Fábio
Py: Uma (nova) história do deus
O
artigo busca delinear a pré-campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro como a de um
cristão que teria “retornado ao evangelho” para assumir a missão, atribuída
pelo pai, de se tornar candidato à Presidência da República.
Para
isso, são analisadas quatro cenas digitais produzidas para suas redes sociais,
em datas-chave do calendário cristão, entre o fim de 2025 e o início de 2026.
Nessas ocasiões, o político recorre ao repertório religioso para construir o
que chama de uma “história de Deus” no campo da política.
Cabe
lembrar que Flávio é o filho mais velho do ex-presidente Jair Messias
Bolsonaro, conhecido como “01” dentro de uma espécie de linhagem
político-familiar marcada por traços autoritários. Ao mesmo tempo, nesses
primeiros meses de pré-campanha, ele vem operando uma estratégia midiática de
relativo distanciamento da figura do pai — movimento compreensível, dado o
desgaste associado à sua imagem e às acusações envolvendo tentativas de ruptura
institucional.
Flávio
Bolsonaro nasceu no Rio de Janeiro e iniciou sua trajetória política ao ser
eleito deputado estadual, cargo que ocupou por mandatos consecutivos entre 2003
e 2019. Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ),
consolidou-se com uma atuação alinhada a pautas típicas da extrema-direita,
especialmente nas áreas de segurança pública e defesa de “valores morais”.
Em
2018, no contexto da eleição presidencial de seu pai, foi eleito senador pelo
estado do Rio de Janeiro, passando a atuar no Congresso Nacional a partir de
2019. Sua trajetória política também foi marcada por controvérsias, como as
acusações de “rachadinhas”, envolvendo o desvio de parte dos salários de
assessores de seu gabinete durante o período em que exerceu o mandato de
deputado estadual.
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Um cristofascismo mais crente
Agora,
há pouco de mais teológico e político do que ser anunciado pré-candidato à
Presidência da República em pleno Natal. Por isso, reafirma-se que é uma
herança do bolsonarismo a orquestração do uso do calendário litúrgico cristão
em articulação com as mídias, de forma politicamente orientada.
Tal
estratégia já foi demonstrada em análises anteriores sobre a Páscoa de 2020 e
de 2021, quando o então presidente Bolsonaro publicou mensagens nas quais
assumia um lugar de messias eleito por Deus para conduzir a nação brasileira.
Esse é
o ponto de partida para sustentar que esse setor autoritário articula um
“cristofascismo brasileiro”. Em outras palavras, trata-se do uso de elementos
litúrgicos, exegéticos e hermenêuticos de vertentes ultraconservadoras e
fundamentalistas do cristianismo para a construção de uma plataforma de ações
autoritárias, nos termos de Adorno, combinadas com o aprofundamento do
neoliberalismo, a perseguição a setores considerados heterodoxos, como
comunistas e populações LGBTQIAP+, e a produção de políticas que expõem os mais
pobres à morte (Adorno, 2020).
Assim,
o “cristofascismo brasileiro” não deve ser entendido como uma etapa passageira,
mas como parte de um modo de fazer política de determinados setores sociais no
país. Essa formulação dialoga com a teóloga alemã Dorothee Sölle, que cunhou o
termo “cristofascismo” ao analisar o contexto do nazismo.
Sölle
investigou as relações entre membros do Partido Nazista e igrejas cristãs no
desenvolvimento do estado de exceção na Alemanha, evidenciando como o regime se
apropriou de linguagens e símbolos cristãos para sua legitimação (Sölle, 1970).
No caso alemão, Adolf Hitler mobilizou jargões cristãos como elementos centrais
de seus discursos, recorrendo, por exemplo, a passagens bíblicas como
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32) e “Deus criou o
homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”,
instrumentalizadas para defender uma ideia de família cristã tradicional. Além
disso, participou de encontros religiosos luteranos e católicos e manteve
relações com lideranças e intelectuais cristãos.
O
conceito de cristofascismo brasileiro também pode ser articulado com a reflexão
de Walter Benjamin, que compreende o fascismo não como simples regressão
civilizatória, mas como algo inscrito nas próprias condições de reprodução da
modernidade liberal e burguês-capitalista, na qual opera continuamente uma
“estetização da política” (Benjamin, 2012). Essa operação estética — que
implica uma simplificação da complexidade política — favorece concepções
conservadoras sobre moral, família e progresso, frequentemente mediadas por
formas de fundamentalismo, convertendo o todo nacional em um estado de exceção
efetivo.
Além de
Benjamin, incorpora-se aqui de modo mais direto a contribuição de Theodor
Adorno. Isso porque o projeto político em questão, já em seus momentos
iniciais, pode ser analisado à luz de sua reflexão sobre a propaganda fascista,
que “não é tanto a expressão de um conteúdo ideológico consistente quanto a
utilização de elementos simplificadores do discurso, sem maiores
justificativas” (Adorno, 2015, p. 141). Para Adorno, o agitador fascista deve
ser compreendido menos como um pensador sistemático e mais como um “técnico da
psicologia de massas” (Adorno, 2015, p. 154).
Trata-se,
portanto, de um tipo de atuação política que recorre sistematicamente a uma
lógica de simplificação extrema, baseada em silenciamentos e na construção de
uma unidade artificial (Adorno, 2020). Essa operação é particularmente perigosa
porque projeta a ideia de sujeitos universais, ao mesmo tempo que exclui e
silencia aqueles que não se enquadram nessa norma.
A
partir desse quadro teórico, passa-se à análise de quatro postagens realizadas
nas redes sociais de Flávio Bolsonaro em datas centrais do cristianismo
hegemônico, com o objetivo de explicitar as estratégias contemporâneas dessa
nova configuração de cristofascismo, ainda mais marcada por uma performance
pública de uma espiritualidade.
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Cena 1: o Natal da vocação na carta do cristofascismo
Ora,
nada é mais característico do cristianismo hegemônico do que a ideia de um
“chamado”, de uma “missão” atribuída a um “filho de Deus”. Poucos elementos
sensibilizam tanto o universo do cristianismo comum quanto essas noções.
Nesse
sentido, o marco inicial da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro se dá por meio
da leitura de uma carta pública escrita por Jair Bolsonaro, pai, na qual
destaca a escolha do filho, o “01”. De certa forma, esse posicionamento
tornou-se necessário diante da força que ganhavam outros nomes, como Tarcísio
de Freitas e Michelle Bolsonaro, cogitados para compor uma possível chapa.
Para
reafirmar sua escolha em meio à controvérsia, a comunicação foi realizada em 25
de dezembro de 2025, por meio de uma carta manuscrita por Bolsonaro. O texto
foi lido pelo próprio Flávio, acompanhado do “02”, o vereador Carlos Bolsonaro,
em frente ao Hospital DF Star.
Antes
da leitura, o “01” afirmou que o pai se preparava para uma cirurgia,
mencionando duas vezes o nome de Deus e destacando a importância das “orações”.
Nesse momento, chama atenção o fato de ele indicar que a carta já havia sido
escrita anteriormente, mas foi deliberadamente tornada pública naquela data, o
que reforça o peso simbólico do momento na decisão de “indicar Flávio Bolsonaro
como pré-candidato à Presidência da República em 2026”, conforme registrado na
leitura.
Esse
elemento sustenta o argumento de uma espécie de “atenção messiânica política”
presente na carta, na qual Bolsonaro afirma: “Entrego o que há de mais
importante na vida de um pai: o próprio filho, para a missão de resgatar o
nosso Brasil. Trata-se de uma decisão consciente, legítima e amparada no desejo
de preservar a representação daqueles que confiaram em mim”.
Assim,
em pleno 25 de dezembro de 2025 — data em que a tradição cristã celebra o
nascimento de Jesus —, ativa-se uma operação teológica densa no interior do
cristianismo. Trata-se da ideia de que Jesus, entendido como Deus, segunda
pessoa da Trindade, “se esvazia” para tornar-se humano. Uma das formulações
clássicas dessa doutrina é a kenosis, do grego, frequentemente associada a
Filipenses 2,7, que indica uma forma de “autoesvaziamento” ou “auto-humilhação”
do divino ao assumir a condição humana.
Essa
construção teológica está ligada à noção de missão: Deus envia o filho para o
sacrifício, com o objetivo de redimir a humanidade. Esses elementos são
centrais nos manuais tradicionais de teologia cristã. Nesse sentido, no dia
simbólico desse “esvaziamento” — o nascimento do “Filho de Deus” —, Jair
Bolsonaro, por meio da carta, atribui ao seu primogênito uma missão política de
“resgatar o Brasil”.
Ele
próprio afirma: “entrego (…) o próprio filho”, para que este lidere “essa
corrente de milhões de brasileiros que honram a Deus, a pátria, a família e a
liberdade”. Dessa forma, de maneira cuidadosamente construída, a carta opera
uma transferência de legitimidade que mobiliza categorias centrais da teologia
cristã. A incumbência atribuída é elevada: assim como na narrativa cristã, o
filho assume uma missão de redenção.
A
carta, portanto, carrega um forte apelo de transmissão messiânica de pai para
filho, orientada à “preservação da representação daqueles que confiaram” no
líder anterior. Desse modo, observa-se um processo de vocação política que
articula elementos do cristianismo fundamentalista com a construção de um
projeto de poder. Trata-se de uma operação que contribui para a reconfiguração
do cristofascismo brasileiro, ao combinar linguagem religiosa, herança política
e a ampliação de práticas de exceção no campo estatal.
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Cena 2: a estética da reconciliação do primogênito em meio às divergências
Na
segunda mensagem do dia de Natal, após a leitura da carta, o “01” aparece na
Igreja Batista da Lagoinha, em Orlando, liderada pelo pastor bolsonarista André
Valadão. A ida chama atenção por se diferenciar do padrão habitual das
aparições públicas da família Bolsonaro em ambientes religiosos. Isso porque
Jair Bolsonaro, em suas visitas a igrejas, costumava ocupar posição de
destaque, frequentemente indo à frente para falar.
Nesse
caso, a postura do “01” é distinta: ele não se dirige ao púlpito. Ao contrário,
vai à frente para receber oração, em um gesto de “reconciliação com Deus”. No
vídeo), constrói-se uma cena cuidadosamente estetizada, na qual ele aparece
como um “bom cristão”, acompanhado da família no Natal.
Retoma-se
aqui a reflexão de Walter Benjamin sobre a estetização da política. Nesse caso,
trata-se de uma estética de cunho fundamentalista que atua para suavizar
críticas internas ao campo bolsonarista, especialmente diante das disputas em
torno da escolha do candidato. Entre os críticos, destaca-se Silas Malafaia,
líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, que afirmou que Flávio não
possuía “musculatura política” indicou como mais competitivos nomes como
Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro.
Nesse
“momento estetizador” (Benjamin, 1987), o “01” aparece diante de Valadão, que
convida fiéis a uma “reconciliação com Deus”. Acompanhado da esposa, Fernanda
Bolsonaro, e do deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), o senador participa da
oração pastoral.
Posteriormente,
ao comentar o episódio, descreveu sua ida à igreja como um “momento especial de
oração”, no qual sentiu “de forma muito clara a presença de Deus”, afirmando
ainda que entregou “a Ele a vida do meu pai”, confiando na condução divina do
procedimento cirúrgico. Nesse discurso, observa-se a retomada do vínculo com o
pai, mediada pela linguagem religiosa.
Para
reforçar essa construção, o “01” recorre a formulações de forte apelo
teológico: “Creio no Deus que cura, que restaura e que sustenta. Ele é o médico
dos médicos e vai restabelecer a saúde de Jair Bolsonaro”. A ideia de
reconciliação com Deus mobiliza elementos centrais do fundamentalismo pietista,
especialmente ao enfatizar atributos divinos como cura e restauração.
A
expressão “médico dos médicos” dialoga diretamente com o Evangelho de Lucas
5,31 — “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes” —,
seguido da afirmação de que Jesus veio chamar não os justos, mas os pecadores.
Essa referência reforça o sentido performático da ida “à frente do culto”: um
gesto público de reconhecimento, arrependimento e recomeço. Trata-se de um rito
de passagem que prepara o sujeito para um novo ciclo — neste caso, a entrada
mais explícita na disputa eleitoral.
Essa
cena estética (Benjamin, 1987), ancorada em elementos do cristianismo
fundamentalista, cumpre uma função estratégica no universo religioso: aquele
que recebe uma missão divina deve, antes, se reconectar plenamente com o
divino. Ainda mais quando se trata de uma missão política atribuída no interior
de uma linhagem familiar. Assim, ganha sentido o registro público, em pleno
Natal, do “01” sendo filmado ao se “reconciliar com Deus”, como parte da
construção de sua legitimidade para a candidatura.
Ao
mesmo tempo, a cena atua como resposta às críticas internas, operando como um
gesto de recomposição simbólica. Desse modo, esse conjunto de duas cenas
digitais, a carta e a reconciliação, apresenta o “01” simultaneamente como
herdeiro de uma missão messiânica e como sujeito em processo de purificação
para exercê-la. A seguir, passam-se às duas cenas da Páscoa de 2026.
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Cena 3: a Páscoa do 01 e a simplificação cristão-política pelo valor da família
Após as
duas cenas do Natal de 2025, passa-se às duas cenas da Páscoa de 2026, agora
com um tom mais claramente devocional, em sintonia com o cristianismo
hegemônico. Afinal, depois de receber a missão atribuída pelo “capitão” e de
passar por um processo simbólico de redenção no Natal, o “01” busca se
apresentar como “verdadeiramente cristão”.
No
vídeo, afirma que essa é uma “época do ano que traz muita esperança para todos
nós: a Páscoa”, destacando-a como “um dos momentos mais profundos da fé: a
paixão, morte e ressurreição de Jesus”. Ao mobilizar essa sequência, paixão,
morte e ressurreição, demonstra conhecimento da temporalidade central do
calendário litúrgico cristão e da narrativa fundamental da fé.
Nesse
contexto, o “01” aciona elementos clássicos do léxico cristão: “amor ao
próximo”, “perdão”, “compaixão” e “renovação”. São termos diretamente
associados à tradição pascal, o que evidencia uma construção discursiva que
busca demonstrar familiaridade com o universo cristão, especialmente com
sensibilidades católicas e evangélicas.
Ao
mesmo tempo, é importante destacar o tom genérico e conciliador adotado. Ao
evocar valores como “amor”, “solidariedade” e “esperança”, o discurso se
aproxima do que Theodor Adorno identifica, em Aspectos do Novo Radicalismo de
Direita (2020), como uma forma de moderação discursiva estratégica. Trata-se de
uma linguagem que mobiliza valores amplamente aceitos, dificultando sua
contestação e reduzindo a resistência crítica.
Como
observa Adorno, “os movimentos radicais de direita frequentemente adotam um tom
aparentemente razoável e moderado, a fim de tornar suas posições aceitáveis a
um público mais amplo” (Adorno, 2020, p. 79). Esse tom também funciona como
preparação do terreno simbólico para discursos posteriores, potencialmente mais
polarizadores.
No caso
em análise, ao discursar sobre a Páscoa, o “01” apresenta valores cristãos como
se constituíssem uma base ética comum a toda a sociedade. Com isso, desloca o
cristianismo do campo confessional para um horizonte civilizacional mais amplo.
Trata-se de um movimento discursivo relevante, pois estabelece uma conexão
entre religião e o nacional — um dos mecanismos centrais do que se denomina
cristofascismo.
Essa
operação torna-se evidente quando afirma que a mensagem pascal pode inspirar
“todos nós, independentemente de nossa crença”. Ao fazê-lo, suaviza diferenças
culturais e religiosas, ao mesmo tempo que universaliza uma gramática cristã
específica. Esse movimento pode ser interpretado à luz do conceito adorniano de
ideologia, entendido como aquilo que se apresenta como universal enquanto
encobre sua particularidade.
Nesse
sentido, o vídeo configura uma performance de pertencimento religioso. O “01”
demonstra domínio do vocabulário cristão e o mobiliza em uma data central do
calendário litúrgico para se posicionar como alguém “de dentro” do universo da
piedade cristã. Esse elemento é estratégico para sua candidatura, que busca
instrumentalizar o cristianismo hegemônico como base simbólica de um projeto de
poder, possivelmente ainda mais densificado do que aquele mobilizado por seu
pai.
Assim,
o vídeo de Páscoa, ao enfatizar “amor”, “perdão” e “solidariedade” em um nível
superficial — depois do “chamado” e da “reconciliação” com o divino —,
contribui para uma simplificação religiosa da política. Essa simplificação
pode, posteriormente, abrir espaço para a construção de antagonismos, inimigos
e exclusões, elementos constitutivos do dispositivo cristofascista, que se
tornam mais visíveis na cena seguinte.
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Cena 4: a Páscoa do 01 e o dispositivo cristofascista a partir do texto de
Colossenses
Como já
indicado, além da reflexão religiosa no dia 5 de abril de 2026, Flávio
Bolsonaro também envia um recado no contexto das tensões internas da
extrema-direita brasileira em torno das eleições. Em meio às disputas no campo
autoritário, grava um vídeo no qual afirma: “Tô gravando esse vídeo pra tentar
chamar todos pra racionalidade. É muito angustiante ver lideranças do nosso
lado se digladiando”.
Na
sequência, mobiliza um elemento clássico da retórica dos fascismos ao declarar:
“enquanto a gente tem um país pra resgatar e o inimigo não tá aqui, tá do lado
de lá. Esse é o tipo de confusão que não tem vencedor, todo mundo sai
perdendo!”. A construção discursiva do “inimigo”, localizado sempre “do outro
lado”, constitui uma peça central do que Theodor Adorno analisa como traço das
personalidades autoritárias.
Nesse
tipo de formulação, o “lado de lá”, frequentemente associado à esquerda ou a
adversários políticos, deixa de ser reconhecido como parte legítima do jogo
democrático e passa a ser enquadrado como inimigo a ser combatido. Como observa
Adorno, há um deslocamento das tensões e contradições internas do grupo para
uma figura externa, permitindo a recomposição da unidade interna (Adorno, 2015,
p. 121). Nesse sentido, “indivíduos autoritários tendem a pensar em termos
rígidos de ‘nós’ e ‘eles’” (Adorno, 2015, p. 123).
Na
mesma direção, Umberto Eco observa que a construção de um inimigo é fundamental
para dar coesão e propósito a determinados projetos políticos, funcionando como
elemento organizador da identidade coletiva (Eco, 1995). É nesse registro que a
fala do “01” deve ser compreendida: ao afirmar que “todo mundo sai perdendo”,
ele não apenas critica conflitos internos, mas convoca seu campo político à
recomposição estratégica diante de um adversário comum.
Esse
tipo de construção está diretamente associado a uma lógica binária, típica de
formações autoritárias, que operam a partir de oposições rígidas. Nessa chave,
emerge o apelo à “unidade” como valor absoluto — uma unidade que tende a
suprimir divergências internas. O “01” explicita esse movimento ao afirmar:
“Pessoal, a partir de agora, todos nós temos que focar em um só objetivo: bora
olhar pra frente”.
A
partir desse ponto, o discurso avança para uma fundamentação explicitamente
religiosa, mobilizando diretamente o universo do cristianismo fundamentalista.
Para sustentar a necessidade de superação dos conflitos internos, recorre ao
texto bíblico de Colossenses 3,13: “Não fiquem irritados uns com os outros e
perdoem uns aos outros; caso alguém tenha alguma queixa contra outra pessoa,
assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem uns aos outros”.
Ao
acionar essa passagem, atribui um fundamento teológico à necessidade de unidade
política. Trata-se de uma reatualização da carta paulina, originalmente escrita
em um contexto de divergências na comunidade de Colossos, na qual se orienta o
comportamento dos fiéis diante de conflitos internos. Como observa James D. G.
Dunn, trata-se de uma exortação à construção de uma “nova vida em Cristo”, que
inclui práticas de reconciliação e perdão (Dunn, 1996, p. 325).
No
entanto, no contexto analisado, esse recurso opera como uma transposição direta
do teor teológico para o político, mobilizando um passado idealizado para
reforçar a necessidade de coesão interna. A repetição do imperativo “perdoem
uns aos outros” assume, assim, uma função estratégica: não apenas religiosa,
mas também política.
Em meio
a esse discurso, o “01” reforça seu apelo ao afirmar: “Pessoal, só vem comigo,
vem me ajudar a devolver a fé”. Essa formulação é central. Seu projeto não se
apresenta apenas como um projeto de governo, mas como uma missão de restauração
simbólica: “devolver a fé, a esperança e a alegria para nossa nação”. Lida em
articulação com o uso do texto bíblico, a expressão “devolver a fé” adquire
contornos próximos ao pietismo cristão fundamentalista, vinculando a ideia de
renovação espiritual à reorganização da vida nacional.
Ao
final, o discurso se fecha com uma hierarquização clara de prioridades: “todo o
resto agora é menor”. Essa afirmação funciona como uma ratificação do projeto
político apresentado, ao mesmo tempo que reforça o apelo à unidade como valor
superior. Trata-se de uma operação potencialmente problemática do ponto de
vista democrático, pois tende a desqualificar divergências, reduzir o espaço do
debate e enfraquecer práticas deliberativas.
Não por
acaso, esse discurso é proferido no contexto da Páscoa, data central do
cristianismo, reforçando o uso estratégico de símbolos religiosos para
sustentar uma política de unificação. Ao mobilizar o texto de Colossenses nesse
cenário, constrói-se a ideia de que, fora dessa lógica de coesão, “todo o resto
agora é menor” — o que explicita, em termos discursivos, o funcionamento do
dispositivo cristofascista.
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Indicações parciais sobre um cristofascismo mais “crente”
Como se
demonstrou ao longo das cenas analisadas, especialmente nas postagens
vinculadas a datas centrais do calendário litúrgico, como o Natal e a Páscoa,
Flávio Bolsonaro constrói sua pré-candidatura à Presidência da República a
partir de uma narrativa que o apresenta como um “filho entregue” à missão de
liderar a nação. Trata-se de uma elaboração que guarda paralelos com a figura
de Jesus no cristianismo, mobilizando a ideia de vocação, sacrifício e envio.
Nesse
sentido, evidencia-se a construção estratégica de uma “história com Deus” como
eixo organizador da campanha do “01”. Na segunda cena, por exemplo, sua
presença na igreja, sendo publicamente “orado”, não apenas reforça sua imagem
de piedade, mas também marca um momento de submissão e entrega ao divino,
necessário para legitimar o início de seu projeto político. Como ele próprio
afirma, trata-se de uma “reconciliação com Deus”, gesto de forte apelo em um
país majoritariamente cristão.
Essa
“história com Deus” avança ao longo dos meses seguintes. Já na cena da Páscoa,
o “01” assume a posição de alguém autorizado a “trazer uma palavra” à nação,
mobilizando elementos centrais da fé cristã para construir uma mensagem de
alcance coletivo. Em seguida, no mesmo contexto pascal, aprofunda esse
movimento ao recorrer ao texto bíblico de Colossenses, atribuindo um fundamento
teológico à necessidade de superação das divergências internas.
Nesse
ponto, a operação se torna mais evidente: ao afirmar que tudo aquilo que escapa
a esse projeto é “menor”, estabelece-se uma hierarquia simbólica na qual a
unidade do campo político alinhado à sua candidatura se sobrepõe às diferenças.
Assim, a “história com Deus” que estrutura essa narrativa não apenas legitima o
candidato, mas também orienta o comportamento esperado de seus apoiadores,
especialmente no sentido da coesão e da obediência.
Desse
modo, o que se observa é a consolidação de uma forma específica de
cristofascismo, na qual elementos do cristianismo, especialmente em sua
vertente fundamentalista, são mobilizados para sustentar um projeto de poder.
Nessa configuração, a dimensão religiosa não aparece apenas como adorno
retórico, mas como eixo estruturante de legitimidade política.
Isso
permite compreender por que aspectos potencialmente controversos da trajetória
do candidato, como acusações políticas, posições radicais ou performances
públicas, tendem a ser relativizados ou reabsorvidos no interior dessa
narrativa. Afinal, toda “história com Deus” comporta tensões, desvios e
ambiguidades, que são reconfigurados como parte de um percurso maior de missão.
Assim,
mais do que um recurso pontual, a articulação entre linguagem religiosa,
calendário litúrgico e estratégia política indica a formação de um dispositivo
mais amplo, no qual fé, poder e o nacional se entrelaçam. É nesse
entrelaçamento que se delineia uma versão ainda mais “crente” do cristofascismo
brasileiro contemporâneo.
Fonte:
Brasl 247

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