terça-feira, 26 de maio de 2026

Calor extremo atinge mulheres e homens de maneiras diferentes

A intensificação das ondas de calor em regiões tropicais já altera profundamente o cotidiano de milhões de mulheres. Enquanto temperaturas acima dos 46 °C atingem áreas da Índia e provocam fechamento de escolas, alertas públicos e aumento de internações por insolação, pesquisadores observam impactos menos visíveis, ligados ao trabalho doméstico, à saúde mental, à violência e às desigualdades sociais. Em muitos países da África, Ásia e Oceania, mulheres vêm desenvolvendo estratégias próprias para enfrentar o calor extremo diante da ausência de políticas públicas adequadas.

Os efeitos das altas temperaturas ultrapassam o campo da saúde física. Em comunidades onde mulheres concentram tarefas domésticas e cuidados familiares, a permanência prolongada dentro de casas mal ventiladas amplia o desgaste emocional e corporal. Ambientes sem isolamento térmico ou refrigeração transformam residências em espaços sufocantes durante longos períodos do dia.

A forma como o calor afeta homens e mulheres também está ligada à divisão social do trabalho. Em setores informais de países como Índia e Bangladesh, muitas trabalhadoras enfrentam condições precárias de saneamento. O receio de utilizar banheiros inadequados leva parte delas a reduzir a ingestão de água ao longo do expediente, favorecendo quadros de desidratação e outros problemas de saúde relacionados ao calor intenso.

Aspectos culturais e religiosos agravam ainda mais o desconforto térmico. Em regiões da Índia e das Maldivas, normas sociais determinam o uso de roupas mais fechadas para mulheres, dificultando a dissipação do calor corporal. Em cenários de temperaturas extremas, essa combinação entre vestimenta, exposição solar e infraestrutura deficiente amplia o desgaste diário.

As consequências também alcançam a vida social e emocional. Em Burkina Faso, pesquisas apontam aumento do isolamento entre mulheres grávidas durante períodos de calor intenso. O confinamento dentro de casa reduz o contato com familiares, amigas e redes de apoio consideradas fundamentais para o bem-estar durante a gestação.

No interior do Quênia, mulheres grávidas relataram sensação de desvalorização ao encontrarem dificuldades para executar tarefas externas sob calor excessivo. Em comunidades rurais onde o reconhecimento social feminino está associado ao desempenho das atividades domésticas e agrícolas, a limitação física causada pelas altas temperaturas produz impactos psicológicos significativos.

Outro efeito alarmante aparece nos índices de violência doméstica. Estudos realizados em Camarões identificaram crescimento expressivo nos relatos de agressões contra mulheres em períodos de calor extremo. O aumento das temperaturas está associado à intensificação de tensões dentro das residências, especialmente em contextos de vulnerabilidade econômica e habitações superlotadas.

Em Bangladesh, Nepal e Camboja, pesquisadores também observaram aumento dos casos de casamento infantil durante ondas de calor severas. Famílias pressionadas pela perda de renda e pelo aumento dos custos domésticos recorrem à união precoce das filhas como estratégia financeira. O resultado costuma ser a ampliação da insegurança social e da dependência econômica dessas jovens.

Mesmo diante desse cenário, mulheres de diferentes comunidades vêm criando soluções práticas para reduzir os efeitos do calor. Em assentamentos populares da cidade indiana de Ahmedabad, moradoras passaram a pintar telhados de branco para refletir a radiação solar e diminuir a temperatura interna das casas. Algumas também utilizam cascas de coco e resíduos de papel na construção de coberturas mais frescas.

Em Bangladesh, estruturas anexadas às residências passaram a funcionar como espaços ventilados e sombreados, oferecendo proteção contra o sol e servindo como pontos de encontro comunitário. Já em Jacarta, mulheres organizaram áreas coletivas cobertas que atuam como centros improvisados de resfriamento durante os dias mais quentes.

Essas adaptações cotidianas revelam formas de resistência desenvolvidas diretamente nas comunidades. Além de amenizar o calor, fortalecem vínculos sociais e criam redes de apoio em bairros vulneráveis. Muitas dessas iniciativas surgem sem financiamento institucional ou participação efetiva do poder público.

Pesquisadores defendem que políticas climáticas passem a considerar as diferenças de gênero na experiência do calor extremo. Os impactos variam conforme fatores culturais, econômicos e sociais, incluindo classe, migração e estrutura familiar. Reconhecer o conhecimento acumulado por mulheres em territórios vulneráveis pode ampliar a eficácia das estratégias de adaptação climática em um planeta cada vez mais quente.

•        Microplásticos coloridos estão agravando o aquecimento global, aponta estudo

A presença de microplásticos na atmosfera ganhou um novo peso no debate climático. Um estudo publicado na revista científica Nature Climate Change revelou que partículas microscópicas de plástico espalhadas pelo ar atuam como agentes de aquecimento global, com capacidade de reter calor em níveis próximos aos provocados pelo carbono negro, substância associada à fuligem gerada pela queima de combustíveis fósseis.

Os pesquisadores identificaram que microplásticos coloridos absorvem radiação solar com muito mais intensidade do que partículas transparentes ou sem pigmentação. Tons escuros, como preto, azul e vermelho, apresentaram capacidade de absorção de luz até 74,8 vezes superior à dos plásticos sem cor. Esse processo transforma energia solar em calor e contribui para o aumento da temperatura atmosférica.

O levantamento foi conduzido por cientistas da China e dos Estados Unidos, que analisaram as propriedades ópticas de diferentes tipos de plástico presentes no ar. A equipe mediu como cada cor reage à luz solar, avaliando o quanto essas partículas refletem ou absorvem radiação. Em seguida, os dados foram combinados com mapas digitais de ventos e padrões meteorológicos para estimar a concentração de partículas plásticas na atmosfera.

A pesquisa utilizou um modelo computacional de transferência radiativa, ferramenta empregada para calcular os efeitos do calor na atmosfera terrestre. Os resultados indicaram que os microplásticos e nanoplásticos exercem um efeito médio global de aquecimento equivalente a 0,039 watts por metro quadrado.

Os autores destacam que as partículas coloridas ampliam em mais de 15 vezes o impacto climático quando comparadas às versões sem pigmento. Em determinadas regiões do planeta, o fenômeno se mostrou ainda mais intenso. No Giro Subtropical do Pacífico Norte, área conhecida pelo acúmulo de resíduos plásticos marinhos, o efeito de aquecimento provocado pelos microplásticos chegou a superar em quase cinco vezes o impacto local da fuligem atmosférica.

Os microplásticos e nanoplásticos surgem principalmente da degradação lenta de embalagens, roupas sintéticas, pneus e outros produtos derivados do petróleo. Essas partículas variam de alguns milímetros até dimensões microscópicas medidas em bilionésimos de metro. A dispersão global desse material já foi identificada em neve da Antártida, água potável, organismos marinhos e até no corpo humano.

Os cientistas alertam que pesquisas anteriores subestimavam o papel climático dos microplásticos porque desconsideravam a influência das cores na absorção de calor. Objetos escuros tendem a absorver mais energia solar, enquanto superfícies claras refletem maior quantidade de luz. Essa diferença altera diretamente a forma como o calor permanece retido na atmosfera.

Além da pressão climática, os autores descrevem os microplásticos como uma ameaça dupla. As partículas aquecem o planeta e interferem no equilíbrio do carbono atmosférico, criando impactos simultâneos sobre o sistema climático global.

A descoberta amplia a preocupação em torno da poluição plástica, tradicionalmente associada à contaminação de oceanos, rios e organismos vivos. O estudo reforça a necessidade de políticas voltadas à redução da produção de plástico descartável, ao controle de resíduos industriais e à limitação de fibras sintéticas liberadas no ambiente.

 

Fonte: eCycle

 

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