A
SEGURANÇA QUE NÃO PROTEGE TODOS: O que se esconde por trás dos recordes de
Santa Catarina
Em 13
de janeiro de 2026, uma coletiva de imprensa cuidadosamente produzida, reuniu
os comandantes das forças de segurança de Santa Catarina para anunciar que o
estado havia consolidado sua posição como o “mais seguro do país”. A matéria
publicada pela Agência de Notícias da SECOM estadual, generosamente ilustrada
com gráficos descendentes e selos dourados de “melhor índice da série
histórica”, oferece um retrato reconfortante: homicídios em queda, roubos
reduzidos, estelionatos em retração e forças policiais orgulhosas de seu
trabalho. O governador Jorginho Mello (PL) sentenciou, com a solenidade que a
ocasião exigia: “não tem facilidade para bandido em Santa Catarina”.
Ocorre
que a ciência não costuma caber em selos dourados. A publicação do Atlas da
Violência 2025, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)
em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), oferece uma
oportunidade de confrontar a versão oficial com dados independentes,
metodologia robusta e séries históricas que não se curvam à conveniência de
mandatos eleitorais. O resultado dessa confrontação é incômodo.
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Uma maré que levanta todos os barcos
O dado
mais celebrado pelo governo, a taxa de 5,2 homicídios por 100 mil habitantes em
2025, é real. Mas é também enganoso quando descontextualizado. O Atlas da
Violência 2025 documenta que o Brasil, como um todo, reduziu seus homicídios em
cerca de 30% entre 2017 e 2023, passando de 65.602 para 45.747 mortes violentas
intencionais. Trata-se de uma tendência nacional alimentada por fatores que
nenhum governador, em nenhum estado, pode reivindicar como mérito individual.
O IPEA
identifica três motores dessa queda: o envelhecimento populacional, que reduz o
contingente de jovens na faixa etária mais exposta à violência letal; o
armistício entre as duas maiores facções criminais do narcotráfico; e o que o
pesquisador Daniel Cerqueira denomina “revolução invisível” da segurança
pública, ou seja, a substituição gradual do modelo inercial, baseado no
policiamento ostensivo e na força bruta, por estratégias de gestão por
resultados e inteligência policial. Em outras palavras, as causas da redução
são demográficas, conjunturais e institucionais, não pessoais.
Mais
revelador ainda: quando se compara o desempenho das unidades da federação,
Santa Catarina reduziu sua taxa de homicídios registrados em 26,1% entre 2013 e
2023, percentual inferior ao de estados como o Distrito Federal (-63,7%), São
Paulo (-54,0%), Goiás (-53,9%), Rio Grande do Norte (-39,2%) e Ceará (-37,1%),
conforme a Tabela 2.1 do Atlas. Além disso, o próprio Plano Estadual de
Segurança Pública de Santa Catarina, reconhecido pelo IPEA como parte da
chamada “revolução invisível”, foi lançado em 2018, antes do atual governo.
Jorginho Mello, que assumiu em janeiro de 2023, administra uma herança. Não a
construiu.
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Cinquenta e duas mulheres: o silêncio do triunfalismo
Se a
queda nos homicídios gerais segue a correnteza nacional, há áreas em que Santa
Catarina navega claramente contra a maré. A mais gritante é a violência contra
mulheres.
A
própria matéria oficial reconhece, quase de passagem, que o feminicídio “se
manteve estável” em 2025, com 52 vítimas, uma a mais que em 2024. Mas o dado
mais perturbador não está nesse número. Está na revelação de que 90% das
vítimas de feminicídio não possuíam medida protetiva e jamais haviam registrado
ocorrência policial. Quando nove entre dez mulheres assassinadas pelo fato de
serem mulheres não foram sequer localizadas pelo radar do Estado antes de
morrerem, estamos diante não de uma “complexidade na prevenção” (como eufemiza
o secretário de segurança), mas de uma falha sistêmica grave.
Os
dados do Atlas da Violência adensam esse diagnóstico. Segundo a Tabela 5.2,
entre 2018 e 2023, a taxa de homicídios de mulheres em Santa Catarina aumentou
7,7%, passando de 2,6 para 2,8 por 100 mil habitantes do sexo feminino. Na
comparação entre 2022 e 2023, o salto foi de 12%. Enquanto a taxa nacional de
homicídios femininos caiu 18,6% no período 2018 a 2023, Santa Catarina fez o
caminho inverso. O Atlas observa que, no país, a taxa de homicídios femininos
estagnou enquanto a taxa geral recuou 2,3% entre 2022 e 2023, sinal de que a
violência contra a mulher obedece a uma dinâmica estrutural, doméstica,
patriarcal, que não responde a mandados de prisão e patrulhas ostensivas. Em
Santa Catarina, essa dinâmica não apenas resiste: piora.
A
pesquisa do IPEA demonstra que 77% dos feminicídios catarinenses de 2025
aconteceram dentro de casa, no espaço em que a mulher deveria estar mais segura
e onde a presença policial é, por definição, mais rarefeita. Enfrentar essa
violência exige políticas públicas de natureza diferente: acolhimento,
assistência social, educação de gênero, redes de apoio. Áreas em que o discurso
de “linha-dura contra o crime” simplesmente não opera.
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A segurança que escolhe a quem proteger
Há um
assunto inteiramente ausente da coletiva de imprensa do governo: a cor da
violência em Santa Catarina. A omissão não é casual.
Os
números do Atlas são contundentes. Segundo as Tabelas 6.1 e 6.2, em 2023, os
homicídios de pessoas negras no estado cresceram 21,6% em relação a 2022,
saltando de 153 para 186 mortes. A taxa por 100 mil habitantes negros subiu de
9,9 para 11,2, um aumento de 13,1%. Na série histórica de uma década (2013 a
2023), o número absoluto de homicídios de pessoas negras em Santa Catarina
cresceu 59%, de 117 para 186. Esse movimento é diametralmente oposto à
tendência nacional, que registrou queda de 10,1% no mesmo indicador.
Há
mais. O Atlas revela que Santa Catarina ocupa a última posição nacional no
índice que mede a razão entre a população negra idosa e a população negra total
(0,71, conforme o Gráfico 10.2). Na prática, isso indica que a população negra
catarinense enfrenta as maiores dificuldades de todo o país para chegar à
velhice. A segurança que o governo celebra é, na realidade, uma segurança
racialmente estratificada: funciona bem para uns, falha sistematicamente para
outros.
Quando
o governador afirma que “não tem facilidade para bandido em Santa Catarina”,
cabe perguntar: de qual Santa Catarina ele fala? Daquela em que vivem as
famílias dos bairros nobres, ou daquela em que a juventude negra das periferias
tem cada vez mais chances de morrer de forma violenta?
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Jovens que o estado não vê
Outro
ponto cego do relatório governamental diz respeito à juventude. O Atlas
registra, no Gráfico 4.2, que a taxa de homicídios de jovens (15 a 29 anos) em
Santa Catarina aumentou 7,5% entre 2022 e 2023. Embora o estado mantenha uma
das menores taxas absolutas do país (14,3 por 100 mil jovens, conforme o
Gráfico 4.3), a direção da curva é ascendente, o que deveria despertar atenção,
não comemoração.
Ainda
mais grave é o que o governo ignora por completo: o suicídio juvenil. Segundo
as Tabelas 4.14 e 4.15 do Atlas, entre 2013 e 2023, a taxa de suicídio de 10 a
19 anos em Santa Catarina aumentou 50%, passando de 3,0 para 4,5 por 100 mil
habitantes nessa faixa etária. Em 2023, 42 crianças e adolescentes tiraram a
própria vida no estado. A segurança pública não se mede apenas pela ausência de
homicídios, mas pela capacidade do Estado de preservar a vida em todas as suas
dimensões. O crescimento da violência autoprovocada entre os mais jovens é
sintoma de uma sociedade que falha em acolher, e que nenhuma coletiva de
imprensa deveria ter o direito de silenciar.
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A metamorfose do crime
O
governo de Santa Catarina celebra uma redução de 3,4% nos registros de
estelionato. O próprio texto oficial, contudo, carrega consigo a
contra-argumentação: 71% desses crimes ocorreram em ambiente virtual. O que se
apresenta como redução é, na verdade, metamorfose. O crime migrou da rua para a
tela, do assalto físico para o golpe digital, que pode causar prejuízos muito
superiores ao furto convencional e atinge com especial violência idosos e
camadas da população com menor letramento digital.
O Atlas
da Violência contextualiza esse fenômeno ao informar que o estelionato em meios
digitais atingiu quase dois milhões de registros no país só em 2023, o
equivalente a um golpe a cada 16 segundos. Diante dessa explosão, comemorar uma
queda marginal de 3,4% é como celebrar que a febre baixou um décimo enquanto a
infecção se espalha.
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A retórica do punho de ferro e a ciência da prevenção
Talvez
o aspecto mais revelador da coletiva de imprensa não esteja nos números, mas na
linguagem. O governador fala em “combate à bandidagem”. O delegado-geral
celebra ser “linha-dura contra o crime”. O secretário menciona o reconhecimento
facial como avanço tecnológico. Esse vocabulário pertence a uma concepção de
segurança pública que o próprio Atlas qualifica como ultrapassada.
O IPEA
demonstra que as unidades da federação que obtiveram as reduções mais
expressivas de homicídios na última década foram justamente aquelas que
superaram o paradigma do policiamento ostensivo e investiram em gestão
orientada por resultados, qualificação do trabalho policial pela inteligência e
programas multissetoriais de prevenção da violência. O Espírito Santo com o
programa “Estado Presente”, o Rio Grande do Norte com o Planesp, Goiás com seu
planejamento estratégico: todos apostaram na gestão, não na força bruta. O
próprio Atlas sintetiza esse aprendizado ao afirmar que o Brasil despertou, na
década passada, para a necessidade de substituir o modelo inercial, baseado no
improviso e centrado no policiamento ostensivo, por um paradigma orientado por
resultados e evidências.
A
menção ao reconhecimento facial como “nova tecnologia” merece cuidado
redobrado. Sistemas dessa natureza têm sido amplamente questionados por vieses
raciais documentados, que resultam em falsas identificações
desproporcionalmente de pessoas negras. Justamente no estado que, como vimos,
apresenta os piores indicadores de violência racial do Sul do país.
Não se
trata de negar avanços. A redução de homicídios em Santa Catarina é real e
acompanha um movimento mais amplo que percorre o país desde 2017. Negar esse
fato seria tão desonesto quanto a narrativa que este artigo busca confrontar.
Mas a
segurança pública é assunto demasiado sério para ser capturado pela lógica
publicitária. Quando um governo escolhe divulgar apenas os números que descem e
ocultar aqueles que sobem, faz comunicação política, não política pública.
Quando celebra a queda nos homicídios gerais, mas silencia sobre o aumento da
violência contra mulheres e negros, revela não apenas seletividade: revela a
quem serve a segurança que promove.
O Atlas
da Violência 2025, com seus dados desagregados por gênero, raça e faixa etária,
opera como um espelho que devolve ao governante uma imagem mais complexa do que
ele gostaria de ver. Nele, Santa Catarina aparece, sim, como o estado com menor
taxa de homicídios registrados. Mas também como o estado em que os homicídios
de negros crescem, o feminicídio estagna, o suicídio juvenil se expande e a
população negra morre mais cedo do que em qualquer outro lugar do país.
A
questão de fundo não é se Santa Catarina é segura. É para quem ela é segura. E
enquanto essa pergunta não for respondida com honestidade, os selos dourados de
“recorde histórico” continuarão sendo, acima de tudo, uma peça de publicidade:
eficaz, talvez, mas insuficiente para quem precisa de proteção de verdade.
Fonte:
Por Matheus Rojja Fernandes, no Le Monde

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