Roberto
Amaral: Estranhos tempos mórbidos
Com
Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política] consiste precisamente no
fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno,
verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”.
Trazendo
a formulação do autor de Cadernos do Cárcere para os tempos de hoje, talvez
seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode nascer
(ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma
história regressiva.
Este
velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas palavras, novos meios — mas
sempre regressivo, anistórico, autoritário.
São os
estranhos tempos mórbidos, estes nossos.
A
história presente — um presente mirando o caos, sem ensejar a visão de futuro
imediato — pode ser vista como “ponto morto” (tempo sem promessa de avanço ou
recuo) e já foi descrita como “intervalo histórico”.
Nada
obstante as tensões, sua característica não é, quase nunca, a mobilização
social. Trata-se de tempo de espera, indefinido, sem caráter. Está aberto a
soluções regressivas (por sinal, é este, hoje, o cenário dominante na América
do Sul), que podem construir a ruptura democrática ou a continuidade
autoritária, jamais a revolução, projeto que comoveu as grandes massas no
século passado.
Este
espaço em aberto, ainda não identificado nem classificado, é rico na proposição
de impasses.
É o
quadro da ordem internacional na corrida para o imponderável, que pode ser,
até, a grande guerra na qual apostam — ou parecem apostar — os EUA, deixando no
seu rastro o avanço quase planetário da extrema-direita, causa ou efeito da
regressão mundial das mobilizações populares, filha da crise do trabalho e,
como decorrência inevitável, filha da crise do sindicalismo e dos partidos de
esquerda, nomeadamente dos partidos socialistas e comunistas ocidentais.
E
sempre incumbe lembrar a lamentável e exemplar exaustão do PCI e do PCF,
atingidos de morte pela debacle da URSS, em cuja sequência os partidos
comunistas que detinham o poder no Leste Europeu logo saíram de cena, e as
insurgências revolucionárias foram aplacadas. Nesse sentido, aproximam-se
Europa e América do Sul com seus governos de direita, sob a regência dos EUA em
guerra pela conquista do mundo.
A
aventura nazifascista dos anos 30-40 do século passado mina qualquer sorte de
surpresa.
Atribui-se
a Mark Twain a boutade segundo a qual “a história não se repete, mas rima”.
De
outra parte, podemos dizer que, no Brasil, ela é recorrente. Em qualquer
hipótese, será sempre um óbvio ululante afirmar que o processo político é
conduzido pelas alterações das circunstâncias históricas. Com ele trabalhamos.
A cada alteração da correlação de forças — sobre a qual atuam os homens e as
instituições — corresponde uma nova etapa histórica. É consabido.
A etapa
de hoje conjuga a crise do capitalismo (um sistema global financeirizado e
oligopolista) à expansão do imperialismo norte-americano.
Vivemos
o rescaldo da frustração contemporânea das promessas e esperanças dos governos
de centro-esquerda e sociais-democratas nestas primeiras décadas do século,
decaídos na armadilha do neoliberalismo: ajuste fiscal, regime de metas de
inflação, câmbio flutuante (implicando maior exposição aos fluxos financeiros
internacionais, reduzindo a margem de manobra das políticas econômicas
nacionais), contenção dos gastos sociais indispensáveis etc.
Uma
política econômica no contrapelo de promessas e compromissos de campanha. Seu
efeito óbvio, na esteira da desilusão social, foi preparar o terreno para a
ascensão de governos de direita e extrema-direita.
Alguns
meros indicadores: os governos de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Michelle
Bachelet, sucedidos como foram, e ainda de François Hollande, abrindo o espaço
que seria ocupado pelo avanço de Marine Le Pen; e, nos pouco auspiciosos termos
de nosso processo político, as dificuldades do atual governo Lula e o temor de
grave retrocesso político-histórico nas eleições de outubro próximo.
Como
sempre, a desilusão social, agora como nas primeiras décadas do século passado,
na Europa e no mundo, abre um vazio político prontamente ocupado pela direita,
como foi o caso das eleições de Javier Milei e Jair Bolsonaro, que emergiu da
insignificância política para a liderança da extrema-direita brasileira.
A crise
das experiências de centro-esquerda nestas primeiras décadas do nosso século
revela um desvio político-ideológico. Eleitos sob o signo da mudança, nossos
governos submeteram-se (por força das contingências ou despreparo estratégico)
aos marcos do neoliberalismo. O que se se segue, são suas consequências. E as
consequências sempre vêm depois, como lembrava o eçaniano Conselheiro Acácio.
É
preciso registrar que a ameaça neofascista emerge em um mundo no qual as
insurgências proletárias, socialistas revolucionárias, de um modo geral, estão
em recesso, e a humanidade já não dispõe, como dispôs no passado (os anos de
confronto com o Eixo), do concurso da URSS e de uns EUA comprometidos nalguma
medida, como estavam naquele então, com promessas democráticas.
Ante o
colapso da Europa, foram esses países que ganharam para nós a guerra. Hoje, as
novas circunstâncias históricas nos lembram que a URSS já não existe e que os
EUA, na guerra sem limite de meios pela conservação da liderança mundial,
ameaçada, são o farol e o motor do novo fascismo.
No
Brasil, a extrema-direita cresce ineditamente (anos-luz para além dos sonhos do
integralismo nos anos 1930, namorando o Estado Novo e tentando
desestabilizá-lo, como em 1938) como movimento de massas, oferecendo base
popular à construção do projeto regressista.
Nada
justifica a alegativa de supressas, pois a onda que inundou a praia em 2018 já
se vinha anunciando desde o difícil processo eleitoral de 2014 e a reeleição de
Dilma Rousseff, com os desdobramentos conhecidos e a infâmia do impeachment
farsesco.
É nesse
limiar que, do baixo ou baixíssimo clero, emerge e se fortalece o
“bolsonarismo”, que passa a oferecer base popular para o neofascismo
tupiniquim, em marcha, a partir principalmente do governo títere do vice
perjuro, feito presidente pela tramoia da cassação do mandato da presidente.
A
regressão, fenômeno político posto em forma por um sem-número de causas e
concausas, tanto conhece os efeitos da crise da esquerda de um modo geral,
quanto da falência do neoliberalismo, do qual nossos governos não lograram
fugir ou resistir, vencido o discurso programático pela realpolitik, que impõe
todas as concessões necessárias como contrapartida da pura e simples
conservação do governo, ainda quando o poder escapa das mãos do governante.
A arte
de governar se confunde com a arte da conciliação, regra irrevogável de nossa
história política, projeto da classe dominante para se manter no poder. É a
chave para entender o Brasil e o drama de hoje. Certamente o mal de origem,
para lembrar Manoel Bomfim.
O drama
da esquerda reformista, ante o recesso da esquerda socialista, no Brasil e não
só aqui, é o preço cobrado à adoção da conciliação como estratégia, e não como
tática, como ela é recepcionada no jogo da política.
Autonomizada,
elevada ao plano de sujeito, jamais serviu seja para o avanço dos interesses
das grandes massas, seja para a consolidação democrática, processo que jamais
se conclui em país permanentemente à espera de um futuro que, dele,
desgraçadamente, mais se afasta, quanto dele mais intenta aproximar-se.
Seja
como for, a política de conciliação como projeto de nação parece já ter dado os
poucos frutos que poderia oferecer e se apresenta, hoje, esgotada, devendo ser
declarada perempta.
A
difícil eleição de Lula em 2022, a intentona de janeiro de 2023, a difícil
sustentação político-parlamentar do governo (exposta em sucessivas derrotas na
Câmara e no Senado) não devem ser vistas como fatos isolados e muito menos como
fenômenos “fora da curva”.
Nesse
contexto é que devemos considerar a rejeição, pelo Senado, ao procurador Jorge
Messias, indicado pelo presidente da República para uma vaga no STF. Trata-se
de fato institucionalmente grave, é verdade, no entanto, não deve ser visto,
isoladamente, como mais uma “crise”, senão como estilhaço da grande crise
republicana de nossos dias.
Ponto
final de uma trama de forças convergentes, nenhuma crise é um fato em si,
historicamente isolável; jamais é um episódio, mas sempre um processo.
Conquanto grave do ponto de vista institucional, a má conduta do Senado não
configura nem ponto de partida nem ponto de chegada.
Na
história, águas passadas movem moinhos.
Vejamos.
Ainda
lendo Gramsci, sabemos que o momento crítico não inaugura a crise, apenas torna
visível aquilo que já se vinha acumulando nas profundezas da estrutura social,
muitas vezes imperceptíveis aos sonares dos cientistas sociais: tensões
latentes, fissuras no consenso, deslocamentos silenciosos.
Nesse
sentido, nenhuma transformação política se explica por um fator isolado, senão
pela lenta e muitas vezes imperceptível alteração da correlação de forças entre
as classes, que redefine os limites do possível.
As
rupturas não irrompem como acidentes súbitos, nem se deixam atribuir a um
evento singular, próprio; respondem ao desfecho de um desgaste progressivo e
cumulativo das formas de direção política, quando a hegemonia (no sentido
gramsciano) se rarefaz e o comando já não logra organizar, nem intelectual nem
politicamente, o conjunto social.
É
quando, sem se dar por si, o sistema “envelhece”, o que, em texto anterior,
denominei “fadiga de materiais”. Nosso discurso e nosso projeto permanecem
coerentes com os marcos de sua origem, mas as circunstâncias políticas se
alteraram.
Já é
tempo de a esquerda (e o nosso governo) ter consciência — para daí agir — de
que as eleições de outubro podem significar mudanças mais profundas do que a
simples troca da regência do Planalto.
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Isso é natural?
Entre
os elementos mais perturbadores da atual quadra histórica destaca-se a
naturalização do absurdo. Senão, vejamos: o atual líder do regime estadunidense
apoia um genocídio, sequestra um chefe de Estado (assassinando, para tal, cerca
de 100 pessoas), fabrica uma guerra que – para além do morticínio inaceitável –
desestabiliza a geopolítica global, utiliza tarifas como arma e distribui
achaques e insultos até mesmo aos aliados mais tradicionais. Apesar disso tudo,
livre de qualquer sanção, é agraciado com o “Prêmio da Paz” da FIFA e tratado
com subserviência: por exemplo, a próxima reunião do G7 (prevista para ocorrer
em Évian-les-Bains, na França) teve sua data alterada, pois em 14 de julho
Trump organizará um evento de artes marciais na Casa Branca. Não bastasse, os
EUA sediarão, em dezembro, a próxima cúpula de líderes do G20 – foro que
Washington cuida de esvaziar –, em local que consiste numa verdadeira explosão
semiótica: o complexo hoteleiro e clube de golfe Trump National Doral, em
Miami, Flórida. Mais que nunca, lembremos o pedido insistente de Bertold
Brecht: “Nunca digam – isso é natural! – diante dos acontecimentos de cada
dia.”
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A ida ao bunker
– Nesse
contexto, a recente visita do presidente Lula à Casa Branca, cujos elementos
ainda não são de todo conhecidos, apresenta sinais diversos, contraditórios
entre si, abertos a diversas interpretações. Se o meneio que o chefe de Estado
brasileiro precisa fazer a um líder como Trump reflete o cenário distópico dos
nossos dias, é certo também que a aparente urbanidade com que se desenrolou o
encontro oferta boas lições à extrema-direita nativa e aos jornalões que lhe
servem de retaguarda tática, sempre cobrando covardia do governo do Brasil –
caso especial de O Globo. Neste sentido, Lula foi cirúrgico ao declarar, na
entrevista após o encontro, na Embaixada brasileira: “Não se pode exigir uma
guerra contra o crime organizado enquanto o principal mercado consumidor,
financeiro e de armamentos do hemisfério continuar a alimentar a estrutura
empresarial [do crime]”. Resta, contudo, saber se essa firmeza e altivez se
estenderam aos diálogos com os norte-americanos sobre outros temas sensíveis,
como o dos minerais estratégicos.
Fonte:
Viomundo

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