Medicamentos
GLP-1 dão golpe duplo contra obesidade e alcoolismo
A
pesquisa, com 108 adultos acima do peso saudável que também buscavam tratamento
para alcoolismo, demonstrou que uma injeção semanal da substância semaglutida
reduziu em 50% os dias de ingestão pesada de bebidas em um mês, comparado ao
grupo placebo. Ao mesmo tempo, a perda de peso foi cinco vezes maior entre os
que utilizaram o inibidor de GLP-1 (-11,2 kg contra -2,2 kg em 26 semanas).
Segundo
os autores do estudo, do Hospital Universitário Bispebjergand Frederiksberg, em
Copenhague, na Dinamarca, o transtorno por uso de álcool é responsável por 5%
das mortes no mundo anualmente, e há uma necessidade urgente de novos
tratamentos. A pesquisa, conduzida no Centro de Saúde Mental da instituição, é
a primeira com grupo controle a investigar se os inibidores de GLP-1 ajudam
pacientes com obesidade a reduzir o consumo de bebidas.
Todos
os participantes fizeram terapia cognitivo-comportamental e foram divididos
para receber uma dose semanal de semaglutida ou um placebo. No início, os
pacientes apresentavam, em média, 17 dias de consumo excessivo de álcool no
último mês. Após seis meses, os voluntários do grupo GLP-1 ingeriram bebidas
alcoólicas exageradamente por cinco dias (12 a menos), em comparação a nove no
controle (oito a menos).
Além
disso, no começo da investigação, os participantes haviam consumido
aproximadamente 2,2kg de álcool nos 30 dias anteriores, número que diminuiu
para 650 g/30 dias com semaglutida e 1175 g/30 dias com placebo após seis
meses. Os cientistas usam gramas, em vez de mililitros, para medir o consumo de
álcool como forma de garantir a padronização internacional, pois a massa do
etanol puro não se altera, independentemente do tipo de bebida ingerida.
Embora
reconheçam o número pequeno de pacientes incluídos, os autores destacaram, no
artigo, que "o efeito do tratamento foi suficientemente grande para ser
detectado". "Essa descoberta contribui para o crescente corpo de
evidências para o uso de agonistas do receptor de GLP-1 no transtorno por uso
de álcool, apoiando uma indicação expandida para a semaglutida, que pode afetar
milhões de pessoas, dada a carga global do transtorno por uso de álcool e da
obesidade comórbida", escreveram.
No
Brasil, segundo o Ministério da Saúde, mais da metade da população tem excesso
de peso, e cerca de uma em cada cinco pessoas acima dos 18 anos relata consumo
abusivo de bebidas alcoólicas. Não existem dados mundiais sobre a comorbidade,
mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera tanto o alcoolismo quanto a
obesidade como problemas graves de saúde pública.
<><>
Metabolismo
Separadamente,
tanto o álcool quanto a obesidade já são fatores conhecidos de risco para
doenças crônicas, incluindo diabetes 2, problemas cardiovasculares e,
especialmente, condições hepáticas. Juntos, os efeitos são multiplicadores.
Como é o órgão responsável por metabolizar o álcool e regular o metabolismo
energético, o fígado torna-se o principal alvo dessa associação.
"A
obesidade aumenta o fluxo de ácidos graxos livres ao fígado; leva a resistência
insulínica, inflamação e estresse oxidativo do nosso organismo", diz
Camila Viecceli, endocrinologista do Hospital da Bahia. "Quando o álcool
entra em um corpo já com inflamação crônica de baixo grau, amplia a lesão, além
de ativar células que favorecem esteatose (gordura no fígado),
esteatose-hepatite (inflamação da gordura no fígado), fibrose e até
cirrose", enumera.
Guilherme
Rodrigues, nutricionista do Hospital Mantevida, em Brasília, explica que, além
das graves doenças crônicas, o álcool compromete estratégias de emagrecimento,
o que pode ser particularmente problemático no caso de pessoas que já sofrem
com obesidade. "O álcool atrapalha o emagrecimento porque o corpo prioriza
metabolizá-lo, reduzindo a queima de gordura. Além disso, fornece calorias
vazias e aumenta o consumo alimentar por diminuir o controle e favorecer
escolhas mais calóricas", diz. O especialista destaca que existem
abordagens dietéticas que ajudam a reduzir tanto o peso como o desejo por
álcool: "Dietas ricas em proteínas, fibras e alimentos naturais ajudam a
controlar a fome e reduzir o desejo por álcool".
Para
especialistas, os medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1 podem ser uma
arma dupla no arsenal terapêutico. Outros estudos além do publicado ontem na
The Lancet indicam que drogas como a semaglutida, além de promover perda de
peso, têm potencial para reduzir o consumo de álcool. "Muitos usuários do
GLP-1, devido à redução do tempo de esvaziamento gástrico, acabam tendo menor
consumo de álcool", concorda a médica nutróloga Andrea Pereira, presidente
do Instituto Obesidade Brasil. "Além disso, como a bebida alcoólica é
calórica, podendo levar ao ganho de peso, a redução do consumo auxilia também
no emagrecimento."
<><>
Terapia
Os
estudos que investigam a associação entre drogas GLP-1 e o combate à
comorbidade alcoolismo/obesidade destacam que apenas intervenções
medicamentosas são insuficientes. No artigo publicado na revista The Lancet,
por exemplo, os participantes foram submetidos a sessões de terapia
cognitivo-comportamental (TCC). "Em situações de sobrecarga emocional, o
cérebro tende a priorizar comportamentos que geram prazer imediato, mesmo que
tragam prejuízos no médio e longo prazo. Isso aumenta a frequência de consumo de
álcool e de alimentos calóricos", destaca o psicólogo clínico Miguel
Bunge, de São Paulo, especialista em TCC e saúde mental.
Segundo
o psicólogo, há um claro padrão de compensação emocional, no qual comida e
álcool desempenham funções semelhantes. "Ambos podem ser usados para
aliviar emoções negativas, preencher sensação de vazio ou até como forma de
recompensa após um dia difícil", diz. "A terapia
cognitivo-comportamental tem bons resultados porque ajuda o paciente a
identificar gatilhos emocionais, padrões de pensamento e situações que levam ao
consumo de álcool e à alimentação desregulada", explica Bunge. "Entre
as estratégias mais importantes estão o desenvolvimento de habilidades de
regulação emocional, o aumento da consciência sobre padrões automáticos e a
construção de alternativas mais saudáveis para lidar com desconfortos."
<<<<
Duas perguntas para Elaine Dias JK, médica PhD em endocrinologia e metabologia
• Como a combinação de obesidade e consumo
excessivo de álcool impacta o metabolismo?
A
obesidade e o consumo excessivo de álcool formam uma combinação extremamente
agressiva para o metabolismo e, principalmente, para o fígado, porque ambos
atuam sobre os mesmos mecanismos inflamatórios. O álcool gera sobrecarga
hepática direta. Quando ele é metabolizado, produz substâncias tóxicas, como o
acetaldeído, que aumentam o estresse oxidativo, a inflamação celular e a lesão
hepática. Já a obesidade, especialmente quando existe gordura abdominal e
resistência à insulina, favorece o acúmulo de gordura no fígado e mantém um
estado inflamatório crônico que chamamos de MASLD (Doença Hepática Esteatótica
Associada à Disfunção Metabólica). Quando esses dois fatores se encontram, o
dano não é apenas somado, ele é potencializado. O fígado passa a lidar simultaneamente
com toxicidade e excesso de gordura, o que acelera a evolução da esteatose
hepática para quadros mais graves, como esteatohepatite, fibrose, cirrose e até
câncer hepático.
• Os agonistas de GLP-1 podem atuar como
uma estratégia dupla para perda de peso e redução do consumo de álcool?
Essas
medicações também parecem atuar sobre o chamado "food noise", que é
aquele ruído mental constante ligado à compulsão, à recompensa e ao desejo
repetitivo por comida ou prazer imediato. Muitos pacientes descrevem isso como
um pensamento que não desliga, aquela necessidade constante de beliscar, comer
por ansiedade ou buscar recompensa emocional na alimentação. O ponto
interessante é que esse mesmo circuito cerebral está relacionado ao álcool,
porque ele ativa mecanismos de recompensa, dopamina e compulsão muito
semelhantes aos da alimentação. Por isso, muitos pacientes relatam
espontaneamente que, além de comer menos, também passam a sentir menos vontade
de beber. (PO)
<><>
Ciclos de culpa
A
associação entre consumo excessivo de álcool e obesidade vai muito além de
fatores metabólicos. Ela está profundamente ligada à forma como lidamos com
emoções. Tanto o álcool quanto alimentos altamente calóricos ativam o sistema
de recompensa do cérebro, promovendo alívio imediato de desconfortos, como
ansiedade, estresse e frustração. Há também um efeito importante de
desinibição: o álcool reduz o autocontrole, favorecendo escolhas alimentares
impulsivas e o aumento da ingestão calórica. Além disso, muitos indivíduos
entram em ciclos de culpa e compensação, consomem para aliviar emoções difíceis
e, depois, lidam com sentimentos de vergonha ou arrependimento, o que pode
reforçar novamente o padrão de consumo. As abordagens mais eficazes para lidar
com consumo excessivo de álcool e obesidade são aquelas que tratam essas
condições de forma integrada, reconhecendo que muitas vezes elas compartilham
os mesmos mecanismos emocionais. Um ponto fundamental é ajudar o indivíduo a
compreender a função emocional do comportamento, ou seja, o que o álcool e a
comida estão tentando resolver. -
Izabelle Santos, psicóloga Hospital Anchieta, em Brasília
Fonte:
Correio Braziliense

Nenhum comentário:
Postar um comentário