terça-feira, 26 de maio de 2026

Por que uma barata se tornou a nova estrela da política na Índia

A política indiana ganhou um mascote incomum: a barata.

Não é o lótus do Bharatiya Janata Party (BJP), partido governista da Índia, nem o símbolo da mão do oposicionista Congress Party, mas sim uma barata — teimosa, detestada e considerada indestrutível — que recentemente se tornou um símbolo político improvável, mas com o qual jovens indianos se identificam online.

O inseto ganhou destaque na semana passada após comentários controversos feitos pelo presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant. Durante uma audiência, ele teria comparado jovens desempregados que estão migrando para o jornalismo e o ativismo a baratas e parasitas.

Mais tarde, ele esclareceu que se referia especificamente a pessoas com "diplomas falsos e fraudulentos", não aos jovens da Índia em geral.

Mas a essa altura seus comentários já haviam se espalhado pela internet, provocando indignação, piadas e uma revolta política satírica chamada “Cockroach Janta Party” (ou Partido do Povo Barata, em português, com a sigla CJP em inglês).

Não se trata de um partido político formal, mas de um coletivo online fortemente satírico cujos critérios de adesão incluem estar desempregado, ser preguiçoso, passar muito tempo online e possuir "a habilidade profissional de reclamar".

O "partido" foi criado por Abhijeet Dipke, estrategista de comunicação política e estudante da Universidade de Boston. Ele diz que a ideia surgiu como uma piada.

Antes de se mudar para os EUA, ele trabalhou com o Partido Aam Aadmi (AAP), que surgiu de um movimento anticorrupção e é conhecido por sua forte presença nas redes sociais.

"Pensei que deveríamos todos nos unir, talvez simplesmente criar uma plataforma", disse ele à BBC.

O que aconteceu depois foi muito maior do que ele esperava.

Em poucos dias, o CJP acumulou dezenas de milhares de inscrições por meio de um formulário do Google, inspirou a hashtag #MainBhiCockroach (“Eu também sou uma barata”) e recebeu o apoio de líderes da oposição. O movimento também saiu do ambiente online, com jovens comparecendo de livre e espontânea vontade vestidos como baratas em mutirões de limpeza e protestos, em uma adesão teatral ao rótulo.

Na quinta-feira, a conta do Instagram do CJP ultrapassou 10 milhões de seguidores, superando a conta oficial do BJP — que é conhecido como o maior partido político do mundo por membros e tem cerca de 8,7 milhões de seguidores.

No entanto, sua conta no X, com mais de 200 mil seguidores, está atualmente bloqueada na Índia. As pessoas que tentam acessá-la são informadas de que a conta está bloqueada “em resposta a uma demanda legal”.

Mas o ímpeto continua crescendo.

Para os apoiadores, o movimento representa o que uma pessoa chamou de "um sopro de ar fresco" em uma cultura política que muitos consideram excessivamente controlada e hostil à dissidência. Entre os apoiadores estão políticos da oposição como Mahua Moitra e Kirti Azad, além do advogado sênior Prashant Bhushan.

Já os críticos o descartam como mero teatro político online ligado à oposição, apontando para a associação anterior de Dipke com o partido AAP e argumentando que se trata menos de uma rebelião espontânea e mais de política digital cuidadosamente elaborada.

Além das reações imediatas, o movimento tornou-se um indicador de fadiga geracional entre muitos jovens indianos que dizem estar constantemente expostos à política online, mas raramente se sentirem representados por ela.

A Índia tem uma das populações mais jovens do mundo, com cerca de metade de seus 1,4 bilhão de pessoas com menos de 30 anos. No entanto, a participação política formal permanece limitada.

Uma pesquisa recente descobriu que 29% dos jovens indianos evitavam totalmente o engajamento político, enquanto apenas 11% eram membros de um partido político.

“As pessoas estão frustradas porque não se sentem ouvidas ou representadas”, disse Dipke.

Em todo o sul da Ásia, nos últimos anos, houve ondas de protestos liderados por jovens que abalaram governos no Sri Lanka, Nepal e Bangladesh, muitas vezes motivados pela insatisfação com empregos, preços e perspectivas estagnadas.

Até agora, a Índia vinha evitando qualquer coisa semelhante, mas as pressões subjacentes são familiares.

Uma economia em rápido crescimento não aliviou as preocupações com trabalho, desigualdade ou o custo crescente de simplesmente sobreviver.

Para muitos que estão entrando na idade adulta, a educação não garante mais estabilidade, e a promessa de mobilidade ascendente pode parecer cada vez mais frágil.

Embora Dipke rejeite comparações com os levantes no Nepal ou no Sri Lanka, dizendo que a situação da Índia é diferente, ele afirma que a frustração entre os jovens ainda é real — apenas expressa de maneiras mais fragmentadas e online.

“A geração Z desistiu dos partidos políticos tradicionais e quer criar sua própria frente política em uma linguagem que eles entendam”, disse ele.

O site do CJP reflete essa sensibilidade, lendo menos como um manifesto e mais como algo moldado na cultura da Internet.

Ele se descreve como "a voz dos preguiçosos e desempregados", ao mesmo tempo em que afirma ter "zero patrocinadores" e "um enxame teimoso", convidando apoiadores a se juntar a um movimento para pessoas "cansadas de fingir que está tudo bem".

Há formulários falsos, imperfeições propositais e uma linguagem visual que se aproxima mais de uma piada interna do que de uma instituição.

E, no entanto, por trás do humor há reivindicações políticas reconhecíveis: responsabilização, reforma da mídia, transparência eleitoral e maior representação para mulheres. Elas aparecem ao lado de piadas autodepreciativas sobre consumo excessivo de conteúdo, desemprego e esgotamento político geral.

O tom, em algum ponto entre a paródia e a sinceridade, faz parte de seu apelo. As piadas funcionam porque as frustrações por trás delas são familiares: emprego, desigualdade, corrupção e alienação política.

Muitos apontaram que até mesmo a escolha do mascote faz sentido. A barata não é heróica ou ambiciosa, mas algo mais básico: resiliente, adaptável e capaz de sobreviver a condições hostis com expectativas muito baixas.

É claro que essa mistura de humor e política não é novidade.

Na Itália, o comediante Beppe Grillo canalizou o humor anti-establishment para o Movimento Cinco Estrelas, enquanto na Ucrânia Volodymyr Zelenskyy deixou de interpretar um presidente fictício na televisão para se tornar um verdadeiro. Nos EUA, a era de Donald Trump gerou repetidas discussões sobre se a própria sátira começou a desmoronar sob uma realidade política que muitas vezes já parece uma paródia.

A versão da Índia assume uma forma mais online: um movimento impulsionado por memes, com temática de insetos, moldado por hashtags, esgotamento e desespero irônico.

À primeira vista, parece incomum. Mas isso não está totalmente fora de lugar na política indiana.

Políticos no país há muito adotam o poder do espetáculo, desde meditar em cavernas do Himalaia até trocar de partido em meio a cenas de legisladores sendo colocados em ônibus ou confinados em hotéis.

As campanhas online contam com vídeos virais cuidadosamente coreografados e slogans impactantes projetados para ter o máximo alcance.

Nesse contexto, um movimento político com tema de insetos parece estranhamente plausível.

Também ajuda a explicar por que ele se espalhou tão rapidamente — não necessariamente porque os jovens indianos querem outro partido político, mas porque muitos estão procurando uma linguagem para expressar sua frustração.

“Acho que o CJP é apenas o começo”, disse Dipke. “Os jovens estão fartos do sistema político atual e mais organizações juvenis surgirão.”

Outros, no entanto, são mais céticos, dizendo que o partido provavelmente desaparecerá tão rapidamente quanto surgiu.

De qualquer forma, o CJP já fez algo incomum na política indiana: por um breve momento, fez alguns jovens se sentirem vistos.

Em épocas anteriores, a raiva política juvenil produzia manifestos. Em 2026, às vezes produz partidos de memes com mascotes de insetos.

¨      13 fatos surpreendentes sobre a Índia em 2026. Por Aleksandra Zakartchouk

Por muito tempo, a Índia foi vista por imagens que não acompanharam sua transformação. Essa narrativa persistiu, mesmo enquanto a economia, a tecnologia e a sociedade do país avançavam em ritmo acelerado. Em 2026, os dados já não permitem visões do passado. A Índia é hoje protagonista em áreas como tecnologia, inteligência artificial, pagamentos digitais, saúde, indústria farmacêutica e diplomacia econômica.Com cerca de 1,5 bilhão de habitantes, o país se tornou um novo polo de poder. A Índia dialoga simultaneamente com o BRICS+, o Ocidente e o Sul Global, mostrando um exemplo de como fazer negócios no mundo multipolar.

>>>>>> 13 verdades que explicam a ascensão da Índia

<><> 1) Uma das maiores economias do mundo

Com PIB ao redor de US$ 4,5 trilhões, a Índia superou o Japão e ocupa a quarta posição global. O crescimento próximo de 7% ao ano é sustentado por consumo doméstico, investimento público em infraestrutura e expansão industrial. Enquanto economias avançadas enfrentam baixo dinamismo e envelhecimento populacional, a Índia combina crescimento acelerado com estabilidade macroeconômica consolidada.

<><> 2) Quase 1,5 bilhão de habitantes e idade média de 29 anos

A Índia é o país mais populoso do mundo e um dos mais jovens. Sua idade média é de 29 anos — a mais baixa entre as grandes economias. Mais de um quarto da população tem entre 10 e 26 anos. Isto significa força de trabalho crescente, mercado consumidor em expansão e maior capacidade de absorção tecnológica.

<><> 3) Infraestrutura digital pública: inclusão em massa

Dois sistemas sustentam uma das maiores revoluções financeiras do mundo:

  • Unified Payments Interface (UPI): processa bilhões de transações mensais e responde pela maior parte dos pagamentos digitais no país.
  • Aadhaar: identificação biométrica com cobertura superior a 1,3 bilhão de pessoas.

Milhões que estavam fora do sistema bancário hoje acessam crédito, transferências governamentais e serviços financeiros pelo celular. A formalização amplia produtividade e arrecadação.

<><> 4) Inteligência artificial como política de Estado

A Índia criou um programa nacional de IA com orçamento superior a US$ 1 bilhão, subsidiando infraestrutura computacional e promovendo modelos próprios aplicados à agricultura, saúde e educação. Parcerias aceleram essa agenda. A NVIDIA, por exemplo, coopera na expansão de capacidade computacional, vendo a Índia como um dos mercados mais promissores do mundo para IA.

<><> 5) Gigantes globais e locais apostam em data centers

Empresas como Google, Microsoft e Amazon ampliam investimentos em nuvem na Índia, enquanto o Adani Group constrói data centers movidos a energia renovável. Mais recentemente, a NVIDIA também firmou parceria com a gigante de engenharia indiana Larsen & Toubro (L&T) para erguer no país um data center de IA em escala de gigawatts, reforçando a ambição indiana no setor.

<><> 6) Ecossistema de inovação robusto

Com mais de 100 unicórnios, o país possui o terceiro maior ecossistema de startups do mundo, impulsionado por iniciativas como o Make in India, que fortalece a manufatura e a inovação. Cidades como Bengaluru e Hyderabad tornaram-se polos mundiais de engenharia e tecnologia.

<><> 7) Conquista espacial

A agência espacial Indian Space Research Organisation tornou a Índia o primeiro e único país a realizar um pouso controlado no polo sul da Lua, com a missão Chandrayaan-3. Com o programa tripulado Gaganyaan, o país agora se prepara para enviar astronautas ao espaço com tecnologia própria — consolidando capacidade em engenharia avançada e indústria de ponta.

<><> 8) Farmácia do mundo

A Índia responde por cerca de 20% dos medicamentos genéricos globais (e por aproximadamente 40% das importações americanas nessa categoria). É estratégica na produção de vacinas, insumos farmacêuticos e biossimilares — setor que se tornou ativo geopolítico após a pandemia.

<><> 9) Transição energética acelerada

Mais de 50% da capacidade instalada de geração elétrica já vem de fontes não fósseis, meta atingida antes do prazo assumido no Acordo de Paris. A expansão de energia solar, eólica e nuclear reduz vulnerabilidades externas e atrai investimentos internacionais voltados à transição energética.

<><> 10) Urbanização acelerada e infraestrutura social

A cada ano, a Índia adiciona o equivalente a uma cidade de São Paulo à sua população urbana, ampliando a demanda por estradas, aeroportos, moradia, saneamento e transporte em escala nacional. Em paralelo, acelera a expansão do acesso a saneamento e água encanada em áreas rurais e urbanas, além de fortalecer programas de emprego e proteção social, os quais reduziram de forma expressiva a pobreza extrema nos últimos anos.

<><> 11) Índia é o terceiro país com mais bilionários do mundo

Segundo a Forbes 2025, a Índia tem 205 bilionários — o terceiro maior número global, atrás apenas de EUA e China. Nomes como Mukesh Ambani (US$ 105 bilhões) e Gautam Adani (US$ 92 bilhões) lideram no país. Ao mesmo tempo, a Índia lidera como origem de bilionários estrangeiros nos EUA (12 no ranking de imigrantes bilionários da Forbes 2025, superando Israel), com executivos como Sundar Pichai (Google) e Satya Nadella (Microsoft) comandando gigantes globais.

<><> 12) Diplomacia econômica e liderança financeira emergente

A Índia é membro central do BRICS e desempenha papel fundamental no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado para financiar infraestrutura e projetos sustentáveis em economias emergentes. Ao mesmo tempo, mantém acordos e comércio com os EUA, a União Europeia (com quem fechou recentemente um acordo de livre comércio que criou mercado de cerca de 2 bilhões de habitantes) e a Rússia, posicionando-se como um dos poucos países capazes de negociar com todos os grandes polos de poder.A estratégia é clara: atuar simultaneamente nos grandes fóruns globais e nas coalizões emergentes, sem dependência exclusiva de um único eixo.

<><> 13) Parceria com o Brasil

A parceria Brasil-Índia, em curso há anos, ganhou forte impulso com a visita de Estado do presidente Lula a Nova Délhi em fevereiro de 2026, quando foram assinados oito acordos e memorandos. O comércio bilateral superou US$ 15 bilhões em 2025 (alta de ~25% sobre 2024), com meta revisada para US$ 20-30 bilhões até 2030, priorizando cadeias de alto valor, tecnologia e transição energética.

Entre os destaques:

  • Memorando inédito sobre minerais críticos e terras raras: cooperação em exploração, processamento, aplicações em IA, investimentos recíprocos e transferência de tecnologia, reduzindo dependências externas e ampliando autonomia.
  • Saúde e ciência: entendimentos para ampliar cooperação em pesquisa, produção farmacêutica, insumos e inovação em saúde pública — área em que a Índia é referência em genéricos e vacinas.
  • Embraer aprofunda parceria com a Adani Defence & Aerospace para instalar linha de montagem final do E175 na Índia, com manufatura local, cadeia de suprimentos e manutenção — avanço do MoU firmado em janeiro de 2026.
  • Vale assinou acordo com a Adani Ports (Gangavaram) e a NMDC para ampliar presença na Índia com grande estrutura ligada ao minério de ferro, capaz de movimentar até 75 milhões de toneladas por ano e fortalecer o fluxo de exportações entre os dois países.

Esses movimentos diversificam cadeias globais de suprimento e ampliam investimentos bilaterais em setores-chave.“O encontro entre Índia e Brasil é um encontro de superlativos. Não somos apenas as duas maiores democracias do Sul Global. Esta é a reunião de uma superpotência digital com uma superpotência de energia renovável.”

<><> Conclusão

A Índia reúne elementos essenciais para figurar entre grandes potências do século 21: escala demográfica jovem, crescimento econômico consistente, inclusão social, digitalização pública em massa, indústria farmacêutica, protagonismo crescente na governança financeira das economias emergentes via BRICS e NDB, transição energética acelerada e ambição tecnológica em IA e espaço. Ao mesmo tempo em que amplia acordos com EUA e Europa, consolida protagonismo entre economias emergentes. Essa combinação rara de mercado interno colossal, inovação e diplomacia pragmática explica por que a Índia não apenas já figura entre as maiores — ela tem base concreta para se tornar uma das três principais economias do mundo nesta década.

 

Fonte: Por Zoya Mateen, da BBC News em Nova Délhi (Índia)/BRICS Brasil

 

Nenhum comentário: