quarta-feira, 13 de maio de 2026

Mães solo no Brasil superam tamanho da população de Portugal

Acordar às 6h, preparar o café da manhã, arrumar a filha, caminhar por cinco quarteirões para deixar a menina na escola e já partir para mais um dia de trabalho. Ao final do expediente, por volta das 16h, passar na escola, pegar a filha e retornar para casa onde a rotina ainda inclui fazer o jantar, lavar a louça, a roupa e os demais afazeres que uma criança de 6 anos demanda. Há 4 anos essa é a rotina da faxineira Lucimara Dias Castro, de 35 anos, moradora de São José do Rio Preto (SP), que cria sozinha a filha.

Lucimara chegou a morar junto com o pai da menina, mas quando o relacionamento acabou ela ficou com a guarda unilateral da filha, assumindo tudo – desde os cuidados diários, educação e até mesmo a questão financeira.

"Quando me separei, o pai dela mudou de cidade, e não tivemos mais contato. Como ele não liga para ela, tento ao máximo não deixar minha filha sentir essa ausência. Independentemente de como eu estou, eu faço de tudo para que ela esteja bem e não falte nada", diz.

<><> Mais de 11 milhões criam os filhos sozinhas

Mulheres como a Lucimara, que assumem sozinhas os cuidados e gastos dos filhos, são comuns no Brasil. Dados do último levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia aponta que o país ultrapassou a marca de 11 milhões de mães que criam os filhos sozinhas. Apenas entre 2012 e 2022, foram 1,7 milhão de novas mães solo, passando de 9,6 milhões para 11,3 milhões.

Além disso, a maior parte das mães solo (72,4%) vive em domicílios monoparentais, sendo compostos apenas por elas e os filhos, ou seja, não moram com familiares que poderiam ajudar nas responsabilidades ou afazeres diários, deixando ainda mais evidente a sobrecarga que essas mulheres carregam.

Dados complementares mostram que 15% dos lares brasileiros são chefiados por mães solo, e a maioria dessas mulheres que criam os filhos sozinhas são negras.

"Filho é responsabilidade 50% do pai e 50% da mãe, quando um não faz, o outro automaticamente precisa fazer e fica sobrecarregado", diz a especialista comercial Adriane Rodrigues, de 45 anos, e mãe solo de dois meninos: Pedro, de 19 anos e Enzo, de 5.

Com filhos com idades bastante diferentes, ela viveu dois períodos como mãe solo. Primeiro do filho mais velho, quando ela se divorciou e passou a assumir a criação total do menino, incluindo a parte financeira e depois com o filho mais novo, que ela cria sozinha desde quando ele tinha 10 meses.

"Hoje o Pedro, por já ser jovem, me ajuda bastante com os cuidados com o irmão mais novo e também tenho minha mãe que, apesar de não morar muito perto, é alguém com quem eu posso contar. Mas por duas vezes eu precisei me reinventar e ser resiliente. Costumo dizer que mãe solo não tem tempo de chorar, é preciso sempre seguir, porque meus filhos dependem de mim", acrescenta Adriane.

<><> Sobrecarga

O termo "solo" não se refere apenas a estar sem companheiro, mas abrange a totalidade das responsabilidades que recaem exclusivamente sobre os ombros da mãe. A maternidade por si só já traz consigo uma série de novas obrigações para as mulheres. No caso das mães solo, essas responsabilidades são intensificadas pela falta de partilha, o que gera grande sobrecarga.

E é exatamente essa sobrecarga, que Iara Pereira de Andrade, 46 anos, considera a parte mais desafiadora no cuidado com as filhas. Mãe solo, ela mora com duas das três filhas, sendo uma de 16 anos e outra de 11. Sem o auxílio do genitor, ela se desdobra para conciliar trabalho, casa e educação das filhas.

"Se fica doente é você quem cuida, quem levanta à noite para medicar e leva ao médico quando precisa. É você que acompanha os estudos e se ela está se alimentando direito. Então, a maior dificuldade é essa carga da responsabilidade. Eu sei que mesmo numa família padrão, a mãe acaba ficando com a carga maior de cuidar dos filhos, mas quando você tem com quem dividir, não fica tão pesado. E o dividir não é só a parte do acompanhamento, tem a parte financeira também", comenta Iara.

<><> Limitações e pressão social

Além da responsabilidade de cuidado e financeira, as mães solo acumulam funções domésticas, o que limita o tempo disponível para o lazer e qualificação profissional.

Outra questão ainda muito enfrentada por essas mulheres é a pressão social, que existe até hoje. Ser mãe solo ainda é estigmatizado e pode levar a julgamentos. Nesse cenário, o apoio emocional muitas vezes é limitado, fazendo com que, além de toda a sobrecarga, essas mães se sintam solitárias e desamparadas.

"Quando me separei, uma amiga, casada, me contou que o marido havia falado que não achava ‘legal' ela continuar a amizade, uma vez que eu estava solteira. Então, parece que você fica com carimbo. Infelizmente a sociedade traz esse pensamento machista", completa Iara.

<><> Na busca por emprego, currículo é posto de lado

"Com quem seus filhos vão ficar enquanto você trabalha?" A pergunta costuma ser feita com frequência às mulheres, mães, que buscam recolocação no mercado de trabalho ou disputam um novo cargo. O peso do questionamento fica ainda maior se a mulher é mãe solo. Nesse cenário, outras perguntas costumam surgir por parte dos recrutadores, como "quando a criança fica doente, quem cuida?", "e o genitor"?

Buscando por recolocação no mercado de trabalho, Iara diz que enfrenta essas perguntas com frequência. Mesmo tendo formação e 15 anos de experiência como secretária executiva, muitas vezes o currículo é deixado de lado e o questionamento sobre os filhos se torna o assunto principal nas entrevistas de emprego.

"Durante um processo seletivo, a pessoa me perguntou quem levaria minha filha ao médico, já que sou divorciada. Na hora eu fiquei impactada, eu não esperava esse tipo de questionamento, até porque eu quero me dedicar ao trabalho, quero ser reconhecida e valorizada pelo que sei fazer. Mas quando você pensa que vai ter que escolher entre o trabalho e o seu filho, é uma questão muito delicada", diz Iara.

<><> Desigualdade de gênero, raça e renda

E essa questão vai muito além. A pesquisadora Mariene Ramos, que é mãe solo, estudou o mercado de trabalho das mães solo no Brasil em seu mestrado em políticas públicas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e aponta que essas mulheres enfrentam uma combinação de desigualdades de gênero, raça e renda.

O estudo foi feito a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, de 2022, e mostrou que mães solo apresentaram o menor rendimento médio entre os arranjos familiares, com salário médio de R$2.322. O valor é cerca de 40% menor do que o de pais com cônjuge (R$3.869) e 11,5% menor que o das mães que vivem com parceiros (R$2.625).

Além disso, 21,9% das mães solo trabalham como empregadas domésticas, número superior ao de mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes maior que ao de pais acompanhados (0,8%). Vale lembrar que, diferentemente de mães solo, pessoas com cônjuge contam ainda com o rendimento do parceiro para compor a renda familiar.

A pesquisa também apontou que 60% das mães que cuidam sozinhas dos seus lares são negras. Além disso, quase 15% das famílias brasileiras são lideradas por mães solo, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste.

"Historicamente a profissão de doméstica é desvalorizada, e vemos que as mães solos são a maioria. Essa pesquisa foi justamente para traçar o perfil dessas mulheres e mostrar que grande parte vive em situação de vulnerabilidade, e precisamos quebrar esse ciclo", diz a pesquisadora.

<><> Falta de políticas públicas específicas

A falta de políticas públicas específicas agrava a situação. A pesquisadora destaca que a ausência de creches acessíveis e de programas de transferência de renda adequados limita a autonomia dessas mulheres.

"São mais de 11 milhões de mães solo no Brasil, esse número é maior do que a da população de Portugal, por exemplo. O Brasil tem um país de mães solo, e precisamos olhar para elas", diz Mariene. A população de Portugal segundo dados do país é de 10,8 milhões de pessoas.

Para a pesquisadora, faltam projetos voltados à essas mulheres para que elas possam se desenvolver profissionalmente e ter maior autonomia.

"O Estado precisa dar autonomia para essa mãe, como oferecer creches e escolas de qualidade e em tempo integral para que elas consigam trabalhar. E também ter projetos para qualificar essas mulheres, para que elas consigam ter melhores condições de emprego. Assim elas poderão melhorar a própria vida e dar mais qualidade de vida aos filhos, quebrando esse ciclo", acrescenta a pesquisadora.

•        Brasil tem 1,7 milhão de crianças registradas sem pai

"Nunca conheci meu pai. Na verdade, o mais próximo que tenho dele é um nome: Sérgio. Nem foto, nem história, nem lembrança. Só isso". O relato é do funcionário público Luan de Oliveira, que aos 34 anos nunca teve contato com o genitor e, além da ausência física, também não tem o nome dele na certidão de nascimento.

Assim como Oliveira, mais de 1,7 milhões de crianças que nasceram na última década no Brasil possuem apenas o nome da mãe no documento, segundo dados do Portal da Transparência dos Registros Civis. Os dados indicam ainda que, apenas em 2025, cerca de 174 mil recém-nascidos, o equivalente a mais de 6% dos 2,5 milhões de nascimentos no país, não tiveram o nome do pai incluído no registro.

Não é apenas uma estatística, é como se toda a população da cidade de Recife ou de Goiânia (ambas com cerca de 1,5 milhões de habitantes) não tivesse o nome do pai na certidão de nascimento. Mas o dado não significa que a criança não saiba quem é o pai, muitos o conhecem, mas não são reconhecidos oficialmente.

Como é o caso do operador de abastecimento de aeronaves Rafael Jader Borges, de 43 anos. Ele foi legalmente reconhecido pelo pai já na idade adulta após ambos fazerem o teste de DNA, no entanto, Borges não corrigiu a certidão de nascimento e segue sem esse dado em seus documentos.

"O tempo vai passando, vem outros problemas, situações e essa questão burocrática acaba ficando para depois. Hoje em dia eu e ele temos uma boa relação, nos vemos quando dá e sempre é tempo de se acertar", conta Borges.

Tanto Borges quanto Oliveira afirmam que a presença paterna foi suprida pela figura materna e de outros familiares próximos como tios e avós, mas reconhecem que a ausência do pai fez com que a mãe ficasse sobrecarregada, tanto em relação aos cuidados diários como em outras questões, como a financeira, por exemplo.

"Nos anos 1980 tudo era mais difícil, a comunicação e o conhecimento de leis, então quem mais sofreu pela falta de ajuda financeira e emocional acredito que foi minha mãe. E hoje me vejo correndo atrás para não perpetuar os problemas do passado comigo junto a minha filha", diz Borges.

<><> O que muda com o reconhecimento

Isso inclui pensão alimentícia, possibilidade de herança e benefícios previdenciários e sociais vinculados ao pai. Para a mãe, o reconhecimento pode significar maior respaldo jurídico e divisão de responsabilidades.

"Sem o reconhecimento legal da paternidade, juridicamente esse pai ainda não existe para o Estado como responsável por aquela criança. Isso também compromete o acesso a direitos sucessórios e a benefícios previdenciários em caso de morte, prisão ou invalidez do pai", explica Márcia Fidelis Lima, presidente da Comissão Nacional de Registros Públicos do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM).

No cotidiano, isso pode refletir em menor estabilidade financeira. Em famílias de baixa renda, a ausência de contribuição paterna frequentemente aumenta a situação de vulnerabilidade da criança.

"Não se trata de uma omissão neutra. É uma exclusão que começa no papel e se multiplica na vida real. A falta do nome paterno no registro e, por consequência, na certidão, pode significar menos proteção econômica, menos segurança jurídica e menos acesso a direitos básicos", detalha Lima.

No Brasil, famílias chefiadas por mães solo podem acessar programas sociais, como o Bolsa Família, mas não há uma política específica voltada exclusivamente para crianças sem registro paterno.

"O registro também fortalece a posição da mãe, que deixa de figurar, perante o Estado, como única responsável jurídica pela criança e passa a ter respaldo para exigir do pai sua participação nas responsabilidades parentais", acrescenta Lima.

<><> Impactos além da certidão

A ausência do nome do pai no registro também pode ter efeitos emocionais na vida da criança, gerando a chamada fragilidade na construção da identidade. Ou seja, a criança não perde só a possibilidade de ter um nome, ela perde uma referência de origem.

"A criança pode começar a se comparar com os colegas. Ela percebe que existe uma falta, mesmo que no início não entenda exatamente o que é. Não é só a ausência afetiva e emocional, que muitas vezes ela ainda não consegue elaborar. Mas, quando vai para a escola, quando começam datas como o Dia dos Pais, quando surge a comparação com os outros colegas e isso pode gerar uma sensação interna de rejeição", explica a psicanalista Ana Lisboa.

A psicanalista acrescenta que muitas vezes o tema costuma ganhar mais peso na adolescência e pode seguir pela vida adulta. Um relacionamento saudável entre pai e filho influencia a independência, a confiança e a forma como essa pessoa vai se relacionar no futuro.

"Essa criança pode se tornar, muitas vezes, muito leal à mãe. E isso faz com que, no caso de um menino, ele se vincule inconscientemente a essa mãe e, no caso de uma menina, ela pode herdar essas dores, esses padrões e essas crenças de repetição, acreditando que não pode confiar nos homens ou que não vai conseguir construir uma relação segura", diz Lisboa.

Surge também uma hipervigilância, ou seja, uma necessidade de provar o próprio valor o tempo todo, como se existisse uma falta permanente de reconhecimento, principalmente ligada à figura paterna.

"O reconhecimento jurídico não substitui o afeto, mas ele afirma algo fundamental: essa criança tem origem, tem história, tem direitos e não deve ser responsabilizada pela omissão de um adulto. Negar esse reconhecimento desde o nascimento impõe à criança um peso que ela não deveria carregar", acrescenta Lima.

<><> Processo para incluir nome do pai ficou mais simples

Na tentativa de reduzir o número de pessoas que não possuem o nome do pai na certidão de nascimento, uma nova plataforma digital (paternidade.registrocivil.org.br) foi lançada no Brasil e permite que o serviço do Registro Civil seja feito totalmente online, sem a necessidade de comparecer a um cartório.

A plataforma permite que mães iniciem o pedido de reconhecimento de paternidade indicando o suposto pai. A partir daí o sistema notifica o homem, que pode confirmar voluntariamente a paternidade. Caso haja concordância, o registro é atualizado sem necessidade de ação judicial. O caminho inverso também pode ser feito. O homem pode solicitar o reconhecimento de paternidade.

Se houver dúvidas, é possível encaminhar o caso para investigação, incluindo exame de DNA, dentro do próprio fluxo digital. A proposta é desburocratizar e ampliar o acesso, principalmente para aquelas pessoas que enfrentam barreiras geográficas ou financeiras para ir até um cartório.

Quando a pessoa registrada já é maior de idade, ela própria também pode fazer o procedimento e solicitar esse processo de reconhecimento.

O pedido é encaminhado ao Cartório de Registro Civil responsável pela emissão da certidão de nascimento, que analisa a documentação e dá continuidade ao procedimento até a conclusão do ato.

 

Fonte: DW Brasil

 

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