Calor
extremo atinge mulheres e homens de maneiras diferentes
A
intensificação das ondas de calor em regiões tropicais já altera profundamente
o cotidiano de milhões de mulheres. Enquanto temperaturas acima dos 46 °C
atingem áreas da Índia e provocam fechamento de escolas, alertas públicos e
aumento de internações por insolação, pesquisadores observam impactos menos
visíveis, ligados ao trabalho doméstico, à saúde mental, à violência e às
desigualdades sociais. Em muitos países da África, Ásia e Oceania, mulheres vêm
desenvolvendo estratégias próprias para enfrentar o calor extremo diante da
ausência de políticas públicas adequadas.
Os
efeitos das altas temperaturas ultrapassam o campo da saúde física. Em
comunidades onde mulheres concentram tarefas domésticas e cuidados familiares,
a permanência prolongada dentro de casas mal ventiladas amplia o desgaste
emocional e corporal. Ambientes sem isolamento térmico ou refrigeração
transformam residências em espaços sufocantes durante longos períodos do dia.
A forma
como o calor afeta homens e mulheres também está ligada à divisão social do
trabalho. Em setores informais de países como Índia e Bangladesh, muitas
trabalhadoras enfrentam condições precárias de saneamento. O receio de utilizar
banheiros inadequados leva parte delas a reduzir a ingestão de água ao longo do
expediente, favorecendo quadros de desidratação e outros problemas de saúde
relacionados ao calor intenso.
Aspectos
culturais e religiosos agravam ainda mais o desconforto térmico. Em regiões da
Índia e das Maldivas, normas sociais determinam o uso de roupas mais fechadas
para mulheres, dificultando a dissipação do calor corporal. Em cenários de
temperaturas extremas, essa combinação entre vestimenta, exposição solar e
infraestrutura deficiente amplia o desgaste diário.
As
consequências também alcançam a vida social e emocional. Em Burkina Faso,
pesquisas apontam aumento do isolamento entre mulheres grávidas durante
períodos de calor intenso. O confinamento dentro de casa reduz o contato com
familiares, amigas e redes de apoio consideradas fundamentais para o bem-estar
durante a gestação.
No
interior do Quênia, mulheres grávidas relataram sensação de desvalorização ao
encontrarem dificuldades para executar tarefas externas sob calor excessivo. Em
comunidades rurais onde o reconhecimento social feminino está associado ao
desempenho das atividades domésticas e agrícolas, a limitação física causada
pelas altas temperaturas produz impactos psicológicos significativos.
Outro
efeito alarmante aparece nos índices de violência doméstica. Estudos realizados
em Camarões identificaram crescimento expressivo nos relatos de agressões
contra mulheres em períodos de calor extremo. O aumento das temperaturas está
associado à intensificação de tensões dentro das residências, especialmente em
contextos de vulnerabilidade econômica e habitações superlotadas.
Em
Bangladesh, Nepal e Camboja, pesquisadores também observaram aumento dos casos
de casamento infantil durante ondas de calor severas. Famílias pressionadas
pela perda de renda e pelo aumento dos custos domésticos recorrem à união
precoce das filhas como estratégia financeira. O resultado costuma ser a
ampliação da insegurança social e da dependência econômica dessas jovens.
Mesmo
diante desse cenário, mulheres de diferentes comunidades vêm criando soluções
práticas para reduzir os efeitos do calor. Em assentamentos populares da cidade
indiana de Ahmedabad, moradoras passaram a pintar telhados de branco para
refletir a radiação solar e diminuir a temperatura interna das casas. Algumas
também utilizam cascas de coco e resíduos de papel na construção de coberturas
mais frescas.
Em
Bangladesh, estruturas anexadas às residências passaram a funcionar como
espaços ventilados e sombreados, oferecendo proteção contra o sol e servindo
como pontos de encontro comunitário. Já em Jacarta, mulheres organizaram áreas
coletivas cobertas que atuam como centros improvisados de resfriamento durante
os dias mais quentes.
Essas
adaptações cotidianas revelam formas de resistência desenvolvidas diretamente
nas comunidades. Além de amenizar o calor, fortalecem vínculos sociais e criam
redes de apoio em bairros vulneráveis. Muitas dessas iniciativas surgem sem
financiamento institucional ou participação efetiva do poder público.
Pesquisadores
defendem que políticas climáticas passem a considerar as diferenças de gênero
na experiência do calor extremo. Os impactos variam conforme fatores culturais,
econômicos e sociais, incluindo classe, migração e estrutura familiar.
Reconhecer o conhecimento acumulado por mulheres em territórios vulneráveis
pode ampliar a eficácia das estratégias de adaptação climática em um planeta
cada vez mais quente.
• Microplásticos coloridos estão agravando
o aquecimento global, aponta estudo
A
presença de microplásticos na atmosfera ganhou um novo peso no debate
climático. Um estudo publicado na revista científica Nature Climate Change
revelou que partículas microscópicas de plástico espalhadas pelo ar atuam como
agentes de aquecimento global, com capacidade de reter calor em níveis próximos
aos provocados pelo carbono negro, substância associada à fuligem gerada pela
queima de combustíveis fósseis.
Os
pesquisadores identificaram que microplásticos coloridos absorvem radiação
solar com muito mais intensidade do que partículas transparentes ou sem
pigmentação. Tons escuros, como preto, azul e vermelho, apresentaram capacidade
de absorção de luz até 74,8 vezes superior à dos plásticos sem cor. Esse
processo transforma energia solar em calor e contribui para o aumento da
temperatura atmosférica.
O
levantamento foi conduzido por cientistas da China e dos Estados Unidos, que
analisaram as propriedades ópticas de diferentes tipos de plástico presentes no
ar. A equipe mediu como cada cor reage à luz solar, avaliando o quanto essas
partículas refletem ou absorvem radiação. Em seguida, os dados foram combinados
com mapas digitais de ventos e padrões meteorológicos para estimar a
concentração de partículas plásticas na atmosfera.
A
pesquisa utilizou um modelo computacional de transferência radiativa,
ferramenta empregada para calcular os efeitos do calor na atmosfera terrestre.
Os resultados indicaram que os microplásticos e nanoplásticos exercem um efeito
médio global de aquecimento equivalente a 0,039 watts por metro quadrado.
Os
autores destacam que as partículas coloridas ampliam em mais de 15 vezes o
impacto climático quando comparadas às versões sem pigmento. Em determinadas
regiões do planeta, o fenômeno se mostrou ainda mais intenso. No Giro
Subtropical do Pacífico Norte, área conhecida pelo acúmulo de resíduos
plásticos marinhos, o efeito de aquecimento provocado pelos microplásticos
chegou a superar em quase cinco vezes o impacto local da fuligem atmosférica.
Os
microplásticos e nanoplásticos surgem principalmente da degradação lenta de
embalagens, roupas sintéticas, pneus e outros produtos derivados do petróleo.
Essas partículas variam de alguns milímetros até dimensões microscópicas
medidas em bilionésimos de metro. A dispersão global desse material já foi
identificada em neve da Antártida, água potável, organismos marinhos e até no
corpo humano.
Os
cientistas alertam que pesquisas anteriores subestimavam o papel climático dos
microplásticos porque desconsideravam a influência das cores na absorção de
calor. Objetos escuros tendem a absorver mais energia solar, enquanto
superfícies claras refletem maior quantidade de luz. Essa diferença altera
diretamente a forma como o calor permanece retido na atmosfera.
Além da
pressão climática, os autores descrevem os microplásticos como uma ameaça
dupla. As partículas aquecem o planeta e interferem no equilíbrio do carbono
atmosférico, criando impactos simultâneos sobre o sistema climático global.
A
descoberta amplia a preocupação em torno da poluição plástica, tradicionalmente
associada à contaminação de oceanos, rios e organismos vivos. O estudo reforça
a necessidade de políticas voltadas à redução da produção de plástico
descartável, ao controle de resíduos industriais e à limitação de fibras
sintéticas liberadas no ambiente.
Fonte:
eCycle

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