Elisabeth
Lopes: A parcela do povo que continua sucumbente ao Centrão e à extrema direita
a cada eleição
A cada
processo eleitoral, o Brasil revive uma disputa entre distintos projetos de
país. De um lado, candidaturas associadas à extrema direita e ao Centrão,
representadas por caciques da política interesseira e oportunista, entre estes,
o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex ministro do governo de Jair Bolsonaro e
apontado como um dos cotados à vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro.
Nesse
horizonte obscuro e fisiologista da política, na quinta-feira desta semana,
Ciro Nogueira foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal (PF) no âmbito
da nova fase da Operação Compliance Zero que apura uma estrutura bilionária de
ilícitos financeiros, ocultação de bens e corrupção vinculada ao Banco Master e
seu proprietário Daniel Vorcaro.
As investigações da PF indicam que o senador
recebia repasses mensais de Vorcaro, que poderiam chegar a R$ 500 mil por mês.
O senador teria utilizado a função parlamentar para favorecer os interesses do
banco. Segundo a PF, ele também teria recebido de Vorcaro um cartão de crédito
para despesas pessoais, além do custeio de hospedagens, deslocamentos e outras
despesas relacionadas a viagens internacionais de alto padrão. Entre os
benefícios estariam uma estadia no Park Hyatt New York, considerado um dos hotéis
com diárias mais caras do mundo e gastos em restaurantes de elevado custo.
De
outro lado, apresenta-se a tentativa de continuidade e fortalecimento de um
modelo de governo representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Modelo que se mostra comprometido com a soberania nacional e com a redução das
desigualdades sociais, sustentando-se em políticas inclusivas nas áreas da
economia, da educação, do trabalho, da saúde, da cultura e do meio ambiente,
além de avanços no âmbito fiscal, com a recente reforma tributária.
Da
mesma forma, sobressai a diretriz de não ingerência do atual governo nas
atividades da Polícia Federal. A instituição tem preservado sua plena
autonomia, o que resultou, nos últimos três anos, em um combate mais rigoroso e
intensificado ao crime organizado. Nesse sentido, o contraste com a gestão do
ex-presidente Jair Bolsonaro é evidente, uma vez que seu governo foi marcado
por denúncias de tentativas de interferência na PF para evitar investigações
envolvendo seus filhos, entre eles Flávio Bolsonaro, episódio amplamente
repercutido após declarações do próprio ex-presidente em reunião ministerial
posteriormente divulgada pela imprensa.
Nesse
cenário, vale lembrar que, na semana passada, setores da extrema direita e do
Centrão comemoraram a derrubada do veto do presidente da República ao
controverso PL da dosimetria, mencionado por críticos como uma proposta
concebida para reduzir as penas de Jair Bolsonaro e dos demais condenados por
crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. Também celebraram
efusivamente a rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal,
apesar de sua reconhecida trajetória jurídica e do atendimento aos requisitos
constitucionais para a indicação.
Entretanto,
por ironia do destino, o protagonismo do senador Ciro Nogueira nessas recentes
derrotas legislativas do governo teve vida curta. Se há poucos dias o senador
articulava com Davi Alcolumbre o bloqueio a Jorge Messias, hoje o cenário é
oposto. O outrora vitorioso nas votações encontra-se sob o peso de
investigações por condutas ilícitas, exemplificando a volatilidade das alianças
e das reputações dos políticos do Centrão, em Brasília.
A
partir desses fatos, emerge um questionamento inevitável: que autoridade moral
possui um senador investigado por suspeitas de lesão ao patrimônio público para
rejeitar a indicação de um jurista de reputação ilibada? As suspeitas de
envolvimento de outros parlamentares no esquema ampliam ainda mais os desgastes
institucionais que estão por vir.
Sob tal
conjuntura, nota-se que figuras da oposição vinculadas ao Centrão e à extrema
direita, como Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, já iniciaram a
articulação de suas bases. Embora o calendário eleitoral imponha limites
formais, suas movimentações estratégicas e a construção de suas imagens
públicas antecipam o embate que tende a marcar as eleições. Essas candidaturas,
embora distintas entre si, compartilham pontos de convergência, como a defesa
de políticas econômicas ultra liberais, redução do papel do Estado, críticas
recorrentes a programas sociais, além da projeção de uma política externa
subordinada aos interesses de exploração econômica pela potência estadunidense
em razão do alinhamento ideológico. Esse modelo, historicamente, é alvo de
debate por seus impactos sobre a desigualdade, tema central em um país que
figura entre os mais desiguais do mundo, segundo dados do IBGE.
No caso
de Romeu Zema, sua trajetória empresarial é frequentemente usada como símbolo
de meritocracia. No entanto, críticas surgem quando suas declarações associam
beneficiários de programas sociais à falta de disposição para o trabalho, uma
leitura contestada por estudos que mostram que o Bolsa Família não reduz a
busca por emprego e, ao contrário, melhora indicadores de saúde, educação e
renda. Pesquisas independentes indicam que o programa contribui para elevar o
emprego formal em torno de 5% entre as famílias atendidas, ao mesmo tempo em
que reduz hospitalizações e mortalidade em grupos mais vulneráveis,
fortalecendo a capacidade produtiva das pessoas. Além disso, propostas
associadas à flexibilização e retrocesso de direitos trabalhistas, especialmente
em contextos vulneráveis, como no trabalho infantil defendido absurdamente por
Zema, aguçam severas críticas entre especialistas em políticas públicas.
Já
Ronaldo Caiado carrega uma longa trajetória política, com origem ligada ao
setor ruralista e histórico de atuação reacionária, conservadora e ultra
liberal. Sua carreira remonta a disputas intensas no campo político e
ideológico desde a redemocratização. Como governador de Goiás, adotou uma linha
de gestão marcada por forte alinhamento a pautas de violência extrema em
segurança pública e conservadorismo social, agenda que encontra apoio em parte
do eleitorado, mas também críticas quanto ao alcance social de suas políticas,
especialmente no que se refere a avanços mais amplos em saúde, educação e
redução das desigualdades regionais.
No caso
de Flávio Bolsonaro, sua trajetória política permanece indissociável da figura
de seu pai, inclusive no que diz respeito ao instinto de autopreservação.
Diante do escândalo que atinge um de seus principais aliados e potencial nome
para sua chapa presidencial, Flávio repete o comportamento paterno ao
distanciar-se precocemente de quem está sob suspeita. Esse movimento de
descarte não é estranho ao senador que, à semelhança de seus interlocutores
atuais, também já foi alvo de investigações por movimentações financeiras
atípicas durante seu mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Embora os desdobramentos judiciais tenham estancado por interferências de seu
pai, enquanto presidente, o episódio permanece como elemento de questionamento
público. Ademais, sua interlocução com grupos políticos e econômicos alinhados
ao movimento trumpista suscita questionamentos sobre a ingerência externa na
soberania nacional. Esse tema, nevrálgico para qualquer democracia, reflete-se
em posturas de viés entreguista adotadas por Flávio Bolsonaro, exemplificadas
pela oferta de terras raras para exploração norte-americana e por certas pautas
de segurança pública. Estas últimas, ao proporem a classificação do PCC e do
Comando Vermelho como organizações terroristas, abrem precedentes perigosos
para eventuais intervenções diretas dos EUA no território brasileiro.
Complementarmente, o uso de alegações sem comprovação contra o governo
brasileiro em troca de respaldo político evidencia o tom pragmático de suas
críticas.
Todavia,
enquanto Flávio Bolsonaro adota uma postura agressiva e abdica da defesa da
soberania nacional ao buscar interferência externa durante sua viagem aos EUA
na véspera da cúpula presidencial, o encontro entre Lula e Trump seguiu um
caminho oposto. Realizada na última quinta-feira, a reunião foi classificada
por ambos como positiva e produtiva. Trump, que dedicou mais de três horas ao
diálogo, descreveu a conversa como “muito boa” e referiu-se a Lula como
“dinâmico”, contrastando com o etarismo vulgar do senador, que havia comparado
o presidente a um “opala velho”. Em conversas posteriores com jornalistas,
teceu mais elogios a Lula: "Ele (Lula) é um bom homem, um cara
inteligente".
Em
coletiva com jornalistas pós encontro, Lula afirmou ter saído “muito
satisfeito” do encontro. Os principais temas discutidos giraram em torno do
comércio bilateral, tarifas, investimentos em minerais estratégicos, combate ao
crime organizado e cooperação econômica. Lula destacou que os EUA precisam
voltar a olhar para o Brasil como parceiro estratégico e defendeu maior
participação norte-americana em investimentos no país, em meio ao avanço da
China como principal parceiro comercial brasileiro. Também foram criados grupos
de trabalho entre os dois governos para aprofundar negociações em áreas
econômicas e de segurança. Embora as divergências ideológicas e rusgas
anteriores o encontro foi visto por analistas internacionais como um passo
importante para reduzir tensões e reconstruir canais de diálogo entre as duas
democracias do continente.
Durante
a reunião, o presidente Lula também voltou a defender o multilateralismo como
princípio central das relações internacionais. Segundo relatos da imprensa e
declarações prévias do próprio Lula, ele sustentou que os grandes desafios
globais, tais como: comércio, clima, segurança e democracia, precisam ser
tratados por meio do diálogo entre as nações e do fortalecimento das
instituições multilaterais, e não por ações unilaterais ou protecionistas. Lula também reiterou que o Brasil defende uma
ordem internacional baseada na cooperação, na soberania dos países e na
negociação diplomática. Sobre Cuba o presidente referiu para os jornalistas
que: "O que eu ouvi, e não sei se a tradução foi correta, é que ele disse
que não pensa invadir Cuba. Isso foi dito pelo intérprete, e acho que isso é um
grande sinal. Porque Cuba quer dialogar". Nessa perspectiva, Lula reforça
cada vez mais seu papel mundial na busca da paz e do respeito à soberania de
cada país. De acordo com agências internacionais, apesar das divergências
ideológicas entre os dois líderes, o encontro ocorreu em tom cordial e produziu
avanços no diálogo entre Brasil e Estados Unidos.
A
trajetória política e social descrita até aqui entre o presidente Lula e os
demais candidatos à presidência no pleito que se aproxima, nos auxilia a
compreender o contraste entre os projetos em disputa. Ao passo que setores da
extrema direita e do Centrão se articulam em torno de candidaturas marcadas por
agendas liberalizantes, aproximações oportunistas com interesses econômicos
externos e frequentes contradições éticas, a figura de Lula permanece
associada, para amplos setores da sociedade, à capacidade concreta de promover
inclusão social, crescimento econômico e fortalecimento institucional. A
capacidade de respostas a crises vivenciadas pela população, como o recente
lançamento do programa Desenrola II que visa a recuperação financeira de
famílias endividadas, demonstra que, apesar das dificuldades impostas pelo
cenário internacional e das tensões internas, o governo segue estruturando
políticas públicas voltadas à melhoria das condições de vida da população.
Essa
realidade também ajuda a explicar por que parte significativa do eleitorado
continua suscetível a estruturas reacionárias de poder político e econômico. Um
dos pontos mais complexos desse debate está justamente na dinâmica eleitoral,
especialmente em regiões mais vulneráveis. Em muitos municípios, a influência
de lideranças locais, associada ao uso de recursos públicos por meio de emendas
parlamentares, cria mecanismos de poder que influenciam decisivamente o
comportamento do eleitorado. Esse fenômeno levanta preocupações sobre a
qualidade da representação democrática e vem se repetindo após a ascensão do
bolsonarismo, que procurou vestir a roupagem de uma força supostamente
antissistema, embora sempre tenha estado visceralmente ligado às velhas estruturas
fisiológicas da política brasileira.
Concomitantemente
a essa situação, as distorções da realidade preconizadas, desde sempre, pela
imprensa corporativa, intensificadas pelo ambiente contemporâneo digital da
Inteligência Artificial desempenham papel central na formação da opinião
pública e na radicalização do debate político. Ao mesmo tempo, o avanço das
redes sociais como principal fonte de informação política aumentou a
disseminação de desinformação, dificultando o debate público qualificado.
Narrativas simplificadas, muitas vezes desconectadas intencionalmente de dados
concretos, acabam influenciando parcelas da população, especialmente aquelas
com menor acesso à informação diversificada e fidedigna. Um exemplo evidente
dessa dinâmica é a personagem 'Dona Maria', criada por inteligência artificial.
Com milhares de seguidores, o perfil promove uma difamação sistemática contra o
governo, demonstrando como o uso da IA pode ser instrumentalizado para
manipular a opinião pública e disseminar desinformação em elevada escala. Nesse
ambiente, discursos populistas e campanhas de desinformação frequentemente se
sobrepõem à análise objetiva dos resultados econômicos, sociais e
institucionais produzidos pelos governos.
Assim
sendo, é justamente nesse ambiente político, informacional e socialmente
tensionado que se compreende o atual cenário eleitoral brasileiro. O fato de as
pesquisas eleitorais apontarem intenções de votos, até o momento, "pari
passu" entre Lula e Flávio Bolsonaro, ambos com trajetórias tão distintas
revelam mais sobre o ambiente informacional e político do que necessariamente
sobre a divergência de projetos. No fim, o desafio do eleitor brasileiro é
descobrir o modelo de sociedade que cada projeto representa e os impactos
concretos dessas escolhas nas condições materiais de vida da população, na
soberania nacional, na democracia e na capacidade do país de reduzir
desigualdades históricas.
Perante
esse cenário, a disputa eleitoral que se apresenta expõe diferenças profundas
não apenas de estilo político, mas de trajetória, experiência administrativa,
visão de Estado e compromisso social. Enquanto Lula consolidou ao longo de
décadas uma imagem internacional de estadista, articulador diplomático e líder
associado à redução da pobreza, fortalecimento da soberania nacional e
ampliação de direitos sociais, seus principais adversários orbitam agendas
marcadas pelo radicalismo ideológico, pelo ultraliberalismo econômico ou por
práticas políticas conservadores frequentemente associadas ao fisiologismo e à
exploração social.
A
distância entre Lula e nomes como Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado
não se mede apenas em divergências políticas ocasionais, mas em projetos de
país profundamente distintos, separados, para muitos brasileiros, por
verdadeiros anos-luz de experiência, densidade política, capacidade de
liderança internacional e compromisso histórico com os interesses da maioria da
população.
Fonte:
Brasil 247

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