terça-feira, 26 de maio de 2026

'Dark Horse' virou 'comédia de erros' que ameaça candidatura de Flávio Bolsonaro, diz Financial Times

O jornal britânico Financial Times publicou uma reportagem nesta segunda-feira (25/5) afirmando que Dark Horse — filme para o qual o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, segundo revelações do site Intercept Brasil este mês — é uma ameaça à pré-candidatura do senador.

"Antes mesmo de seu lançamento, a cinebiografia em inglês [sobre Jair Bolsonaro] está se transformando em uma comédia de erros, após revelações de que Flávio Bolsonaro obteve milhões de dólares em financiamento para o filme com um suspeito de corrupção, apontado como o responsável pelo colapso de um banco de US$ 10 bilhões", diz o jornal.

Flávio Bolsonaro nega ter cometido qualquer irregularidade.

O jornal britânico diz que Vorcaro cultivava "contatos de alto nível em importantes instituições enquanto ostentava um estilo de vida luxuoso, em um esquema que, segundo críticos, configurava tráfico de influência para promover seus interesses".

"A crise levantou dúvidas sobre a viabilidade eleitoral de [Flávio] Bolsonaro. Ele foi escolhido como herdeiro por seu pai, depois que o patriarca recebeu uma sentença de 27 anos em setembro por planejar um golpe para se manter no poder após sua derrota para Lula nas eleições de 2022."

O jornal afirma que Jair Bolsonaro segue sendo, em última instância, o líder da direita brasileira, e que decisões sobre a candidatura de Flávio, segundo um dos analistas ouvidos, dependem dele.

O Financial Times também diz que aliados de Bolsonaro acreditam que o filme Dark Horse pode ter um bom público tanto dentro do Brasil como no exterior.

"O ex-estrategista da Casa Branca, Steve Bannon, disse ao Financial Times que planeja promover Dark Horse e acredita que o filme pode ser um sucesso nos EUA, dada a popularidade de [Jim] Caviezel [ator que interpreta Jair Bolsonaro] no movimento MAGA [Make America Great Again, de Donald Trump]."

Segundo o jornal, Bannon disse: "Se você está no Brasil e ouve falar que estão fazendo um filme sobre o seu ex-presidente, com uma grande estrela de Hollywood no elenco, esse tipo de coisa multiplica o investimento em termos de alcance. É muito melhor do que fazer comerciais de 30 segundos na TV."

Em 13 de maio, uma reportagem do portal The Intercept Brasil revelou que o repasse total acordado entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido de fato liberados entre fevereiro e maio de 2025.

Diante dos atrasos para os pagamentos restantes, Flávio teria enviado mensagens para Vorcaro cobrando a liberação.

Em uma das mensagens divulgadas pelo Intercept, e que teria sido enviada um dia antes da primeira prisão do banqueiro, Flávio trata Vorcaro com aparente proximidade, o chamando de "irmão" e dizendo: "Estou e estarei contigo sempre".

Nesta semana, Flávio Bolsonaro deverá ir a Washington para uma possível reunião com o presidente Donald Trump.

<><> Flávio Bolsonaro vai aos EUA em busca de Trump e agenda positiva em meio a crise e sob olhar atento do governo Lula

O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deverá chegar a Washington  para uma possível reunião com o presidente Donald Trump.

O encontro, ainda não confirmado oficialmente, deverá ocorrer sob a sombra da crise que abalou sua pré-campanha nos últimos dias e sob o olhar atento do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A crise na campanha foi deflagrada pela revelação feita pelo site The Intercept Brasil de que Flávio pediu dinheiro de Vorcaro para financiar a cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Flávio nega ter cometido qualquer irregularidade.

A expectativa de interlocutores do senador é que a viagem ocorra entre terça-feira (26/5) e quinta-feira (28/5), embora ainda não haja confirmação oficial de que o encontro com Trump vá acontecer.

Nos bastidores, assessores e parlamentares próximos ao senador afirmam que o convite a Flávio teria sido feito pela Casa Branca após contatos intermediados pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos desde o ano passado.

A BBC News Brasil entrou em contato com a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil e a Casa Branca, mas não obteve retorno.

Enquanto a comitiva de Flávio Bolsonaro se prepara para o possível encontro com Trump, o presidente Lula, que também é pré-candidato à Presidência, adota cautela diante de um encontro cujo resultado, que segundo um alto oficial do governo, pode ser imprevisível.

Apesar da recente aproximação entre o petista e Trump, parte do governo Lula expressa desconfiança sobre se o governo norte-americano vai manter sua neutralidade ao longo das eleições deste ano.

Um interlocutor do presidente Lula afirmou à BBC News Brasil em caráter reservado que a gestão do petista não pretende criar obstáculos à eventual visita de Flávio a Trump ou cobrar explicações da Casa Branca sobre o evento.

A avaliação de interlocutores do governo Lula é de que a ida de Flávio a Washington é uma tentativa da sua pré-campanha de mudar o foco das suspeitas sobre seu vínculo com Vorcaro e produzir alguma agenda positiva. Apesar disso, o governo deverá acompanhar o encontro à distância e avaliar os sinais enviados por Trump durante e após a reunião.

Só então, a BBC News Brasil apurou, o governo vai estudar se adotará algum posicionamento.

<><> A crise de Flávio

A crise que abalou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro começou na semana passada, depois que o portal The Intercept divulgou mensagens e um áudio do senador para Daniel Vorcaro em que ele chama o banqueiro de "irmão" e pede dinheiro para o suposto financiamento do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro.

Documentos apontam que pelo menos R$ 61 milhões foram transferidos de uma empresa ligada a Vorcaro para a produtora do filme.

Inicialmente, Flávio Bolsonaro negou qualquer envolvimento com Vorcaro. Depois, contudo, ele admitiu ter pedido o dinheiro e defendeu a tese de que não cometeu nenhuma irregularidade.

Segundo ele, o pedido fez parte do trabalho de captação de investidores privados para o filme e que, à época, novembro de 2025, ele não teria conhecimento das suspeitas sobre Vorcaro.

"É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", disse Flávio em uma nota divulgada na quarta-feira (13/05)", disse Flávio em nota.

Depois disso, porém, o The Intercept Brasil divulgou que Flávio se encontrou com Vorcaro pessoalmente, no início deste ano, dias depois de ele ter sido colocado em liberdade pela Justiça brasileira. Na ocasião, as acusações de fraudes financeiras contra Vorcaro já eram conhecidas.

Em resposta, Flávio disse que sua ida à casa de Vorcaro, em São Paulo, foi uma tentativa de dar um "ponto final" à negociação de patrocínio do filme.

"Ele não poderia sair da cidade de São Paulo, e eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, dizer que se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco", disse Flávio.

Após essas revelações, a Polícia Federal passou a investigar a possibilidade de que os repasses feitos por empresas ligadas a Vorcaro tinham como objetivo financiar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-parlamentar, no entanto, negou ter se beneficiado direta ou indiretamente de recursos oriundos de Vorcaro ou de empresas vinculadas a ele.

Desde a revelação dos contatos entre Flávio e Vorcaro, no entanto, pesquisas como as da Atlas/Intel e do Datafolha apontam queda nas intenções de voto de Bolsonaro e crescimento de Lula.

A mais recente, divulgada pelo Datafolha, aponta que uma queda de 45% para 43% de Bolsonaro contra um crescimento de 45% para 47% de Lula. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais.

A crise fez com que o comando da pré-campanha de Flávio Bolsonaro trocasse o seu marqueteiro, Marcello Lopes. Em seu lugar, entrou o publicitário Eduardo Fischer.

<><> Inversão de papéis e atenção

O encontro entre o senador e Trump deverá acontecer três semanas depois de Lula ser recebido pelo presidente norte-americano na Casa Branca, no dia 7 de maio.

Na ocasião, segundo pesquisas de intenção de voto, era Lula quem vinha em viés de baixa e a oposição alegava que sua ida a Washington tinha o objetivo de garantir uma agenda positiva ao cenário em que Flávio Bolsonaro liderava, numericamente, as simulações para segundo turno.

A reunião entre Lula e Trump tinha previsão de durar uma hora, acabou se alongando por três e terminou sem entrevista coletiva ou anúncios de acordos. Apesar disso, Lula classificou o encontro como positivo.

"Olha para a minha fisionomia. Você acha que eu estou otimista, ou pessimista? Eu estou muito otimista", disse Lula a jornalistas após o encontro.

Trump também avaliou o encontro positivamente. "Tivemos uma ótima reunião com o presidente do Brasil. Fazemos muito comércio e vamos ampliar esse comércio. Falamos sobre tarifas. Falamos também que eles gostariam de algum alívio nas tarifas. Mas foi uma reunião muito boa. Ele é um bom homem. É um sujeito inteligente", disse Trump a repórteres em Washington.

A BBC News Brasil apurou que o governo Lula, a princípio, não vê o encontro entre Flávio e Trump como um problema ou uma ingerência do governo Trump no processo eleitoral brasileiro.

Um interlocutor do presidente disse, no entanto, que será necessário avaliar o resultado da reunião para fazer uma análise mais precisa sobre a disposição de Trump ou de parte de seu governo de interferir nas eleições deste ano.

Há alguns dias, integrantes do governo Lula vinham afirmando em caráter reservado que não descartavam a possibilidade de algum tipo de tentativa de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.

Segundo eles, a imposição do tarifaço de 50% a produtos brasileiros em julho do ano passado e a vinculação da medida ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) já era uma demonstração de que o governo Trump teria os meios e a disposição de interferir na política doméstica brasileira.

Eles afirmam, contudo, que após a aproximação entre Trump e Lula e a queda de parte das tarifas, os contatos entre os dois nos últimos meses eram uma forma de dificultar a atuação de uma suposta ala mais radical dentro do governo Trump ligada a bolsonaristas como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o jornalista Paulo Figueiredo, ambos vivendo nos Estados Unidos.

A avaliação de parte do governo Lula é de que apesar do tom amistoso do encontro mantido entre os dois em maio, isso não significa, porém, que o Palácio do Planalto veja neutralidade absoluta nos Estados Unidos e que setores do governo norte-americano prefeririam um governo brasileiro mais alinhado a Washington, especialmente em temas como China, minerais críticos, big techs e política externa.

Auxiliares do presidente Lula avaliam, porém, que há dúvidas sobre até que ponto Flávio e seus aliados explorariam um apoio explícito de Trump na campanha brasileira. A razão, segundo ele, é que Trump teria uma alta rejeição em parte da opinião pública brasileira.

Além disso, existiria a avaliação na direita brasileira de que o tarifaço imposto por Trump ao Brasil no ano passado ajudou a aumentar, ainda que temporariamente, a popularidade de Lula.

Na avaliação desse integrante do governo, um gesto de Trump poderia animar setores da direita, mas também dar munição ao discurso de defesa da soberania nacional e de crítica ao alinhamento automático com os Estados Unidos feito por Lula durante o tarifaço.

 

Fonte: BBC News

 

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