As
representações de Donald Trump
O
estudo da imagem e poder permite compreender a construção da imagem das
lideranças políticas que ocupam e/ou ocuparam cargos executivos nos Estados
Unidos da América. No cinema norte-americano, em geral, o que se verifica ao
assistir suas obras cinematográficas ficcionais é a predominância do culto à
personalidade, bem como uma visão do presidencialismo na qual o Chefe do
Executivo teria poderes especiais para solucionar os conflitos enquanto
autoridade máxima, que é exaltada como um super-herói.
Não
raro esses presidentes da fantasia são tratados como salvadores, que lideram a
nação em momentos de tragédia ou salvam o dia contra os ataques de criminosos.
Transmite-se uma imagem mítica do poder e da liderança com o intuito de
disseminar determinados valores, rotineiramente atrelados a ideologia que
sustenta o status quo, enfatizando a solução dos conflitos por meio
de ações individuais e não por lógicas coletivas.
Ao
serem trazidas para a tela as figuras da realidade, essas representações também
carregam a intencionalidade daqueles que participam da produção e a financiam.
Ao apresentar uma figura como a de Donald Trump, por exemplo, seja em um
documentário ou em uma versão romanceada, dificilmente a reprodução
corresponderá com a figura real, sendo impossível captar a totalidade sobre ela
e toda a complexidade de um personagem real.
Por
isso, é fundamental buscar compreender o contexto da produção e o que se
pretende transparecer para o público, ao trazer à tona um determinado período
de sua história ou parte específica da carreira como liderança política, bem
como ao ressaltar seu envolvimento em situações particulares ou com atores
específicos. É relevante entender quais fatos são exaltados e quais são
omitidos, ou até mesmo os que foram recontados com novos detalhes ou de maneira
tal que atenda aos interesses da produção.
Por
vezes não se trata apenas de deixar a obra mais dinâmica e atrativa ao público,
mas também de contar uma história que passará a ser tida como verdadeira para
muitos. Em documentários, o público tende a confiar mais na imparcialidade de
sua direção e a tratar aquela como uma peça completa de informação e
conhecimento, diminuindo as ressalvas quanto à possibilidade de distorção da
realidade.
O que
motiva determinadas escolhas cinematográficas, como o aumento da trilha sonora
ou foco da câmera? São involuntárias ou conscientes? Qual contexto
sociopolítico no qual a produção se deu? Quanto tempo de tela mereceu um
determinado fato em relação a outro? Responder a essas questões é fundamental
na análise de uma obra audiovisual.
Recuperando
a noção de Jean Baudrillard acerca de hiper-realidade, onde a simulação passa a
ser mais verdadeira que a própria realidade, o que, acompanhada da atomização
dos sujeitos sociais, incentivados à ação individualista e participantes de
redes virtuais onde suas crenças são reforçadas, sem espaço para o
contraditório, a representação ficcional da liderança política possui impactos
mais contundentes na realidade, uma vez que esta passa a ser tratada como parte
do real, ainda que os sujeitos saibam que não o é; o real não é aquilo que
existe, mas o querem que o seja.
Daí
outra importância da análise das obras que retratam as lideranças políticas
contemporâneas, cuja atuação por vezes parece ser fruto de um comportamento no
qual a imprevisibilidade é simulada, reforçando um estilo pessoal que busca o
engajamento emocional e a ruptura com padrões institucionais tradicionais, como
se fosse um governante de filme.
É nesse
contexto que foram analisadas as obras audiovisuais sobre Donald Trump: os
documentários Trump: um sonho americano e Trump’s
Presidency: The first year as it happened da rede australiana 7News
Australia (disponível no youtube) e o filme O aprendiz (indicado
a duas categorias no Oscar 2025), que acompanham sua trajetória política desde
sua origem até a primeira gestão presidencial.
Há anos
que Donald Trump emergiu como uma figura midiática e pitoresca, conhecido do
grande público pelo seu penteado extravagante e o excesso de dourado em seus
empreendimentos, o que já fazia dele um personagem frequente da cultura popular
norte-americana, aparecendo em filmes, programas de entrevistas, e até mesmo no
WWE e desenhos animados.
Também
será comentado o filme Era uma vez um sonho, baseado no romance
autobiográfico de J. D. Vance, atual vice-presidente dos EUA, e que conta com
nomes como Amy Adams e Gleen Close no elenco. A produção cinematográfica sobre
as lideranças permite compreender a construção e a disseminação de suas imagens.
Supõe-se, desta forma, ampliar os vínculos entre imagem e política e expandir
os limites da interpretação política e da representação política.
O
documentário Trump: um sonho americano, com quatro episódios, foi
baseado em depoimento de pessoas que conhecem Donald Trump há muito anos,
incluindo amigos e inimigos. O episódio inicial do documentário, Manhattan,
recupera o clima na cidade de Nova York dos anos 1970: suja, com diversos
problemas sociais e perigosa. O repórter de política do New York Post comenta
o clima da cidade: “Os políticos não sabiam governar – pensamento de
empresários”, “Políticos com dinheiro são como jovens com maconha. E você tem
que dizer a eles que isso é tudo o que têm”.
Donald
Trump aparece como uma figura que quer resolver os problemas da cidade,
colocando-se de forma arrogante como um empresário jovem e que, por isso mesmo,
teria novas soluções para os problemas de Nova York. Seu desejo era o de
superar o seu pai, que fez fortuna no ramo da construção, especialmente com
moradias populares. Donald Trump já queria estar no centro dos poderosos. Seu
primeiro grande projeto é a revitalização do Hotel Commodore, um símbolo da
cidade decadente. Para isso, precisaria de 70 milhões de dólares, mas o banco
só emprestaria 30 milhões. Para realizar tal empreendimento, Donald Trump pede
isenção de impostos para investir na reforma do hotel. Repórter pergunta: “A
cidade vai conceder uma isenção de 40 anos nos impostos?”. Donald Trump
consegue, com o apoio do obscuro advogado Roy Cohn.
Roy
Cohn é uma figura de destaque no filme O aprendiz, no qual Donald
Trump é retratado como um jovem que, embora bastante ambicioso, aparece de
forma desajeitada e sem muitas aptidões. Roy Cohn se torna uma espécie de
mentor para Donald Trump, que ouve atentamente seus ensinamentos e quer copiar
sua forma de agir e se vestir. “Você precisa estar disposto a tudo para
vencer”, Cohn explica como, com o uso de três regras: “1ª Regra – Atacar,
Atacar, Atacar; 2ª Regra – Não admita nada. Negue tudo; 3ª regra – Não importa
o que aconteça, você declara vitória, nunca admita a derrota”. Essas regras vão
acompanhar toda a trajetória de Donald Trump no filme.
O
advogado Roy Cohn utiliza de métodos questionáveis para vencer suas demandas,
chantageando aqueles que representam algum risco em seus processos, e mostrando
como o poder funciona na realidade. A personagem de Cohn tem a dupla função;
carregar Donald Trump para dentro do funcionamento do sistema capitalista
americano, também servindo ao público como uma crítica deste voraz e que age de
forma violenta e implacável. Ao final da película, Trump será retratado como
uma versão ainda mais aprofundada de seu mestre. Enquanto aquele ainda parecia
ter certos limites morais, Donald Trump sequer demonstra guardar qualquer
sentimento de consideração ao próprio Roy Cohn.
Se no
filme romanceado se pretende construir um paralelo do desenvolvimento do
capitalismo norte-americano a partir da trajetória de Donald Trump, o
documentário Um sonho americano resta mais evidente como a
fronteira entre o real e o sonho parece ser nebulosa para ele. O segundo
episódio enfatiza seus investimentos no mundo dos cassinos e quando as coisas
começam a dar errado para ele.
Uma
vida de extravagância como a de um apostador sem limites, apaixonado pela
própria imagem de vencedor, mesmo que cada vez mais ela dê sinais de ser
insustentável. Seu casamento também enfrenta problemas, mas, publicamente, a
vida conjugal é usada como peça de propaganda – e a mulher tratada como um
objeto de valor – enquanto também faz questão de sempre estar ao lado de
celebridades do momento.
É
impossível ignorar que essa fronteira borrada entre o real e o ficcional,
presente na trajetória de Donald Trump, é um dos principais elementos que
explicam não somente sua ascensão política, mas também a forma como mantém sua
comunicação com o público. Ao operar constantemente na tensão entre fatos
verificáveis e narrativas emocionalmente mobilizadoras, Donald Trump não rompe
com a realidade de maneira explícita, mas a reorganiza a partir de estratégias
discursivas que privilegiam impacto e identificação.
O
ambiente digital potencializa essa dinâmica ao permitir que diferentes versões
dos acontecimentos circulem com igual aparência de legitimidade, sobretudo
quando mediadas por plataformas estruturadas para maximizar engajamento, tendo
provocado uma transformação estrutural na forma como a realidade é percebida,
mediada e até produzida, cenário no qual um personagem como Donald Trump navega
de forma habilidosa.
O
terceiro episódio enfatiza a gastança desenfreada de Donald Trump com seus
empreendimentos que se pretendem luxuosos, mas acertam no brega, além do
relacionamento com sua esposa e sua amante: ele não quer se relacionar com uma
mulher que tenha filhos, mesmo que estes sejam os seus. Donald Trump é um
mulherengo imparável e cada vez mais arrogante, que acredita que o mundo deve
se curvar aos seus pés. É obrigado a vender empreendimentos e vai à falência.
O
último episódio mostra a transição da figura midiática para o ambiente
político. O programa O aprendiz revitalizou sua imagem e
Donald Trump foi capaz de capturar o sentimento anti-sistema e canalizar o
ressentimento social, transformando a política em um verdadeiro reality
show dada sua experiência pregressa em lidar com o mundo do show
business. A figura construída é a de um Donald Trump que mistura verdade e
ficção, ataca as elites tradicionais e afirma ser o único capaz de “salvar” os
Estados Unidos e tornar a América grande novamente.
No
documentário australiano a figura de Donald Trump é demonstrada como uma
liderança centralizadora. A imagem que é exposta neste documentário é da
intransigência de Donald Trump, que decide e orienta as ações de seu governo
sem a interferência de seus auxiliares. O documentário demonstra sua atuação em
várias frentes, seja defendendo a construção do muro na fronteira com o México,
objetivando impedir e controlar a entrada de imigrantes, como também ao
defender uma lista de países cuja população será impedida de viajar e entrar
nos Estados Unidos.
A lista
inclui os seguintes países que possuem a maioria da população muçulmana,
identificada por ele como terroristas: Iraque, Irã, Síria, Sudão, Líbia,
Somália e Iêmen. Posteriormente esta medida foi atenuada após uma série de
manifestações e críticas do poder Judiciário. Na obra também se destaca o
xenofobismo, o racismo e a intolerância em relação aos povos do Oriente Médio,
como Síria, Irã e Iraque. O primeiro ano de sua presidência é marcado por
diversas manifestações públicas e polêmicas, além do massacre em Las Vegas que
deixou mais de 60 mortos, enquanto Donald Trump minimizou o risco das armas.
Os
documentários analisados e o filme O aprendiz constroem a
imagem de uma liderança que prestigia seus interesses pessoais em primeiro
lugar, mesmo acima da própria família: Donald Trump é uma figura de poucos
escrúpulos e empatia, mas que se apresenta como alguém superior aos demais
líderes mundiais e autoridades. Sua figura midiática vai ao encontro da forma
de sua liderança política, como se a política fosse apenas um grande teatro
midiático.
Nos
documentários ele é reiteradamente criticado por diversos entrevistados,
sobressaindo a percepção de uma liderança orientada prioritariamente por
interesses pessoais e familiares, marcada por um ressentimento evidente em
relação a outros governantes do Partido Democrata, sobretudo contra Barack
Obama, e estruturada em torno de uma agenda centrada no combate à imigração e
na retórica de recuperação de um poder absoluto dos Estados Unidos.
Nos
documentários e no filme O aprendiz, projeta-se a imagem de um
governante desprovido de empatia e de domínio técnico – é um tanto incompetente
tanto quanto malandro –, ao mesmo tempo em que direciona críticas constantes à
classe política, apresentando-se como alguém que confronta um sistema
supostamente controlado por uma elite e reivindicando para si a posição de uma
liderança outsider.
É
relevante confrontar a imagem construída de Donald Trump com o filme baseado na
autobiografia de seu vice-presidente J. D. Vance. Isso porque embora este seja
um político com posições e ações bastante questionáveis, que resvalam em um
certo nacionalismo étnico, crítico dos direitos LGBTQIA+ e até mesmo do
divórcio, ostentando posições bastante conservadoras, a obra cinematográfica
apresenta a história do verdadeiro self-made man que vence na
vida apesar de vir de condições econômicas desfavoráveis e de uma família pouco
estruturada.
Se
Donald Trump já possuía uma imagem pública fortemente demarcada, J. D. Vance
ainda podia ser desconhecido de grande parte do eleitorado, daí lhe ser
relevante buscar construir uma personalidade baseada no imaginário popular de
vencer baseado no próprio esforço e dedicação, mesmo que em termos objetivos
isso fosse ser bastante questionável.
O filme
não mostra nenhuma posição polêmica expressada pelo atual vice-presidente dos
EUA ou tema controverso é colocado na obra, o que permite até mesmo que
eleitores com preferências antagônicas possam se aproximar dessa figura, ao
entender a sua origem e as dificuldades que enfrentou ao longo da vida. A
história do capiria que chega a uma das faculdades mais
prestigiadas do país, constitui uma narrativa idealizada, com o intuito de
gerar ampla identificação do público, com personagens clichês e conflitos de
fácil apreensão e identificação.
Assim,
se as obras que retratam Donald Trump buscam enfatizar detalhes de uma
trajetória que já é, de certa forma, conhecida do público, o filme baseado na
autobiografia de J. D. Vance está mais preocupado em apresentar essa figura
para o grande público. Retratar Donald Trump é, necessariamente, tratar de
polêmicas e de um estilo de vida que sempre foi espalhafatoso. Por vezes, essas
obras recaem num lugar de curiosidade, de como esse pitoresco pode chegar à
presidência dos EUA e o que isso significa sobre a qualidade daquela
democracia.
Não se
pode descurar que a política opera cada vez mais como narrativa, deslocando o
eixo do debate público para um terreno em que a construção da imagem se torna
tão ou mais relevante do que os próprios fatos, vide o comportamento de
parlamentares brasileiros ao se dedicar mais à produção de conteúdo ao vivo,
seja em comissão ou no plenário, do que para o próprio debate em si.
A
recorrência de determinadas escolhas estéticas, recortes biográficos e
estratégias de dramatização deixa claro que as produções cinematográficas não
refletem a realidade, mas contribuem ativamente para reconfigurá-la, criando
versões que, uma vez difundidas, passam a disputar legitimidade com os
acontecimentos concretos, em um cenário no qual percepção e realidade deixam de
ser esferas claramente separadas.
Sob
essa perspectiva, não se pode tratar tais obras como meros registros ou
entretenimento, mas como peças que participam da própria constituição das
lideranças que pretendem retratar, de modo que assistir a esses filmes e
documentários está longe de ser um ato qualquer, mas consistem verdadeiramente
em um contato direto com narrativas editadas, selecionadas e orientadas por
interesses específicos, que influenciam a forma como essas figuras são
percebidas e, por consequência, como são julgadas no espaço público.
Ao
espectador, portanto, não cabe apenas consumir essas histórias, mas
reconhecê-las como construções que disputam espaço na formação da opinião e na
definição do que se entende por verdade.
É
justamente nesse ponto que a aproximação entre Donald Trump e J. D. Vance
revela sua força analítica, na medida em que expõe dois momentos distintos de
um mesmo processo: de um lado, a radicalização de uma política já profundamente
imbricada com a lógica do espetáculo, em que a figura pública se confunde com o
personagem midiático; de outro, a tentativa de reconstrução de uma narrativa
mais tradicional de ascensão e mérito, elaborada para gerar identificação e
ampliar seu alcance junto ao eleitorado.
Em
ambos os casos, o que se evidencia é que o campo político contemporâneo se
estrutura menos em torno de programas e propostas e mais na capacidade de
produzir histórias convincentes, capazes de mobilizar afetos, consolidar
identidades e, em última instância, redefinir os próprios contornos do real.
Atos e
falas recentes de Donald Trump levam a crer que ele opera na lógica
cinematográfica, como se a vida fosse, em verdade, um reality show.
O sequestro relâmpago de Nicolás Maduro, como a guerra travada com o Irã, que
levaram a morte de seu então líder supremo, Ali Khamenei, são apresentados e
comunicados de forma que evocam mais a estética de um roteiro de ação do que
assuntos relevantes de política externa, com declarações grandiloquentes e uma
narrativa de vitória total que reforça a centralidade do próprio líder como
protagonista absoluto dos acontecimentos.
Entretanto,
o desenrolar dos fatos no Irã, deixam claro que o roteiro final pode não ser
exatamente aquele esperado por Donald Trump.
Fonte:
Por Vera Chaia e Arthur Spada, em A
Terra é Redonda

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