quarta-feira, 13 de maio de 2026

Por que a UE vê a tecnologia solar chinesa como um risco

A Comissão Europeia tomou medidas para bloquear o financiamento da União Europeia a tecnologias de produção de energia solar fabricadas na China, diante do receio de que elas possam representar uma ameaça à segurança da rede elétrica europeia e até provocar grandes apagões.

A decisão, confirmada em 4 de maio, reflete a crescente preocupação em Bruxelas de que a dependência europeia de tecnologia verde chinesa esteja tornando o bloco vulnerável a riscos de segurança.

A proibição do financiamento se concentra nos inversores solares, componentes considerados o "cérebro" de um sistema de energia solar.

Esses inversores são os dispositivos que convertem a energia solar em eletricidade utilizável. Eles são conectados à internet e, em muitos casos, podem ser acessados remotamente para manutenção e atualizações de software.

<><> O pior cenário: um apagão em toda a Europa?

"Todas as empresas de inversores têm algo como um interruptor de desligamento", afirmou Christoph Podewils, secretário-geral do Conselho Europeu de Fabricação Solar, à DW.

Esse tipo de mecanismo, assim como outras conexões remotas, é normalmente usado para fins de segurança ou estabilização da rede. No entanto, especialistas em cibersegurança alertam que, em um possível cenário extremo, hackers ou agentes estatais hostis poderiam explorar essas conexões para interromper o fornecimento de energia.

"O pior cenário seriam apagões em larga escala em toda a Europa", disse à DW a especialista em cibersegurança Swantje Westphal.

Esse risco tem sido cada vez mais levado em conta à medida que a energia solar avança na composição da matriz energética europeia. Enquanto essa fonte respondia por 0,05% da energia elétrica produzida na União Europeia, essa participação pulou para 13,1% em 2025, segundo a organização de pesquisa em energia Ember.

Esse avanço foi sustentado por tecnologia chinesa. Em 2024, 61% de todos os inversores importados para a Europa vieram da China, segundo o grupo de pesquisa Loom, com sede em Genebra.

Huawei e Sungrow são os dois fabricantes de inversores que dominam não apenas o mercado europeu, mas o global.

Um pequeno grupo de fabricantes chineses já forneceu equipamentos para mais de 220 gigawatts da capacidade solar instalada na Europa.

"Para se ter uma ideia, controlar cerca de 10 gigawatts já seria suficiente para provocar grandes interrupções na rede elétrica europeia", disse Podewils.

<><> Dispositivos de comunicação suspeitos

Não há registro conhecido de inversores fabricados na China sendo usados para desligar partes da rede elétrica europeia.

Mas as preocupações se intensificaram após a Reuters informar, em 2025, que autoridades do setor de energia dos Estados Unidos descobriram dispositivos de comunicação não autorizados dentro de alguns inversores chineses.

"A ameaça é real", disse Westphal. "Não é uma hipótese inventada."

O debate sobre inversores ocorre no momento em que a Europa reavalia sua dependência mais ampla das importações de tecnologia limpa chinesa.

Segundo a Loom, a China responde por 98% dos painéis solares e 88% das baterias de íons de lítio importados pela Europa.

A organização alertou que funções de acesso remoto em tecnologias energéticas conectadas podem criar vulnerabilidades potenciais em todo o sistema elétrico.

<><> Dominância da tecnologia verde chinesa na Europa

Bruxelas tem adotado uma postura cada vez mais rigorosa em relação às importações chinesas vistas como riscos à segurança ou como ameaças à indústria europeia.

Em março, a Comissão Europeia apresentou a chamada Lei de Aceleração Industrial, com o objetivo de direcionar mais recursos para tecnologias verdes produzidas na Europa, incluindo baterias e veículos elétricos.

A Comissão também apresentou uma revisão da Lei de Cibersegurança, que dará a Bruxelas mais autoridade para restringir empresas chinesas em infraestruturas críticas, como comunicações ou fornecimento de energia nos Estados-membros.

Pelas novas medidas, recursos da UE administrados diretamente pela Comissão e por instituições como o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento não poderão mais ser usados para compra de inversores solares fabricados na China.

As restrições não se aplicam a compras feitas diretamente pelos Estados-membros, e os inversores chineses já instalados na Europa poderão continuar em operação.

"É um passo na direção certa", afirmou Westphal. "Mas não banimos esses inversores chineses dos nossos mercados."

<><> Fornecedores europeus conseguem suprir a lacuna?

Atualmente, 80% dos novos sistemas solares instalados na Europa dependem de inversores chineses, segundo o Conselho Europeu de Fabricação Solar.

Se a demanda se afastar dos fornecedores chineses, os fabricantes europeus terão de preencher uma lacuna significativa. Ainda assim, Podewils acredita que a indústria europeia está preparada.

"É possível expandir a capacidade de produção em poucos meses até o nível necessário para atender à demanda", afirmou.

Os inversores produzidos na Europa devem custar um pouco mais do que as alternativas chinesas — cerca de 2% a mais, segundo um funcionário da Comissão Europeia. Mas, para Podewils, esse custo adicional se justifica.

"É como um seguro", disse.

¨      Automobilísticas europeias miram modelo de produção chinês

Montadoras na Europa e em outros polos automotivos no mundo têm buscado, cada vez mais, seguir um modelo de produção chinês. O mais recente lançamento da francesa Renault, o novo Twingo, é um exemplo claro desse movimento.

O automóvel 100% elétrico foi concebido em diferentes continentes, um processo que veio em resposta à hipercompetitividade do setor imposta pela China. É lá que muitas montadoras tradicionais estão desenvolvendo novos modelos com foco em velocidade, custo e tecnologia.

O carro está em produção na Eslovênia e começa a chegar às concessionárias europeias em abril, com preço pouco abaixo de 20 mil euros (cerca de R$ 116 mil). Ainda não há previsão de venda no Brasil.

"A verdadeira concorrência não é China versus Ocidente, mas sistemas rápidos versus sistemas lentos", afirmou Bill Russo, ex-executivo da Chrysler e analista do setor automotivo.

"Se você quer entender para onde o futuro da indústria automobilística está indo, precisa entender como a China constrói esse tipo de produto", disse Russo à DW.

<><> Montadoras vão à China

Fabricantes ocidentais e japoneses como Tesla, Volkswagen e GM produzem há muito tempo na China tanto para o mercado doméstico quanto para exportação.

Mais recentemente, muitas ampliaram sua presença para além da manufatura, passando a projetar e desenvolver modelos inteiros no país, na tentativa de se beneficiar da concentração de fornecedores de veículos elétricos, da expertise local e de uma ampla base de consumidores.

Renault e Mercedes inauguraram centros de pesquisa ampliados em Xangai em 2024. A Volkswagen expandiu seu centro de pesquisa e desenvolvimento na província de Anhui em 2025, mesmo ano em que a Toyota transferiu todo o desenvolvimento de novos carros para consumidores da China para dentro do país.

"A China se tornou, como disse um fornecedor, a academia do mundo em termos da indústria automobilística", afirmou Alexandre Marian, consultor da AlixPartners.

Ainda assim, enquanto competem com rivais chineses no exterior, as montadoras tradicionais enfrentam pressão para reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de produtos em todos os mercados — inclusive em seus países de origem.

Os ciclos de desenvolvimento de novos veículos giram em torno de dois anos na China, menos da metade do tempo necessário para as montadoras tradicionais. Segundo Russo e outros especialistas, as empresas chinesas recorrem mais à automação, conduzem etapas em paralelo, são mais coordenadas com fornecedores e mantêm designs mais simples.

Para Russo, os prazos menores são um subproduto da virada da indústria para um foco prioritário em tecnologia.

<><> Atualizando modelos

A Renault deixou de vender sua marca no mercado chinês em 2020. Mas uma visita ao Salão do Automóvel de Xangai, em 2023, convenceu executivos da empresa de que era hora de desenvolver algo dentro da China.

"A questão era entender como acelerar nosso processo de desenvolvimento", disse Oliver Laik, chefe do segmento de carros compactos de entrada da empresa.

A unidade de desenvolvimento da Renault em Xangai, conhecida como Centro ACDC, permitiu à empresa se aproximar do ecossistema chinês e entender como ele funciona.

O Twingo original estreou em 1992, no Salão do Automóvel de Paris, onde rapidamente ganhou o apelido de "Le Frog" ("O Sapo") devido à dianteira compacta e aos faróis redondos.

Atualizá-lo como um veículo elétrico inicialmente parecia menos atraente para a Renault, segundo Laik. Carros menores têm margens de lucro mais baixas na Europa devido aos elevados custos fixos, e aumentar o preço poderia empurrar consumidores para veículos usados ou outros modelos.

Mas produzi-lo na China — algo que rapidamente recebeu apoio da cúpula da empresa — reduziria custos e preservaria um preço atrativo na Europa.

<><> Menos participação de fornecedores, mais reuniões

Um ciclo normal de desenvolvimento para um novo Twingo teria levado cerca de 42 meses, estima Laik.

Grande parte desse tempo é dedicada à validação do veículo, um período de testes que se estende por diferentes estações do ano e inclui exposições a diversas altitudes, além de condições severas de direção e corrosão.

Em vez de concentrar uma longa fase de desenvolvimento após a validação, engenheiros do Centro ACDC trabalharam de forma paralela, o que permitiu resolver problemas de maneira pontual.

A Renault também alterou sua relação com fornecedores para um modelo conhecido como "build to plan" (algo como "produção planejada").

Em vez de pedir contribuições dos fornecedores, a Renault passou a projetar as peças e enviar especificações exatas aos fabricantes, economizando tempo e custos. Em alguns casos, a própria empresa montou componentes de fornecedores, incluindo os bancos.

De volta à França, os designers de produto também trabalharam em um ritmo mais apertado, diz Laik. A equipe fez reuniões mais frequentes, e vice-presidentes da empresa passaram a receber atualizações semanais.

<><> Que lições ficam?

A Renault estima que o uso do seu Centro ACDC na China reduziu os custos em 40% em comparação com um processo de desenvolvimento tradicional.

A empresa planeja produzir mais dois modelos nos próximos meses, um para sua subsidiária Dacia e outro para a parceira Nissan. Também pretende reduzir ainda mais o tempo de desenvolvimento.

Modelos futuros passarão a incorporar peças chinesas, segundo Laik. Até mesmo os faróis dianteiros do Twingo vieram de um fornecedor chinês, uma vez que fornecedores franceses e europeus não conseguiram atender aos requisitos da Renault.

Permanece a dúvida sobre se as montadoras conseguem replicar em seus mercados domésticos o que chamam de "velocidade chinesa".

<><> Estruturas hierárquicas, IA e software

As montadoras tradicionais ainda podem avançar em outras áreas, acredita Alexandre Marian, incluindo um uso mais eficiente da inteligência artificial e o abandono de estruturas hierárquicas que prolongam os prazos.

Os engenheiros europeus são muito qualificados e tecnicamente avançados, afirma Marian.

"Eles desenvolveram muito conhecimento, muita experiência, e criaram carros realmente bons", disse Marian à DW. "O ponto é que eles precisam mudar, mas, ao mudar, também precisam se empoderar."

Para Bill Russo, a importância da adaptação vai além dos veículos elétricos e alcança a direção autônoma e o software.

"Aqui é uma panela de pressão", afirmou Russo. "Se você não for rápido, vai perder a oportunidade."

¨      Proliferação de chips chineses abala liderança dos EUA

Há quatro anos, os Estados Unidos apertaram o cerco às ambições tecnológicas da China, com restrições à exportação de chips avançados, comumente conhecidos como semicondutores, usados em inteligência artificial (IA), data centers e defesa nacional. O governo de Joe Biden buscou limitar a capacidade de Pequim de desenvolver tecnologias que pudessem impulsionar seu poder militar e financeiro, capazes de reduzir ainda mais a distância entre as duas maiores economias do mundo. As restrições levaram Pequim a acelerar sua busca pela autossuficiência em chips, um objetivo traçado anos antes no plano "Made in China 2025". Desde então, o governo chinês despejou centenas de bilhões de dólares na construção de uma indústria própria de semicondutores.

<><> Chips como questão de segurança nacional

Pequim concedeu enormes subsídios, isenções fiscais e outras reduções de custos para estimular alternativas locais à Nvidia — a empresa americana por trás do chip de IA de ponta Blackwell — e à taiwanesa TSMC, a maior fabricante terceirizada de chips avançados do mundo e desenvolvedora da tecnologia de produção N2 (de 2 nanômetros). A SMIC, pilar do plano chinês de autossuficiência nesse segmento, registrou no ano passado uma receita recorde de 9,3 bilhões de dólares (cerca de R$ 47 bilhões). Já a HuaHong, a segunda maior fundição de chips da China continental, vem operando com 106% de sua capacidade produtiva devido à demanda aquecida, segundo seu relatório de resultados do quarto trimestre de 2025.

Mas, enquanto a China se esforça para reduzir a distância em relação às big techs dos EUA, Ryu Yongwook, professor assistente da Lee Kuan Yew School of Public Policy, da Universidade Nacional de Singapura, acredita que o otimismo costuma ser um tanto exagerado. "Pequim quer alcançar a autossuficiência em chips, mas o nível atual está muito longe disso", disse Ryu, especialista na rivalidade tecnológica entre EUA e China, à DW. Segundo ele, o país fica atrás dos EUA em pesquisa, design e inovação, e também está atrás de Taiwan e da Coreia do Sul em termos de produção.

<><> Fabricantes chineses avançam na cadeia de valor

A China, no entanto, avançou bem nesse campo nos últimos anos. De acordo com o Rhodium Group, um think tank especializado em China, o país conquistou cerca de 30% do mercado global de chips de velha geração, peças-chave da economia moderna. Esses semicondutores, também chamados de chips "maduros" ou "legados", têm 28 nanômetros ou mais, enquanto os mais avançados têm 8 ou menos, além de serem mais rápidos. No entanto, eles são essenciais em veículos, equipamentos industriais e eletrônicos de consumo. Empresas chinesas agora conseguem produzi‑los em escala massiva e, portanto, mais baratos. "A expansão da produção chinesa vai derrubar os preços [dos chips] globalmente e pressionar fabricantes não chineses", avalia John Lee, diretor da consultoria de pesquisa East‑West Futures, sediada em Berlim. "Isso já está acontecendo em alguns setores, como o de wafers de carbeto de silício", diz ele, referindo‑se a um material crítico usado em chips de alta potência.

<><> Avanços em chips de ponta

A China também avançou em chips mais sofisticados, produzindo com sucesso processadores da classe de 7 nanômetros que agora equipam os smartphones mais recentes da Huawei. Esses chips são comparáveis aos lançados pela TSMC em 2018 para clientes dos EUA e de outros países ocidentais. No entanto, ainda ficam atrás dos chips de 3 e 5 nanômetros em velocidade, eficiência energética e custo de produção. Para Tim Rühlig, analista sênior de China Global no Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, as ambições chinesas no setor de chips esbarram em um "muro de tijolos" de limites tecnológicos e sanções dos EUA. "Há um limite claro do que é possível fazer sem acesso aos chips mais avançados dos Estados Unidos", disse Rühlig à DW, acrescentando que a China pode precisar de "uma década ou mais" para alcançar o nível dos líderes do setor.Refletindo uma mudança de prioridades em Pequim, o novo Plano Quinquenal do Partido Comunista reduz a ênfase em metas anteriores de domínio no setor de chips. O documento de 141 páginas menciona IA mais de 50 vezes e estabelece um modelo de "chip‑nuvem‑aplicação", que coloca os chips avançados como apenas uma parte de um ecossistema computacional mais amplo.

<><> Plano B da China impulsiona nova rivalidade

Em vez disso, a China está focando em IA prática e orientada a tarefas para a indústria, que exige menor poder computacional — algo que os chips nacionais conseguem suprir com facilidade. Os chips e sistemas de IA chineses podem não estar na fronteira absoluta da tecnologia, mas entregam desempenho a custos muito mais baixos. Isso vem impulsionando uma rápida adoção no Sul Global, onde governos e empresas cada vez mais preferem soluções chinesas às ocidentais. A empresa de inteligência de mercado Trendforce, sediada em Taipé, observou recentemente que plataformas chinesas de IA, incluindo a DeepSeek e a Qwen da Alibaba, haviam conquistado cerca de 15% do mercado global de modelos de IA até o fim de 2025.  Isso representa, a longo prazo, uma ameaça ao domínio global da Microsoft, do Google e de outras gigantes de tecnologia dos EUA, que devem investir um recorde de 700 bilhões de dólares neste ano em infraestrutura de IA, segundo o banco de investimento Goldman Sachs.

<><> Liderança dos EUA enfrenta desafios reais

Há outros obstáculos para o sonho do Vale do Silício de sistemas de IA mais inteligentes que o cérebro humano. Em janeiro, a provedora global de inteligência de mercado ICIS alertou que os data centers dos EUA, que dependem de chips de ponta para alimentar a IA, podem em breve ser limitados pela sobrecarga da rede elétrica do país. Em comparação, o setor elétrico da China, em rápida expansão, lhe dá mais uma vantagem. Com a ICIS projetando cerca de 400 gigawatts de capacidade ociosa até 2030, a China pode implantar data centers em larga escala, mesmo que seus chips sejam menos eficientes do que os modelos americanos. "Energia barata é um fator muito importante, não necessariamente para chips, mas para IA e outras tecnologias avançadas", afirmou Ryu Yongwook. "A energia barata na China ajuda a compensar, em parte, sua relativa ineficiência em chips."

A ICIS enxerga três possíveis desfechos na corrida dos chips:

  1. Os EUA mantêm a liderança ao consertar sua rede elétrica.
  2. Os EUA seguem liderando a pesquisa em IA com chips avançados, enquanto os sistemas chineses de IA se espalham pelo Sul Global.
  3. Ou, se as tensões comerciais e geopolíticas se intensificarem, podem prevalecer dois ecossistemas distintos de IA.

Embora a linha de chegada ainda esteja distante, a indústria de chips "enfrenta um futuro em que concorrentes chineses oferecem preços mais baixos e rapidamente reduzem a distância em sofisticação e confiabilidade de produtos", concluiu Lee.

 

Fonte: DW Brasil

 

Nenhum comentário: