Caatinga
avança para ter primeira política nacional de recuperação ambiental
O
Senado Federal aprovou o Projeto de Lei 1990/2024, que cria a Política Nacional
para a Recuperação da Vegetação da Caatinga. O texto segue agora para sanção do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A
proposta estabelece diretrizes para restaurar áreas degradadas do bioma e prevê
a criação do Programa Nacional de Recuperação da Vegetação da Caatinga. A
iniciativa inclui a participação de comunidades locais nas ações de restauração
e a capacitação de trabalhadores para atuar em cadeias produtivas sustentáveis.
De
autoria da ex-senadora Janaína Farias, atual prefeita de Crateús (CE), o
projeto foi elaborado com apoio técnico do Instituto Escolhas. O texto define
quatro objetivos principais: recuperar áreas desmatadas da Caatinga, ampliar a
produção sustentável de alimentos, aumentar a segurança hídrica e melhorar a
qualidade da água no bioma, além de estimular a bioeconomia e o manejo
florestal sustentável.
O PL
havia sido aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e, posteriormente, pela
Câmara dos Deputados. Como os deputados incluíram uma emenda no texto, a
proposta retornou ao Senado. Na semana passada, a Comissão de Meio Ambiente
rejeitou a alteração e, nesta terça, o plenário confirmou a versão original do
projeto.
A
alteração previa a criação do Fundo da Caatinga para financiar ações de combate
à desertificação e ao desmatamento, mas foi considerada inconstitucional pela
relatora, a senadora Leila Barros, sob o argumento de que geraria despesas
obrigatórias sem atender aos requisitos legais. Segundo o parecer, os
mecanismos previstos no texto original já seriam suficientes para implementar a
política de recuperação do bioma.
Para
Sergio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas, a aprovação representa
um avanço na agenda climática do país. “Com a sanção ao projeto pelo presidente
da República, será o primeiro bioma a ter uma política própria e específica de
recuperação da vegetação”, afirmou.
A
Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e ocupa quase 11% do
território nacional, abrangendo todos os estados do Nordeste e o norte de Minas
Gerais. Marcada pelo clima semiárido e por longos períodos de seca, a região
enfrenta impactos crescentes da emergência climática, com avanço da
desertificação e redução da disponibilidade hídrica.
Segundo
Sergio Leitão, a política também pode impulsionar emprego e produção agrícola
na região. “É uma vitória de todos os que, durante décadas, defenderam a
preservação da Caatinga e batalharam pela segurança hídrica e alimentar da
região”, disse.
Um
estudo publicado pelo Instituto Escolhas em 2024 identificou cerca de 1 milhão
de hectares desmatados no Nordeste, especialmente na Caatinga, que precisam ser
restaurados. De acordo com o levantamento, um investimento de R$ 15,1 bilhões
poderia gerar R$ 29,7 bilhões em receitas líquidas, além de criar 466 mil
empregos e produzir 7,4 milhões de toneladas de frutas, verduras e hortaliças.
O
estudo também aponta potencial de remoção de mais de 702 milhões de toneladas
de carbono da atmosfera, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.
• 85% dos brasileiros já sentem impactos
das mudanças climáticas no cotidiano
De
acordo com a Carta Capital, 85% dos brasileiros percebem os impactos das
mudanças climáticas em seu cotidiano, e 46% classificam esse impacto como
intenso. O dado faz parte de pesquisa conduzida pelo Aurora Lab e pela More in
Common, lançada em 27 de maio de 2025 em São Paulo.
Foram
entrevistadas 2.630 pessoas com 16 anos ou mais, em nove capitais: Belém,
Brasília, Fortaleza, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e
São Paulo. O questionário foi aplicado entre maio e setembro de 2025.
Os
principais impactos relatados foram aumento do custo de vida (53%), problemas
de saúde física (45%) e dificuldade de acesso ao trabalho (40%). Adoecimento
mental (32%), perda de renda (17%) e perda de emprego (10%) também foram
mencionados. A elevada consciência sobre a necessidade de mudança aparece em
outro dado: 93% dos entrevistados acreditam que os modelos de produção e
consumo precisam ser transformados para enfrentar a crise climática, sendo que
74% concordam totalmente com essa afirmação.
Sete em
cada dez brasileiros (67%) confiam que o governo deve ser o principal
responsável por proteger os trabalhadores nesse cenário. Empregadores (7%) e
grupos auto-organizados de direitos socioambientais (menos de 6%) aparecem com
índices muito inferiores.
A
diretora-executiva do Aurora Lab, Gabriela Vuolo, destacou que os empregadores
têm papel crucial na proteção dos trabalhadores durante a transição energética.
A
pesquisa também mostra otimismo quanto à transição: 67% dos brasileiros
acreditam que a mudança para energias limpas abrirá novas vagas de emprego.
Apenas 10% acham que haverá redução de postos de trabalho, enquanto parte dos
respondentes imagina até que os salários possam aumentar.
Quanto
à desigualdade, 45% dos entrevistados acreditam que a transição energética
reduzirá as diferenças sociais no país. Outros 40% avaliam que o cenário
permanecerá igual (17%) ou piorará (23%). Os 15% restantes não responderam ou
não souberam opinar.
As
universidades e os cientistas são a fonte de maior credibilidade para 69% dos
brasileiros quando o assunto é clima. Apesar disso, as redes sociais são o
principal meio de informação para 65% dos entrevistados.
O
levantamento completo foi apresentado no evento ‘Quem move o Brasil? Debates
sobre Trabalho, Energia e Desenvolvimento’, em São Paulo. Os resultados
reforçam a demanda por políticas públicas robustas para enfrentar os efeitos
das mudanças climáticas no dia a dia da população.
• Justiça do Pará marca julgamento de
recurso dos policiais para 26 de maio, 9 anos depois dos assassinatos de dez
trabalhadores rurais
O
Tribunal de Justiça do Estado do Pará marcou para a próxima terça-feira, dia 26
de maio, às 9h30, o julgamento dos recursos apresentados pelos policiais
acusados da morte de dez trabalhadores e uma trabalhadora rural na fazenda
Santa Lúcia, em Pau D’Arco, no sul do Pará). O caso ficou conhecido como o
Massacre de Pau D’Arco. A chacina completará nove anos neste domingo, 24 de
maio, e será lembrada em um ato em memória das famílias hoje ocupantes do recém
criado projeto de assentamento Jane Júlia.
Os
policiais são acusados pelo Ministério Público do Estado do Pará pela morte e
execução de Hércules Santos de Oliveira, Regivaldo Pereira da Silva, Jane Júlia
de Oliveira, Antônio Pereira Milhomem, Bruno Henrique Pereira Gomes, Clebson
Pereira Milhomem, Oseir Rodrigues da Silva, Nelson Souza Milhomem, Wedson
Pereira da Silva e Ronaldo Pereira de Souza. O crime ocorreu durante ação
policial no interior da fazenda Santa Lúcia.
O
despacho com a designação da sessão de julgamento do Massacre de Pau D’Arco foi
publicado na noite da última quarta-feira. A decisão é encarada por
organizações sociais como importante diante das reiteradas denúncias de
morosidade judicial e frente à expectativa de que o tribunal do júri seja marcado para breve.
Em nota
divulgada por movimentos sociais e entidades de direitos humanos por ocasião
dos nove anos do massacre, a Comissão Pastoral da Terra e outras quinze
organizações reforçaram que “Pau D’Arco não foi confronto. Pau D’Arco foi
massacre. Foi execução”. O documento também aponta a demora do sistema de
justiça e afirma que “a morosidade do Estado também é uma forma de violência”.
ASSENTAMENTO
A
publicação da data do julgamento do recurso, ocorre em um contexto simbólico
para as famílias camponesas que resistiram na área da antiga Fazenda onde
ocorreu a chacina. Em janeiro deste ano, o governo federal publicou a Portaria
nº 1.598/2026, criando oficialmente o Projeto de Assentamento Jane Júlia, em
homenagem à trabalhadora rural assassinada no massacre.
Para os
movimentos sociais, a criação do assentamento representa uma conquista
histórica da luta pela terra e pela memória das vítimas, mas a busca por
justiça permanece como reivindicação central das famílias e organizações que
acompanham o caso.
“Não
pode haver verdadeira justiça enquanto os responsáveis seguem sem julgamento
definitivo e as famílias permanecem sem reparação”, afirma a nota assinada por
entidades como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), MST, MAB, SDDH, OAB Xinguara
e outras organizações populares e de direitos humanos.
>>>>
Confira abaixo a Nota completa:
# Entre
a terra conquistada e a justiça negada: 09 anos do Massacre de Pau D’Arco
Neste
mês de maio de 2026, completam-se nove anos do Massacre de Pau D’Arco, ocorrido
em 24 de maio de 2017, quando dez trabalhadores e trabalhadora rural — Hércules
Santos de Oliveira, Regivaldo Pereira da Silva, Jane Júlia de Oliveira, Antônio
Pereira Milhomem, Bruno Henrique Pereira Gomes, Clebson Pereira Milhomem, Oseir
Rodrigues da Silva, Nelson Souza Milhomem, Wedson Pereira da Silva e Ronaldo
Pereira de Souza — foram perseguidos, torturados e executados por agentes do
Estado (policiais civis e militares), na Fazenda Santa Lúcia, localizada no
município de Pau D’arco, no sul do Pará.
Nove
anos depois, seguimos afirmando diante do país e do mundo: Pau D’Arco não foi
confronto!. Pau D’Arco foi um massacre! Foi execução! Foi mais um capítulo da
histórica violência no campo que marca o Estado do Pará e toda a Amazônia
brasileira.
A
impunidade que atravessa este caso é também a continuidade da violência. Isso
porque quando o Estado demora, silencia ou falha em responsabilizar os
mandantes e executores de crimes contra trabalhadores rurais, povos indígenas,
quilombolas, posseiros, ribeirinhos e defensores da floresta, ele autoriza que
novas violências aconteçam.
Ao
mesmo tempo, é inaceitável que, se aproximando de quase dez anos do massacre
(2017-2026), o processo criminal contra os policiais acusados continue sem data
definida para julgamento pelo Tribunal de Justiça do Estado do Pará.
As
famílias seguem aguardando respostas do sistema de justiça e convivendo
diariamente com o sofrimento e a dor das perdas humanas e com a angústia
revolta, pela sensação de impunidade e de injustiça.
Também
causa profunda indignação a lentidão dos processos de indenização das vítimas e
familiares. O Estado brasileiro caminha para completar uma década do massacre
sem garantir reparação efetiva às famílias atingidas pela violência estatal.
Trata-se
de mais uma forma de revitimização e descaso, que aprofunda o sofrimento de
quem perdeu filhos, companheiros, pais, irmãos e companheiras naquele 24 de
maio de 2017.
Não
pode haver verdadeira justiça enquanto os responsáveis seguem sem julgamento
definitivo e as famílias permanecem sem reparação. A morosidade do Estado
também é uma forma de violência!.
Mesmo
diante da dor, da impunidade e da demora do Estado em garantir justiça, a
resistência das 200 famílias camponesas que permaneceram na área - Faz. Santa
Lúcia - manteve viva a luta pela terra e pela dignidade.
É neste
contexto que as famílias recebem como importante conquista a publicação da
Portaria nº 1.598, de 21 de janeiro de 2026, que criou oficialmente o Projeto
de Assentamento Jane Júlia, no município de Pau D’Arco/PA.
A
criação do assentamento representa uma vitória histórica, construída pela
resistência e persistência destas famílias, pela organização popular e pela
memória daqueles e daquelas que tiveram suas vidas arrancadas no/pelo massacre.
O nome
do assentamento não apenas eterniza Jane Júlia de Oliveira - a mulher e
liderança assassinada e torturada no confronto, ele simboliza uma verdade que a
violência não conseguiu destruir: tentaram matar a luta, mas a luta floresceu
na terra. Onde tentaram impor o medo, hoje brotam roças, sementes, alimento
saudável, organização popular e esperança. A terra regada por sangue tornou-se
território de resistência e produção da vida.
Por
isso, a memória de Pau D’arco também nos traz um importante alerta, o de que
não podemos aceitar que a Amazônia e o território paraense sejam lembrados e
tratados unicamente como local de extração, superexploração, mercadoria ou
fronteira do agrohidromineronegócio.
A
Amazônia, Pau D’arco, Eldorado dos Carajás, e tantos outros territórios, devem
ser lembrados e celebrados também como territórios, com múltiplos povos, que
possuem múltiplas origens, memórias, ancestralidades, de espiritualidades, de
biodiversidade e de relações e valores relacionais e respeitosos com vida, a
natureza e com o território.
Neste
9º Ato em Memória das Vítimas do Massacre de Pau D’Arco, reafirmamos: A memória
dos mártires de Pau D’Arco segue presente na caminhada do povo. Porque a busca
pela justiça não morrerá.
Porque
a terra segue chamando.
Massacre
de Pau D’Arco: Nunca mais!
Fonte:
Um só Planeta/O Cafezinho/CPT Regional Pará

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