Sayid
Marcos Tenório: Irã, a crise do poder dos EUA e o fim da narrativa imperial
A
guerra também se vence no terreno da percepção. E é precisamente nesse campo
que o Irã alcançou sua vitória mais decisiva. Ao enfrentar simultaneamente os
Estados Unidos e “Israel” sem capitular, o Irã converteu resistência,
sobrevivência e capacidade de pressão em capital político regional.
Não se
trata de uma vitória militar clássica, mas de algo talvez mais profundo, que é
a consolidação da imagem de um ator que impõe limites ao poder imperial.
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O
próprio debate interno nos Estados Unidos começa a reconhecer essa realidade. E
expõe um desconforto crescente com a queda do mito da superioridade militar
norte-americana, que já não garante vitória estratégica.
Destruir
alvos, neutralizar infraestruturas ou lançar ofensivas de alta precisão não
resolve o problema central, que é a incapacidade de transformar força em
controle político duradouro.
Essa
não é uma novidade histórica. Do Vietnã ao Afeganistão, o poder de fogo dos
Estados Unidos mostrou-se insuficiente para garantir estabilidade ou submissão.
O que muda agora nesse contexto é que o Irã não apenas resiste, mas reorganiza
o campo de disputa, deslocando o conflito para uma lógica assimétrica,
prolongada e politicamente desgastante para o adversário.
Ao
evitar o confronto direto, o Irã opera por meio de uma arquitetura de
resistência que inclui aliados regionais, tecnologias de baixo custo, como
drones e mísseis, e o controle indireto de pontos estratégicos
fundamentais.
Essa
estratégia impõe custos contínuos ao inimigo e redefine o equilíbrio do
conflito. Já não se trata de quem possui mais poder militar, mas de quem
consegue sustentar o confronto sem colapsar politicamente.
E é
nesse ponto que emerge a verdadeira fragilidade do império. A guerra prolongada
cobra um preço alto dentro dos próprios Estados Unidos através da inflação nos
preços, pressão energética, desgaste político e crescente rejeição interna. A
capacidade de sustentar conflitos longos, pilar histórico da hegemonia
americana, começa a se erodir.
Mas a
transformação mais profunda ocorre fora do campo de batalha. Para boa parte da
opinião pública do Oriente Médio, e, de forma mais ampla, do Sul Global, a
vitória não se mede apenas por território ou destruição material. Mede-se pela
capacidade de permanecer de pé diante da máquina de guerra ocidental.
Nesse
imaginário político, resistir já é vencer.
É essa
percepção que o Ocidente insiste em subestimar.
Durante
décadas, tentou-se impor a ideia de que a submissão garantiria estabilidade,
que a normalização com “Israel” era inevitável e que qualquer projeto soberano
fora da órbita ocidental estava condenado ao fracasso.
O que
se observa agora é o oposto. Quanto mais o Irã foi pressionado, mais sua imagem
de potência resistente se fortaleceu, e não apenas regionalmente.
O
chamado “discurso de resistência” deixou de ser uma bandeira restrita e passou
a funcionar como linguagem política regional. Ele atravessa fronteiras, supera
divisões sectárias e dialoga com uma memória histórica marcada por
colonialismo, invasões e promessas traídas.
O fato
de esse discurso ganhar eco, inclusive em comunidades sunitas, revela uma
fissura estratégica no projeto ocidental de fragmentação do Oriente Médio.
Isso
não significa ausência de contradições internas no Irã. Significa, sim, que a
leitura popular dos acontecimentos não segue os mesmos critérios das potências
ocidentais.
Enquanto
governos calculam alianças e contratos, os povos observam quem enfrenta
“Israel”, quem desafia a ocupação da Palestina e quem paga o preço pelo apoio à
resistência em Gaza, no Líbano, Iraque e Iêmen.
Ao
mesmo tempo, o conflito expõe uma mudança no equilíbrio global. Potências como
China e Rússia acompanham atentamente o desgaste norte-americano, enquanto a
incapacidade de impor uma vitória clara enfraquece a credibilidade
internacional dos Estados Unidos.
O
resultado é uma crise de narrativa. A ideia de invencibilidade, base simbólica
do poder imperial estadunidense, começa a ruir. E quando a invencibilidade do
opressor é questionada, abre-se espaço para uma transformação profunda na
psicologia política dos povos.
É nesse
terreno que se encontra a verdadeira vitória iraniana.
Para
milhões, o Irã venceu porque não se ajoelhou. E quando essa percepção se
dissemina entre povos historicamente submetidos, ela se torna mais poderosa que
qualquer arsenal.
¨
Israel não consegue tolerar nem um campo de futebol na
Cisjordânia. Por Micol Meghnagi
a
periferia do assentamento israelense de Carmel, que divide a aldeia palestina
de Umm al-Kheir em duas, um campo de futebol agora se ergue em memória de Awdah
Hathaleen. É um retângulo irregular de terra compactada, cercado por arame
farpado e postes de metal tortos fincados no chão. Awdah Hathaleen foi morto em
28 de julho de 2025, nessa aldeia, Umm al-Kheir, no extremo sul da Cisjordânia
ocupada. O colono israelense Yinon Levi atirou nele à queima-roupa; a bala
atravessou seus pulmões. Awdah morreu com uma câmera na mão, filmando o que se
tornara um evento quase rotineiro em sua aldeia: mais uma incursão de colonos.
Awdah era professor, ativista e pai de três filhos.
Como
muitas famílias da região, seus parentes foram expulsos do deserto de Naqab
durante a Nakba de 1948 e acabaram se estabelecendo nas colinas acidentadas ao
sul de Hebron. Ao longo dos anos, Awdah tornou-se uma das figuras mais
proeminentes da resistência não violenta na região. Ele documentou a violência
dos colonos, acompanhou delegações internacionais pelas aldeias das colinas do
sul de Hebron e trabalhou ao lado de ativistas palestinos, israelenses e
internacionais para proteger sua comunidade de demolições, confiscos de terras
e das tensões diárias do domínio colonial.
Umm
al-Kheir situa-se na área conhecida como Masafer Yatta, dentro da Área C da
Cisjordânia ocupada. Abrangendo cerca de 60% da Cisjordânia, a Área C é a parte
do território que, segundo os Acordos de Oslo de 1993-1994, deveria passar
gradualmente para a administração palestina como parte de um futuro Estado. Em
vez disso, permanece sob total controle militar e administrativo israelense.
Masafer Yatta é uma paisagem de colinas varridas pelo vento, pontilhada por
cerca de vinte pequenas comunidades palestinas de pastores. As famílias aqui
vivem principalmente da criação de gado e da agricultura de subsistência,
muitas vezes em aldeias que carecem até mesmo da infraestrutura mais básica.
Na
década de 1980, o exército israelense declarou grandes extensões desta região
como campo de treinamento militar, a chamada Zona de Tiro 918. Desde então, as
comunidades que ali vivem têm a constante ameaça de expulsão pairando sobre
suas vidas. A maioria das aldeias não possui um plano diretor reconhecido pelas
autoridades israelenses. Como resultado, quase qualquer estrutura — uma casa,
uma cisterna, um painel solar, um curral de ovelhas — pode ser declarada ilegal
e demolida. O acesso à água é esporádico e a eletricidade é escassa ou
inexistente.
Por
mais de duas décadas, os moradores de Masafer Yatta contestaram os planos do
exército perante os tribunais israelenses, com o apoio jurídico de advogados e
organizações de direitos humanos israelenses, incluindo a Associação para os
Direitos Civis em Israel. Em maio de 2022, a Suprema Corte de Israel rejeitou
as petições contra o fechamento da Zona de Tiro 918 pelos militares,
permitindo, na prática, o despejo de mais de mil moradores palestinos de
Masafer Yatta, no que muitas organizações de direitos humanos descreveram como
“um dos maiores deslocamentos forçados de palestinos da Cisjordânia” desde o
início da ocupação em 1967. A violência silenciosa que permeia a existência
dessas comunidades chegou ao público internacional por meio do documentário vencedor
do Oscar, No other land, dirigido pelo israelense Yuval Abraham e
pela palestina Basel Adra. Awdah Hathaleen participou da produção do filme e
foi uma das pessoas que tornaram a história possível.
Khalil
Hathaleen, irmão de Awdah, está de pé na beira do campo de futebol construído
em sua memória, batendo uma bola no chão empoeirado enquanto fala: “Depois que
Awdah foi morto, fui preso junto com outros membros da comunidade. O corpo de
Awdah ficou retido pelas autoridades por quase dez dias. Eles queriam nos
obrigar a enterrá-lo em um funeral particular. Mas não somos criminosos. Por
que Awdah não pôde ter um enterro digno?”
Durante
dias após o assassinato, o corpo de Awdah não foi devolvido à família. Com a
demora, as mulheres de Umm al-Kheir iniciaram uma greve de fome liderada pela
esposa de Awdah, Hanadi Hathaleen, exigindo o direito de enterrá-lo com
dignidade. Somente após crescente pressão, o corpo foi finalmente liberado.
Quando o funeral foi finalmente autorizado, centenas de moradores, acompanhados
por um pequeno grupo de ativistas, seguiram Hathaleen no trajeto da mesquita
até o cemitério. Foi uma procissão silenciosa, mas rigorosamente controlada do
início ao fim. Pelo menos três pontos de controle foram instalados entre a
estrada principal e o cemitério, e a entrada de Umm al-Kheir permaneceu fechada
por horas, impedindo que os enlutados chegassem à família para prestar
condolências.
“A vida
perdeu a cor desde que nos tiraram Awdah. O que me mantém vivo é continuar o
caminho que ele começou. Com a ajuda de ativistas israelenses e internacionais,
conseguimos construir este campo de futebol para as crianças da comunidade.” Os
olhos de Khalil percorrem o campo vazio. “Era um projeto que Awdah prezava
muito. Mas apenas alguns dias depois de construído, as forças israelenses
afixaram uma ordem de demolição em seu portão.” O aviso foi entregue em 10 de
fevereiro de 2026, colocando até mesmo este pequeno pedaço de terra sob ameaça.
Apenas um mês antes, o exército israelense havia ameaçado demolir o campo de
futebol no campo de refugiados de Aida, perto do Posto de Controle 300, nos
arredores de Belém, que separa a cidade de Jerusalém. Após uma grande campanha
de solidariedade e a intervenção do presidente da União das Associações
Europeias de Futebol, Aleksander Čeferin — juntamente com a pressão da FIFA — a
ordem de demolição foi revogada, pelo menos por enquanto.
“Que
ameaça um campo de futebol pode representar?”, pergunta Khalil em voz baixa.
“Enquanto isso, o assassino dele, Yinon Levi, continua livre. Ele vem aqui
quase todos os dias para intimidar nossa comunidade, que ainda está de luto. Se
ele tivesse matado um cachorro, as consequências teriam sido muito mais
graves.”
Yinon
Levi é o fundador do assentamento Meitarim Farm, um dos vários enclaves de
colonos que surgiram nos últimos anos nas colinas do sul de Hebron. Devido ao
seu envolvimento em atos de violência contra palestinos, ele foi sancionado
pelo governo Biden nos Estados Unidos em 1º de fevereiro de 2024, pelo Reino
Unido em 12 de fevereiro, pela União Europeia em 19 de abril e pelo Canadá em
16 de maio; a França adotou medidas semelhantes no mesmo ano. Essas sanções
estadunidenses foram efetivamente revogadas em 20 de janeiro de 2025, no mesmo
dia em que Donald Trump retornou à Casa Branca; o nome de Levi foi formalmente
removido da lista de sanções quatro dias depois. Após matar Awdah Hathaleen,
Levi passou apenas alguns dias em prisão domiciliar antes de retornar para
intimidar a comunidade de Umm al-Kheir. Em 26 de fevereiro de 2026, promotores
israelenses anunciaram a intenção de acusá-lo de homicídio culposo, um crime
que prevê pena máxima de doze anos de prisão. Nenhuma sentença final foi
proferida até o momento. Segundo dados compilados pelos grupos israelenses de
direitos humanos B’Tselem e Yesh Din, aproximadamente 93% das investigações
sobre a violência de colonos contra palestinos são encerradas sem indiciamento,
e apenas cerca de 3% resultam em condenação.
“A
violência por parte dos colonos, as restrições militares e as apropriações de
terras operam cada vez mais em conjunto… O efeito cumulativo dessas políticas
resulta em uma transformação gradual, porém deliberada, da geografia da
Cisjordânia.”
Enquanto
Khalil fala, Eid Suleiman, um ativista pacifista de Umm al-Kheir, se aproxima
da beira do campo de futebol. Ele também foi preso após o assassinato de Awdah
e mantido na prisão de Ofer, perto de Ramallah. Ele gesticula em direção ao
campo. “Estamos apenas tentando dar aos nossos filhos uma vida digna. Assim que
construímos este campo, soldados e policiais chegaram. Eles nos acusaram de
construção ilegal. Mas isto não é um prédio. É simplesmente um pedaço de terra
onde as crianças podem brincar.” Para Eid, o padrão é inconfundível. “Eles
constroem novos postos avançados. Tomam mais terras. Intimidam as pessoas que
moram aqui. Querem tornar a vida impossível para os palestinos. Eles não
expulsam você diretamente. Tornam impossível a sua permanência. Conhecemos
muito bem essa estratégia. Faz parte do projeto de anexação da Cisjordânia. O
objetivo é anexar a Área C e empurrar os palestinos para a Área A em volta.” Há
dois anos, a própria casa de Eid foi demolida. “O tribunal ordenou”, acrescenta
ele. “Perdi minha casa. Meus filhos viram tudo.”
A
deterioração das condições na Cisjordânia desde 7 de outubro de 2023 foi
documentada por dezenas de organizações de direitos humanos. A B’Tselem alertou
que a escalada regional corre o risco de acelerar o processo de colonização no
território, descrevendo o momento atual como marcado pela progressiva atuação
em conjunto da violência por parte dos colonos, as restrições militares e as
apropriações de terras. Em diversos relatórios publicados ao longo do último
ano, a organização argumentou que o efeito cumulativo dessas políticas equivale
a uma transformação gradual, porém deliberada, da geografia da Cisjordânia.
Desde o
início da guerra entre Israel, os Estados Unidos e a República Islâmica do Irã,
em 28 de fevereiro, a maioria dos portões que controlam a circulação na
Cisjordânia foi fechada. Barreiras metálicas que já pontilhavam a paisagem
permaneceram trancadas por dias seguidos, isolando vilarejos de cidades
próximas e impedindo o acesso de agricultores às suas plantações. Até mesmo a
já limitada liberdade de deslocamento entre cidades e vilarejos palestinos
tornou-se ainda mais restrita. Viagens que antes levavam quinze minutos agora
podem se estender por horas, enquanto motoristas são obrigados a navegar por um
labirinto de postos de controle, bloqueios de estradas e patrulhas militares.
Em todo o território, os assentamentos de colonos continuaram a se expandir.
Muitos deles começam como um pequeno grupo de caravanas instaladas no topo de
uma colina e, em poucos meses, se tornam bases permanentes, frequentemente
acompanhadas por novas estradas, cercas e patrulhas armadas.
Organizações
de direitos humanos também documentaram um aumento acentuado nos ataques contra
comunidades palestinas na Cisjordânia: pastagens queimadas, olivais destruídos,
casas e infraestrutura hídrica vandalizadas. Na região de Masafer Yatta, em 7
de março, um agricultor palestino, Amir Muhammad Shanaran, foi morto por um
reservista israelense na mesma área onde Awdah Hathaleen havia sido morto meses
antes. Shanaran tinha 28 anos e era pai de duas crianças. Mais uma vez, o
assassinato foi filmado. Em 14 de março, em Umm al-Kheir, a sobrinha de Awdah,
Siwar Salem Hathaleen, de cinco anos, foi atropelada por um carro dirigido por
um israelense que saía do assentamento de Carmel. Três ativistas judeus
estadunidenses que testemunharam o incidente foram detidos após denunciá-lo à
polícia israelense. Um deles, membro do Centro para a Não-Violência Judaica,
foi posteriormente deportado para o Egito pela fronteira de Taba. Até 19 de
março de 2026, pelo menos vinte e seis palestinos, incluindo seis crianças, já
haviam sido mortos na Cisjordânia por forças israelenses ou colonos desde o
início do ano, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação
de Assuntos Humanitários.
“Você
acha que haverá justiça?”, pergunta Eid. Enquanto ele se cala, o muezim da
mesquita local começa o chamado para a oração. São cerca de cinco da tarde.
Mais um dia do Ramadã está chegando ao fim. Um veículo da polícia israelense
atravessa Umm al-Kheir pela estrada que leva ao assentamento de Carmel. Atrás
dele, dominando o espaço, surge à vista uma grande placa em memória de Awdah.
Nela se lê:
Awdah,
que sua memória ilumine o caminho para a justiça.
Aqui de
pé. Permanecendo aqui. Permanentemente aqui. Eternamente aqui.
E temos
um objetivo. Um. Apenas um: ser.
Fonte:
Brasil 247/Jacobin Brasil

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