O
Reino Unido está se tornando ingovernável?
A
história da política britânica de hoje pode
ser contada por números. Cinco primeiros-ministros em sete anos, nenhum dos
quais cumpriu um mandato completo do Parlamento. No mesmo período, sete
ministros de Relações Exteriores, seis ministros da Economia e quatro ministros
de gabinete.
É uma
história de instabilidade e inconsistência, com potencialmente
um novo capítulo a ser escrito pelo Partido Trabalhista se ele remover
Keir Starmer —
um primeiro-ministro em exercício com uma maioria parlamentar maior do que seu
antecessor reformista Clement Attlee, em 1945.
O que
está impulsionando essa narrativa? Por que o Reino Unido está
descartando seus líderes quase tão rapidamente quanto a Itália fazia? Por que
eleitores e parlamentares concedem e retiram seu apoio com tanta facilidade? Em
resumo, o Reino Unido está se tornando ingovernável?
Para Starmer, a resposta é clara.
Em uma entrevista coletiva nesta semana, o primeiro-ministro disse: “Não, não
acho que o Reino Unido seja ingovernável”. Sua rival, a líder conservadora Kemi
Badenoch, concordou, dizendo na Câmara dos Comuns: "O Reino Unido não é
ingovernável."
Mas
Starmer e Badenoch lideram parlamentares que, nos últimos tempos, demonstraram
gosto pelo regicídio político; eles precisam governar por meio de uma estrutura
administrativa, regulatória e judicial complexa que pode dificultar a
implementação de políticas; e atraem eleitores que parecem cada vez mais
impacientes por resultados e não querem aceitar que o jogo político envolve
concessões.
Este é
um momento particularmente turbulento na história britânica que deixou os
líderes à mercê dos acontecimentos? Ou a turbulência em Londres reflete
problemas profundos e sistêmicos na política?
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Tempos desafiadores
A
primeira resposta pode ser simplesmente que esses são tempos difíceis para a
classe política.
Esse
período da história seria considerado desafiador para qualquer geração: a crise
financeira de 2008, o caos político do Brexit (saída britânica da União
Europeia), o golpe econômico da covid, a guerra na Ucrânia e o choque
energético posterior e, claro, a ruptura sistêmica do presidente dos EUA,
Donald Trump.
Esses
são desafios que não são específicos do Reino Unido; eles são enfrentados por
outros líderes mundiais que também estão tendo as mesmas dificuldades. Em toda
a Europa, os governos em exercício enfrentam obstáculos econômicos e
eleitorados impacientes.
enfrentar
todos esses desafios? Hannah White, CEO do centro de estudos Institute for
Government (IFG), tem suas dúvidas.
“O
Reino Unido não é 'ingovernável'”, diz ela. “Mas seus partidos políticos
entregaram ao país uma série de primeiros-ministros sem habilidades essenciais
de liderança em um momento em que as crises surgiram em rápida sucessão e
várias tendências estão tornando o ato de governar consideravelmente mais
difícil.”
O
professor Anand Menon, diretor do centro de estudos UK in a Changing Europe,
concorda.
“Nosso
sistema concede poder significativo a um governo com maioria”, diz ele. “O fato
de essa maioria não ter sido utilizada [para promover mudanças] até o momento é
uma falha de liderança, em vez de ser indicativo de uma tendência sistemática
de ingovernabilidade.”
Anthony
Seldon, historiador e biógrafo de muitos primeiros-ministros, argumenta que
alguns titulares recentes — como Boris Johnson, Liz Truss e Keir Starmer — não
tinham as habilidades políticas para dar conta do trabalho e a humildade para
procurar ajuda.
“Eles
não tinham as habilidades e não estavam dispostos a trazer outras pessoas”, diz
ele. “Outros primeiros-ministros tinham mentores. Até Margaret Thatcher tinha
Willie Whitelaw [político conservador que serviu como uma espécie de
vice-primeiro-ministro de Thatcher nos anos 80].”
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Atritos
Mas o
fato de muitos primeiros-ministros serem eleitos com menos experiência do que
no passado não é o único problema. Alguns parlamentares dizem que os servidores
públicos do Reino Unido não estão conseguindo apoiar adequadamente seus
primeiros-ministros.
Camilla
Cavendish, ex-diretora de políticas do ex-premiê David Cameron, disse à BBC:
“Todo governo parece entrar e ficar surpreso com o quão difícil é fazer as
coisas”.
Em uma
admissão franca perante um comitê dos Comuns em dezembro passado, Starmer
reclamou que até mesmo ele tem dificuldade para fazer as coisas acontecerem:
“Minha experiência como primeiro-ministro é frustrante porque toda vez que eu
puxo uma alavanca, existem vários regulamentos, consultas e órgãos que fazem
com que o tempo entre acionar a alavanca e obter resultados seja maior do que
eu acho que deveria ser”.
Funcionários
públicos, que não podem dar entrevistas, pela lei britânica, rebatem essas
acusações em privado — alguns culpando ministros por não fornecer instruções
claras. Eles questionam se a classe política esqueceu como governar.
Uma
pessoa com muita experiência política nos corredores do poder em Londres me
disse: “O desprezo pelo funcionalismo público, agora amplamente retribuído,
deixou assustados e cautelosos os meios pelos quais os políticos implementam
suas políticas”. Ele disse que os políticos “estão cada vez mais como crianças.
Deslumbrados e impressionados ao conquistar o poder e com muito medo de fazer
qualquer coisa depois que estão lá.”
Alguns
funcionários e conselheiros dizem que a própria Downing Street, a sede do
gabinete do primeiro-ministro, está lamentavelmente mal preparada e com falta
de pessoal para administrar um governo moderno. No entanto, sucessivos governos
centralizaram ainda mais o poder no prédio. Alguns dizem que isso deixa as
decisões acumuladas sem solução — e os ministros sem poderes.
Jonathan
Hill, secretário político de John Major na década de 1990, disse: “A
centralização do poder no número 10 (onde trabalha o primeiro-ministro) e no
Gabinete — e a obsessão pelo gerenciamento da pauta de notícias — tornaram o
trabalho de um ministro muito menos relevante e poderoso. É um milagre que as
pessoas ainda estejam preparadas para entrar na política e se tornarem
ministros.”
Mas
eventos contemporâneos, liderança fraca e um funcionalismo público
sobrecarregado são suficientes para explicar a atual desordem política?
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Vício em drama
Alguns
culpam as redes sociais por acelerar o processo político a um ponto quase
incontrolável. Theo Bertram, ex-assessor de Tony Blair e Gordon Brown e atual
diretor da Social Market Foundation, disse: "Há um problema estrutural:
todas as coisas que precisamos fazer para consertar o país levarão 10 anos.
Mas, se você é primeiro-ministro, não tem 10 anos. Na era das redes sociais, o
que temos é muito curto-prazismo."
As
redes sociais, incluindo aplicativos de mensagens pessoais, facilitam rebeliões
no Parlamento e dificultam o debate de políticas. Steve Baker, ex-deputado
conservador e arquiteto do Brexit, escreveu: "Líderes de partido e
ministros chegam tarde demais a uma conversa que as redes sociais encerraram
uma hora antes. Hoje, os mesmos mecanismos estão sendo usados dentro do Partido
Trabalhista: minicentros de poder construídos em torno de listas de WhatsApp,
organizando-se contra seu próprio líder em dias, não meses."
Outros
dizem que a mídia é responsável. Nick Bryant, comentarista político e
ex-jornalista da BBC, acredita que a “excitação dos jornalistas” é “parte do
problema”, argumentando que o “vício em drama entre os políticos e os
repórteres políticos alimenta o ciclo constante de caos e incerteza que está se
tornando tão democraticamente desestabilizador”.
Por
exemplo, a politicagem em torno do Brexit foi tão polêmica que alguns acreditam
que isso envenenou o ambiente político, criando uma cultura de constante
turbulência e rebelião. Os parlamentares conservadores se acostumaram a
substituir seus líderes.
Será
que a atual geração de deputados trabalhistas assistiu e absorveu essa cultura,
e a normalizou? Estudos sugerem que os parlamentares sem cargos no governo
estão se tornando menos obedientes. A rebelião era rara nos parlamentos do
pós-guerra, mas se tornou mais comum nos governos de John Major, Tony Blair e
David Cameron, à medida que esses parlamentares ganharam confiança e o controle
partidário enfraqueceu.
Mas
será que essa é a explicação completa?
Alguns
dizem que a natureza da política do Reino Unido está mudando.
Eles
apontam para a ascensão de partidos menores que estão desafiando o duopólio do
Partido Trabalhista e dos Conservadores. Isso deixou o atual governo com uma
maioria parlamentar significativa, mas sem muitos votos populares, já que o
voto no Reino Unido não é obrigatório — e, portanto, um mandato mais fraco
junto aos eleitores. Essa tendência pode seguir com o aumento do apoio popular
a partidos novos, como o Reform UK, de direita, e aos Verdes, da esquerda.
Stewart
Wood, ex-conselheiro de Gordon Brown, diz: “Ambos os principais partidos
tiveram problemas no governo devido a questões internas. As dificuldades do
Partido Conservador no governo foram em grande parte o resultado do Brexit ter
fraturado o partido e impossibilitado a gestão partidária".
"O
Partido Trabalhista foi estranhamente afetado por sua vitória esmagadora em
2024, sem uma agenda clara de governo para unir o partido e definir o rumo após
chegar ao poder."
Alguns
argumentam que o problema é mais profundo do que isso e que a fratura das
linhas partidárias tradicionais reflete o fracasso das classes políticas em
lidar com a escala dos problemas que o Reino Unido enfrenta — fraqueza
econômica estrutural, imigração persistentemente alta, enfraquecimento das
relações com aliados tradicionais na Europa e nos EUA e dependência energética
de um tumultuado Oriente Médio.
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Gerenciando expectativas
Isso
aponta para uma questão mais ampla, a da liderança política.
Os
primeiros-ministros esqueceram como argumentar, apresentar a seus partidos e
eleitores escolhas políticas honestas ou compensações? Onde antes prometiam dor
de curto prazo para ganhos de longo prazo, agora oferecem satisfação
instantânea que quase sempre não é alcançada? Isso pode alimentar a desilusão e
a perda de confiança. Na última eleição, nenhum dos dois maiores partidos foi
sincero sobre as perspectivas de aumentos de impostos e cortes de gastos.
Hill
diz que muitos no centro do poder esqueceram que política significa definir o
que se quer, construir um argumento e persuadir o maior número possível de
pessoas a apoiá-lo em uma eleição geral.
"Em
vez disso, acreditam que seu trabalho é descobrir o que diferentes grupos
querem, conciliar todas as posições e reunir votos suficientes para
vencer", argumenta. "Passamos de um mecanismo de transmissão de
governo e parlamento para um que recebe mensagens como uma enorme máquina de
lobby."
Theo
Bertram, do centro de estudos Social Market Foundation, acrescenta: “Uma das
coisas que não vimos muito nos últimos primeiros-ministros é a capacidade de
enfrentar sua própria base parlamentar, enfrentar o público e dizer coisas
difíceis”.
Alguns
dizem que os políticos ainda não foram honestos com o eleitorado sobre a
necessidade de cortar gastos com bem-estar social, aumentar os gastos com
defesa, reformar o sistema de saúde e tornar a economia mais produtiva – tudo
isso implicaria dor no curto prazo e, segundo alguns, um reequilíbrio do apoio
estatal dos mais velhos para os mais jovens.
A
política envolve persuasão, até mesmo sedução, e os primeiros-ministros parecem
ter esquecido que este é um processo quase constante de conquistar eleitores,
parlamentares e funcionários públicos para manter sua agenda avançando.
Talvez
os eleitores também tenham se tornado impacientes demais? Em uma era de compras
online instantâneas entregues em poucas horas, exigimos resultados políticos
mais rápidos do que qualquer governo pode oferecer?
O
aumento do apoio a partidos antiestablishment como Reform e os Verdes é
resultado do descontentamento dos eleitores com os partidos tradicionais que,
segundo eles, não conseguiram enfrentar os problemas do Reino Unido.
¨
O Reino Unido se tornou ingovernável? Por Christian
Edwards
Anthony
Seldon escreveu biografias de cada um dos últimos oito primeiros-ministros
britânicos. Quando ele embarcou no projeto na década de 1990, o trabalho era
gigantesco, mas comedido.
Depois,
os moradores do número 10 de Downing Street passariam vários anos no cargo, e
ele pôde examiná-los minuciosamente, à medida que cada um marcava o seu tempo.
Mas,
agora, Seldon corre o risco de ser ultrapassado pelos acontecimentos. Após a
recente mudança de líderes sob o governo conservador anterior, que viu o
partido passar por três líderes em um ano, Seldon esperava que a vitória de
Keir Starmer em 2024 anunciasse um retorno à normalidade política. O Partido
Trabalhista de Starmer obteve uma esmagadora maioria no parlamento e prometeu
uma “década”
Mas
menos de dois anos após Starmer se tornar primeiro-ministro, ele já pode estar
de saída. Depois de os eleitores terem rejeitado decisivamente os candidatos do
Partido Trabalhista nas eleições locais na Inglaterra, Escócia e País de Gales,
os colegas de Starmer parecem preparados para destituí-lo.
A
biografia de Seldon do antecessor de Starmer, Rishi Sunak, será publicada em
agosto. Nessa altura, o Reino Unido poderá já ter um novo primeiro-ministro – o
sexto a ocupar o cargo em sete anos.
Seldon
teme estar sempre tentando recuperar o atraso.
“Em
breve vou para para 'Angela Rayner na 10 Downing Street’”, suspirou Seldon em
uma entrevista à CNN, referindo-se à parlamentar trabalhista vista como
uma dos potenciais rivais de Starmer.
O
vaivém na 10 da Downing Street fez com que muitos se perguntassem: Será que o
Reino Unido está se tornando ingovernável?
Os
problemas do Reino Unido são vários. O país nunca se recuperou verdadeiramente
da crise financeira de 2008. Desde então, os salários estagnaram em grande
parte, apenas aumentando mais recentemente em resposta aos choques de inflação
da pandemia de Covid-19 e à guerra da Rússia na Ucrânia.
Entretanto,
estima-se que a saída do Reino Unido da União Europeia tenha reduzido o PIB per
capita em até 8%. O crescimento da produtividade é morno. A dívida aumentou, o
que significa que os títulos do governo britânico têm os rendimentos mais
elevados entre os países do Grupo dos Sete (G7). O Reino Unido também tem os
custos de eletricidade industrial mais elevados do grupo.
O
sistema eleitoral também mostra tensão. O sistema britânico de maioria simples
funciona melhor quando há dois partidos dominantes. Por mais de um século,
foram os Trabalhistas e os Conservadores.
Mas o
declínio dessa hegemonia transformou efetivamente a política britânica de uma
luta de duas vias para uma luta de cinco vias na Inglaterra, e uma luta de seis
vias na Escócia e no País de Gales.
Os dois
partidos tradicionais competem agora contra os Liberais Democratas centristas,
os Verdes ultraprogressistas, o Reformista do Reino Unido, de ultradireita, bem
como os partidos nacionalistas que apoiam a independência da Escócia e do País
de Gales, o que poderá levar à dissolução do Reino Unido. A Escócia faz parte
do Reino Unido desde 1707 e o País de Gales desde 1536.
Contra
esta maré de problemas, há uma tentação no Reino Unido de dizer que um bom
governo se tornou quase impossível e que qualquer líder teria dificuldade em
nadar contra a corrente.
Mas
Seldon acredita que esse argumento serve apenas para isentar Starmer – e os
seus antecessores nada impressionantes.
“O
Reino Unido não é categoricamente ingovernável, embora alguns
primeiros-ministros recentes tenham tentado arduamente torná-lo assim”, disse
ele à CNN.
O
escritor vê uma série de falhas entre os precursores conservadores de Starmer.
Ele descreve Boris Johnson, com a sua propensão para um grande governo e a sua
preocupação com as regiões “deixadas para trás”, como “Rooseveltiano” – mas
apenas na “ambição, não na entrega”.
Liz
Truss, no seu fervor ideológico pela economia libertária, era “Reaganite”,
disse Seldon, ainda comparando os primeiros-ministros britânicos aos
presidentes americanos. Procurando reverter os excessos de Johnson, Truss
introduziu um plano de redução de impostos não financiado em 2022, que quase
levou os mercados financeiros britânicos ao colapso.
Com o
Banco de Inglaterra relutante em salvá-la, o Partido Conservador expulsou Truss
depois de apenas 49 dias no cargo, tornando-a na primeira-ministra britânica
com o mandato mais curto.
Rishi
Sunak, um fã da austeridade e de um Estado menor, era “uma espécie de
Hooverista”. Mas quando Sunak assumiu o cargo, o país estava tão exausto com os
Conservadores, e tão prejudicado por Truss, que o premiê provavelmente nunca
venceria as eleições de 2024, acrescentou.
Com
Starmer, no entanto, menos paralelos americanos vêm à mente. Em vez de ecoar um
projeto político, Starmer ecoa uma personalidade. “Há elementos de Jimmy
Carter”, disse Seldon. “Acho que com Starmer – honesto, decente, tão sério, tão
intenso, tanta integridade. Mas foi esmagador. Foi um pouco além dele.”
Não
sendo “grande o suficiente” no momento, disse ele, Starmer, em vez disso,
pareceu estar confuso com os acontecimentos e foi incapaz de lutar contra a
maré. Quando dezenas dos seus colegas pediram a sua
demissão,
na sequência dos resultados eleitorais da semana passada, Starmer prometeu
outro “reset” do seu cargo de primeiro-ministro.
Para
Ben Ansell, cientista político da Universidade de Oxford, Starmer se assemelha
a “um médico que se aproxima da cama de um paciente muito doente, meio que faz
uma careta e diz: ‘Deus, isso parece terrível – alguém deveria fazer alguma
coisa’”.
Como
Starmer descartou a possibilidade de aumentar as três principais fontes de
impostos durante a sua campanha eleitoral de 2024, o seu governo foi
constrangido e teve de procurar receitas provenientes de fontes pequenas e
politicamente impopulares.
“Eles
escolheram os ‘vilões’ – escolas privadas, agricultores, bancos – e bateram
neles, mas depois não conseguiram dinheiro suficiente com isso para fazerem
muito por mais ninguém”, disse Ansell. “Eles criaram muitos inimigos e poucos
amigos.”
Estes
erros políticos poderiam ter sido perdoados se Starmer tivesse uma história
política convincente, acrescentou. Uma boa história pode percorrer um longo
caminho no Reino Unido, ao mesmo tempo que leva o país à ruína.
Após a
crise financeira de 2008, o primeiro-ministro David Cameron fez um diagnóstico
claro do Reino Unido: o anterior governo trabalhista tinha gasto demais e seria
necessário um período de doloroso aperto para restaurar a saúde financeira.
Os
Conservadores não conseguiram abrir caminho para o crescimento. A austeridade
pretendia reduzir a dívida do Reino Unido e ajudar a sua recuperação, mas
falhou em ambos os aspectos: a dívida aumentou e o crescimento econômico tem
sido anêmico desde então.
No
entanto, observou Ansell, Cameron “continuou a martelar” a mensagem de que o
Reino Unido precisava “aparar as velas” ao longo do seu primeiro mandato e -
tendo desfrutado de um crescimento econômico modesto no ano anterior às
eleições – foi reeleito em 2015.
Por
outro lado, Starmer não recebeu nenhuma mensagem para deixar clara. Ele
prometeu “mudança”, sem especificar o quê ou como. “O primeiro-ministro é o
principal contador de histórias do país – e Starmer nunca teve uma história”,
disse Seldon.
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É preciso saber vender
Ainda
assim, o governo de Starmer poderia cambalear. Ele prometeu não renunciar e
mergulhar o Reino Unido de volta no “caos” que floresceu sob os Conservadores.
Alguns especialistas alertam que o Reino Unido se tornou “viciada” em mudar o
seu primeiro-ministro, tal como os clubes de futebol ingleses se tornaram
viciados em mudar os seus treinadores.
Os
aliados de Starmer apontam para a forma como o país está melhorando. Esta
semana, as listas de espera do Serviço Nacional de Saúde (NHS) – que aumentaram
sob os Conservadores – registraram a maior queda mensal fora da pandemia desde
2008.
Wes
Streeting, o secretário da saúde
que renunciou esta
semana antes de anunciar a sua intenção de desafiar Starmer em
qualquer disputa de liderança, disse que o NHS
está no caminho certo para proporcionar a “redução
mais rápida nos tempos de espera” da sua história.
Outros
apontam para a forma como Starmer restaurou a credibilidade do Reino Unido no
cenário mundial, após anos de antagonismo com a Europa por causa do Brexit.
Os seus
aliados alegam que as coisas estão melhorando, mas que o público não sabe
disso, ou não está interessado – influenciado pelos Reformistas ou pelos
Verdes, que Starmer diz que poderiam levar o Reino Unido por um “caminho muito
sombrio”.
Mas um
primeiro-ministro deve fazer suas conquistas serem notadas. “Se você é um mau
vendedor, não importa quão bons sejam os produtos que você tem à venda – ou
quão inócuos, neste caso – toda vez que você tenta fazer uma venda, a situação
fica pior”, disse Ansell.
O Reino
Unido corre o risco de analisar demais as dificuldades de Starmer, às quais o
cientista político disse haver pouco mistério: "Alguém sem muito carisma
que não consegue vender coisas e é amplamente odiado pelo público. Isso é
justo? Não sei - mas é assim que o público está reagindo."
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Um vendedor melhor?
Para
tentar salvar as suas perspectivas eleitorais, muitos parlamentares
trabalhistas procuram um vendedor
melhor –
Andy Burnham, o presidente trabalhista da Grande Manchester, que a maioria das
pesquisas considera ser o político mais popular no Reino Unido.
Enquanto
Starmer é acusado de falta de visão, Burnham defende o “Manchesterismo” – um
tipo de socialismo “aspiracional” e favorável aos negócios que procura colocar
os serviços essenciais de volta ao controle público. As suas políticas ajudaram
a tornar Manchester a cidade que mais cresce no país.
A rota
de Burnham para Downing Street é tensa e incerta. Ele não pode desafiar a
liderança de Starmer no Partido Trabalhista sem primeiro ganhar um assento no
parlamento. Na esperança de abrir caminho para Burnham, um parlamentar
trabalhista renunciou esta semana ao cargo de deputado por Makerfield, uma área
na Grande Manchester, desencadeando uma eleição especial que provavelmente terá
Burnham enfrentando o candidato reformista.
As
apostas não poderiam ser maiores. De Manchester, Burnham parece ser a última
oportunidade para um Partido Trabalhista que desistiu em grande parte de
Starmer.
Se
Burnham perder para os Reformistas nas eleições especiais, isto poderá enterrar
as perspectivas eleitorais do Partido Trabalhista nos próximos anos e colocar o
Reino Unido ainda mais no “caminho sombrio” sobre o qual Starmer advertiu.
Então,
o país poderá tornar-se verdadeiramente ingovernável.
Fonte:
Por James Landale, da BBC News em Londres/CNN Brasil

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