bom senso", recomenda.

Se no transporte público a reação dissimulada dos passageiros não o incomoda tanto, no mercado de trabalho o preconceito assume contornos financeiros. Maurício recorda que o "peso" da idade começou a se fazer sentir logo após os 50 anos, momento em que as entrevistas de emprego passaram a dar lugar a justificativas corporativas veladas.

Na dinâmica do setor privado, ele percebeu que a bagagem acumulada em décadas de atuação na área de tecnologia encontrava uma barreira no comodismo das empresas, que tendem a priorizar profissionais mais jovens por questões de custo salarial. "A desculpa era sempre de que preferiam alguém começando para poder expandir e viajar. Eu dizia que também podia viajar, não teria impedimentos. Ficou um sentimento de marginalização", relembra.

Diante de uma competição desleal, a saída encontrada pelo estudante de ciências econômicas não foi o recuo, mas o empreendedorismo. Ao criar o próprio negócio, que presta serviços tecnológicos para empresas privadas, Maurício passou a ditar o ritmo da própria carreira. Quanto aos estudos, ele projeta: "Quero continuar estudando na UnB para, daqui a alguns anos, dividir os corredores com o meu neto, que hoje tem 15 anos, assim que ele passar no vestibular".

>>>> Três perguntas para Otávio de Toledo Nóbrega, professor da UnB, conselheiro titular dos Direitos do Idoso do DF e pesquisador da área do envelhecimento e longevidade

•        Como a convivência intergeracional impacta cognitiva e socialmente a saúde de quem está envelhecendo?

Estudos mostram que o contato frequente entre diferentes gerações estimula a memória, a linguagem e a atenção, além de reduzir a solidão e o sentimento de inutilidade. Esse convívio ajuda a desconstruir o etarismo e favorece relações mais empáticas. Idosos com uma rede familiar ativa e próxima de filhos e netos tendem a preservar a memória e a funcionalidade por mais tempo.

•        Quais são as consequências da busca incessante por procedimentos estéticos e pelo "antienvelhecimento"? A sociedade tolera melhor o envelhecimento masculino do que o feminino?

O envelhecimento feminino é julgado de forma mais severa porque a nossa cultura associa o valor social da mulher à juventude. Homens grisalhos são vistos como maduros; já as mulheres enfrentam invisibilidade e forte pressão estética. O cuidado estético é saudável para a satisfação pessoal, mas a cobrança excessiva gera ansiedade e agrava desigualdades, punindo quem não tem recursos para acessar esses procedimentos.

•        O que falta para Brasília se tornar, de fato, uma cidade "amiga do idoso" no que diz respeito à cultura e ao mercado de trabalho?

O DF tem idosos mais escolarizados e de renda mais alta, mas que sofrem com a exclusão laboral. Há um paradoxo: profissionais qualificados e estáveis são vistos como ultrapassados. Isso ocorre porque o Brasil é um país maduro que ainda lida com angústias adolescentes, valorizando apenas a juventude. As empresas operam focadas na jovialidade, desperdiçando um capital humano experiente e valioso.

 

Fonte: Correio Braziliense