Saberes
milenares e ciência moderna dividem espaço na saúde
Dor na
lombar, crises de enxaqueca e uma rotina puxada fizeram a estudante Ana Lyvia
Blower, 23 anos, entrar em um consultório de acupuntura pela primeira vez, em
2017. Não foi curiosidade nem busca por terapias alternativas. A indicação veio
do médico.
"Eu
tinha muitas dores de cabeça. Não havia nenhum diagnóstico específico, nada
como sinusite ou outro agravamento. Era dor de cabeça, dor lombar, questões
ligadas ao estresse e à rotina. A acupuntura foi indicada junto com a medicina
convencional", conta.
O que
começou como complemento virou parte importante do cuidado com a própria saúde.
Ao longo dos anos, ela alternou períodos de tratamento e pausa. Hoje, já com
diagnóstico de enxaqueca, diz perceber diferenças importantes.
"A
acupuntura ajudava muito. Eu evitava crises fortes. Quando a dor vinha, fazia
massagens nos pontos indicados pela médica e também a auriculoterapia com
sementes. Para mim, funciona", relata.
A
experiência de Ana não é isolada. Em um país em que procedimentos ligados às
Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) cresceram de 7,1 milhões
em 2023 para 10 milhões em 2025, segundo o Ministério da Saúde, terapias
ancestrais atravessam fronteiras culturais e chegam cada vez mais a
consultórios, hospitais e unidades públicas.
No
Sistema Único de Saúde (SUS), são oferecidas 29 práticas integrativas. Entre
elas estão acupuntura, eletroacupuntura, ventosaterapia, meditação, yoga,
tratamento ayurvédico, fitoterapia, massagem, automassagem e práticas corporais
ligadas à medicina tradicional chinesa.
A
oferta, porém, varia conforme a estrutura dos municípios e a organização dos
serviços locais. As práticas podem ser encontradas em Unidades Básicas de Saúde
(UBSs), Centros de Práticas Integrativas, Centros de Convivência e outros
equipamentos da rede pública.
A
política nacional reconhece essas práticas como complementares aos protocolos
clínicos estabelecidos, e não substitutivas. O objetivo, segundo a pasta, é
ampliar possibilidades terapêuticas para profissionais de saúde e pacientes.
O
crescimento, porém, vem acompanhado de perguntas, como o que dessas tradições
milenares já encontrou respaldo científico? O que permanece no campo cultural e
filosófico? E como equilibrar saber ancestral e medicina baseada em evidências?
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O corpo em equilíbrio
Com
mais de dois mil anos de história, a medicina tradicional chinesa parte de uma
lógica diferente da medicina ocidental. Graduado pela Universidade de Medicina
Tradicional Chinesa de Liaoning, Qin Jun explica que a acupuntura busca
restaurar o equilíbrio do organismo.
"O
corpo precisa estar em equilíbrio. Quando algo sai do lugar, pressão alta,
pressão baixa ou algum desequilíbrio, a acupuntura atua para ajudar o organismo
a recuperar esse equilíbrio", detalha.
Segundo
ele, a tradição chinesa trabalha a ideia de linhas energéticas invisíveis no
corpo. "São caminhos que não vemos, mas sentimos. O corpo manifesta sinais
quando algo não está funcionando bem."
Qin
também destaca diferenças entre Brasil e China. "No Brasil, muitas vezes
se usam apenas as agulhas. Na China, a prática tradicional costuma combinar
diferentes técnicas para potencializar os resultados", destaca.
Na
experiência clínica dele, as queixas mais frequentes são dores. "Dor de
cabeça, coluna, joelho, braço. Muitas pessoas sentem melhora rapidamente",
reforça.
Para
Qin Jun, a acupuntura parte de uma lógica construída ao longo de milhares de
anos de observação clínica. "Quando existe um problema interno, o corpo
manifesta sinais. Há pontos específicos que refletem esses
desequilíbrios", explica.
Na
visão tradicional chinesa, o cuidado não está apenas ligado ao tratamento
quando a doença já se instalou, mas também à prevenção. "Na China, muitas
vezes, o tratamento começa pela acupuntura. Quando não melhora, pensa-se em
outros recursos. Aqui, muitas pessoas ainda procuram primeiro remédio, exame ou
cirurgia", avalia.
A visão
tradicional chinesa, porém, convive com um debate constante no Ocidente sobre
mecanismos fisiológicos, evidência científica e critérios clínicos. É
justamente nesse ponto que especialistas em medicina integrativa defendem
ampliar o olhar sem abandonar critérios técnicos.
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Entre tradição e ciência
Embora
a busca por abordagens integrativas cresça, especialistas defendem que
complementar não significa substituir. A ginecologista e obstetra Erika Pimenta
afirma que há espaço para integração, desde que exista responsabilidade.
"Integrar não significa abandonar a ciência. Significa ampliar o olhar sem
perder responsabilidade técnica", diz.
Para
ela, o olhar integrativo surgiu justamente da percepção de que o ser humano não
funciona de forma fragmentada. "Corpo e mente estão interligados o tempo
todo. Emoções podem impactar processos físicos e alterações físicas também
afetam diretamente saúde mental, comportamento, sono, cognição e qualidade de
vida", explica.
Laura
Mocellin, médica com atuação em transtornos metabólicos e hormonais, também vê
a prevenção como um ponto de aproximação entre saberes tradicionais e medicina
contemporânea. "Muitas tradições médicas antigas valorizavam prevenção,
alimentação, sono, manejo emocional e relação entre corpo e mente. Hoje sabemos
que esses fatores realmente têm impacto sobre inflamação, imunidade, saúde
hormonal e doenças crônicas", afirma.
Segundo
a médica, a procura crescente por abordagens complementares também está
relacionada à forma como pacientes desejam ser atendidos. "Muitos
pacientes sentem necessidade de serem vistos de maneira mais ampla e não apenas
pela doença isoladamente", observa.
Ela
afirma perceber aumento do interesse por estratégias ligadas à longevidade, à
qualidade de vida, ao equilíbrio hormonal, à saúde intestinal e à prevenção.
"Existe uma mudança de comportamento. As pessoas querem participar mais
ativamente do próprio cuidado", acrescenta.
Apesar
disso, alertas para a substituição são importantes. "Existe um risco real
quando as pessoas começam a acreditar que tudo pode ser tratado apenas com
abordagens integrativas", destaca Erika Pimenta.
A
médica relata um caso marcante: "Uma paciente tinha um exame com suspeita
importante para câncer de mama. Um profissional disse que ela não tinha nada
após uma avaliação sem validação diagnóstica. Felizmente, ela procurou
acompanhamento médico e o câncer foi confirmado por biópsia."
Laura
Mocellin reforça a preocupação e o desafio de evitar que crenças substituam
diagnósticos. "O principal risco aparece quando práticas complementares
são usadas como substituição absoluta da medicina baseada em evidências,
especialmente em doenças graves", afirma.
Segundo
ela, redes sociais também ampliaram a circulação de promessas irreais.
"Existe muita informação sem embasamento científico. Detox milagrosos,
curas rápidas e terapias sem segurança comprovada."
Ainda
assim, Laura vê espaço para integração. "Meditação, yoga, manejo do
estresse, qualidade do sono e hábitos saudáveis têm impacto direto sobre
inflamação, imunidade, hormônios e doenças crônicas."
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Ayurveda: cinco mil anos depois
Se a
medicina chinesa busca equilíbrio energético, o ayurveda, sistema tradicional
originário da Índia, propõe uma visão integrada entre corpo, mente, hábitos e
ambiente.
Atmo
Danai, responsável pela formação em ayurveda do Instituto Atmo Danai, explica
que a escola busca preservar a tradição sem ignorar a realidade contemporânea.
"Nosso trabalho é construir uma ponte entre essa tradição ancestral e um
formato contemporâneo de ensino, preservando sua essência e profundidade",
conta.
Segundo
ela, a formação inclui estudos teóricos, práticas corporais, alimentação
ayurvédica, meditação e atividades supervisionadas. "O ayurveda não surgiu
dentro do modelo científico moderno ocidental, mas isso não impede o diálogo.
Hoje existe um esforço internacional crescente para investigar seus princípios
e resultados de forma criteriosa", enfatiza Atmo Danai.
Ela
atribui o crescimento da procura ao estilo de vida contemporâneo. "Vivemos
um momento de sobrecarga física, emocional e mental. Muitas pessoas buscam
formas de cuidado que ultrapassem a lógica de tratar sintomas."
Para
Atmo, o ayurveda oferece uma proposta mais ampla. "Rotina, alimentação,
sono, respiração e autoconhecimento fazem parte desse cuidado", diz.
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Energia, relaxamento e bem-estar
Outra
prática que ganhou espaço nos últimos anos é o reiki. Sandra Avramidis,
psicanalista e especialista em hipnose clínica, define o método como uma
terapia energética complementar. "O reiki atua no campo sutil do ser
humano, promovendo equilíbrio entre corpo, mente e emoções", explica.
As
sessões ocorrem com o paciente em ambiente tranquilo enquanto o terapeuta
posiciona as mãos em pontos específicos. Entre os objetivos mais buscados estão
relaxamento, redução da ansiedade, manejo do estresse e bem-estar emocional.
Sandra
reforça que a prática não substitui tratamentos médicos, que ela é
"complementar". Em alguns atendimentos, a profissional também utiliza
cristais. "Eles não substituem a técnica. Funcionam como recurso
complementar para ampliar relaxamento e favorecer experiências mais
sensoriais."
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Alimentação ancestral
Se
algumas tradições apostam em agulhas e energia, outras passam pelo prato. No
Cura Cozinha Orgânica, em Brasília, a alimentação virou filosofia. "O
alimento precisa trazer prazer, saciedade e bem-estar", afirma Cristina
Roberto, proprietária do restaurante.
A
inspiração vem de diferentes referências, como ayurveda, cozinha oriental,
macrobiótica, culinária mineira tradicional e conhecimentos ancestrais.
"Tudo o que a terra dá para a gente deveria ser aprendido e
aproveitado."
Cristina
trabalha com alimentos orgânicos, produtos minimamente industrializados e uma
lógica de variedade alimentar. "Precisamos de folhas, raízes, frutos,
cereais, leguminosas. Quanto mais diversidade, melhor", afirma.
A
relação com esse universo ganhou força após um câncer enfrentado durante a
pandemia. "Eu estava vivendo meu processo de cura. Pensava muito em como o
alimento poderia fazer parte desse cuidado", conta.
Ela faz
questão de destacar limites. "Existe a medicina. Mas existe também a nossa
parte no processo."
Hoje, o
restaurante virou ponto de encontro de famílias, idosos e até crianças.
"As pessoas estão percebendo que comida saudável também pode dar
prazer."
Fonte:
Correio Braziliense

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