Estamos
testemunhando a ascensão do fascismo “democrático” estadunidense
No
final do ano passado, Donald Trump enviou mais de dois mil agentes do Serviço
de Imigração e Alfândega (ICE) para Minneapolis e St. Paul, ocupando
essencialmente as Cidades Gêmeas e fazendo com que, em comparação, seus envios
anteriores da Guarda Nacional para Washington, D.C., e outras cidades
governadas por democratas parecessem uma simples patrulha de bairro. Os agentes
caçaram e prenderam cerca de três mil imigrantes e assassinaram Reneé Good e Alex Pretti, dois cidadãos estadunidenses
que haviam participado de protestos contra a operação. A blitz em Minneapolis
deixou claro que Trump pretendia que o ICE funcionasse não apenas como uma
força policial autoritária com um orçamento exorbitante, mas como sua própria
milícia política. Isso ficou evidente, sobretudo, no flagrante amadorismo do ICE,
com agentes frequentemente vestindo roupas casuais e recebendo treinamento
mínimo, enquanto minavam proposital e repetidamente os governos locais e os departamentos
de polícia. Mas também era para ser um espetáculo: uma demonstração pública de
crueldade contra migrantes que, simultaneamente, demonstrava aos seus oponentes
os limites do protesto pacífico. Até mesmo o podcaster Joe Rogan comparou o ICE
à Gestapo.
Embora
a analogia de Rogan possa ter sido falha, ela aponta para a questão mais
fundamental da natureza do governo Trump. Durante seu primeiro mandato, essa
questão parecia resolvida. Apesar de sua retórica nociva, o histórico de Trump
no cargo era mais ou menos o que se poderia esperar de um presidente
republicano e, com sua derrota em 2020, parecia que a política estadunidense
voltaria em grande parte à normalidade. Isso até 6 de janeiro de 2021, quando
uma multidão incitada pelas teorias da conspiração de Trump sobre fraude
eleitoral invadiu o Capitólio numa tentativa de impedir a transição pacífica de
poder. A essa altura, já deveria estar claro que Trump era mais do que apenas
mais um populista com tendências autoritárias. Mas ele era, então, um fascista?
O fascismo histórico chegou ao poder pela primeira vez cerca de cem anos antes
de 6 de janeiro, em outubro de 1922, quando Benito Mussolini liderou cinquenta
mil camisas negras e tomou o poder na Marcha sobre Roma (ou melhor, obrigou as
elites conservadoras a entregarem o poder a ele). A invasão do Capitólio
obviamente não foi a Marcha sobre Roma. Trump nunca incitou explicitamente
ninguém a tomar nada, e quando seus apoiadores finalmente conseguiram entrar no
prédio, ficaram basicamente circulando e tirando selfies. Foi um evento
carnavalesco com uma mistura heterogênea de protagonistas — milicianos de
extrema-direita, seguidores do QAnon, ativistas do Tea Party, membros de moto
clubes, gamers, cosplayers da machosfera — orquestrado pelas redes sociais, mas
de organização efetiva limitada. Nesse sentido, o 6 de janeiro foi sintomático
de uma tendência mais ampla: a extrema-direita atual não é verticalmente
integrada, mas efetivamente descentralizada, funcionando mais como um enxame do
que como uma formação de combate. Além disso, exibe uma banalidade perigosa: ao
contrário de seus predecessores do século XX, ela se desenrola de acordo com as
regras da democracia eleitoral e no âmbito cotidiano. A propaganda fascista é
praticamente onipresente em plataformas de mídia social como o X e cada vez
mais proeminente na cultura pop. Na Espanha, um remix do hino falangista Cara
al sol chegou ao topo das paradas do Spotify, enquanto na Alemanha,
jovens ricos e skinheads se divertem entoando slogans xenófobos ao som do hit
eurodance do DJ italiano Gigi D’Agostino, L’amour toujours. O
fascismo atual dança conforme a música da democracia.
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O que é (e o que não é) fascismo?
Mesmo
durante o primeiro mandato de Trump, debates acirrados
giraram em
torno de até que ponto seu governo constituía uma nova forma de fascismo.
Enquanto progressistas e liberais tendiam a aplicar o rótulo de forma bastante,
digamos, liberal, os críticos enfatizavam que muitos elementos vitais do
fascismo histórico simplesmente não estavam presentes sob Trump. Vozes da
esquerda, em particular, enfatizavam as raízes da política de Trump na democracia
estadunidense e
suas continuidades com as origens coloniais do país.
Fascismo
é uma palavra drástica, carregada de significado histórico, frequentemente
usada apenas para provocar uma reação moralista. Em termos analíticos, porém, é
perfeitamente apropriado tratar o
fascismo como algo que não é — ou não é mais — exclusivamente histórico. Um
tsunami de regressão política varre o mundo ocidental, e episódios de violência
estão em ascensão, sejam eles tiroteios contra ativistas do movimento Black
Lives Matter, a invasão do Capitólio, os tumultos da
extrema-direita no
Reino Unido ou as ameaças de morte contra políticos no interior da Alemanha.
Uma série de partidos cujas políticas vão muito além do autoritarismo iliberal
de um Viktor Orbán estão agora muito próximos do poder. No leste da Alemanha,
o partido Alternativa
para a Alemanha (AfD)
— cuja corrente de extrema-direita almeja uma “mudança de sistema”, ou seja, o
fim da democracia parlamentar — possui 40% das intenções de voto. Isso de forma
alguma implica que todos os direitistas sejam fascistas. Durante a campanha
presidencial de 2024, Kamala Harris chamou Trump repetidamente de fascista. O
que ela realmente queria dizer era que ele era um autocrata. O mesmo se aplica
ao filósofo Jason Stanley, para quem os
Estados Unidos já são fascistas — o que obviamente não é o
caso. Embora os democratas possam ser uma oposição incompetente e ineficaz,
eles não foram postos na ilegalidade e nem são perseguidos. Milícias não estão
arrastando Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez para campos de
concentração. Stanley aplica o termo a todos os movimentos ultranacionalistas
em que a nação é representada por um único líder. Ao fazer isso, ele perde de
vista as características específicas do fascismo. Ele também considera o Sul
dos Estados Unidos durante a escravidão como uma forma de fascismo. Certamente,
qualquer sistema que negue direitos iguais a um grupo de pessoas e as submeta a
trabalho forçado é profundamente injusto, mas a democracia escravista estadunidense
garantia eleições livres, a separação de poderes e direitos civis abrangentes
para a maioria branca — coisas que seriam inconcebíveis em uma sociedade
fascista. Além disso, Stanley obscurece a distinção entre movimento social e
regime político, agrupando todos os ultranacionalismos, independentemente de
como surgem ou exercem poder. Na Alemanha, muitos agora empregam o termo numa
perspectiva gradualista, descrevendo uma “fascistização” sinônima da
radicalização do neoliberalismo ou mesmo da sociedade burguesa como um todo.
Mas, ao expandir o conceito de fascismo para uma categoria abrangente aplicável
a uma ampla gama de injustiças históricas, perdemos a capacidade de desenvolver
uma análise clara e específica do presente. Corremos também o risco de subestimar
a natureza transformadora das forças fascistas ao obscurecer a diferença
qualitativa entre o autoritarismo democrático e o fascismo. Afinal, assim como
Barack Obama e Joe Biden, Trump transformou muitas deportações em um espetáculo
público para o deleite de seus apoiadores.
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Nem tragédia nem farsa
Se o
conceito de fascismo for aplicado nos dias de hoje, ele deve primeiro ser
contextualizado historicamente. Apesar de certas semelhanças em programa e
estilo, o que hoje se denomina fascismo não é o mesmo que nazismo, um movimento
de massas baseado em uma ideologia virulentamente racista que combinava
propaganda etnonacionalista com pogroms violentos. Tampouco o fascismo está
retornando como uma ferramenta para esmagar o movimento operário em uma era de
intensificação da luta de classes. Historicamente, o fascismo se refere a uma
forma específica de extrema direita durante o período entre guerras,
caracterizada pelo culto ao líder, violência organizada nas ruas, ditadura e
uma busca pela eliminação de todos os oponentes e inimigos do povo, sejam eles
reais ou imaginários. Nesse contexto, governos autoritários não são
necessariamente fascistas: a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e o
ex-primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán podem ter
buscado transformar seus países em democracias explicitamente iliberais, mas
não são ditadores. As correntes contemporâneas de extrema-direita apresentam
mais diferenças do que semelhanças com o fascismo histórico, enquanto o
imperialismo e o colonialismo assumem hoje uma forma distintamente diferente.
Para começar, as potências europeias e atlânticas não estão em guerra entre si.
E embora as guerras recentes pela hegemonia geopolítica, como no Afeganistão ou
no Oriente Médio, certamente tenham produzido muitos veteranos, seus números
são insignificantes em comparação com a massa de homens excedentes que se viram
descartados e alienados da vida social após a Primeira Guerra Mundial. As
condições sociopolíticas e econômicas também são diferentes. A crise financeira
de 2008 deu novo ímpeto às forças de direita, mas as crises econômicas atuais e
suas consequências sociais não são comparáveis às da década
de 1930, quando o desemprego em massa corroía o senso de propósito
das pessoas e nublava seu discernimento. Hoje, bancos centrais e governos
intervêm regularmente para mitigar crises. O mercado de ações
atingiu novos patamares nos últimos anos e, ao
contrário da Grande Depressão, os Estados Unidos
se aproximaram do pleno emprego durante o primeiro mandato de Trump. Da mesma
forma, temos inflação, mas não hiperinflação, e, em vez de uma poderosa
alternativa socialista disputando o poder, nosso momento histórico atual é
caracterizado por uma esquerda profundamente fraca. Nesse aspecto, a década de
2020 certamente não é uma repetição das décadas de 1920 e 1930 — nem como
tragédia, nem como farsa.
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A contramodernidade do fascismo
Onovo
fascismo, portanto, só pode ser compreendido dentro de seu próprio contexto
histórico. O autoritarismo de Trump reflete uma sociedade estadunidense ainda
moldada pelo legado da escravidão, na qual a desigualdade, o racismo e a
violência condicionam a vida pública de forma muito mais acentuada do que na
Europa. O nativismo desempenha um papel importante, assim como a supremacia
branca. Na Europa, por outro lado, os partidos de extrema-direita tendem a
mobilizar um tipo de nacionalismo orientado para o Estado, que busca combater
supostas ameaças à unidade nacional. Uma das principais forças motrizes por
trás do fascismo histórico foi a luta contra a igualdade social, o que explica,
em grande medida, sua determinação em aniquilar os movimentos social-democratas
e comunistas. Embora os fascistas possam não ter sido agentes diretos do
capital recrutados para salvar o capitalismo, como alegava a Internacional
Comunista de Stalin, o fascismo seria, ainda assim, inconcebível sem o apoio de
setores do grande capital. Tampouco foi um movimento irracional de sedutores
sinistros e seduzidos, como afirmaram estudos anteriores sobre o fascismo. No
entanto, como disse Max Horkheimer, “Quem não está
disposto a falar sobre o capitalismo também deve se calar sobre o fascismo” —
pois o capitalismo e o fascismo são ambos sistemas que naturalizam a
desigualdade.
O
fascismo contemporâneo, argumentamos, está enraizado numa estrutura específica
de sentimentos encontrada nas sociedades modernas: a busca por um tipo diferente de
modernidade. A sociedade moderna alega opor-se às hierarquias naturais e
permitir que a razão e a racionalidade triunfem sobre a fé e a superstição.
Busca subjugar a natureza à humanidade, mas, simultaneamente, reconhece a
finitude e as limitações naturais da humanidade. A promessa central da
sociedade moderna, contudo — a da integração social por meio da ascensão social
— já não se sustenta. O espectro da decadência social levou a uma espécie de
negatividade generalizada. A modernidade liberal, portanto, gerou uma
destrutividade dirigida contra si mesma: um novo fascismo que oferece a
destruição como meio de cura. O fascismo se mostra atraente em tempos de
rápidas mudanças sociais, sobretudo porque fomenta uma identificação narcisista
coletiva. Todo indivíduo revoltado e desorientado pode se fundir à comunidade
nacional, que, por sua vez, se distingue da sociedade individualista e
multicultural. As diversas facções dessa comunidade são unidas pela rebelião
destrutiva contra a democracia liberal e pelo desejo de restaurar as
hierarquias sociais. É por isso que o fascismo não era, nem é, oposto à
modernidade em sentido estrito. Na verdade, ele exibe muitas facetas da
modernidade, como na forma de lidar com a tecnologia ou a economia. O fascismo,
portanto, não visa a antimodernidade, mas sim uma contramodernidade
alternativa: uma ordem mítica que promete ethos e estabilidade
em contraste com as racionalidades frias e a natureza fluida e repleta de
crises da sociedade burguesa moderna. Além disso, ele se vê como uma ordem
eterna definida pela grandeza, na qual até mesmo o indivíduo pode alcançá-la
(os exemplos de Peter Thiel ou Elon Musk vêm à mente).
O
historiador de Oxford, Roger Griffin, desenvolveu uma
influente definição de fascismo no início da década de 1990. Em sua visão, o
fascismo é um movimento revolucionário com um “núcleo mítico”, um imaginário da
nação e seu renascimento como uma forma de “ultranacionalismo populista”. O
fascismo sempre necessitou de um mito nacional sobre o passado para se voltar
para o futuro. Pois o fascismo não se tratava meramente de restaurar uma utopia
extinta, mas também da fantasia de um futuro grandioso — uma identificação
narcisista com a nação à qual se atribuía uma grandeza histórica mundial. Aqui,
lembramos as alucinações febris dos nazistas sobre um “Reich de mil anos”.
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A alegria da violência
Oestudioso
do fascismo Robert Paxton vai além da
dimensão ideológica de Griffin em um ponto crucial, enfatizando o elemento da
prática. Segundo Paxton, o fascismo é uma “forma de comportamento político
marcada por uma preocupação obsessiva com o declínio, a humilhação ou a
vitimização da comunidade e por cultos compensatórios de unidade, força e
pureza”. Unidade, força e pureza são alcançadas por meio da exclusão e da
violência dirigidas contra oponentes políticos e minorias. A violência é uma
característica definidora do fascismo, mas carrega um significado muito maior:
é afetiva, redentora, libertadora, um meio de transgressão, bem como de
transcendência, através do qual o indivíduo se torna uno consigo mesmo. A
violência também desempenha um papel no mito da nação como vítima, assim como o
próprio indivíduo é vítima das elites, das ameaças externas e dos estrangeiros.
Assim, não havia espaço para o individualismo no pensamento fascista histórico:
a sociedade era composta por regimentos e divisões, não por indivíduos. O
fascismo histórico se entendia como a integração total de toda
a vida social. Economicamente, o fascismo era também um meio de renovar o
capitalismo — um capitalismo expurgado da luta de classes, substituída pela
comunidade nacional. O movimento fascista expurga a nação de seus oponentes em
nome da transcendência. Tudo o que se opõe ao seu renascimento deve ser
destruído. O fascismo, portanto, sempre envolveu a existência de milícias, nas
quais as energias dos homens fascistas podem ser liberadas de acordo com o
“ritmo, embriaguez, compulsão e sofrimento”, em consonância com a aspiração de
“marchar, pisar forte, escalar, perseguir, empurrar e triunfar”, como disse
certa vez o sociólogo alemão Klaus Theweleit.
O
historiador italiano Enzo Traverso resumiu o problema conceitual central do
nosso debate em seu livro As novas faces do
fascismo:
“Em suma, o conceito de fascismo parece ao mesmo tempo inadequado e
indispensável para a compreensão desta nova realidade”. O que temos, segundo
Traverso, não é um retorno ao antigo fascismo nem algo completamente diferente
e novo, mas sim um movimento político híbrido e heterogêneo que se baseia na
imaginação politicamente restauradora do passado, mas cujo futuro permanece
incerto. Quando questionado se Trump é fascista, a análise é binária: ou ele é
ou não é, ou se marca uma lista de características para verificar se requisitos
suficientes são atendidos. Essa perspectiva é estática demais, levando muito
pouco em conta a dinâmica e a evolução da extrema-direita.
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Um fascismo democrático?
Os
fascistas originais ostentavam o rótulo de fascista com orgulho. Isso começou a
mudar após a revelação dos crimes do Holocausto, levando Theodor W. Adorno a comentar
sobre a transformação da relação dos partidos de extrema-direita com a
democracia: “Os aspectos abertamente antidemocráticos são eliminados. Pelo
contrário: eles invocam constantemente a verdadeira democracia e acusam os
outros de serem antidemocráticos”. É nesse sentido que propomos o termo fascismo
democrático para descrever a extrema-direita emergente hoje. À
primeira vista, o conceito de fascismo democrático parece contraditório, já que
o fascismo, enquanto regime político, era a negação da democracia.
Mas, no uso simplista e superficial do termo, pouca atenção é dada ao processo
pelo qual o fascismo emerge e chega ao poder dentro da ordem democrática, para
depois destruí-la. Na Alemanha, apenas algumas semanas se passaram entre a
eleição legítima de Adolf Hitler e a Lei de Plenos Poderes. Na Itália,
Mussolini levou três anos para estabelecer uma ditadura plena.O conceito de
fascismo democrático reflete, portanto, o fato de que o fascismo hoje se
manifesta em uma situação contraditória e ambígua. O governo Trump não é um
regime fascista, e a Alemanha não enfrenta um golpe fascista. Extremistas de
direita podem alcançar certos objetivos mesmo dentro de uma democracia. Apesar
de todas as suas diferenças, no entanto, as forças fascistas históricas e
contemporâneas compartilham uma autoimagem muito semelhante: elas se veem como
forças motrizes de uma revolução nacional. Isso foi articulado com muita
clareza pelo presidente da Heritage Foundation, Kevin Roberts, que disse a seus
apoiadores:
O
movimento fascista contemporâneo se vê como renovador da democracia com o
objetivo final de miná-la. Pelo menos por enquanto, a ditadura não está na
agenda. Assim, o cerne do fascismo democrático reside em sua relação
ambivalente com a democracia. Diferentemente dos fascistas históricos, que
declaravam de forma consistente e aberta sua intenção de destruir o
parlamentarismo, os fascistas democráticos (mesmo que ocasionalmente flertem
com fantasias monarquistas) buscam apenas despojar a democracia de suas instituições
liberais.Até agora, o tipo de fascismo defendido por Trump tem sido mais uma
forma do que Steven Levitsky e Lucan Way chamam de “autoritarismo
competitivo”.
Há uma competição real pelo poder político e eleições acontecem, mesmo que os
governantes autoritários inclinem a balança da competição política a seu favor.
A oposição é legal, mas o sistema judiciário e a mídia não atuam mais de forma
independente e minam a competição política. No entanto, o fascismo democrático
se baseia em uma concepção fundamentalmente diferente de democracia daquela que
conhecemos. Ele frequentemente se fundamenta nos escritos do jurista
alemão Carl Schmitt, o “jurista-chefe”
do Terceiro Reich, que certa vez descreveu as Leis Raciais de Nuremberg,
formulada segundo os ideais nazistas, como uma “constituição da liberdade”.
Hoje, Schmitt é uma das principais referências para Peter Thiel e J.D. Vance. Para
Schmitt, a democracia não deveria ser confundida com o sufrágio universal e o
debate parlamentar — a verdadeira democracia era a “identidade entre
governantes e governados”. A democracia, argumentava ele, existia quando a
vontade geral do povo se expressava em um líder nacional. Isso pressupunha “um
povo cujos membros são semelhantes entre si e que possuem a vontade de
existência política”. Schmitt deixou inequivocamente claro o que isso
significava: “A democracia requer, portanto, primeiro homogeneidade e, segundo
— se necessário —, a eliminação ou erradicação da heterogeneidade”. No fascismo
democrático, a homogeneidade da vontade geral se manifesta no majoritarismo — a
reformulação da democracia em benefício da maioria “nativa”, que vê sua própria
existência como fundamentalmente ameaçada pela expansão dos direitos das
minorias e cujas liberdades políticas e sociais devem, portanto, ser
restringidas. Combinado com deportações em massa, é essencialmente uma variante
modernizada do pensamento de Schmitt.
Trump
pode estar construindo um estado autoritário para perseguir minorias ou a
oposição, mas ele quer reduzir o alcance do Estado na maioria das outras áreas,
seja no âmbito da educação ou do meio ambiente. Enquanto os nazistas buscavam
controlar e orientar as pessoas comuns e a classe empresarial, o Estado de
Trump busca não interferir. Os empresários devem poder fazer o que quiserem —
obter lucros — com o apoio do Estado, mas sem a direção estatal. O fascismo
histórico era um gigante desenfreado, como Franz Neumann o chamou, um
estado de anarquia. O fascismo atual se assemelha mais a uma joint
venture em um Estado desregulamentado que nem as regulamentações
ambientais nem as leis antidiscriminação conseguem deter. Em vez da integração
total prometida pelo fascismo histórico, o fascismo democrático se assemelha
mais a uma radicalização da desintegração neoliberal.
O
fascismo democrático não se baseia na adesão a um partido, mas numa esfera
pública altamente politizada, uma hiperpolítica que cria laços dentro de redes afetivas.
Constitui um espectro político polimorfo, desvinculado de qualquer conjunto
rígido de características. Republicanos que se converteram em apoiadores de
Trump, entusiastas do MAGA, autoritários libertários do Vale do Silício,
cristãos evangélicos, Proud Boys e apoiadores raivosos do Tea Party formaram
uma aliança sob a liderança de Trump, mas cada um segue sua própria lógica. Se
existe um denominador comum, é que todos são anti-igualitários,
anticosmopolitas e excludentes. Nesse sentido, o fascismo democrático
concentra-se obsessivamente em seus inimigos, enquanto vislumbra uma forma
modernizada de nação. Os fascistas democráticos querem reverter a liberalização
dos estilos de vida individuais, mas não veem problema na homossexualidade
assumida, desde que ela reproduza as hierarquias sociais. Seus ataques contra
pessoas trans são direcionados contra as pessoas não binárias que subvertem
tais hierarquias.
O
racismo também tem diferentes camadas. A política populacional é um instrumento
fundamental da governança nacional: o objetivo é reduzir a imigração de pessoas
com “baixo QI” ou “indesejáveis”, como Trump as chama, mas não criar uma
comunidade nacional homogênea. No que diz respeito às relações de gênero, a
direita ligada a Trump é fortemente femonacionalista, atacando o direito ao
aborto e promovendo modelos familiares tradicionais, mas sem questionar
fundamentalmente a participação das mulheres no mercado de trabalho ou na
tomada de decisões políticas.
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Trump, o empreendedor do ressentimento
Embora
o novo fascismo também faça referência a um passado nacional mítico, ele apenas
imagina parcialmente algo como uma ordem transcendente. Em vez disso, trata-se
mais de uma espécie de mito de origem restaurador. O slogan de Donald
Trump, Make America great again [Tornar os EUA grandes
novamente], fala sobre restaurar algo: os EUA devem ser grandes novamente.
O novo império tornou-se profano e secular — queremos um império que governe o
mundo, mas que seja grande por si só. Um amplo espectro de fantasias de ordem
pode ser encontrado no meio intelectual do movimento MAGA, que vão desde
economias de mercado monárquicas com um CEO como imperador, cidades e Estados
privados, até utopias sombrias de singularidade tecnológica e colonização de
Marte. As visões de futuro de Trump, por outro lado, parecem bastante
realistas. Fantasias transgressoras são encontradas apenas em memes ou vídeos
alucinatórios gerados por inteligência artificial, nos quais ele aparece
alternadamente como um imperador romano, um super-herói vingativo e punitivo ou
uma estátua dourada em uma Gaza etnicamente limpa.
Os
neofascistas também se preocupam menos com a reestruturação molecular de toda a
sociedade em um corpo nacional: não há intenção de criar um Estado totalitário
abrangente que dite a política, a economia e a vida cotidiana, apesar das
proibições à linguagem neutra em termos de gênero, das restrições ao direito ao
aborto e da perseguição à solidariedade à Palestina. O neofascismo visa à
restauração de uma sociedade hierárquica neoautoritária, e não à criação de um
Estado totalitário. Trump não é (ainda) um ditador, nem um fascista nos moldes
clássicos que promete transcendência e salvação. Ele se assemelha mais a um
líder mafioso vulgar. Mas seu estilo político, como Christopher Browning o descreveu, é
fascista: “Os comícios inflamados; a incessante disseminação do medo, da queixa
e da vitimização; a aprovação casual da violência; a adesão generalizada às
teorias de conspiração; a crueldade performática; o instinto selvagem de atacar
minorias marginalizadas e vulneráveis; e o culto à personalidade”. O espectro
fascista inclui necessariamente flertar com o que o sociólogo Michael Mann certa vez
chamou de “violência moralizada”, usada para justificar tal violência como
necessária, legítima e correta. O estilo fascista também pode ser observado no
AfD, onde o líder provincial do partido, Björn Höcke, cita com entusiasmo o
filósofo alemão Peter Sloterdijk, que em 2016 falou
de “crueldade moderada” ao delinear sua visão para a política migratória
europeia. De uma perspectiva global, tanto o fascismo democrático quanto o
histórico são, em muitos aspectos, orientados estética e afetivamente. O
pensador pioneiro da Nova Direita alemã, Armin Mohler, certa vez resumiu isso
sucintamente: a retórica fascista não se baseia em conexões lógicas, mas sim em
“estabelecer um certo tom, criar um clima, evocar associações”.
Até
agora, os liberais tentaram deter Trump e outros radicais de extrema-direita
com guerras jurídicas. Essa estratégia estava fadada ao fracasso. Primeiro, no
capitalismo, o equilíbrio de forças se reflete no sistema jurídico, e Trump
representa a classe proprietária. Segundo — e muito mais importante — o
fascismo é uma atmosfera afetiva. Trump conseguiu chegar ao poder explorando
uma estrutura de sentimentos, uma profunda alienação da modernidade
capitalista. Ele é o perfeito empreendedor do ressentimento, tanto como
produtor quanto como representante. A esquerda ainda não encontrou uma resposta
eficaz e duradoura para ele. Mesmo assim, as pessoas são mais resilientes do
que poderíamos temer. A resistência ao ICE em Minneapolis foi tão eficaz
em parte porque dissipou a narrativa da direita estadunidense: as comunidades
multiétnicas demonstraram mais coesão do que os profetas do declínio social
apocalíptico da direita jamais poderiam ter imaginado.
Fonte: Por Oliver
Nachtwey e Carolin Amlinger - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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