Renato
Dagnino: A formação dos quadros da esquerda
Têm
aparecido iniciativas relacionadas à formação de militantes de esquerda e à
ampliação de simpatizantes. Num dos campos em que atuo, o da Economia solidária
(ES), têm sido anunciados programas com a participação de organizações de
várias naturezas.
A
intenção deste texto é, num plano teórico e heurístico, provocar uma reflexão
dos atores envolvidos com essas iniciativas sobre como aumentar a eficácia dos
processos de formação.
O texto
reduz a questão, consciente dos inconvenientes que podem daí derivar, à análise
de cinco componentes (ou dimensões) desses processos: cultura, marco
analítico-conceitual, instrumentos metodológico-operacionais e elaboração de
política pública.
Ele
ademais assume como ponto de partida o fato de que os discentes desses
processos, como resultado de sua experiência, formação anterior etc., possuem
conhecimentos qualitativa e quantitativamente diferenciados acerca de cada um
desses componentes. Mas que é provável que seja em relação ao primeiro, o da
cultura, aquele onde eles mais se aproximem.
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Os componentes do processo formativo e seus objetivos
O
processo formativo deve promover em cada participante a capacidade de atuar, em
consonância com a proposta da esquerda, de modo coletivo, participativo e
autogestionário.
Os
cinco componentes possuem uma derivação cognitiva causal que tem como primeiro
elemento (ou componente) a cultura. Integram-na os princípios (valores,
interesses, ideologia…) da organização da sociedade proposta pela esquerda
contemporânea que a diferencia da formação econômico-social capitalista.
Esses
princípios podem ser resumidos por oposição aos três elementos-chave do
capitalismo:
-
solidariedade em vez de competição;
-
autogestão em vez de heterogestão; e,
- como
derivação lógica mais do que como condição de “transição para o socialismo”,
propriedade coletiva dos meios de produção em vez de propriedade privada ou
estatal. Eles são a ideia-força que permeia e deve ser retomada ao longo de
todo o processo de formação.
Propõe-se.
A seguir uma síntese de objetivos para cada um dos componentes do processo.
Devido a que sua origem é uma iniciativa de formação de integrantes do
movimento de Economia solidária, eles se referem reiteradamente a ela. E também
por que esse movimento é apontado por vários autores, entre os quais me incluo,
como a ponta de lança da construção do cenário desejado pela esquerda.
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Como alocar o esforço a cada componente?
Parte-se
aqui da noção de que o esforço dos professores, monitores e participantes (ou
alunos) do processo formativo, que é uma composição de elementos, como tempo de
aula, pesquisa, leitura, trabalhos em grupo etc., deve ser alocado entre os
cinco componentes de maneira variável dependendo do momento em que ocorre o
processo.
Em
particular, se assume que o esforço relativo deve estar condicionado a uma
análise de conjuntura centrada na correlação de forças da esquerda (e seus
militantes) frente a de outros segmentos (e atores políticos). Deriva,
fundamentalmente, dessa análise, a prioridade relativa a ser conferida a cada
um dos cinco componentes. Os esforços de formação dedicados a esses cinco
componentes numa situação hipotética tomada como referência em que uma equipe
da qual participei concebeu um processo formativo. Ali pode-se ver que o
esforço relativo despendido ao componente “cultura” é 50%, ao MAC é 20%, aos
IMOs é 10% etc. O instrumento de análise possui dois propósitos heurísticos.
O
primeiro, descritivo e, também, de certa forma, explicativo, está associado a
uma visada situacional e estática. Ela revela o formato do pentágono delimitado
pelo estágio cognitivo no qual se supõe que se encontra o grupo de
participantes em relação àquele que se quer alcançar. E transmite a ideia de
que o processo formativo possui características de uma “mancha” sistêmica e
dinâmica delimitada pelo pentágono.
Isto é,
ele será sempre o resultado do nível cognitivo que se supõe existir no grupo
respeito a cada componente, da relação entre os componentes, da sinergia que o
crescimento num deles pode ou tende a provocar no sistema (mancha) etc.
O
pentágono graficado acima retrata uma situação em que a esquerda vem estado
sujeita a uma a correlação de forças adversa. O que implica uma alta prioridade
à recuperação de sua cultura. E, dada à virtual impossibilidade de influenciar
o processo decisório da política pública, implica uma baixa prioridade aos
componentes elaboração de política pública e instrumentos
metodológico-operacionais.
O
segundo propósito do instrumento de análise, de natureza normativa, está
associado a uma análise dinâmica ou prospectiva viando à tomada de decisão.
Ressalta, aqui, a importância da realização reiterada de análises de conjuntura
para a escolha da composição da “arranjo de componentes” que comporá o processo
de formação. É a correlação forças entre os atores políticos situados no campo
da esquerda e aqueles presentes no campo adversário (instâncias de governo,
segmentos da classe proprietária, cenário externo etc.) o que deve determinar o
esforço relativo alocado a cada componente.
O
instrumento de análise pode assinalar situações em que a elaboração de política
pública pode adquirir principalidade. O fato de ele assumir que esse componente
não apenas abarca os momentos de formulação, implementação e avaliação, mas se
refere às capacidades necessárias para mapear e quantificar interesses,
enfrentar, neutralizar ou cooptar outros atores etc., pode torná -lo
especialmente importante em momentos como aqueles que parecemos estar
atravessando.
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Analisando um momento do passado
A
partir do exposto até aqui, é possível, usando o instrumento de análise
proposto, exemplificar como se daria a alocação do esforço das pessoas
envolvidas com iniciativas de formação. Para tanto, se analisam dois casos
extremos que delimitam o espectro no qual devem se situar as opções de alocação
de esforços aos cinco componentes: o de governos contrários e favoráveis à
proposta da esquerda. a distribuição do esforço despendido por uma equipe
dedicada a conceber um processo formativo numa situação em que um governo de
direita se opõe à proposta da esquerda. Mas que, diferentemente do que se
aponta no caso anterior, sua capacidade de “pensar como esquerda”, ou seja o
componente “cultura”, tenha se mantido num nível razoável. Ainda assim, nessa
situação, a tentativa de angariar apoio político para pressionar por políticas
públicas a ela favoráveis tenderia a ser pouco exitosa. O que leva a que seja
priorizado o esforço de formação dedicado à elaboração de política pública.
O
momento, então, era de acumular forças mediante a concentração de esforços nos
três primeiros componentes. Considerou-se que, como o componente “cultura” já
estava suficientemente desenvolvido, era necessário e possível dedicar esforço
à concepção de um marco analítico-conceitual de esquerda. Foi diminuto o
esforço alocado à elaboração de política.
Para
terminar, se analisa como foi o comportamento da mesma equipe num momento
posterior quando concebeu um processo formativo numa conjuntura distinta, em
que o governo é sensível à proposta da esquerda. Essa situação é a seguir
apresentada com algum detalhe por que ela parece se aproximar da situação
existente relativa à Economia solidária.
Interessa,
por isso, mostrar como foi explorada a possibilidade de aproveitamento das
janelas de oportunidade abertas pela ocupação pela esquerda de postos-chave no
processo de decisão sobre a política pública.
O
caráter sistêmico e sinérgico do que foi denominado mancha merece ser lembrado
para chamar atenção para o fato de que um objetivo importante das pessoas
envolvidas com processo de formação deve ser a capacitação dos próprios quadros
encarregados, ainda que momentaneamente, da gestão pública.
As
companheiras e companheiros que estão no governo são vitais para viabilizar
ações de curto prazo de maturação. Ao concentrar a atenção no último
componente, relativo à elaboração das políticas públicas, a equipe verificou
que esse caráter é capaz de revelar déficits cognitivos referentes aos outros
quatro componentes.
Ela
considerou que muitos desses quadros (e até alguns chamados a implementar
processos formativos e, mesmo, a concebê-los) poderiam carecer de familiaridade
com a cultura ou o marco analítico-conceitual da esquerda. E, também, por
estarem acostumados a se orientar por outros valores, interesses e critérios a
adotar posições distintas daquelas da esquerda. O que levou a que fosse
recomendada a realização de “mini-cursos” a eles direcionados.
Como a
equipe percebeu que muitos quadros pertencentes ao governo não estivavam
suficientemente familiarizados com os instrumentos metodológico-operacionais da
esquerda, embora compartilhassem da sua cultura e até do seu marco
analítico-conceitual, ela recomendou processos formativos semelhantes,
endógenos ao ambiente de governo, de modo a sanar essa deficiência. A
distribuição do esforço despendido por essa equipe para conceber um processo
formativo numa conjuntura como a atual. Nele, se vê que ela dedicou um esforço
relativamente pequeno à cultura. Isso foi assim justificado: o conteúdo
relativo a este componente é aquele que vem sendo trabalhado de forma mais
consistente ao longo da história da esquerda e ele é o mais resiliente e ser
capaz de “sobreviver” a governos de direita.
A
avaliação da situação levou a uma priorização considerável do componente
elaboração de política uma vez que foi considerado que era vital a célere
aquisição de uma capacidade para mapear e quantificar interesses, enfrentar,
neutralizar ou cooptar e buscar (ou reforçar) alianças com outros atores.
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Considerações finais
Um
aspecto adicional relativo ao procedimento aqui proposto diz respeito a uma
dimensão programática relevante. Ela pode ser entendida como um vetor que
“atravessaria” todos os componentes.
No caso
em pauta, a equipe, por estar diretamente envolvida com a Economia solidária,
avaliou como sendo de fundamental importância a reorientação da compra pública
de bens e serviços de natureza coletiva, entendidos como valores de uso, na
direção das redes solidárias.
Por
isso, sugeriu que ela fosse adotada como um vetor temático que atravessasse os
cinco componentes fazendo com que os conteúdos de todos eles tivessem em conta
uma categoria específica de compra pública como referência cognitiva e
informacional. Adicionalmente, para torná-la mais eficaz, e dado a quase
inexistência de informação capaz de subsidiar a política pública nesse sentido,
foi priorizado o componente informacional.
Nessa
perspectiva, é interessante perceber um resultado inesperado da implementação
dessa dimensão programática. A percepção da equipe sobre a carência de um
componente informacional ainda não disponível levou a que, ao longo da
concepção do processo formativo, fosse a demandado dos responsáveis as
seguintes informações:
(i) o que o Estado compra de quem ele compra,
quanto ele paga, e como ele compra os bens serviços que compõem a compra
pública;
(ii) o mapa do “entulho burocrático-fiscal” que
impede que um agente público honesto compre ou autorize a compra da Economia
solidária;
(iii) uma lista das empresas falidas (foram
milhões nos últimos anos) que poderiam ser recuperadas pelos seus
trabalhadores.
Espero
que o relato desta experiência de concepção e implementação de uma proposta de
processo formativo possa contribuir para o debate entre os interessados.
Fonte:
A Terra é Redonda

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