quarta-feira, 13 de maio de 2026

Sayid Marcos Tenório: Irã, a crise do poder dos EUA e o fim da narrativa imperial

A guerra também se vence no terreno da percepção. E é precisamente nesse campo que o Irã alcançou sua vitória mais decisiva. Ao enfrentar simultaneamente os Estados Unidos e “Israel” sem capitular, o Irã converteu resistência, sobrevivência e capacidade de pressão em capital político regional. 

Não se trata de uma vitória militar clássica, mas de algo talvez mais profundo, que é a consolidação da imagem de um ator que impõe limites ao poder imperial.

Play Video

O próprio debate interno nos Estados Unidos começa a reconhecer essa realidade. E expõe um desconforto crescente com a queda do mito da superioridade militar norte-americana, que já não garante vitória estratégica. 

Destruir alvos, neutralizar infraestruturas ou lançar ofensivas de alta precisão não resolve o problema central, que é a incapacidade de transformar força em controle político duradouro.

Essa não é uma novidade histórica. Do Vietnã ao Afeganistão, o poder de fogo dos Estados Unidos mostrou-se insuficiente para garantir estabilidade ou submissão. O que muda agora nesse contexto é que o Irã não apenas resiste, mas reorganiza o campo de disputa, deslocando o conflito para uma lógica assimétrica, prolongada e politicamente desgastante para o adversário.

Ao evitar o confronto direto, o Irã opera por meio de uma arquitetura de resistência que inclui aliados regionais, tecnologias de baixo custo, como drones e mísseis, e o controle indireto de pontos estratégicos fundamentais. 

Essa estratégia impõe custos contínuos ao inimigo e redefine o equilíbrio do conflito. Já não se trata de quem possui mais poder militar, mas de quem consegue sustentar o confronto sem colapsar politicamente.

E é nesse ponto que emerge a verdadeira fragilidade do império. A guerra prolongada cobra um preço alto dentro dos próprios Estados Unidos através da inflação nos preços, pressão energética, desgaste político e crescente rejeição interna. A capacidade de sustentar conflitos longos, pilar histórico da hegemonia americana, começa a se erodir.

Mas a transformação mais profunda ocorre fora do campo de batalha. Para boa parte da opinião pública do Oriente Médio, e, de forma mais ampla, do Sul Global, a vitória não se mede apenas por território ou destruição material. Mede-se pela capacidade de permanecer de pé diante da máquina de guerra ocidental.

Nesse imaginário político, resistir já é vencer.

É essa percepção que o Ocidente insiste em subestimar. 

Durante décadas, tentou-se impor a ideia de que a submissão garantiria estabilidade, que a normalização com “Israel” era inevitável e que qualquer projeto soberano fora da órbita ocidental estava condenado ao fracasso. 

O que se observa agora é o oposto. Quanto mais o Irã foi pressionado, mais sua imagem de potência resistente se fortaleceu, e não apenas regionalmente.

O chamado “discurso de resistência” deixou de ser uma bandeira restrita e passou a funcionar como linguagem política regional. Ele atravessa fronteiras, supera divisões sectárias e dialoga com uma memória histórica marcada por colonialismo, invasões e promessas traídas. 

O fato de esse discurso ganhar eco, inclusive em comunidades sunitas, revela uma fissura estratégica no projeto ocidental de fragmentação do Oriente Médio.

Isso não significa ausência de contradições internas no Irã. Significa, sim, que a leitura popular dos acontecimentos não segue os mesmos critérios das potências ocidentais. 

Enquanto governos calculam alianças e contratos, os povos observam quem enfrenta “Israel”, quem desafia a ocupação da Palestina e quem paga o preço pelo apoio à resistência em Gaza, no Líbano, Iraque e Iêmen.

Ao mesmo tempo, o conflito expõe uma mudança no equilíbrio global. Potências como China e Rússia acompanham atentamente o desgaste norte-americano, enquanto a incapacidade de impor uma vitória clara enfraquece a credibilidade internacional dos Estados Unidos.

O resultado é uma crise de narrativa. A ideia de invencibilidade, base simbólica do poder imperial estadunidense, começa a ruir. E quando a invencibilidade do opressor é questionada, abre-se espaço para uma transformação profunda na psicologia política dos povos.

É nesse terreno que se encontra a verdadeira vitória iraniana.

Para milhões, o Irã venceu porque não se ajoelhou. E quando essa percepção se dissemina entre povos historicamente submetidos, ela se torna mais poderosa que qualquer arsenal.

¨      Israel não consegue tolerar nem um campo de futebol na Cisjordânia. Por Micol Meghnagi

a periferia do assentamento israelense de Carmel, que divide a aldeia palestina de Umm al-Kheir em duas, um campo de futebol agora se ergue em memória de Awdah Hathaleen. É um retângulo irregular de terra compactada, cercado por arame farpado e postes de metal tortos fincados no chão. Awdah Hathaleen foi morto em 28 de julho de 2025, nessa aldeia, Umm al-Kheir, no extremo sul da Cisjordânia ocupada. O colono israelense Yinon Levi atirou nele à queima-roupa; a bala atravessou seus pulmões. Awdah morreu com uma câmera na mão, filmando o que se tornara um evento quase rotineiro em sua aldeia: mais uma incursão de colonos. Awdah era professor, ativista e pai de três filhos.

Como muitas famílias da região, seus parentes foram expulsos do deserto de Naqab durante a Nakba de 1948 e acabaram se estabelecendo nas colinas acidentadas ao sul de Hebron. Ao longo dos anos, Awdah tornou-se uma das figuras mais proeminentes da resistência não violenta na região. Ele documentou a violência dos colonos, acompanhou delegações internacionais pelas aldeias das colinas do sul de Hebron e trabalhou ao lado de ativistas palestinos, israelenses e internacionais para proteger sua comunidade de demolições, confiscos de terras e das tensões diárias do domínio colonial.

Umm al-Kheir situa-se na área conhecida como Masafer Yatta, dentro da Área C da Cisjordânia ocupada. Abrangendo cerca de 60% da Cisjordânia, a Área C é a parte do território que, segundo os Acordos de Oslo de 1993-1994, deveria passar gradualmente para a administração palestina como parte de um futuro Estado. Em vez disso, permanece sob total controle militar e administrativo israelense. Masafer Yatta é uma paisagem de colinas varridas pelo vento, pontilhada por cerca de vinte pequenas comunidades palestinas de pastores. As famílias aqui vivem principalmente da criação de gado e da agricultura de subsistência, muitas vezes em aldeias que carecem até mesmo da infraestrutura mais básica.

Na década de 1980, o exército israelense declarou grandes extensões desta região como campo de treinamento militar, a chamada Zona de Tiro 918. Desde então, as comunidades que ali vivem têm a constante ameaça de expulsão pairando sobre suas vidas. A maioria das aldeias não possui um plano diretor reconhecido pelas autoridades israelenses. Como resultado, quase qualquer estrutura — uma casa, uma cisterna, um painel solar, um curral de ovelhas — pode ser declarada ilegal e demolida. O acesso à água é esporádico e a eletricidade é escassa ou inexistente.

Por mais de duas décadas, os moradores de Masafer Yatta contestaram os planos do exército perante os tribunais israelenses, com o apoio jurídico de advogados e organizações de direitos humanos israelenses, incluindo a Associação para os Direitos Civis em Israel. Em maio de 2022, a Suprema Corte de Israel rejeitou as petições contra o fechamento da Zona de Tiro 918 pelos militares, permitindo, na prática, o despejo de mais de mil moradores palestinos de Masafer Yatta, no que muitas organizações de direitos humanos descreveram como “um dos maiores deslocamentos forçados de palestinos da Cisjordânia” desde o início da ocupação em 1967. A violência silenciosa que permeia a existência dessas comunidades chegou ao público internacional por meio do documentário vencedor do Oscar, No other land, dirigido pelo israelense Yuval Abraham e pela palestina Basel Adra. Awdah Hathaleen participou da produção do filme e foi uma das pessoas que tornaram a história possível.

Khalil Hathaleen, irmão de Awdah, está de pé na beira do campo de futebol construído em sua memória, batendo uma bola no chão empoeirado enquanto fala: “Depois que Awdah foi morto, fui preso junto com outros membros da comunidade. O corpo de Awdah ficou retido pelas autoridades por quase dez dias. Eles queriam nos obrigar a enterrá-lo em um funeral particular. Mas não somos criminosos. Por que Awdah não pôde ter um enterro digno?”

Durante dias após o assassinato, o corpo de Awdah não foi devolvido à família. Com a demora, as mulheres de Umm al-Kheir iniciaram uma greve de fome liderada pela esposa de Awdah, Hanadi Hathaleen, exigindo o direito de enterrá-lo com dignidade. Somente após crescente pressão, o corpo foi finalmente liberado. Quando o funeral foi finalmente autorizado, centenas de moradores, acompanhados por um pequeno grupo de ativistas, seguiram Hathaleen no trajeto da mesquita até o cemitério. Foi uma procissão silenciosa, mas rigorosamente controlada do início ao fim. Pelo menos três pontos de controle foram instalados entre a estrada principal e o cemitério, e a entrada de Umm al-Kheir permaneceu fechada por horas, impedindo que os enlutados chegassem à família para prestar condolências.

“A vida perdeu a cor desde que nos tiraram Awdah. O que me mantém vivo é continuar o caminho que ele começou. Com a ajuda de ativistas israelenses e internacionais, conseguimos construir este campo de futebol para as crianças da comunidade.” Os olhos de Khalil percorrem o campo vazio. “Era um projeto que Awdah prezava muito. Mas apenas alguns dias depois de construído, as forças israelenses afixaram uma ordem de demolição em seu portão.” O aviso foi entregue em 10 de fevereiro de 2026, colocando até mesmo este pequeno pedaço de terra sob ameaça. Apenas um mês antes, o exército israelense havia ameaçado demolir o campo de futebol no campo de refugiados de Aida, perto do Posto de Controle 300, nos arredores de Belém, que separa a cidade de Jerusalém. Após uma grande campanha de solidariedade e a intervenção do presidente da União das Associações Europeias de Futebol, Aleksander Čeferin — juntamente com a pressão da FIFA — a ordem de demolição foi revogada, pelo menos por enquanto.

“Que ameaça um campo de futebol pode representar?”, pergunta Khalil em voz baixa. “Enquanto isso, o assassino dele, Yinon Levi, continua livre. Ele vem aqui quase todos os dias para intimidar nossa comunidade, que ainda está de luto. Se ele tivesse matado um cachorro, as consequências teriam sido muito mais graves.”

Yinon Levi é o fundador do assentamento Meitarim Farm, um dos vários enclaves de colonos que surgiram nos últimos anos nas colinas do sul de Hebron. Devido ao seu envolvimento em atos de violência contra palestinos, ele foi sancionado pelo governo Biden nos Estados Unidos em 1º de fevereiro de 2024, pelo Reino Unido em 12 de fevereiro, pela União Europeia em 19 de abril e pelo Canadá em 16 de maio; a França adotou medidas semelhantes no mesmo ano. Essas sanções estadunidenses foram efetivamente revogadas em 20 de janeiro de 2025, no mesmo dia em que Donald Trump retornou à Casa Branca; o nome de Levi foi formalmente removido da lista de sanções quatro dias depois. Após matar Awdah Hathaleen, Levi passou apenas alguns dias em prisão domiciliar antes de retornar para intimidar a comunidade de Umm al-Kheir. Em 26 de fevereiro de 2026, promotores israelenses anunciaram a intenção de acusá-lo de homicídio culposo, um crime que prevê pena máxima de doze anos de prisão. Nenhuma sentença final foi proferida até o momento. Segundo dados compilados pelos grupos israelenses de direitos humanos B’Tselem e Yesh Din, aproximadamente 93% das investigações sobre a violência de colonos contra palestinos são encerradas sem indiciamento, e apenas cerca de 3% resultam em condenação.

“A violência por parte dos colonos, as restrições militares e as apropriações de terras operam cada vez mais em conjunto… O efeito cumulativo dessas políticas resulta em uma transformação gradual, porém deliberada, da geografia da Cisjordânia.”

Enquanto Khalil fala, Eid Suleiman, um ativista pacifista de Umm al-Kheir, se aproxima da beira do campo de futebol. Ele também foi preso após o assassinato de Awdah e mantido na prisão de Ofer, perto de Ramallah. Ele gesticula em direção ao campo. “Estamos apenas tentando dar aos nossos filhos uma vida digna. Assim que construímos este campo, soldados e policiais chegaram. Eles nos acusaram de construção ilegal. Mas isto não é um prédio. É simplesmente um pedaço de terra onde as crianças podem brincar.” Para Eid, o padrão é inconfundível. “Eles constroem novos postos avançados. Tomam mais terras. Intimidam as pessoas que moram aqui. Querem tornar a vida impossível para os palestinos. Eles não expulsam você diretamente. Tornam impossível a sua permanência. Conhecemos muito bem essa estratégia. Faz parte do projeto de anexação da Cisjordânia. O objetivo é anexar a Área C e empurrar os palestinos para a Área A em volta.” Há dois anos, a própria casa de Eid foi demolida. “O tribunal ordenou”, acrescenta ele. “Perdi minha casa. Meus filhos viram tudo.”

A deterioração das condições na Cisjordânia desde 7 de outubro de 2023 foi documentada por dezenas de organizações de direitos humanos. A B’Tselem alertou que a escalada regional corre o risco de acelerar o processo de colonização no território, descrevendo o momento atual como marcado pela progressiva atuação em conjunto da violência por parte dos colonos, as restrições militares e as apropriações de terras. Em diversos relatórios publicados ao longo do último ano, a organização argumentou que o efeito cumulativo dessas políticas equivale a uma transformação gradual, porém deliberada, da geografia da Cisjordânia.

Desde o início da guerra entre Israel, os Estados Unidos e a República Islâmica do Irã, em 28 de fevereiro, a maioria dos portões que controlam a circulação na Cisjordânia foi fechada. Barreiras metálicas que já pontilhavam a paisagem permaneceram trancadas por dias seguidos, isolando vilarejos de cidades próximas e impedindo o acesso de agricultores às suas plantações. Até mesmo a já limitada liberdade de deslocamento entre cidades e vilarejos palestinos tornou-se ainda mais restrita. Viagens que antes levavam quinze minutos agora podem se estender por horas, enquanto motoristas são obrigados a navegar por um labirinto de postos de controle, bloqueios de estradas e patrulhas militares. Em todo o território, os assentamentos de colonos continuaram a se expandir. Muitos deles começam como um pequeno grupo de caravanas instaladas no topo de uma colina e, em poucos meses, se tornam bases permanentes, frequentemente acompanhadas por novas estradas, cercas e patrulhas armadas.

Organizações de direitos humanos também documentaram um aumento acentuado nos ataques contra comunidades palestinas na Cisjordânia: pastagens queimadas, olivais destruídos, casas e infraestrutura hídrica vandalizadas. Na região de Masafer Yatta, em 7 de março, um agricultor palestino, Amir Muhammad Shanaran, foi morto por um reservista israelense na mesma área onde Awdah Hathaleen havia sido morto meses antes. Shanaran tinha 28 anos e era pai de duas crianças. Mais uma vez, o assassinato foi filmado. Em 14 de março, em Umm al-Kheir, a sobrinha de Awdah, Siwar Salem Hathaleen, de cinco anos, foi atropelada por um carro dirigido por um israelense que saía do assentamento de Carmel. Três ativistas judeus estadunidenses que testemunharam o incidente foram detidos após denunciá-lo à polícia israelense. Um deles, membro do Centro para a Não-Violência Judaica, foi posteriormente deportado para o Egito pela fronteira de Taba. Até 19 de março de 2026, pelo menos vinte e seis palestinos, incluindo seis crianças, já haviam sido mortos na Cisjordânia por forças israelenses ou colonos desde o início do ano, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

“Você acha que haverá justiça?”, pergunta Eid. Enquanto ele se cala, o muezim da mesquita local começa o chamado para a oração. São cerca de cinco da tarde. Mais um dia do Ramadã está chegando ao fim. Um veículo da polícia israelense atravessa Umm al-Kheir pela estrada que leva ao assentamento de Carmel. Atrás dele, dominando o espaço, surge à vista uma grande placa em memória de Awdah. Nela se lê:

Awdah, que sua memória ilumine o caminho para a justiça.

Aqui de pé. Permanecendo aqui. Permanentemente aqui. Eternamente aqui.

E temos um objetivo. Um. Apenas um: ser.

 

Fonte: Brasil 247/Jacobin Brasil

 

Nenhum comentário: