terça-feira, 26 de maio de 2026

Sara York: O capitalismo é um anticoncepcional do mundo

Parte da imprensa econômica internacional insiste em explicar a queda das taxas de natalidade por meio de leituras simplificadas e, muitas vezes, excessivamente tecnicistas dos fenômenos sociais. Recentemente, John Burn-Murdoch, colunista do Financial Times, colocou smartphones, internet móvel e hiperconectividade no centro da análise demográfica contemporânea. O argumento ganhou repercussão porque é visual, moderno e aparentemente intuitivo. Mas talvez ele desvie o olhar exatamente do que mais importa.

A redução da natalidade não pode ser explicada apenas por celulares, redes sociais ou 4G. O problema é mais profundo.

Estamos falando de exaustão social, insegurança econômica e de um modelo que produziu uma geração inteira incapaz de imaginar estabilidade. A crise demográfica não nasce da internet. Ela nasce da desesperança acumulada ao longo de décadas de concentração extrema de renda, precarização do trabalho, enfraquecimento das políticas de cuidado e de uma sensação persistente de que o futuro foi sequestrado antes mesmo de começar.

Ter filhos, hoje, deixou de ser apenas uma decisão afetiva ou familiar. Para milhões de pessoas, tornou-se uma equação de sobrevivência.

Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo o relatório World Fertility 2024, da Divisão de População da ONU, a taxa global de fecundidade caiu de cerca de 5 filhos por mulher, em 1950, para 2,2 em 2024, com projeção de chegar a 1,8 até 2100. Em mais da metade dos países e regiões do mundo, representando dois terços da população global, a fecundidade já está abaixo dos 2,1 filhos por mulher, nível considerado necessário para reposição populacional. Em vários países, como Coreia do Sul, China, Cingapura e Ucrânia, esse índice caiu para níveis historicamente baixos.

Mesmo com a queda consistente das taxas de fecundidade, o mundo segue produzindo vida em escala massiva. Em 2026, a taxa bruta global de natalidade gira em torno de 16 nascimentos por mil habitantes, o que representa cerca de 132 milhões de nascimentos por ano, mais de 360 mil por dia e aproximadamente 4 novos nascimentos por segundo. Em contraste, a taxa global de mortalidade está em torno de 7,6 óbitos por mil habitantes, com cerca de 63 milhões de mortes anuais. Isso significa que o debate não é sobre “fim da reprodução humana”, como sugerem discursos alarmistas, mas sobre a desaceleração do crescimento populacional e, sobretudo, sobre quem ainda consegue sustentar material, emocional e socialmente o projeto de reproduzir a vida.

Quando esse fenômeno atravessa religiões, culturas, sistemas políticos e níveis distintos de renda, a pergunta talvez seja mais direta e honesta: quem ainda consegue sustentar emocional, financeira e socialmente o projeto de criar uma criança por décadas?

Grande parte dos discursos alarmistas sobre “colapso demográfico” ignora um dado central. O peso histórico da reprodução e do cuidado continua recaindo de forma desigual sobre as mulheres.

São elas que interrompem carreiras, reorganizam trajetórias profissionais, absorvem o trabalho doméstico invisível e administram grande parte da sobrecarga afetiva das famílias. A economista Claudia Goldin, vencedora do Nobel, demonstrou como a desigualdade na divisão do trabalho doméstico segue sendo um dos fatores centrais para compreender as transformações no trabalho, na renda e nas escolhas reprodutivas.

O problema não está em mulheres “escolhendo errado”. O problema está em um sistema que ainda impõe custos desproporcionais à maternidade.

No Brasil, essa discussão ganha contornos ainda mais duros. Relatórios do Fundo de População das Nações Unidas mostram que desigualdade econômica, acesso desigual à informação, precariedade nos serviços de saúde e concentração de renda impactam diretamente as taxas de fecundidade.

A lógica é perversa, e mulheres com maior escolaridade, autonomia financeira e acesso à informação não rejeitam necessariamente a maternidade; muitas rejeitam as condições em que ela lhes é oferecida. Não se trata apenas de “querer ou não querer filhos”, mas de perguntar: há moradia digna? Há estabilidade de renda? Há rede de cuidado? Há segurança para envelhecer sem colapso?

Para parcelas crescentes da população urbana, essas respostas são cada vez mais incertas.

Ao mesmo tempo, o mesmo sistema econômico que exige produtividade extrema, disponibilidade integral e performance contínua é o que agora se alarma diante da queda da natalidade.

E aqui reside uma contradição profunda do capitalismo contemporâneo. O capitalismo depende de trabalhadores, consumidores e continuidade geracional. Mas, ao longo das últimas décadas, corroeu justamente as bases materiais e emocionais que sustentam a vida. Fragilizou o trabalho, encareceu a moradia, ampliou desigualdades e transformou o tempo em escassez.

Existe ainda outra dimensão pouco nomeada com honestidade.

Construir vínculos também se tornou mais difícil.

A reorganização digital dos afetos alterou profundamente desejos, expectativas e formas de convivência. Não porque a tecnologia, sozinha, produza isolamento. Mas porque ela chegou a corpos já exaustos, desconfiados e treinados para performar, competir e consumir. Aplicativos transformaram relações em catálogos. Algoritmos oferecem pertencimentos rápidos, identidades prontas e validações instantâneas. Nesse cenário, intimidade, confiança e projetos coletivos tornam-se mais frágeis.

A crise demográfica, portanto, não pode ser lida apenas como uma questão biológica ou tecnológica. Ela é também social, afetiva e política.

Casais jovens adiam filhos porque envelhecer já parece, por si só, um desafio inseguro. Muitos não conseguem garantir moradia, assistência médica ou estabilidade profissional para si mesmos. Criar uma criança deixa de ser um horizonte de desejo e passa a ser um cálculo duro de sobrevivência.

Percebemos algo profundamente simbólico nisso.

Os dados mostram uma relação recorrente entre desenvolvimento econômico, reorganização do trabalho e queda das taxas de fecundidade, mas os números, sozinhos, não explicam tudo. O que eles revelam é uma disputa mais profunda sobre como sociedades escolhem organizar o cuidado, o tempo, a moradia, a saúde e a reprodução da vida.

Há um dado simbólico e profundamente político nesse cenário. A expectativa média de vida global em 2026 chega a 73,8 anos, sendo cerca de 76,4 anos para mulheres e 71,2 para homens. Em tese, vivemos mais, mas viver mais não significa viver melhor. O paradoxo contemporâneo mostra que a medicina prolonga a vida, enquanto estruturas econômicas fragilizam as condições para sustentá-la com dignidade. O capitalismo ampliou a longevidade em muitos territórios, mas também aprofundou desigualdades, precarizou vínculos e tornou mais difícil planejar o futuro. O problema já não é apenas nascer ou morrer, mas como viver, cuidar e permanecer.

E talvez aí esteja o centro da questão, pois o maior anticoncepcional do mundo talvez não seja o 4G. Aqui eu aposto no próprio capitalismo, porque sociedades atravessadas pela desigualdade não interrompem apenas nascimentos; elas interrompem futuros e preservam a exclusão. E, quando pensamos em exclusão, estamos falando de pessoas com suas complexidades e suas diferenças, que muitas vezes nos ajudam a tornar o mundo maior.

•        O mito da neutralidade técnica. Por Maria Luiza Falcão

Existe uma ideia que ganhou enorme força nas últimas décadas e passou a ocupar o centro da vida econômica contemporânea: a noção de que determinadas decisões fundamentais da sociedade deveriam ser retiradas do conflito político e entregues a “autoridades técnicas independentes”.

 A lógica parece sedutora. Técnicos seriam mais racionais que políticos. Instituições autônomas seriam mais estáveis que governos eleitos. Mercados reagiriam melhor quando protegidos das pressões populares e eleitorais. Em tese, tudo isso produziria previsibilidade, responsabilidade fiscal e estabilidade econômica.

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 O problema é que essa suposta neutralidade raramente é neutra.

 O debate recente envolvendo Banco Central, juros, mercado financeiro e autonomia institucional voltou a expor uma questão que talvez esteja no centro das grandes tensões das democracias contemporâneas: quem realmente decide os rumos da economia? E em nome de quais interesses?

<><>  A política escondida dentro dos juros

 Durante muito tempo, construiu-se no Brasil a percepção de que a política monetária seria uma espécie de território técnico, quase matemático, distante das disputas sociais e ideológicas. Como se definir juros, crédito, liquidez e custo do dinheiro fosse apenas uma operação objetiva conduzida por especialistas protegidos das paixões da política.

 Mas basta observar os efeitos concretos dessas decisões para perceber o contrário.

 A taxa de juros não é um detalhe técnico abstrato. Ela define quem ganha e quem perde dentro da economia. Afeta o emprego, o consumo, o investimento, o crescimento industrial, a dívida pública, o crédito agrícola, a sobrevivência das pequenas empresas e até a capacidade de expansão do próprio Estado.

 Juros elevados durante longos períodos produzem gigantesca transferência de renda da economia produtiva para o sistema financeiro. Favorecem rentistas, fortalecem estruturas financeiras e comprimem investimento e atividade econômica.

 Trata-se, portanto, de uma escolha profundamente política.

 E talvez esteja justamente aí uma das maiores contradições contemporâneas: decisões com enorme impacto distributivo passaram a ser apresentadas como se fossem apenas questões técnicas inevitáveis.

<><>  A ascensão das tecnocracias

 A ascensão global dos bancos centrais independentes ocorreu exatamente dentro desse contexto. Após as crises inflacionárias dos anos 1970 e da consolidação do neoliberalismo nos anos 1980 e 1990, difundiu-se internacionalmente a ideia de que governos eleitos seriam naturalmente “irresponsáveis” na condução econômica. A solução encontrada foi ampliar o poder de instituições tecnocráticas relativamente protegidas da pressão democrática direta.

 Pouco a pouco, o centro decisório da economia deslocou-se dos espaços tradicionais da política para estruturas cada vez mais especializadas, sofisticadas e frequentemente opacas para a maior parte da população.

 O fenômeno não ocorreu apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (FED) tornou-se uma das instituições mais poderosas do planeta. Na Europa, o Banco Central Europeu passou a influenciar profundamente políticas fiscais e sociais de diversos países. Em momentos críticos, tecnocratas passaram inclusive a substituir governos eleitos em algumas economias europeias durante a crise da dívida soberana.

 O que emergiu foi uma espécie de nova arquitetura de poder.

 Uma ordem em que o voto popular continua existindo, mas onde parcelas decisivas da vida econômica passam a ser conduzidas por estruturas relativamente afastadas do controle democrático cotidiano.

<><>  A falsa neutralidade do mercado

 Evidentemente, isso não significa defender irresponsabilidade fiscal, populismo monetário ou destruição institucional. Bancos centrais possuem funções fundamentais. Controle inflacionário importa. Credibilidade institucional importa. Estabilidade macroeconômica importa.

 O problema começa quando “autonomia técnica” se transforma em blindagem política.

 Porque nenhum banco central opera fora da sociedade. Nenhuma decisão monetária é neutra. Nenhum modelo econômico está livre de pressupostos ideológicos.

 A própria ideia de independência frequentemente esconde outro fenômeno menos discutido: a crescente proximidade entre tecnocracias econômicas e o sistema financeiro.

 Nas últimas décadas, consolidou-se uma circulação contínua entre bancos centrais, mercado financeiro, fundos de investimento, grandes bancos e organismos multilaterais. Dirigentes transitam entre instituições públicas e privadas, compartilham ambientes intelectuais semelhantes, frequentam os mesmos fóruns econômicos e muitas vezes operam dentro de uma visão relativamente homogênea sobre inflação, austeridade, dívida pública e política monetária.

 Isso ajuda a explicar por que parte significativa da população passou a perceber uma desconexão crescente entre decisões econômicas e sofrimento social concreto.

 Quando juros permanecem elevados apesar da desaceleração econômica, quando o crédito se retrai, quando pequenas empresas fecham, quando famílias se endividam e o desemprego aumenta, a população tende a perguntar: afinal, quem está sendo protegido?

 <><> Democracias sob sensação de impotência

 Não por acaso, cresce no mundo inteiro a crise de legitimidade das democracias liberais.

 Em muitos países, parcelas crescentes da sociedade passaram a enxergar governos eleitos como incapazes de alterar efetivamente os rumos da economia. Independentemente de quem vence as eleições, certas diretrizes permanecem quase intocáveis: metas fiscais rígidas, austeridade, prioridade ao mercado financeiro, preservação da rentabilidade do capital e proteção permanente dos mecanismos de valorização financeira.

 A sensação de impotência democrática cresce exatamente nesse ambiente.

 E isso ajuda inclusive a explicar a ascensão global de movimentos antissistema, populismos e extremismos políticos. Quando amplos setores sociais passam a acreditar que a política perdeu capacidade real de transformação, cresce o espaço para discursos de ruptura, ressentimento e radicalização.

 O paradoxo é evidente.

 Instituições criadas para produzir estabilidade podem acabar alimentando instabilidade política de longo prazo ao aprofundar a percepção de distanciamento entre poder econômico e vontade popular.

<><>  O Brasil, o Banco Central e o novo conflito político

 O Brasil vive hoje parte dessa tensão.

 O debate sobre independência do Banco Central deixou de ser apenas econômico. Tornou-se uma discussão sobre democracia, representação e poder.

 Durante a gestão de Roberto Campos Neto, por exemplo, consolidou-se entre setores importantes da sociedade a percepção de que o Banco Central operava excessivamente alinhado aos interesses do mercado financeiro. Os juros persistentemente elevados durante boa parte do governo Lula aprofundaram esse conflito.

 Agora, sob Gabriel Galípolo, o desafio permanece. E o recente confronto verbal com o senador Renan Calheiros acabou funcionando quase como uma metáfora involuntária dessa tensão crescente entre tecnocracia e política democrática. Ao reagir de forma dura às críticas recebidas no Senado e afirmar que o Banco Central “não é palanque”, Galípolo buscou reafirmar a autoridade institucional da política monetária diante da pressão parlamentar.

 Mas o episódio acabou revelando justamente o tamanho da sensibilidade política que cerca hoje o Banco Central brasileiro.

 O problema não foi apenas o tom do embate. Foi o fato de que, por trás do bate-boca, emergiu uma pergunta muito maior: até que ponto instituições com enorme poder sobre juros, crédito, crescimento econômico e dívida pública podem permanecer relativamente blindadas do debate político e social?

 O episódio mostrou que a discussão sobre autonomia do Banco Central já deixou de ser um tema exclusivamente técnico. Tornou-se uma disputa aberta sobre poder, legitimidade e democracia econômica.

 <><> Quem governa o dinheiro

 Talvez em outro registro político, mas ainda cercado pela mesma questão central: como preservar credibilidade técnica sem transformar instituições monetárias em estruturas percebidas como politicamente blindadas ou socialmente desconectadas?

 Esse equilíbrio é delicado.

 Porque bancos centrais não podem virar palanques políticos. Mas também não podem transformar-se em espaços imunes ao debate democrático.

 Quanto maior o poder institucional, maior precisa ser a transparência pública, a responsabilidade política e a capacidade de diálogo com a sociedade.

 Talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja destruir a autonomia técnica, mas impedir que ela se converta numa nova forma de poder sem controle democrático efetivo.

 No fundo, a grande questão é simples.

 Quem governa o dinheiro governa grande parte da vida social.

 E nenhuma democracia pode ignorar esse aspecto.

 

Fonte: Brasil 247

 

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