“O
SNI é suspeito de matar JK”, afirma o jornalista Ivo Patarra, que investiga o
caso há 29 anos
De
acordo com a investigação realizada pela Comissão Especial sobre Mortos e
Desaparecidos Políticos do Ministério de Direitos Humanos, a morte do
ex-presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira não foi acidental,
como se supunha até então. Uma nova perícia constatou haver fortes indícios de
um atentado político, no âmbito da Operação Condor, que foi criada nos Estados
Unidos, pela CIA, para eliminar os principais opositores dos regimes
ditatoriais no Brasil, no Chile, na Argentina e no Uruguai. O jornalista Ivo
Patarra descobriu algo mais: os possíveis mandantes do atentado.
>>>>
Leia a entrevista
·
O
que aconteceu naquele dia com o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira?
IVO:
Dia 22 de agosto de 1976. Era um domingo. O acidente, entre aspas...
·
Não,
peraí, peraí, era um domingo, era um domingo. Onde estava o Juscelino e para
onde ele foi?
IVO:
Ele estava hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo. E, por volta das 14:00,
viajou ao Rio de Janeiro, de carro.
·
Qual
era o carro? Quem era o motorista?
IVO:
Era o Opala dele, quer dizer, o Opala que ele deu para o Geraldo Ribeiro, que
era o motorista dele há 36 anos, motorista executivo da mais alta confiança, e
eles pegaram esse carro para ir ao Rio de Janeiro. No caminho, pararam em
Resende, onde Juscelino tinha uma reunião.
·
Quem
o chamou para essa reunião?
IVO:
Ele foi chamado para essa reunião por pessoas que se apresentaram como
emissários do governo do general-presidente Ernesto Geisel. Juscelino, supondo
que poderia ser candidato, digamos assim, nas eleições de 78, mesmo que fosse
no Colégio Eleitoral, achava que tinha que fazer uma ponte com os setores
militares, a gente estava num regime militar, ele não poderia encarar uma
eleição sem o mínimo apoio militar. Então, ele foi para essa reunião, que se
deu no Hotel Fazenda Villa-Forte, em Resende, logo após a divisa São Paulo-Rio.
Era um hotel que ficava a 500 metros da pista São Paulo-Rio e lá ele ficou por
90 minutos, das 16h30 às 18h00.
·
Quem
era o dono do hotel?
IVO: O
proprietário era o Brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte (*), e o hotel ficou
conhecido como “o Hotel do SNI”. O Brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte foi
um dos organizadores, um dos criadores do temível SNI, o Serviço Nacional de
Informações, a Polícia Secreta do Regime Militar, que foi criado em 1964. O
primeiro chefe do SNI foi o general Golbery do Couto e Silva. É importante
dizer isso porque, em 1976, esse mesmo Golbery era o braço direito do general
presidente Ernesto Geisel como ministro-chefe da Casa Civil. E lembrando que,
em 1955, o mesmo Golbery foi preso numa rebelião militar que tentou impedir a
posse de Juscelino Kubitschek. Então, já tinha um problema entre os dois.
·
Quem
estava nessa reunião no Hotel Fazenda Villa-Forte?
IVO:
Não se sabe. Não se sabe quem estava nessa reunião.
·
Enquanto
Juscelino ficou lá dentro... onde ficaram o carro e o motorista?
IVO:
Havia um estacionamento no local. E o motorista, como todo motorista executivo,
não só de presidente da República, de governador, prefeito, deputado, senador,
vereador, o motorista executivo fica sempre do lado do carro porque a
autoridade chega e vai embora e está sempre com pressa e, além de tudo, ele
guarda o carro estando ao lado do veículo sem que ninguém chegue perto. E aí
você tem já uma contradição enorme na saída do JK desse hotel, onde ele ficou
noventa minutos, não se sabe o que aconteceu lá dentro, eu entendo que ele pode
ter sido humilhado ali, e quando o Geraldo Ribeiro, o motorista dele, engata a
marcha ré, para tirar o carro do estacionamento - e quem contou à Comissão da
Verdade foi o jornalista Carlos Heitor Cony - perguntou ao encarregado do
estacionamento se alguém havia mexido no carro.
·
Mas
espera aí, o Geraldo não ficou o tempo todo ao lado do carro?
IVO: O
Geraldo foi provavelmente atraído para dentro do hotel. para tomar um café,
será que ele foi drogado?, será que ele foi envenenado?... o fato é que ao
perguntar isso para o guardador, e pela resposta que o guardador dá, ele também
não estava lá, porque ele não é um cara assertivo e categórico, claro que não
mexeram no carro, estava aqui tomando conta, não, ele simplesmente disse, “não,
eu não vi nada”.
·
O
Cony contou se o Geraldo em algum momento saiu de perto do carro?
IVO:
Não. O Cony só contou que esteve lá e, conversando com o guardador de carros, o
guardador relatou isso para ele, que quando o Geraldo Ribeiro engatou a ré no
Opala, perguntou se alguém tinha mexido no carro.
·
Cony
conversou com mais alguém no hotel?
IVO:
Até onde se sabe, só com o encarregado do estacionamento.
·
Bom,
se o estacionamento tinha um guardador e o motorista perguntou se alguém tinha
mexido no carro, é óbvio que ele não ficou o tempo todo ao lado do carro, não
é?
IVO:
Sim, isso é o mais provável.
·
Então
pronto, agora... o Juscelino entra no carro, o Geraldo já estranhou alguma
coisa no carro, e eles pegam a Via Dutra em direção ao Rio de Janeiro. E o que
acontece, então?
IVO:
Eles vão andar só três quilômetros. E aí você tem o acidente. O que acontece?
Na hora que o Opala entra na Dutra, pelo trevo, ali em Resende, onde está o
hotel, está vindo pela esquerda de São Paulo um ônibus da Viação Cometa, e ele
vem em alta velocidade, porque saiu com atraso de São Paulo, ele estava
descontando o atraso. O motorista da Cometa, Josias Nunes de Oliveira, viu o
Opala entrando na Dutra, mas ele vinha pela esquerda e passou e foi embora.
Três quilômetros adiante, numa manobra arriscada, que um motorista com a
competência do Geraldo Ribeiro, com a responsabilidade de estar levando o
Juscelino Kubitschek dentro do carro, não faria em circunstâncias normais, ele
ultrapassa o ônibus do Josias Nunes de Oliveira pela direita. Lembrando que o
ônibus vinha razoavelmente rápido, porque ele estava atrasado. Numa situação
normal, o carro do Juscelino esperaria atrás do ônibus, que iria passar dois
caminhões que estavam logo à frente à direita, e normalmente o ônibus iria para
a direita e o carro do Juscelino passaria o ônibus pela esquerda. Não. O carro
do Juscelino faz uma manobra arriscada, temerária, de passar em alta velocidade
o ônibus pela direita, lembrando que a Dutra ainda é assim, são duas pistas só,
pista da esquerda e pista da direita. Então, ele comete esse ato grave,
temerário, e logo…
·
Sabe-se
a quantos quilômetros por hora ele estava?
IVO: Eu
imagino que o carro estivesse talvez a 120 por hora, o ônibus a 90, que é uma
velocidade razoável, e passageiros que estavam dentro do ônibus repararam que o
carro estava instável, meio descontrolado, não a ponto de estar desgovernado
ainda. Mas, assim que ele ultrapassa o ônibus pela direita, faz uma inflexão
radical para a esquerda e já passa quase que imediatamente para a outra pista
da Dutra. Ele pula um canteiro central que tinha dez ou doze centímetros e cai
na pista da contramão da Dutra. De repente.
·
Quem
contou isso? O motorista do ônibus?
IVO:
Sim, isso está, inclusive, nas perícias feitas na época.
·
O
motorista depôs na Comissão da Verdade?
IVO:
Sim, localizamos o Josias em Campinas. Mas deixa eu te explicar. O carro vai
para a outra pista da Dutra, a pista Rio - São Paulo. Agora, vamos tentar
congelar essa cena. Você tem um Opala, uma situação gravíssima, quer dizer, ele
atravessa o canteiro central e entra na contramão na Dutra. Vamos congelar ali,
para a gente tentar entender. Se fosse uma situação normal, pela velocidade que
ele estava, em meio segundo ele atravessaria a faixa da esquerda, a faixa da
direita e o acostamento da Dutra, e estaria do outro lado da pista, onde até
hoje é assim, e você tem um campo de gramíneas no mesmo nível, ou seja, não
teria acontecido nada se ele depois de atravessar o canteiro central tivesse
atravessado a Dutra, mas ele não faz isso, o carro desgovernado começa a andar
para a direita na contramão e ele começa a andar exatamente contra os carros ou
veículos que viriam na pista Rio - São Paulo! Uma loucura! Não há nas perícias
sinal de marca de pneu brecando. Então, o carro simplesmente começa a andar na contramão
e vai andar nessa contramão por quatro, talvez cinco segundos, até se chocar
contra uma carreta carregada com 30 toneladas de gesso. Um detalhe. Depois da
Comissão da Verdade, o motorista que estava numa outra carreta, exatamente
atrás da carreta contra a qual o carro do Juscelino bateu, relata ter visto
Geraldo Ribeiro, o motorista do Juscelino Kubitschek, com a cabeça tombada
entre o volante e a porta. Ou seja, se isso realmente aconteceu, ele já não
estava consciente, talvez ele já não estivesse nem vivo, se isso for verdade.
·
Então,
com esse choque, com essa colisão, os dois morreram na hora, o motorista e o
Juscelino?
IVO:
Morreram, tiveram mortes ali praticamente na hora.
·
O
Juscelino estava no banco da frente?
IVO:
Não, no banco de trás, mas foi uma pancada muito forte. Agora, é interessante
notar o que fez o regime militar na época. As autoridades acusaram o motorista
da Viação Cometa de ter batido no carro do Juscelino, e isso é que desgovernou
o carro e fez com que ele fosse para o outro lado da pista. Mas isso não
aconteceu, porque ele não foi demitido. Nem advertido. No dia seguinte, levou o
mesmo ônibus para São Paulo, porque não tinha nenhum problema no ônibus. Depois
ele foi julgado e absolvido. E mais uma vez julgado. Foi julgado pela segunda
vez. Os promotores entraram com recursos, ele foi julgado de novo. E mais uma
vez foi inocentado. Não houve a batida e, portanto, não havia uma explicação
razoável para o que levou o carro do JK ir para o outro lado da pista, para a
pista da contramão. Os passageiros que estavam dentro do ônibus, nenhum disse
que houve a batida. Um deles, o Paulo Oliver, prestou um depoimento no ano
seguinte, para a Justiça e tudo mais, e falou num clarão sobre o Opala na hora
que ele estava passando na frente do ônibus, como se aquilo pudesse ter sido um
tiro, uma explosão. O fato é que Juscelino saiu do Hotel Fazenda e rodou três
quilômetros em alta velocidade, mas o carro havia sido sabotado, provavelmente,
dentro do estacionamento. Não levaria muito tempo para alguém entrar debaixo de
um Opala e cortar a mangueira alimentadora do freio da roda dianteira direita,
que é a hipótese mais provável, nós nunca vamos saber isso com certeza, porque
esse carro depois foi mexido, foi adulterado, etc. Mas o fato é que, quando ele
precisou frear, logo após passar o ônibus da Cometa, talvez para dar uma
ajustada no carro e voltar para a pista da esquerda, ele devia estar em fuga,
não é?
·
Então,
espera aí, essa informação eu não conhecia. Alguém estava perseguindo o carro
do Juscelino?
IVO: A
gente não sabe que tipo de coisa aconteceu ali. Na época se falou numa Caravan
amarela, mas isso nunca foi confirmado, mas o fato é que o carro estava em alta
velocidade fazendo uma ultrapassagem temerária e isso indica que ele poderia
estar fugindo. E quando ele pisa no freio e ele não tem o freio na roda
dianteira direita, porque em um segundo alguém cortou aquela mangueira no carro
do estacionamento, quando o carro estava no estacionamento, ele, naturalmente,
para diminuir a velocidade do carro, pisa mais no freio. É instintivo. E aí o
que ele faz? Não tem freio na roda dianteira direita, trava a roda dianteira
esquerda e o carro vai para a esquerda. E é um movimento que ele faz para cair
na outra pista da Dutra, na pista da contramão. Então, essa é uma hipótese.
·
Foi
aberto um inquérito policial para apurar as causas, não é?
IVO:
Sim, foi feito.
·
Houve
perícia no Opala, na carreta? Nos corpos?
IVO:
Olha, os encarregados do inquérito trocaram o perito, tem uma série de
irregularidades. Nós temos, por exemplo, uma fotografia do Opala, depois do
acidente, o Opala todo destruído, uma pancada de frente, só que a lanterna
traseira do lado esquerdo está intacta. No dia seguinte, de manhã, essa
lanterna esquerda está destruída.
·
Mas
teve alguma perícia assinada por alguém?
IVO:
Não. Nem exame toxicológico eles fizeram. Tem uma série de irregularidades
nisso. Agora, nós pedimos a reabertura do caso porque, em 2019, foi feita uma
perícia de 200 páginas pelo Sérgio Ejzenberg, um dos peritos mais competentes
do país, que provou por A mais B que não houve a batida do ônibus contra o
Opala. Portanto, ficou em aberto o que fez com que o Opala fosse parar na pista
da contramão. E com base nessa perícia e outras investigações que foram feitas
agora pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do
Ministério de Direitos Humanos, e que nós esperamos que seja votada nos
próximos dias, é que fica claro que JK foi vítima de um atentado político. E
quem ganha a eleição seguinte é justamente João Figueiredo, o chefe do SNI, que
havia sido aluno do brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte na Escola Militar
do Realengo no Rio de Janeiro.
·
E
como é que os jornais noticiaram esse acidente?
IVO:
Como um acidente normal, era a versão da época.
·
Os
jornais foram censurados?
IVO:
Acho que não. E até recentemente, em 2014, a Comissão Nacional da Verdade
corroborou a versão do regime militar, de que havia sido um acidente de
trânsito normal.
·
Os
corpos do Juscelino e do motorista foram submetidos a algum exame?
IVO:
Muito pouco, quase nada. Não foram periciados. Na época da nossa Comissão
Municipal da Verdade, aqui em São Paulo, concluída em 2014, eu fiz um relatório
com 114 fatos que questionavam a versão oficial. Então, tem todo um rol de
coisas. Inclusive, uma coisa que a gente está discutindo agora no Brasil - a
anistia - eu gostaria de comentar rapidamente. Juscelino cometeu dois erros,
que foi anistiar as duas rebeliões militares, as duas tentativas de golpe que
houve no governo dele, em 1956 e 1959, Aragarças e Jacareacanga. Foram duas
tentativas de golpe. Na primeira, eles tentaram controlar o estado do Pará e, a
partir daí, dar o golpe. E, na segunda, planejaram até bombardear Brasília. Mas
qual foi o erro do Juscelino? Ele anistiou os golpistas. E, ao anistiar os
golpistas, ele praticamente incentivou, estimulou o golpe próximo, que foi o de
64. Ele anistiou os brigadeiros, os generais do ar. E o dono do Hotel Fazenda
Villa-Forte era um brigadeiro.
·
Esse
brigadeiro prestou algum depoimento?
IVO:
Não. Naquela época, obviamente que não. Em tese, não teve nada a ver com isso.
Foi um acidente de trânsito, né?
·
Ninguém
foi investigar o local de onde o Juscelino saiu na época?
IVO:
Nada. Eles centraram fogo no motorista negro. Ele bateu no carro do Juscelino,
ele é o responsável.
·
E
o motorista da carreta?
IVO: O
motorista da carreta ficou ferido, quebrou o braço. O da outra carreta, que viu
a cabeça do Geraldo Ribeiro tombada entre o volante e a porta só foi ouvido
muitos e muitos anos depois. Nós o ouvimos na Comissão Municipal da Verdade
Vladimir Herzog, em 2014. Trouxemos ele de Santa Catarina para depôr.
·
Mas
o motorista da carreta que bateu no carro, o carro que bateu na carreta, esse
nunca depôs?
IVO:
Ele simplesmente contou que o carro veio e bateu nele. Ele é vítima também.
·
Sim,
mas tem o depoimento dele ou na polícia, ou na Comissão da Verdade?
IVO:
Não, na Comissão da Verdade não, porque ele morreu já faz algum tempo. Eu
cheguei a entrevistá-lo em 1999, quando fiz a matéria para a revista Caros
Amigos, que foi a primeira matéria sobre o caso, mas ainda era superficial,
quer dizer, já estava claro...
·
O
que ele disse para você?
IVO:
Ele não disse nada de relevante. Ele simplesmente recebeu um impacto forte no
caminhão dele.
·
E
o que ele fez em seguida? Ele foi ver o que aconteceu, fugiu?
IVO:
Quem acudiu mais, inclusive ajudou a desligar o caminhão, que ficou todo
arrebentado, foi o Ademar Jahn, que era o motorista da carreta de trás, e que
foi ver as condições dos dois passageiros do Opala já agonizando.
·
E
o motorista da Cometa, fez o quê?
IVO:
Ele parou o ônibus, também foi tentar socorrer os acidentados, ele e alguns
passageiros. E aí ele retoma a viagem, e pára em seguida no primeiro posto da
Polícia Rodoviária Federal e avisa “olha, teve um acidente gravíssimo ali, você
precisa correr para lá e tal”. Se o ônibus seguiu viagem foi porque não
esbarrou no Opala. Caso contrário, teria que esperar a perícia da Cometa.
Avaliar o prejuízo. Não houve a batida do ônibus contra o Opala, isso foi uma
fraude, e isso, na verdade, justifica, em parte, toda essa investigação que se
fez, porque se as autoridades da época centraram fogo numa tese mentirosa, foi
porque estavam escondendo alguma coisa. Por que insistir em responsabilizar o
motorista do ônibus da Cometa? Por quê? Para esconder o atentado que
provavelmente foi executado a mando do general, do brigadeiro Newton Junqueira
Villa-Forte, que tinha relação com esses dois generais estratégicos do Geisel -
Golbery e Figueiredo.
·
Como
o Golbery entra nessa história?
IVO: O
Golbery entra na história já em 1955, quando participa de uma rebelião que
tenta impedir Juscelino de assumir a presidência da República. Em 1964, depois
de JK ter anistiado duas vezes militares golpistas, eles dão o golpe e Golbery
é o primeiro chefe do SNI. Em 1976, Golbery é o segundo homem mais importante
da República.
·
Qual
é a ligação desses fatos com a Operação Condor? Ou seja, tem alguma prova,
algum indício de que Figueiredo e Golbery tinham vínculos com a Operação
Condor, cujo comando estava no Chile?
IVO:
Tem uma carta do Manuel Contreras, o general chileno, cabeça da Operação
Condor, em que fala da ameaça que Juscelino Kubitschek, entre outros, como
Orlando Letelier, que também morreu num atentado com carro, eles chamavam de
“Código 12” os atentados feitos em carros. A Zuzu Angel é outra vítima disso
daí também. Você forja um acidente de trânsito para eliminar um inimigo. E o
Contreras escreveu essa carta para o Figueiredo, falando da importância deles
se unirem para combater os radicais de esquerda no Cone Sul, entre eles o
Juscelino Kubitschek, que nunca foi nem radical e nem homem de esquerda, né?
Ele era um cara de centro.
·
Você
teve acesso a essa carta? Essa carta existe?
IVO:
Sim, ela foi publicada, faz parte do relatório, é um dos 114 pontos, por
exemplo, do nosso trabalho, o relatório JK da Comissão Municipal da Verdade
Vladimir Herzog, presidida pelo vereador Gilberto Natalini e que concluiu os
trabalhos em 2014.
·
E
há nos autos algum vínculo entre Figueiredo, Golbery e o Brigadeiro dono do
hotel, eles conversavam?
IVO: O
que se sabe é que Golbery era frequentador do hotel e que o Figueiredo foi
aluno do Brigadeiro na Escola Militar do Realengo. Mas a ligação deles passa
pelo SNI. O Brigadeiro, Newton Junqueira Villa-Forte é um dos criadores do SNI,
Golbery do Couto Silva é o primeiro chefe do SNI, e Figueiredo é o chefe do SNI
em 1976.
·
E
o que se sabe sobre as visitas do Golbery a esse hotel?
IVO:
Sabe-se que ele era um frequentador do hotel, e isso quem diz é o próprio filho
do Brigadeiro. Quando a gente fez a Comissão Municipal da Verdade, o Brigadeiro
já havia morrido, ele é de uma geração que antecede a geração do Golbery e do
Figueiredo, ele já havia morrido, mas o filho dele depõe, e diz que Golbery era
frequentador do hotel. Não conta mais detalhes. Só diz que era um frequentador.
·
Houve
uma versão anos depois de um tiro no motorista. Isso foi descartado?
IVO: Os
corpos não foram periciados. Porque quem mandava ali era o Instituto de
Criminalística Carlos Éboli, do Rio de Janeiro. E aquilo era tudo dominado por
eles. Eles que deram a versão do acidente, eles que foram atrás do motorista.
Foi tudo falseado ali, né? Não tem fotografia dos corpos, nada disso, o que é
um absurdo! A gente tem relatos de que o corpo do Geraldo Ribeiro foi
imediatamente colocado num caixão, no Instituto Médico Legal de Resende, e
fechado ali, e deixaram o corpo do ex-presidente Juscelino Kubitschek jogado no
chão!
·
Quando
os corpos foram removidos para o IML de Resende?
IVO: Na
noite de domingo. Inclusive, antes disso, mexeram na cena do caminhão… do
Opala… segundo testemunhos de repórteres que já estavam na Dutra, antes da
perícia chegar já tinha gente do Exército, da AMAN, Academia Militar das
Agulhas Negras, que fica ali do lado, e os militares mexeram no posicionamento
do Opala e do caminhão.
·
De
onde vem essa informação, que o corpo do Juscelino estava no chão?
IVO: De
depoimentos de funcionários, que a gente recuperou. Eu recuperei isso anos
depois.
·
Os
funcionários da ML não depuseram no inquérito, nem na Comissão da Verdade?
IVO:
Não.
·
O
que aconteceu com o corpo do Juscelino depois?
IVO: O
caixão do Juscelino foi fechado e ele foi velado em Brasília. O país
praticamente parou nos dias seguintes para o enterro dele em Brasília.
·
Ele
foi colocado no caixão no próprio IML de Resende?
IVO:
Sim, caixão simples. E o caixão foi remetido a Brasília.
·
E
o que aconteceu nesse enterro do JK? Quando foi? Como é que foi?
IVO:
Foi em seguida, em Brasília e teve uma certa comoção popular, quer dizer, não
deixaram o caixão ser levado no carro do corpo de bombeiro, os populares
levaram o caixão no ombro. Ele foi um presidente muito popular, né? E apesar de
ter 74 anos quando morreu, é possível que ele tivesse condições de saúde para
enfrentar uma presidência da República a partir de 1976, ele, Jango e Carlos
Lacerda formaram a Frente Ampla por isso, com vistas à redemocratização do
país. Ele apostava nisso, ele em tese estava bem de saúde.
·
Como
eram os encontros dele com Jango e com Lacerda? O que você sabe desses
encontros?
IVO:
Eles tiveram poucos encontros, mas foi um movimento que assustou, eu imagino, o
regime militar, porque eram três políticos importantes, à direita o Carlos
Lacerda, à esquerda o Jango e, pelo centro político, o Juscelino Kubitschek.
Quer dizer, a união deles poderia ser uma união poderosa para tirar o poder das
mãos dos militares e... coincidentemente ou não, eles morrem, os três, num
período de nove meses. Sendo que a morte do JK é a mais flagrante. O atentado
político contra o JK é o mais flagrante, ele é inquestionável, o relatório tem
1000 páginas, mais 6000 páginas de anexos e que inclui a grande novidade que
foi a perícia de 222 páginas feita pelo engenheiro Sérgio Ejzenberg.
·
Nesse
relatório de 1000 páginas tem algum tipo de incriminação do brigadeiro dono do
hotel, ou do Figueiredo, ou do Golbery? Há alguma menção a eles? Ou são suas
conclusões?
IVO:
São as minhas conclusões de quem investiga isso há 29 anos. Não se sabe o teor
das 1000 páginas. Quem sabe são os sete integrantes dessa comissão especial,
sendo que foi feito, pelo que eu estou informado, um resumo de 150 páginas,
para que eles pudessem ler e entender.
·
A
tua conclusão, o que você pode afirmar como manchete? O SNI mandou matar JK?
IVO:
Olha, eu digo a você que a minha conclusão é essa, agora, nós jamais vamos
poder saber os detalhes. Para você ter uma ideia, quando reabriram o caso, no
governo Fernando Henrique Cardoso, no ano 2000 e foram periciar o Opala, que
deveria estar nesse pátio da delegacia de polícia, o que se verificou foi que o
número do motor não era o do carro do Geraldo Ribeiro. Ou seja, trocaram o
Opala, botaram outro Opala lá. E, portanto, não deu para verificar nada ali.
Essa é mais uma evidência, um indício... ou mesmo uma prova de que nós temos um
conjunto indiciário tão grande que não dá para ter outra conclusão que o regime
de exceção é responsável pelo que aconteceu.
·
Mas
você daria essa manchete? “O SNI mandou matar JK”?
IVO: Eu
teria que ver o teor desse relatório, mas eu não tenho dúvida que o SNI é
suspeito de matar. Eu lembro a você que depois das Comissões da Verdade, veio a
público um documento da Secretaria de Estado dos Estados Unidos, de um
informante deles, que diz que quando o Geisel assume a presidência da
República, ele recebe a informação de quase 100 execuções que foram feitas no
período anterior, do general presidente Médici, e que a resposta do Geisel,
porque ele é perguntado pelo Serviço de Informações do Exército, se podem
continuar essas operações para eliminar inimigos do governo militar, Geisel diz
que sim, desde que tudo passe pelo Figueiredo, que estava assumindo a chefia do
SNI. Então, tudo passava pelo SNI. Se você me pergunta, mas o Geisel está por
trás disso? Eu acho que até estrategicamente era bom que ele não soubesse, que
o Golbery e o Figueiredo fizessem isso sem o Geisel saber, talvez um dia eles
tenham contado isso para ele. Também não acredito que deixaram de contar isso
para ele depois de resolvido o problema. E uma das formas de resolver o
problema, só para te trazer mais um dado, é que o JK tinha um diário. E esse
diário caiu na mão de um interlocutor do Golbery. E isso foi usado como pressão
contra a dona Sara Kubitschek para não pedir a investigação sobre a morte do
marido, porque tinha ali nas páginas diálogos, enfim, reflexões do JK sobre a
relação dele com a namorada. Então, para evitar esse escândalo, a dona Sara não
deixa, quer dizer, não pede uma investigação, é um obstáculo para isso, e as
investigações só começam após a morte da dona Sara, por meio do Serafim Melo
Jardim, que era o secretário particular do Juscelino Kubitschek, que foi o
grande incentivador das investigações para descobrir o que de fato aconteceu
naquele final de tarde de domingo na Via Dutra.
·
O
diário está com o Serafim?
IVO:
Não, esse diário eles, na verdade, devolveram, mas eles xerocaram, e por isso
eles ameaçavam a dona Sara com a cópia do diário. Isso atrapalhou as
investigações na época, foi uma forma habilidosa de barrar as investigações
sobre o que aconteceu com o JK.
·
Mas
não se sabe onde está esse diário?
IVO:
Deve estar com a família, hoje em dia. Mas como eles tiraram cópia, chegaram
para a dona Sara e disseram assim, “olha, se a senhora fizer alguma coisa,
infelizmente isso aqui vai cair nas mãos da imprensa”. Alguma coisa do gênero,
eu imagino. Então, a dona Sara não foi um agente ativo para que se investigasse
a morte do JK.
·
Nesse
diário poderia ter o porquê ele foi naquela reunião?
IVO:
Não, aquilo foi marcado um dia antes.
·
Alguém
da comissão de que você participou teve acesso ao diário?
IVO:
Não, não tivemos acesso, mas aquela reunião teria sido marcada quando Juscelino
estava hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo, no dia anterior, ou pelo
menos foi confirmada no dia anterior, talvez já estivesse pré-marcada, mas no
sábado que ela fica confirmada.
·
Sim,
mas ele poderia ter escrito alguma coisa a respeitos dias antes, não precisa
ser no dia exatamente anterior. Mas ninguém teve acesso a esse diário, então?
IVO: Eu
não saberia dizer a você se ele punha questões políticas ali dentro e não
apenas questões pessoais. Mas acredito que não, porque senão isso viria à tona,
porque a própria Márcia Kubitschek nunca engoliu esse acidente. Enquanto viveu,
ela pediu, ela reclamou e ela afirmou que o pai foi vítima de um atentado
político. Então, ela certamente teve acesso a esse diário, e dali nunca saiu
nada.
·
Quem
poderia ter esse diário?
IVO:
Talvez, hoje, a Ana Cristina, que é a filha da Márcia, que é a presidente do
Memorial JK, e que se manifestou nesses últimos dias francamente favorável à
tese de que o avô dela não foi vítima de um acidente de trânsito.
·
Ela
é a única parente viva do JK, direta, a única neta?
IVO:
Tem uma filha adotiva dele que também está viva.
·
Mas
a única neta é a Ana Cristina?
IVO:
Isso, exatamente, Ana Cristina Kubitschek.
·
A
comissão nunca pediu esse diário?
IVO:
Não, nunca pediu. Posso tentar verificar. Eu vou tentar verificar isso com o
Serafim Mello Jardim e entro em contato com você e digo se ele sabe alguma
coisa do diário.
·
Você
acha que o Serafim me daria uma entrevista também?
IVO:
Claro que sim.
·
Então,
por favor, faça contato com ele.
IVO: O
Serafim é o grande incentivador dessas investigações. Ele publicou um livro,
“Onde Está a Verdade sobre a Morte de JK?”.
·
E
você, vai escrever um livro?
IVO:
Talvez. Vamos ver. Tem uma das teorias também, que eu não dou muito valor, mas
é uma hipótese para o que pode ter acontecido, é um tiro na cabeça do Geraldo
Ribeiro. Anos depois, foi descoberto um resto metálico dentro do crânio dele
quando houve a autópsia, mas as autoridades disseram que foi um resto do prego
do caixão onde ele foi enterrado. Então ficou sempre essa dúvida também sobre
se teria sido um tiro. Eu acho mais provável que ele tenha sido drogado ou
envenenado no momento em que levaram ele lá para dentro para oferecer um café,
um suco, sei lá, que foi o tempo que precisaram para sabotar a suspensão do
automóvel, mais o freio dianteiro direito, e eles fizeram várias coisas, e
ainda por cima deram um susto neles, fizeram uma tocaia ali na hora que ele
entra na Dutra, para que ele saísse em disparada, e é o que explica ele estar
naquela velocidade, passando pela direita, pelo ônibus, quer dizer, não há o
que explique aquilo. É o crime mais grave cometido pelo regime militar.
·
Bom,
eu vou dar o título “SNI é suspeito de matar JK”. Você concorda?
IVO:
Sim, não tenho dúvida nenhuma. Não tenho dúvida nenhuma. É isso mesmo.
(*) No
dia 23 de dezembro de 2024, o senador Flávio Bolsonaro participou da
inauguração de um busto em homenagem ao brigadeiro Newton Junqueira
Villa-Forte, no Aeroporto Municipal de Resende, que leva o nome desse militar,
durante a entrega de obras naquele aeroporto, feitas com dinheiro de emenda
parlamentar do senador.
Fonte:
Por Alex Solnik, em Brasil 247

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