terça-feira, 26 de maio de 2026

O Reino Unido está se tornando ingovernável?

A história da política britânica de hoje pode ser contada por números. Cinco primeiros-ministros em sete anos, nenhum dos quais cumpriu um mandato completo do Parlamento. No mesmo período, sete ministros de Relações Exteriores, seis ministros da Economia e quatro ministros de gabinete.

É uma história de instabilidade e inconsistência, com potencialmente um novo capítulo a ser escrito pelo Partido Trabalhista se ele remover Keir Starmer — um primeiro-ministro em exercício com uma maioria parlamentar maior do que seu antecessor reformista Clement Attlee, em 1945.

O que está impulsionando essa narrativa? Por que o Reino Unido está descartando seus líderes quase tão rapidamente quanto a Itália fazia? Por que eleitores e parlamentares concedem e retiram seu apoio com tanta facilidade? Em resumo, o Reino Unido está se tornando ingovernável?

Para Starmer, a resposta é clara. Em uma entrevista coletiva nesta semana, o primeiro-ministro disse: “Não, não acho que o Reino Unido seja ingovernável”. Sua rival, a líder conservadora Kemi Badenoch, concordou, dizendo na Câmara dos Comuns: "O Reino Unido não é ingovernável."

Mas Starmer e Badenoch lideram parlamentares que, nos últimos tempos, demonstraram gosto pelo regicídio político; eles precisam governar por meio de uma estrutura administrativa, regulatória e judicial complexa que pode dificultar a implementação de políticas; e atraem eleitores que parecem cada vez mais impacientes por resultados e não querem aceitar que o jogo político envolve concessões.

Este é um momento particularmente turbulento na história britânica que deixou os líderes à mercê dos acontecimentos? Ou a turbulência em Londres reflete problemas profundos e sistêmicos na política?

<><> Tempos desafiadores

A primeira resposta pode ser simplesmente que esses são tempos difíceis para a classe política.

Esse período da história seria considerado desafiador para qualquer geração: a crise financeira de 2008, o caos político do Brexit (saída britânica da União Europeia), o golpe econômico da covid, a guerra na Ucrânia e o choque energético posterior e, claro, a ruptura sistêmica do presidente dos EUA, Donald Trump.

Esses são desafios que não são específicos do Reino Unido; eles são enfrentados por outros líderes mundiais que também estão tendo as mesmas dificuldades. Em toda a Europa, os governos em exercício enfrentam obstáculos econômicos e eleitorados impacientes.

enfrentar todos esses desafios? Hannah White, CEO do centro de estudos Institute for Government (IFG), tem suas dúvidas.

“O Reino Unido não é 'ingovernável'”, diz ela. “Mas seus partidos políticos entregaram ao país uma série de primeiros-ministros sem habilidades essenciais de liderança em um momento em que as crises surgiram em rápida sucessão e várias tendências estão tornando o ato de governar consideravelmente mais difícil.”

O professor Anand Menon, diretor do centro de estudos UK in a Changing Europe, concorda.

“Nosso sistema concede poder significativo a um governo com maioria”, diz ele. “O fato de essa maioria não ter sido utilizada [para promover mudanças] até o momento é uma falha de liderança, em vez de ser indicativo de uma tendência sistemática de ingovernabilidade.”

Anthony Seldon, historiador e biógrafo de muitos primeiros-ministros, argumenta que alguns titulares recentes — como Boris Johnson, Liz Truss e Keir Starmer — não tinham as habilidades políticas para dar conta do trabalho e a humildade para procurar ajuda.

“Eles não tinham as habilidades e não estavam dispostos a trazer outras pessoas”, diz ele. “Outros primeiros-ministros tinham mentores. Até Margaret Thatcher tinha Willie Whitelaw [político conservador que serviu como uma espécie de vice-primeiro-ministro de Thatcher nos anos 80].”

<><> Atritos

Mas o fato de muitos primeiros-ministros serem eleitos com menos experiência do que no passado não é o único problema. Alguns parlamentares dizem que os servidores públicos do Reino Unido não estão conseguindo apoiar adequadamente seus primeiros-ministros.

Camilla Cavendish, ex-diretora de políticas do ex-premiê David Cameron, disse à BBC: “Todo governo parece entrar e ficar surpreso com o quão difícil é fazer as coisas”.

Em uma admissão franca perante um comitê dos Comuns em dezembro passado, Starmer reclamou que até mesmo ele tem dificuldade para fazer as coisas acontecerem: “Minha experiência como primeiro-ministro é frustrante porque toda vez que eu puxo uma alavanca, existem vários regulamentos, consultas e órgãos que fazem com que o tempo entre acionar a alavanca e obter resultados seja maior do que eu acho que deveria ser”.

Funcionários públicos, que não podem dar entrevistas, pela lei britânica, rebatem essas acusações em privado — alguns culpando ministros por não fornecer instruções claras. Eles questionam se a classe política esqueceu como governar.

Uma pessoa com muita experiência política nos corredores do poder em Londres me disse: “O desprezo pelo funcionalismo público, agora amplamente retribuído, deixou assustados e cautelosos os meios pelos quais os políticos implementam suas políticas”. Ele disse que os políticos “estão cada vez mais como crianças. Deslumbrados e impressionados ao conquistar o poder e com muito medo de fazer qualquer coisa depois que estão lá.”

Alguns funcionários e conselheiros dizem que a própria Downing Street, a sede do gabinete do primeiro-ministro, está lamentavelmente mal preparada e com falta de pessoal para administrar um governo moderno. No entanto, sucessivos governos centralizaram ainda mais o poder no prédio. Alguns dizem que isso deixa as decisões acumuladas sem solução — e os ministros sem poderes.

Jonathan Hill, secretário político de John Major na década de 1990, disse: “A centralização do poder no número 10 (onde trabalha o primeiro-ministro) e no Gabinete — e a obsessão pelo gerenciamento da pauta de notícias — tornaram o trabalho de um ministro muito menos relevante e poderoso. É um milagre que as pessoas ainda estejam preparadas para entrar na política e se tornarem ministros.”

Mas eventos contemporâneos, liderança fraca e um funcionalismo público sobrecarregado são suficientes para explicar a atual desordem política?

<><> Vício em drama

Alguns culpam as redes sociais por acelerar o processo político a um ponto quase incontrolável. Theo Bertram, ex-assessor de Tony Blair e Gordon Brown e atual diretor da Social Market Foundation, disse: "Há um problema estrutural: todas as coisas que precisamos fazer para consertar o país levarão 10 anos. Mas, se você é primeiro-ministro, não tem 10 anos. Na era das redes sociais, o que temos é muito curto-prazismo."

As redes sociais, incluindo aplicativos de mensagens pessoais, facilitam rebeliões no Parlamento e dificultam o debate de políticas. Steve Baker, ex-deputado conservador e arquiteto do Brexit, escreveu: "Líderes de partido e ministros chegam tarde demais a uma conversa que as redes sociais encerraram uma hora antes. Hoje, os mesmos mecanismos estão sendo usados dentro do Partido Trabalhista: minicentros de poder construídos em torno de listas de WhatsApp, organizando-se contra seu próprio líder em dias, não meses."

Outros dizem que a mídia é responsável. Nick Bryant, comentarista político e ex-jornalista da BBC, acredita que a “excitação dos jornalistas” é “parte do problema”, argumentando que o “vício em drama entre os políticos e os repórteres políticos alimenta o ciclo constante de caos e incerteza que está se tornando tão democraticamente desestabilizador”.

Por exemplo, a politicagem em torno do Brexit foi tão polêmica que alguns acreditam que isso envenenou o ambiente político, criando uma cultura de constante turbulência e rebelião. Os parlamentares conservadores se acostumaram a substituir seus líderes.

Será que a atual geração de deputados trabalhistas assistiu e absorveu essa cultura, e a normalizou? Estudos sugerem que os parlamentares sem cargos no governo estão se tornando menos obedientes. A rebelião era rara nos parlamentos do pós-guerra, mas se tornou mais comum nos governos de John Major, Tony Blair e David Cameron, à medida que esses parlamentares ganharam confiança e o controle partidário enfraqueceu.

Mas será que essa é a explicação completa?

Alguns dizem que a natureza da política do Reino Unido está mudando.

Eles apontam para a ascensão de partidos menores que estão desafiando o duopólio do Partido Trabalhista e dos Conservadores. Isso deixou o atual governo com uma maioria parlamentar significativa, mas sem muitos votos populares, já que o voto no Reino Unido não é obrigatório — e, portanto, um mandato mais fraco junto aos eleitores. Essa tendência pode seguir com o aumento do apoio popular a partidos novos, como o Reform UK, de direita, e aos Verdes, da esquerda.

Stewart Wood, ex-conselheiro de Gordon Brown, diz: “Ambos os principais partidos tiveram problemas no governo devido a questões internas. As dificuldades do Partido Conservador no governo foram em grande parte o resultado do Brexit ter fraturado o partido e impossibilitado a gestão partidária".

"O Partido Trabalhista foi estranhamente afetado por sua vitória esmagadora em 2024, sem uma agenda clara de governo para unir o partido e definir o rumo após chegar ao poder."

Alguns argumentam que o problema é mais profundo do que isso e que a fratura das linhas partidárias tradicionais reflete o fracasso das classes políticas em lidar com a escala dos problemas que o Reino Unido enfrenta — fraqueza econômica estrutural, imigração persistentemente alta, enfraquecimento das relações com aliados tradicionais na Europa e nos EUA e dependência energética de um tumultuado Oriente Médio.

<><> Gerenciando expectativas

Isso aponta para uma questão mais ampla, a da liderança política.

Os primeiros-ministros esqueceram como argumentar, apresentar a seus partidos e eleitores escolhas políticas honestas ou compensações? Onde antes prometiam dor de curto prazo para ganhos de longo prazo, agora oferecem satisfação instantânea que quase sempre não é alcançada? Isso pode alimentar a desilusão e a perda de confiança. Na última eleição, nenhum dos dois maiores partidos foi sincero sobre as perspectivas de aumentos de impostos e cortes de gastos.

Hill diz que muitos no centro do poder esqueceram que política significa definir o que se quer, construir um argumento e persuadir o maior número possível de pessoas a apoiá-lo em uma eleição geral.

"Em vez disso, acreditam que seu trabalho é descobrir o que diferentes grupos querem, conciliar todas as posições e reunir votos suficientes para vencer", argumenta. "Passamos de um mecanismo de transmissão de governo e parlamento para um que recebe mensagens como uma enorme máquina de lobby."

Theo Bertram, do centro de estudos Social Market Foundation, acrescenta: “Uma das coisas que não vimos muito nos últimos primeiros-ministros é a capacidade de enfrentar sua própria base parlamentar, enfrentar o público e dizer coisas difíceis”.

Alguns dizem que os políticos ainda não foram honestos com o eleitorado sobre a necessidade de cortar gastos com bem-estar social, aumentar os gastos com defesa, reformar o sistema de saúde e tornar a economia mais produtiva – tudo isso implicaria dor no curto prazo e, segundo alguns, um reequilíbrio do apoio estatal dos mais velhos para os mais jovens.

A política envolve persuasão, até mesmo sedução, e os primeiros-ministros parecem ter esquecido que este é um processo quase constante de conquistar eleitores, parlamentares e funcionários públicos para manter sua agenda avançando.

Talvez os eleitores também tenham se tornado impacientes demais? Em uma era de compras online instantâneas entregues em poucas horas, exigimos resultados políticos mais rápidos do que qualquer governo pode oferecer?

O aumento do apoio a partidos antiestablishment como Reform e os Verdes é resultado do descontentamento dos eleitores com os partidos tradicionais que, segundo eles, não conseguiram enfrentar os problemas do Reino Unido.

¨      O Reino Unido se tornou ingovernável? Por Christian Edwards

Anthony Seldon escreveu biografias de cada um dos últimos oito primeiros-ministros britânicos. Quando ele embarcou no projeto na década de 1990, o trabalho era gigantesco, mas comedido.

Depois, os moradores do número 10 de Downing Street passariam vários anos no cargo, e ele pôde examiná-los minuciosamente, à medida que cada um marcava o seu tempo.

Mas, agora, Seldon corre o risco de ser ultrapassado pelos acontecimentos. Após a recente mudança de líderes sob o governo conservador anterior, que viu o partido passar por três líderes em um ano, Seldon esperava que a vitória de Keir Starmer em 2024 anunciasse um retorno à normalidade política. O Partido Trabalhista de Starmer obteve uma esmagadora maioria no parlamento e prometeu uma “década”

Mas menos de dois anos após Starmer se tornar primeiro-ministro, ele já pode estar de saída. Depois de os eleitores terem rejeitado decisivamente os candidatos do Partido Trabalhista nas eleições locais na Inglaterra, Escócia e País de Gales, os colegas de Starmer parecem preparados para destituí-lo.

A biografia de Seldon do antecessor de Starmer, Rishi Sunak, será publicada em agosto. Nessa altura, o Reino Unido poderá já ter um novo primeiro-ministro – o sexto a ocupar o cargo em sete anos.

Seldon teme estar sempre tentando recuperar o atraso.

“Em breve vou para para 'Angela Rayner na 10 Downing Street’”, suspirou Seldon em uma entrevista à CNN, referindo-se à parlamentar trabalhista vista como uma dos potenciais rivais de Starmer.

O vaivém na 10 da Downing Street fez com que muitos se perguntassem: Será que o Reino Unido está se tornando ingovernável?

Os problemas do Reino Unido são vários. O país nunca se recuperou verdadeiramente da crise financeira de 2008. Desde então, os salários estagnaram em grande parte, apenas aumentando mais recentemente em resposta aos choques de inflação da pandemia de Covid-19 e à guerra da Rússia na Ucrânia.

Entretanto, estima-se que a saída do Reino Unido da União Europeia tenha reduzido o PIB per capita em até 8%. O crescimento da produtividade é morno. A dívida aumentou, o que significa que os títulos do governo britânico têm os rendimentos mais elevados entre os países do Grupo dos Sete (G7). O Reino Unido também tem os custos de eletricidade industrial mais elevados do grupo.

O sistema eleitoral também mostra tensão. O sistema britânico de maioria simples funciona melhor quando há dois partidos dominantes. Por mais de um século, foram os Trabalhistas e os Conservadores.

Mas o declínio dessa hegemonia transformou efetivamente a política britânica de uma luta de duas vias para uma luta de cinco vias na Inglaterra, e uma luta de seis vias na Escócia e no País de Gales.

Os dois partidos tradicionais competem agora contra os Liberais Democratas centristas, os Verdes ultraprogressistas, o Reformista do Reino Unido, de ultradireita, bem como os partidos nacionalistas que apoiam a independência da Escócia e do País de Gales, o que poderá levar à dissolução do Reino Unido. A Escócia faz parte do Reino Unido desde 1707 e o País de Gales desde 1536.

Contra esta maré de problemas, há uma tentação no Reino Unido de dizer que um bom governo se tornou quase impossível e que qualquer líder teria dificuldade em nadar contra a corrente.

Mas Seldon acredita que esse argumento serve apenas para isentar Starmer – e os seus antecessores nada impressionantes.

“O Reino Unido não é categoricamente ingovernável, embora alguns primeiros-ministros recentes tenham tentado arduamente torná-lo assim”, disse ele à CNN.

O escritor vê uma série de falhas entre os precursores conservadores de Starmer. Ele descreve Boris Johnson, com a sua propensão para um grande governo e a sua preocupação com as regiões “deixadas para trás”, como “Rooseveltiano” – mas apenas na “ambição, não na entrega”.

Liz Truss, no seu fervor ideológico pela economia libertária, era “Reaganite”, disse Seldon, ainda comparando os primeiros-ministros britânicos aos presidentes americanos. Procurando reverter os excessos de Johnson, Truss introduziu um plano de redução de impostos não financiado em 2022, que quase levou os mercados financeiros britânicos ao colapso.

Com o Banco de Inglaterra relutante em salvá-la, o Partido Conservador expulsou Truss depois de apenas 49 dias no cargo, tornando-a na primeira-ministra britânica com o mandato mais curto.

Rishi Sunak, um fã da austeridade e de um Estado menor, era “uma espécie de Hooverista”. Mas quando Sunak assumiu o cargo, o país estava tão exausto com os Conservadores, e tão prejudicado por Truss, que o premiê provavelmente nunca venceria as eleições de 2024, acrescentou.

Com Starmer, no entanto, menos paralelos americanos vêm à mente. Em vez de ecoar um projeto político, Starmer ecoa uma personalidade. “Há elementos de Jimmy Carter”, disse Seldon. “Acho que com Starmer – honesto, decente, tão sério, tão intenso, tanta integridade. Mas foi esmagador. Foi um pouco além dele.”

Não sendo “grande o suficiente” no momento, disse ele, Starmer, em vez disso, pareceu estar confuso com os acontecimentos e foi incapaz de lutar contra a maré. Quando dezenas dos seus colegas pediram a sua demissão, na sequência dos resultados eleitorais da semana passada, Starmer prometeu outro “reset” do seu cargo de primeiro-ministro.

Para Ben Ansell, cientista político da Universidade de Oxford, Starmer se assemelha a “um médico que se aproxima da cama de um paciente muito doente, meio que faz uma careta e diz: ‘Deus, isso parece terrível – alguém deveria fazer alguma coisa’”.

Como Starmer descartou a possibilidade de aumentar as três principais fontes de impostos durante a sua campanha eleitoral de 2024, o seu governo foi constrangido e teve de procurar receitas provenientes de fontes pequenas e politicamente impopulares.

“Eles escolheram os ‘vilões’ – escolas privadas, agricultores, bancos – e bateram neles, mas depois não conseguiram dinheiro suficiente com isso para fazerem muito por mais ninguém”, disse Ansell. “Eles criaram muitos inimigos e poucos amigos.”

Estes erros políticos poderiam ter sido perdoados se Starmer tivesse uma história política convincente, acrescentou. Uma boa história pode percorrer um longo caminho no Reino Unido, ao mesmo tempo que leva o país à ruína.

Após a crise financeira de 2008, o primeiro-ministro David Cameron fez um diagnóstico claro do Reino Unido: o anterior governo trabalhista tinha gasto demais e seria necessário um período de doloroso aperto para restaurar a saúde financeira.

Os Conservadores não conseguiram abrir caminho para o crescimento. A austeridade pretendia reduzir a dívida do Reino Unido e ajudar a sua recuperação, mas falhou em ambos os aspectos: a dívida aumentou e o crescimento econômico tem sido anêmico desde então.

No entanto, observou Ansell, Cameron “continuou a martelar” a mensagem de que o Reino Unido precisava “aparar as velas” ao longo do seu primeiro mandato e - tendo desfrutado de um crescimento econômico modesto no ano anterior às eleições – foi reeleito em 2015.

Por outro lado, Starmer não recebeu nenhuma mensagem para deixar clara. Ele prometeu “mudança”, sem especificar o quê ou como. “O primeiro-ministro é o principal contador de histórias do país – e Starmer nunca teve uma história”, disse Seldon.

<><> É preciso saber vender

Ainda assim, o governo de Starmer poderia cambalear. Ele prometeu não renunciar e mergulhar o Reino Unido de volta no “caos” que floresceu sob os Conservadores. Alguns especialistas alertam que o Reino Unido se tornou “viciada” em mudar o seu primeiro-ministro, tal como os clubes de futebol ingleses se tornaram viciados em mudar os seus treinadores.

Os aliados de Starmer apontam para a forma como o país está melhorando. Esta semana, as listas de espera do Serviço Nacional de Saúde (NHS) – que aumentaram sob os Conservadores – registraram a maior queda mensal fora da pandemia desde 2008.

Wes Streeting, o secretário da saúde que renunciou esta semana antes de anunciar a sua intenção de desafiar Starmer em qualquer disputa de liderança, disse que o NHS está no caminho certo para proporcionar a redução mais rápida nos tempos de espera da sua história.

Outros apontam para a forma como Starmer restaurou a credibilidade do Reino Unido no cenário mundial, após anos de antagonismo com a Europa por causa do Brexit.

Os seus aliados alegam que as coisas estão melhorando, mas que o público não sabe disso, ou não está interessado – influenciado pelos Reformistas ou pelos Verdes, que Starmer diz que poderiam levar o Reino Unido por um “caminho muito sombrio”.

Mas um primeiro-ministro deve fazer suas conquistas serem notadas. “Se você é um mau vendedor, não importa quão bons sejam os produtos que você tem à venda – ou quão inócuos, neste caso – toda vez que você tenta fazer uma venda, a situação fica pior”, disse Ansell.

O Reino Unido corre o risco de analisar demais as dificuldades de Starmer, às quais o cientista político disse haver pouco mistério: "Alguém sem muito carisma que não consegue vender coisas e é amplamente odiado pelo público. Isso é justo? Não sei - mas é assim que o público está reagindo."

<><> Um vendedor melhor?

Para tentar salvar as suas perspectivas eleitorais, muitos parlamentares trabalhistas procuram um vendedor melhor – Andy Burnham, o presidente trabalhista da Grande Manchester, que a maioria das pesquisas considera ser o político mais popular no Reino Unido.

Enquanto Starmer é acusado de falta de visão, Burnham defende o “Manchesterismo” – um tipo de socialismo “aspiracional” e favorável aos negócios que procura colocar os serviços essenciais de volta ao controle público. As suas políticas ajudaram a tornar Manchester a cidade que mais cresce no país.

A rota de Burnham para Downing Street é tensa e incerta. Ele não pode desafiar a liderança de Starmer no Partido Trabalhista sem primeiro ganhar um assento no parlamento. Na esperança de abrir caminho para Burnham, um parlamentar trabalhista renunciou esta semana ao cargo de deputado por Makerfield, uma área na Grande Manchester, desencadeando uma eleição especial que provavelmente terá Burnham enfrentando o candidato reformista.

As apostas não poderiam ser maiores. De Manchester, Burnham parece ser a última oportunidade para um Partido Trabalhista que desistiu em grande parte de Starmer.

Se Burnham perder para os Reformistas nas eleições especiais, isto poderá enterrar as perspectivas eleitorais do Partido Trabalhista nos próximos anos e colocar o Reino Unido ainda mais no “caminho sombrio” sobre o qual Starmer advertiu.

Então, o país poderá tornar-se verdadeiramente ingovernável.

 

Fonte: Por James Landale, da BBC News em Londres/CNN Brasil

 

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