Crimes
de Maio mudaram o PCC, mas não a resposta policial
Débora
Maria da Silva, 67 anos, estará nesta quinta-feira (14/05) em um julgamento
simbólico na Faculdade de Direito da USP sobre os Crimes de Maio – uma série de
execuções que deixou mais de 500 civis mortos e impôs toque de recolher em
diversas cidades paulistas de 12 a 21 de maio de 2006, como vingança do aparato
de segurança por ataques promovidos pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
Silva
não sabe quem matou seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, então um gari
negro e jovem de Santos, no litoral paulista, que saiu de casa em 15 de maio
para buscar um remédio na casa da mãe e, na volta, teria sido abordado por
policiais, agredido e morto com um tiro. Os autores do crime nunca foram
identificados, mas a Justiça já o atribuiu à resposta "desarrazoada e
indiscriminada" das forças de segurança aos ataques do PCC.
Após o
crime, Silva juntou-se a uma mãe que teve seu filho, estudante de ensino médio,
morto quando voltava da escola e a uma mãe que teve a filha, grávida de 9
meses, morta ao sair de casa para ir ao mercado, ambos também supostamente por
policiais, e criou o Movimento Mães de Maio.
Ela
segue na luta pela responsabilização do Estado e por um pedido de desculpas
oficial pelo conjunto das execuções ocorridas no período. No início de maio,
sua organização e a Conectas Direitos Humanos enviaram à ONU um apelo que
denunciou a omissão do Estado brasileiro na resolução dos crimes.
"Como
é que o estado de São Paulo mata centenas de pessoas no espaço de uma semana e
não dá uma resposta para a sociedade?", afirma ela à DW. "Eu não pari
um filho e o criei incentivando os bons costumes para o Estado tirar a sua
vida."
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Como foram os ataques
No dia
10 de maio de 2006, a partir de informações de que o PCC planejava uma grande
rebelião no sistema prisional, o governo paulista decidiu transferir 765 presos
ligados à facção para o presídio de segurança máxima de Presidente Wenceslau.
Em represália, na madrugada do dia 11 para 12 começaram os primeiros ataques do
PCC contra postos policiais, viaturas, delegacias e cadeias, que deixaram ao
menos dez agentes públicos mortos.
Em 12
de maio começou a reação das forças de segurança. Os policiais tiveram folgas e
férias canceladas e o efetivo saiu às ruas, deflagrando um clima de guerra
urbana e um toque de recolher informal que tomou os noticiários e lares da
capital paulista e outras cidades do estado. Comércios fecharam as portas,
aulas foram canceladas e as ruas ficaram vazias, e civis começaram a ser
executados.
A
apreensão e a violência duraram dez dias. O mais violento foi 14 de maio, com
107 civis e oito agentes públicos assassinados, segundo um relatório sobre os
Crimes de Maio elaborado pelo Laboratório de Análise da Violência da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LAV-UERJ). Ao final desse período,
eram 505 civis e 59 agentes públicos mortos.
"O
PCC atacou delegacias, matou policiais, inclusive alguns perto de suas casas. E
os dados apontam que a polícia deflagrou uma série de operações de vingança,
houve também grupos com capuz, que fizeram várias execuções sumárias",
afirma Ignacio Cano, professor da UERJ e coordenador do LAV-UERJ.
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"PCC mudou, mas a polícia, nem tanto"
De lá
para cá, o crime organizado se fortaleceu, e hoje o PCC está presente em
praticamente todas as unidades da Federação. Mas ataques contra policiais não
se repetiram mais nessa escala.
Isso
ocorreu porque, após os Crimes de Maio, o crime organizado concluiu que esse
tipo de confronto era improdutivo para seus interesses, avalia Bruno Paes
Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São
Paulo (NEV-USP).
"Eles
estavam muito vulneráveis, 80% na prisão, nas mãos do estado. Não adiantava
atacar porque a retaliação seria certeira. Então eles começaram a agir mais
estrategicamente", afirma. O crime organizado passou então a "crescer
nas brechas do sistema", por meio da corrupção. "Em vez de bater de
frente com o sistema, eles podiam comprar o sistema."
Se o
crime organizado se readaptou, do lado do poder público o modo de ação não
mudou muito, diz Manso. "A vingança continua sendo muito presente na
motivação e na forma de agir das polícias."
Ele
lembra das operações Escudo e Verão em Santos, ocorridas na Baixada Santista
entre julho de 2023 e abril de 2024, que deixaram 84 mortos e foram iniciadas
após o assassinato de um soldado da Rota.
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"Lógica de vingança beneficia o crime"
Para
Gabriel Sampaio, diretor de litigância e incidência da Conectas, a "lógica
de vingança" acaba por tomar o espaço de estratégias mais adequadas para
enfrentar o crime organizado, que envolvem o uso de inteligência e ferramentas
modernas de segurança pública, beneficiando o próprio crime no longo prazo.
Ele
avalia que o fato de o Estado não reconhecer seu equívoco, não assistir as
vítimas e familiares e não investigar e punir crimes cometidos por policiais,
no fundo, abre caminho para a ampliação da atuação ilegal de seus agentes.
"Ao
não tomar as medidas para apurar as ações ilegais do próprio Estado, ele se
torna suscetível à infiltração e ao assédio das organizações criminosas".
Segundo Sampaio, essa negligência do Estado em controlar seus agentes é um dos
fatores que explica o crescimento do PCC nas últimas duas décadas.
Ele
acrescenta que mecanismos de controle mais efetivo da atividade policial
avançaram pouco no período, assim como políticas públicas para acolhimento de
vítimas de ações violentas de agentes públicos.
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"Debate sobre repressão avançou um pouco"
Mas há
também alguns desenvolvimentos positivos. Desde os Crimes de Maio, o país
ganhou novas legislações específicas para combater a lavagem de dinheiro e as
organizações criminosas, sendo o mais recente o Marco Legal do Combate ao Crime
Organizado, sancionado em março.
Essas
novidades são fruto, em parte, de uma sofisticação do debate sobre como
combater as facções criminosas, avalia Manso. "Começamos a falar o óbvio:
o crime se nacionalizou. A segurança pública era vista de uma forma isolada nos
estados, e agora se fala que a União precisa participar", diz.
Ele
considera essa mudança está apenas no começo, mas "esvaziou um pouco o
discurso de que 'tem que matar, tem que prender', de apelo populista".
"Essa guerra não resolve, só aumenta o medo da população e a sensação de
vulnerabilidade, e alguns ganham dinheiro e poder com isso. Algumas pessoas
começam a perceber que racionalidade não é coisa de quem defende bandido."
Manso
pontua que, apesar da reação violenta das forças de segurança há 20 anos, o PCC
tem hoje uma capacidade de corrupção muito maior, e cada vez mais "a
polícia está participando dessas ações".
No
mesmo sentido, Cano, do LAV-UERJ, afirma que o estado do Rio de Janeiro é um
exemplo de que a política de extermínio, por vezes, serve de cortina de fumaça
para ocultar a corrupção de quem se beneficia com as estruturas criminosas.
"Aqui no Rio você tem gente que defende o extermínio de bandidos e depois
é flagrada em investigações que mostram conexões deles próprios com o crime
organizado."
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À espera do Judiciário
Além de
ações individuais propostas por familiares das vítimas, parte delas
representada pela Defensoria Pública do Estado, há uma ação civil pública sobre
o tema que aguarda julgamento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) – ela pede
a responsabilização do Estado e o reconhecimento dos Crimes de Maio como graves
violações de direitos humanos, com a declaração da imprescritibilidade para
fins de responsabilização civil e de adoção de medidas de não repetição.
Essa
ação recebeu um voto favorável do ministro relator, Teodoro Silva Santos, e um
contrário do ministro Marco Aurélio Bellizze, e em março teve o julgamento
interrompido por um pedido de vista.
O
Movimento Mães de Maio pressiona para que o caso seja finalmente julgado.
"Queremos que o Estado brasileiro venha a público e peça desculpas por ter
tirado nossos filhos do seio de nossas famílias. Não há dinheiro no mundo que
pague a vida do meu filho, mas precisa haver reparação. A memória dele está
viva e precisa estar viva para o Estado brasileiro, para que isso nunca mais
aconteça", afirma Silva.
Fonte:
DW Brasil

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