quarta-feira, 13 de maio de 2026

Documento estratégico: o rearmamento que projeta Berlim para a guerra no Leste Europeu

Um novo documento estratégico das Forças Armadas alemãs prepara a Alemanha para uma grande guerra no Leste europeu. O ministro germânico da “Defesa”, Boris Pistorius, apresentou um novo plano geral para a orientação estratégica das Forças Armadas alemãs. Uma estratégia global desse tipo, acessível ao público, ao menos em parte, é uma novidade. Com este documento e a “Estratégia Nacional de Segurança”, pretende-se impulsionar ainda mais o rearmamento diante de uma guerra iminente com a Rússia.

A Alemanha está preparando a guerra. No discurso oficial, fala-se de uma “ameaça do Leste”, mas a verdade é que a guerra parte do Ocidente: com armas, drones e discursos agressivos. Um comentário de Perspektive Online.

Em 23 de abril de 2026, Boris Pistorius (Partido Social-Democrata da Alemanha — SPD) apresentou a orientação estratégica atual das Forças Armadas alemãs. Segundo o documento de princípios publicado, as Forças Armadas devem preparar-se para enfrentar um conflito militar com a Rússia. O mundo tornou-se imprevisível e mais perigoso, afirmou Pistorius durante a apresentação. Até agora, a orientação estratégica das Forças Armadas alemãs não havia sido tratada com tanto detalhe nem de forma tão pública. Neste caso, optou-se por esse enfoque, entre outras razões, porque o documento estratégico pode ser interpretado como uma resposta às diretrizes políticas da Estratégia Nacional de Segurança aprovada no país em 2022.

Já na Estratégia Nacional de Segurança falava-se de resiliência em todas as dimensões, isto é, terrestre, aérea, marítima, cibernética e espacial. Na nova orientação estratégica, essas exigências são enfatizadas com cifras e planos mais ou menos concretos. No entanto, há algo que fica claro desde a primeira leitura do documento-base: o governo federal prevê ter de travar uma guerra contra a Rússia nos próximos anos.

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Enquanto a Rússia continua envolvida na guerra contra a Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, Pistorius fala de uma situação de ameaça que pretende justificar o rearmamento da Alemanha. Nos últimos meses e anos, não houve avanços fundamentais na guerra da Ucrânia. Ela se transformou em uma espécie de guerra de posições, na qual se sacrifica uma grande quantidade de pessoas e de material para obter deslocamentos mínimos no front.

<><> As repercussões da estratégia militar da Alemanha

No documento estratégico do Ministério da Defesa, repete-se e explica-se em várias ocasiões a exigência de Friedrich Merz de criar o “exército convencional mais forte da Europa”. Apresentam-se planos de desenvolvimento que se estendem até 2039. O objetivo é formar, até então, umas Forças Armadas “tecnologicamente superiores” à concorrência. Para isso, continua sendo necessário que, em 2035, haja pelo menos 460 mil soldados. Bastian Ernst, novo presidente da Associação de Reservistas, propôs recentemente, nesse contexto, elevar para 70 anos a idade limite dos reservistas para ampliar o contingente das Forças Armadas. Segundo ele, não deveriam ser desperdiçados esses “recursos de pessoas com experiência de vida e profissional”. Outro argumento seria o debate sobre o aumento da idade de aposentadoria. Em resumo, a proposta de Ernst significa: quem pode trabalhar também pode servir.

No documento não são mencionadas explicitamente novas restrições para a população civil da Alemanha. Faz-se referência à Lei dos Soldados, concretamente ao artigo 91, que regulamenta o aumento do pessoal militar na ativa e na reserva. Os objetivos ali estabelecidos, de contar com pelo menos 460 mil efetivos nas Forças Armadas até 2035, pretendem ser alcançados com ajuda da Lei do Serviço Militar aprovada em dezembro passado. Em princípio, o serviço militar ali estabelecido baseia-se no voluntariado. No entanto, a lei inclui uma cláusula que permite a reintrodução do serviço militar obrigatório caso não sejam alcançados os objetivos estabelecidos. Cabe dizer, além disso, que algumas partes do documento estratégico foram classificadas como secretas e não são acessíveis. Por isso, fala-se de maneira relativamente imprecisa sobre tecnologias inovadoras que deveriam permitir à Bundeswehr ser superior a seus competidores — inimigos declarados.

O gasto financeiro também permanece indefinido no momento. No entanto, é certo que o aumento do gasto com armamentos trará novos cortes no Estado de bem-estar social e perdas para a população. E o fato é que, desde a criação do fundo especial de 100 bilhões de euros para as Forças Armadas e dos 500 bilhões de euros adicionais para investimentos na ampliação de infraestruturas, os cortes no Estado de bem-estar — como a supressão da renda básica, a eliminação de prestações na assistência à juventude e no acompanhamento escolar, assim como uma diminuição constante do nível dos salários reais — tornaram-se a amarga realidade cotidiana dos trabalhadores e trabalhadoras na Alemanha.

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Mesmo levando em conta os recursos especiais aprovados, o governo investiu no ano passado cerca de 62 bilhões de euros em armamentos. Para os próximos anos, está previsto um aumento constante do gasto militar. Em 2029, serão destinados à modernização militar pouco menos de 153 bilhões de euros do orçamento federal. O Ministério da Fazenda fala em alcançar o objetivo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em matéria de rearmamento. Esse objetivo situa-se em 3,5% do produto interno bruto (PIB). Segundo as previsões atuais, em 2029 seria necessário investir em armamentos até 190 bilhões de euros, somando-se o gasto do fundo especial.

<><> Ameaça russa?

No documento estratégico, a Rússia é apresentada como um adversário impiedoso e imprevisível, que só pode ser dissuadido por um exército superior. Mediante essas afirmações vagas, o Estado alemão tenta justificar seu rearmamento, que chega a várias centenas de bilhões de euros. No entanto, na realidade, um aumento do armamento da Bundeswehr não fará com que a Rússia se convença a desarmar-se. É muito mais provável que haja um rearmamento ainda maior do exército russo, assim como um maior enfoque dos países do Brics na cooperação militar, a fim de formar uma contraposição à hegemonia militar da Otan. Portanto, a situação de ameaça não consiste unicamente em uma Rússia fortemente armada, mas no fato de que, nos próximos anos, diversas grandes potências vão se armar até os dentes e, no pior dos casos, ver-se envolvidas em um conflito generalizado entre blocos.

No conceito de defesa militar da Alemanha, a Rússia é classificada claramente como a principal ameaça para a Alemanha e a Europa. O “panorama bélico” esboçado mostra um inimigo que não se deixa obrigar a “respeitar os princípios éticos e jurídicos reconhecidos” e que já leva a cabo operações híbridas. No planejamento para criar o exército convencional mais forte da Europa, o novo documento estratégico se baseia em três responsabilidades principais: “a tranquilidade dos aliados e de suas sociedades” (reassurance), “a defesa da Otan” (defence) e “a dissuasão crível frente à Rússia” (deterrence). Concede-se especial importância sobretudo ao último ponto, isto é, à “dissuasão crível”.

Até agora, o número de efetivos da Otan, incluindo reservas e unidades paramilitares, chega a cerca de 8,65 milhões de soldados. A Rússia conta, incluídas as reservas, com cerca de 3,57 milhões de soldados, ou seja, nem sequer a metade. Ao mesmo tempo, estão sendo reajustadas as áreas de responsabilidade em matéria de estratégia militar dos Estados membros da Otan. Enquanto os EUA ameaçam retirar-se cada vez mais da Europa Central e Oriental para concentrar-se em suas próprias pretensões de poder na América do Sul e na Ásia Ocidental, a construção do flanco oriental da Otan avança a toda velocidade.

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<><> Flanco oriental da Otan como “muro de proteção” contra a Rússia

Esse grande projeto militar abrange os países da Europa Oriental integrantes da Otan que fazem fronteira com Rússia, Belarus e Ucrânia. Estende-se do Báltico ao norte dos Bálcãs e é considerado um “muro de proteção” contra a Rússia. Em 2024, o flanco oriental da Otan contava com cerca de 380 mil soldados em oito países. Como a Otan não publica cifras oficiais desde 2022, o número de soldados estacionados baseia-se em estimativas. A área de responsabilidade da Alemanha concentra-se atualmente sobretudo no deslocamento de tropas na Lituânia. A brigada da Otan, sob o comando das Forças Armadas alemãs, conta com o reforço de 5 mil soldados alemães. O translado de tropas começou em 2025 e prevê-se que a brigada esteja plenamente operativa a partir de 2027. A Lituânia encontra-se na rota estrategicamente importante entre Belarus, principal aliado da Rússia, e o enclave russo de Kaliningrado, situado no mar Báltico e que oferece acesso ao mar. Além do deslocamento de soldados, também está se intensificando a produção de armamentos alemães na Lituânia, entre outras iniciativas com uma fábrica da Rheinmetall.

No entanto, a Alemanha não desempenha apenas um papel no equipamento militar direto do flanco oriental da Otan. Ao mesmo tempo, atua como “centro nevrálgico” da aliança militar. O coronel da Bundeswehr Armin Schaus declarou, em entrevista, que, caso se produza uma situação de tensão, seria preciso deslocar até 800 mil soldados da Otan pela Alemanha até o flanco oriental para exercer um efeito dissuasório sobre a Rússia. No entanto, a cláusula que define o início de uma situação de tensão é controversa, já que não requer ações bélicas ativas, podendo ser decidida unicamente por maioria de dois terços no Bundestag.

Ainda assim, políticos, oficiais e estrategistas militares alemães seguem prognosticando uma possível guerra com a Rússia a partir de 2029. Pistorius afirmou em junho de 2024, durante discurso no Bundestag: “Devemos estar preparados para a guerra em 2029. Devemos exercer dissuasão para evitar que se chegue ao extremo”.

O inspetor-geral das Forças Armadas alemãs, Carsten Breuer, também destaca em entrevista sobre o novo documento estratégico que, dentro de três anos, a Rússia poderá estar em condições de travar uma “guerra em grande escala contra um país da Otan”. “Não digo que isso vá acontecer automaticamente, claro que não. Mas existe essa possibilidade. E precisamente por isso devemos preparar-nos e contra isso devemos armar-nos”, explica Breuer.

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<><> Jogos de poder imperialistas no Leste europeu

Breuer tem razão quando diz que um Estado não entra imediatamente em guerra apenas porque pode travá-la. Para responder à pergunta sobre quando a Rússia estaria realmente disposta a atacar um país da Otan, é mais interessante — e também mais útil — tomar consciência dos interesses do Estado russo no Leste europeu. Assim, da perspectiva europeia, a guerra na Ucrânia já tinha como objetivo eliminar interesses econômicos fundamentais russos. Entre eles encontra-se, por exemplo, o acesso ao mar Negro, que facilita enormemente o comércio marítimo da Rússia.

Além disso, a tomada da bacia de Donets é um objetivo central do ataque russo. Essa zona é uma das regiões mais ricas em matérias-primas de toda a Europa e, portanto, tem importância fundamental tanto para a Rússia quanto para a Ucrânia e seus aliados. No ano passado, a Ucrânia assinou um acordo com os EUA que concede às empresas estadunidenses isenção de impostos e taxas na importação dessas matérias-primas e que, ao mesmo tempo, tem por objetivo financiar a reconstrução da Ucrânia. Embora, na situação atual, seja improvável que a Ucrânia recupere a bacia de Donets, tampouco parece um cenário realista, neste momento, que as tropas russas avancem até Kiev.

Mas ainda mais importante é considerar os interesses alemães no Leste europeu, frequentemente ocultos. Especialmente com a retirada cada vez mais provável dos EUA da Europa Oriental, abrem-se, além de desafios, novas oportunidades para o Estado alemão. Assim, a retirada do maior fornecedor de armas da Ucrânia pode significar, ao mesmo tempo, que os Estados da União Europeia (UE) decidam continuar alimentando a guerra na Ucrânia para manter aberta a possibilidade de acesso a valiosas matérias-primas. E, para além da guerra na Ucrânia, a retirada dos EUA abre a oportunidade de abastecer os mercados internos da Europa Oriental, que antes se encontravam firmemente nas mãos de empresas estadunidenses.

Até agora, o Estado alemão, com seu exército, e as empresas alemãs concentraram-se principalmente nos Bálcãs, na parte sul da Europa Oriental. Em novembro de 2025, o ministro das Relações Exteriores Johann Wadephul foi à Albânia, Bósnia-Herzegovina, Kosovo, Montenegro, Macedônia do Norte e Sérvia para promover uma adesão mais rápida desses países à UE. O crescente “compromisso” de China e Rússia nos Bálcãs vai contra “nossos interesses”, afirmou durante a viagem. Do ponto de vista econômico, o capital alemão está interessado, entre outras coisas, em jazidas de matérias-primas como o lítio, extraído em grandes quantidades na Sérvia. Outros países como Polônia, República Tcheca, Eslováquia e Hungria são, além disso, o “quintal industrial” dos consórcios alemães, especialmente na indústria automobilística e de fornecedores, assim como nas indústrias metalúrgica, da borracha e dos plásticos.

Para poder impor esses interesses da forma mais eficiente possível na gestão política cotidiana, a Alemanha nomeou, com ajuda da UE, seu próprio governante colonial na Bósnia-Herzegovina. Oficialmente, ocupa o cargo de “Alto Representante” e, portanto, detém de fato o maior poder de decisão no aparato estatal. Em outros países, como a Ucrânia, o Estado alemão tenta assegurar sua influência por vias diplomáticas. Assim, o lobista Martin Jäger, que já havia sido designado embaixador depois das guerras do Iraque e do Afeganistão para negociar acordos favoráveis a consórcios alemães como a Siemens, foi enviado à Ucrânia de 2023 a 2025.

Outro conflito de interesses entre Rússia e os Estados da UE manifesta-se também na Hungria. Supõe-se, na UE, que a Rússia teria tentado influenciar as eleições presidenciais húngaras para manter Viktor Orbán, considerado crítico em relação à UE, no poder. Ao mesmo tempo, os Estados membros da UE demonstraram grande interesse em retirar Orbán do poder o mais rapidamente possível, a fim de impor de forma mais consequente os interesses do bloco, como o fornecimento de armas à Ucrânia. Em contraposição a isso encontrava-se o interesse dos EUA, que também viam em Orbán um aliado importante e que, pouco antes das eleições, enviaram o vice-presidente estadunidense J. D. Vance à Hungria em sinal de apoio.

<><> Rearmamento gera tensões dentro da UE

No documento estratégico afirma-se em várias ocasiões que a Alemanha quer assumir também a responsabilidade por seus países vizinhos e pela UE. No entanto, parece contraditório até que ponto a Alemanha aposta realmente na cooperação com outros “aliados”. Houve tensões entre Alemanha e França. O motivo foi o projeto conjunto do avião de combate FCAS. O projeto foi interrompido repetidas vezes nos últimos meses, já que as empresas participantes disputavam a liderança no desenvolvimento da aeronave. O desenvolvimento do sistema de carros de combate franco-alemão MGCS seguiu trajetória semelhante. Também nesse caso surgiram desacordos entre as empresas participantes, Rheinmetall e KNDS, antes mesmo da finalização de um protótipo. Ambas insistiam em utilizar seus próprios modelos de tanque como base para o “carro de combate do futuro”.

Esses dois exemplos, por si só, colocam em questão a exigência do documento estratégico de “reafirmar aos aliados e às suas sociedades” e expõem muitas outras perguntas. Se a Alemanha está tão interessada na capacidade de dissuasão europeia, por que disputa cada centavo nos projetos conjuntos com sócios da UE e da Otan? Por que justamente a Alemanha, que está atrás de outros Estados em matéria de rearmamento e desenvolvimento de infraestruturas, quer dispor do exército mais forte da Europa?

Nesse contexto, os interesses da Rússia passam a um segundo plano, enquanto ganham protagonismo os interesses imperialistas alemães. Um tanque de última geração, plenamente operativo e dotado de tecnologia inovadora, só é útil para a economia alemã se for produzido em território alemão, com fornecimento de empresas armamentistas alemãs e com a menor participação possível da concorrência francesa ou de outros Estados da UE. Só assim o Estado alemão pode defender sua própria renda econômica frente à concorrência da França e da Grã-Bretanha e obter benefícios, em forma de contratos, para as empresas de armamentos de seu próprio território.

Algo semelhante ocorre com o debate sobre um exército paneuropeu. A França mostra-se, em princípio, favorável. A Alemanha se opõe e responde com o plano de manter em suas próprias fileiras pelo menos 460 mil soldados até 2035. Ainda que esse conceito também preveja apoiar os Estados vizinhos, o Estado alemão se nega a investir centenas de bilhões de euros na formação e manutenção de tropas sobre as quais não teria nenhum poder de decisão — ou apenas um poder compartilhado. O exército nacional tem aqui, antes de tudo, a tarefa de defender os interesses nacionais do Estado ao qual pertence. A decisão sobre se também deve servir aos interesses europeus, o Estado responsável — neste caso, a Alemanha — deseja reservar para si mesmo.

Aqui ficam claros os conflitos de interesses interestatais dentro da Europa. Desde a fundação da UE, eles podem ser vistos, entre outras coisas, na relação com a confederação de Estados. Já na década de 1990, os Estados economicamente fortes tinham interesse em contratar mão de obra o mais barata possível proveniente de Estados economicamente frágeis, assim como abastecer os mercados internos desses países. Isso deu origem, por um lado, a relações de dependência dos Estados economicamente frágeis em relação aos economicamente fortes e, por outro, a uma concorrência entre países economicamente fortes, como Reino Unido, França e Alemanha, que se prolonga até hoje.

Assim pode ser entendido também o documento estratégico publicado pelo Ministério da Defesa. Seu principal objetivo é justificar o rearmamento da Alemanha. O rearmamento da UE é considerado um subproduto que deve servir da melhor forma possível aos interesses alemães. As razões para isso são, de um lado, como se afirma, exercer um efeito dissuasório sobre a Rússia e, de outro, fazer frente à concorrência dentro da própria UE.

 

Fonte: Redação Resumen LatinoAmericano

 

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