Edgar
Silva dos Anjos: O limite do freio institucional
A
semana de 29 e 30 de abril concentrou duas derrotas significativas do governo
Lula no Congresso, e a figura central das duas operações foi a mesma: o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Na quarta, por 42 votos a 34, o Senado
barrou a indicação de Jorge Messias ao STF, no que a agência Reuters e o jornal
O Globo registraram como a primeira rejeição de um nome ao Supremo em 132 anos,
desde a leva de cinco rejeições de 1894 sob Floriano Peixoto.
Essas
reportagens apontam a resistência de Davi Alcolumbre, que preferia o nome de
Rodrigo Pacheco, como elemento decisivo da articulação que levou ao desfecho.
Na quinta, o Congresso derrubou, por 318 a 144 na Câmara e 49 a 24 no Senado, o
veto integral de Lula ao PL da Dosimetria, que reduz penas dos condenados pelo
8 de janeiro, incluindo a do ex-presidente Jair Bolsonaro. As duas derrotas, em
sequência, condensam algo mais amplo do que rotina parlamentar adversa.
Lida em
sua superfície, a sequência parece uma afirmação de força do Senado sobre o
Planalto. Lida em profundidade, ela revela algo mais específico: um movimento
de freio institucional usado para ampliar poder de barganha sobre cargos,
indicações e ritmo legislativo. Não se trata apenas de “ego ferido”, nem de
liturgia rompida por acaso.
O
recado foi claro: a autoridade presidencial pode ser contestada de forma
exemplar, e o Senado, sob comando de Davi Alcolumbre, está disposto a converter
sua posição institucional em ativo político próprio. Isso não equivale
automaticamente a um projeto de país. Mas equivale, sim, à tentativa de
encarecer qualquer governabilidade futura.
O ponto
decisivo é que vitórias desse tipo podem ser grandes no rito e pequenas na
história. Elas têm a força do gesto e a fragilidade do enclave. O Senado
consegue impor humilhação, mas não consegue viver apenas dela. Pode bloquear
uma nomeação ao Supremo e colher, no curto prazo, o prazer burocrático do veto.
O que não pode fazer indefinidamente é confundir essa capacidade de travamento
com direção nacional. Um sistema político não se organiza só por negação. Em
algum momento, precisa responder ao país real.
A
operação da dosimetria adicionou ao quadro um elemento que vale registrar com
cuidado, porque revela método e não impulso. Antes de abrir a votação para
derrubar o veto, Davi Alcolumbre fatiou o texto: excluiu da análise os trechos
que contrariavam a Lei Antifacção, e portanto que beneficiariam integrantes de
facções criminosas e condenados por crimes hediondos. O que sobrou, e foi
efetivamente derrubado, beneficia especificamente os condenados pelo 8 de
janeiro, com efeito potencial sobre a pena de Jair Bolsonaro. A manobra é
tecnicamente sofisticada e politicamente reveladora.
Preservar
a Lei Antifacção não foi gesto de moderação. Foi cálculo de custo público.
Beneficiar facções criminosas, em pleno debate nacional sobre segurança, teria
detonado o capital simbólico da operação. Beneficiar exclusivamente os
condenados pelo 8 de janeiro mantém o ganho político junto à base bolsonarista
sem entregar à oposição governista uma munição que circularia mal nas redes e
nos telejornais.
Quem
fatia com essa precisão sabe distinguir derrota administrável de derrota
inadministrável, e opera para que o adversário receba apenas a primeira. Não é
gesto de afronta improvisada. É operação cirúrgica que sabe exatamente o que
quer alcançar e o que precisa preservar para evitar custo público excessivo.
Quem trava com esse grau de cálculo não está em explosão de momento. Está em
projeto.
É aí
que a chamada “vitória” de Davi Alcolumbre corre o risco de se tornar uma
vitória de Pirro. Porque, se o Senado mostrou força ao atingir o governo no
topo da arquitetura institucional, o governo ainda pode deslocar a disputa para
o terreno em que o custo do bloqueio sobe: o da vida concreta. E, nesse plano,
a agenda social tem peso que o encastelamento senatorial não controla com a
mesma desenvoltura.
A 6×1 é
o caso mais evidente. O governo colocou entre suas prioridades legislativas de
2026 o fim da escala 6×1 sem redução salarial, ao lado da segurança pública e
da regulação do trabalho por aplicativos. No Senado, já existe proposta pronta
para plenário sobre redução da jornada, e o governo também enviou o PL
1.838/2026, reduzindo a jornada semanal de 44 para 40 horas.
A
própria cobertura do Senado mostra que a oposição não rejeita frontalmente a
pauta: prefere deslocá-la para a discussão sobre compensações ao empresariado,
como a desoneração da folha. Esse deslocamento já é o sintoma. Quando o
adversário não pode dizer não em alto e bom som, é porque o tema saiu do campo
onde o veto sai barato.
Esse
detalhe é central. A partir do momento em que a disputa passa por mais
descanso, menos jornada e reorganização do tempo de trabalho, ela deixa de ser
um jogo de corredores e se aproxima do cotidiano de milhões. Alcolumbre pode
atrasar, modular, negociar, tentar cobrar preço. Mas sua margem para tirar o
tabuleiro da mesa é menor quando o tema já não é o prestígio do Senado, e sim o
tempo de vida do trabalhador. Há uma diferença decisiva entre travar um nome ao
STF e travar uma pauta cuja tradução pública é: por que ainda se trabalha tanto
se hoje se produz tanto?
Vale
notar que cada uma dessas pautas opera num eixo distinto da experiência social,
e por isso compõem, no conjunto, um terreno de disputa difícil de neutralizar
com o método que serviu para Messias. A jornada toca o tempo: a quantidade
concreta de vida que cada pessoa pode reservar para si fora do trabalho. A
segurança pública toca o medo: a capacidade do Estado de organizar uma rotina
em que a violência não seja o pano de fundo permanente da existência.
A
regulação dos aplicativos toca a renda: as condições materiais em que milhões
trabalham hoje sem vínculo, sem proteção, sem aposentadoria. Tempo, medo,
renda. São três eixos que organizam a vida cotidiana, e a política que se
constrói em torno deles tem chance de produzir aquilo que a denúncia
institucional, sozinha, não produz: presença sentida na rotina das pessoas, e
por isso reconhecimento social continuado.
O mesmo
vale, em outra chave, para a segurança pública, que talvez seja a agenda de
maior impacto estratégico para o governo se projetar eleitoralmente. A PEC da
Segurança Pública foi tratada pelo governo e por sua liderança na Câmara como
prioridade central; acabou aprovada em dois turnos por margem ampla e seguiu
para análise do Senado. O PL Antifacção também foi aprovado na Câmara e faz
parte do mesmo esforço de dar ao governo uma agenda de autoridade, coordenação
nacional e resposta a uma demanda que organiza o debate público muito além da
base lulista tradicional.
Aqui o
cálculo político muda. Se a 6×1 mobiliza por tocar diretamente a rotina do
trabalho, a segurança pública projeta por tocar diretamente a ideia de comando.
Em ambas, o Senado pode tentar negociar em cima, mas paga preço se quiser
apenas sabotar. E é justamente por isso que a sequência Messias-dosimetria
talvez diga menos sobre uma força estratégica duradoura e mais sobre a
tentativa de ampliar, no curto prazo, a capacidade de imposição de condições ao
governo.
Essa
tentativa ganha inteligibilidade quando observada ao lado do comportamento do
establishment em sentido mais amplo. No terreno financeiro, o quadro segue
confortável para o andar de cima: o Copom acabou de cortar a Selic para 14,50%,
em decisão unânime nesta quarta-feira, mas o crédito continua caro. Em março, o
estoque total de crédito chegou a R$ 7,215 trilhões, os juros médios do crédito
livre ficaram em 48,3% ao ano, o spread em 34,6 pontos percentuais e a
inadimplência desse segmento recuou para 5,7%. Em outras palavras: o sistema
financeiro continua emprestando, cobrando caro e operando sem colapso. Essa
folga não é neutra. Define quem precisa correr e quem pode esperar.
Bancos,
com a margem garantida, podem se dar ao luxo da paciência. O governo,
pressionado por uma agenda de retomada eleitoral, é que entra em 2026 contando
o tempo. E sinaliza, ele próprio, que não vai responder a derrotas
institucionais por meio de voluntarismo fiscal. O Planejamento tem falado em
medidas mais duras para 2027, com limites a incentivos e contenção de despesas,
preservando uma retórica de disciplina fiscal mesmo em ano eleitoral.
Isso
ajuda a entender o ambiente: o dinheiro continua entrando no sistema financeiro
enquanto se aperta o torniquete na esfera político-institucional. Não é preciso
imaginar uma conspiração simplória para perceber a convergência funcional.
Bancos, mercado, centrão e presidência do Senado não precisam operar por
comando unificado para produzir um mesmo efeito: reduzir a margem de manobra do
governo e elevar o preço de qualquer movimento de retomada de iniciativa.
Mas
esse quadro ainda não autoriza concluir que esse mesmo establishment já tenha
fechado questão em Flávio Bolsonaro. O que existe, até aqui, é algo mais
ambíguo. De um lado, os mercados acompanharam de perto a entrada de Flávio no
jogo eleitoral, e a pesquisa Genial/Quaest de 15 de abril o coloca
numericamente à frente de Lula no segundo turno, dentro da margem de erro de
dois pontos percentuais. Lula segue à frente no primeiro turno, com vantagem de
cinco pontos. De outro, esse acompanhamento não equivale a adesão entusiasmada
ou consenso sucessório. O mais preciso, por ora, é dizer que as portas
permanecem abertas para um nome competitivo, sem que isso se traduza, ainda, em
embarque integral.
O que
torna a hipótese Flávio Bolsonaro operacional, do ponto de vista do
establishment, não é ruptura com o bolsonarismo, mas reorganização funcional
dele. O conteúdo permanece: a guerra cultural como eixo, o alinhamento com a
direita norte-americana, a leitura conspiratória das instituições, a construção
permanente de antagonismos simplificados.
O que
muda é a forma. Em vez do confronto aberto e do choque permanente, uma figura
que opera com maior previsibilidade, mais disciplina discursiva, capacidade de
circular em ambientes que rejeitavam o pai. Não é menos radical. É
potencialmente mais eficaz. E é precisamente essa adaptação, e não a
continuidade caricatural, que faz com que setores do andar de cima possam, em
algum momento, considerar a ponte sem se sentir constrangidos.
Talvez
seja justamente esse o ponto. O establishment amplo ainda não resolveu seu
veículo, mas já parece decidido a encarecer Lula. Quer menos um governo
soberano do que um governo cercado, menos iniciativa livre do que negociação
permanente, menos autoridade presidencial do que administração condicionada. A
sequência Jorge Messias-dosimetria se encaixa nessa lógica como gesto de
demonstração.
O
problema para Davi Alcolumbre é que demonstrações não bastam para sustentar
centralidade política por muito tempo. Outro nome será indicado ao STF. Se vier
nova recusa, somada ao padrão já estabelecido pela articulação da dosimetria, o
gesto perderá excepcionalidade e ganhará nitidez excessiva: já não parecerá
disputa institucional localizada, mas método de contenção. E métodos, quando
repetidos demais, acabam revelando mais do que talvez gostariam seus
operadores. O risco do Senado não é parecer forte. É parecer pequeno demais
para a escala do país que pretende enquadrar.
Porque
a disputa real talvez esteja apenas começando. Não entre um governo plenamente
dominante e um Senado rebelde, mas entre duas formas de política: de um lado, a
política do veto, do corredor, do labirinto cinza em que o rito vira poder; de
outro, a tentativa de recolocar no centro temas que escapam à autossatisfação
burocrática porque tocam a experiência concreta da sociedade: jornada,
trabalho, descanso, segurança, proteção. O freio institucional pode produzir
choque. O que ele não garante, sozinho, é hegemonia.
Hegemonia,
no sentido pleno do termo, não se constrói por afirmação institucional
sucessiva, e tampouco por denúncia repetida do adversário. Ela se constrói
quando uma direção política se torna reconhecida como legítima por uma maioria
social organizada, e essa legitimidade, por sua vez, depende de algo que nenhum
gesto no plenário do Senado pode produzir: que a política seja sentida na vida
cotidiana das pessoas, em horários menos longos, em segurança mais previsível,
em renda mais protegida, em tempo de descanso efetivo.
Enquanto a disputa permanecer no plano em que
Davi Alcolumbre fatia votações com precisão técnica e Lula recebe derrotas
exemplares no rito, o Senado segue jogando em casa. Quando a disputa migra para
o plano em que dezenas de milhões de pessoas avaliam, na própria semana, se
conseguem ou não dormir uma noite a mais, voltar mais cedo do trabalho, sair na
rua sem medo, o terreno muda.
É nesse
terreno que se decide, depois de outubro de 2026 e nos anos seguintes, se houve
apenas vitória eleitoral ou se houve consolidação de uma direção política capaz
de sustentar, no tempo, as escolhas que faz.
Fonte:
A Terra é Redonda

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