'Dark
Horse' virou 'comédia de erros' que ameaça candidatura de Flávio Bolsonaro, diz
Financial Times
O
jornal britânico Financial Times publicou uma reportagem nesta segunda-feira
(25/5) afirmando que Dark Horse — filme para o qual o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, segundo
revelações do site Intercept Brasil este mês — é uma ameaça à pré-candidatura
do senador.
"Antes
mesmo de seu lançamento, a cinebiografia em inglês [sobre Jair Bolsonaro] está
se transformando em uma comédia de erros, após revelações de que Flávio
Bolsonaro obteve milhões de dólares em financiamento para o filme com um
suspeito de corrupção, apontado como o responsável pelo colapso de um banco de
US$ 10 bilhões", diz o jornal.
Flávio
Bolsonaro nega ter cometido qualquer irregularidade.
O
jornal britânico diz que Vorcaro cultivava "contatos de alto nível em
importantes instituições enquanto ostentava um estilo de vida luxuoso, em um
esquema que, segundo críticos, configurava tráfico de influência para promover
seus interesses".
"A
crise levantou dúvidas sobre a viabilidade eleitoral de [Flávio] Bolsonaro. Ele
foi escolhido como herdeiro por seu pai, depois que o patriarca recebeu uma
sentença de 27 anos em setembro por planejar um golpe para se manter no poder
após sua derrota para Lula nas eleições de 2022."
O
jornal afirma que Jair Bolsonaro segue sendo, em última instância, o líder da
direita brasileira, e que decisões sobre a candidatura de Flávio, segundo um
dos analistas ouvidos, dependem dele.
O
Financial Times também diz que aliados de Bolsonaro acreditam que o filme Dark
Horse pode ter um bom público tanto dentro do Brasil como no exterior.
"O
ex-estrategista da Casa Branca, Steve Bannon, disse ao Financial Times que
planeja promover Dark Horse e acredita que o filme pode ser um sucesso nos EUA,
dada a popularidade de [Jim] Caviezel [ator que interpreta Jair Bolsonaro] no
movimento MAGA [Make America Great Again, de Donald Trump]."
Segundo
o jornal, Bannon disse: "Se você está no Brasil e ouve falar que estão
fazendo um filme sobre o seu ex-presidente, com uma grande estrela de Hollywood
no elenco, esse tipo de coisa multiplica o investimento em termos de alcance. É
muito melhor do que fazer comerciais de 30 segundos na TV."
Em 13
de maio, uma reportagem do portal The Intercept Brasil revelou que o repasse
total acordado entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro seria de US$ 24 milhões, o
equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Desse montante, R$ 61 milhões
teriam sido de fato liberados entre fevereiro e maio de 2025.
Diante
dos atrasos para os pagamentos restantes, Flávio teria enviado mensagens para
Vorcaro cobrando a liberação.
Em uma
das mensagens divulgadas pelo Intercept, e que teria sido enviada um dia antes
da primeira prisão do banqueiro, Flávio trata Vorcaro com aparente proximidade,
o chamando de "irmão" e dizendo: "Estou e estarei contigo
sempre".
Nesta
semana, Flávio Bolsonaro deverá ir a Washington para uma possível reunião com o
presidente Donald Trump.
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Flávio Bolsonaro vai aos EUA em busca de Trump e agenda positiva em meio a
crise e sob olhar atento do governo Lula
O
senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
deverá chegar a Washington para uma
possível reunião com o presidente Donald Trump.
O
encontro, ainda não confirmado oficialmente, deverá ocorrer sob a sombra da
crise que abalou sua pré-campanha nos últimos dias e sob o olhar atento do
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A crise
na campanha foi deflagrada pela revelação feita pelo site The Intercept Brasil
de que Flávio pediu dinheiro de Vorcaro para financiar a cinebiografia de seu
pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Flávio nega ter cometido qualquer
irregularidade.
A
expectativa de interlocutores do senador é que a viagem ocorra entre
terça-feira (26/5) e quinta-feira (28/5), embora ainda não haja confirmação
oficial de que o encontro com Trump vá acontecer.
Nos
bastidores, assessores e parlamentares próximos ao senador afirmam que o
convite a Flávio teria sido feito pela Casa Branca após contatos intermediados
pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos
desde o ano passado.
A BBC
News Brasil entrou em contato com a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil e a
Casa Branca, mas não obteve retorno.
Enquanto
a comitiva de Flávio Bolsonaro se prepara para o possível encontro com Trump, o
presidente Lula, que também é pré-candidato à Presidência, adota cautela diante
de um encontro cujo resultado, que segundo um alto oficial do governo, pode ser
imprevisível.
Apesar
da recente aproximação entre o petista e Trump, parte do governo Lula expressa
desconfiança sobre se o governo norte-americano vai manter sua neutralidade ao
longo das eleições deste ano.
Um
interlocutor do presidente Lula afirmou à BBC News Brasil em caráter reservado
que a gestão do petista não pretende criar obstáculos à eventual visita de
Flávio a Trump ou cobrar explicações da Casa Branca sobre o evento.
A
avaliação de interlocutores do governo Lula é de que a ida de Flávio a
Washington é uma tentativa da sua pré-campanha de mudar o foco das suspeitas
sobre seu vínculo com Vorcaro e produzir alguma agenda positiva. Apesar disso,
o governo deverá acompanhar o encontro à distância e avaliar os sinais enviados
por Trump durante e após a reunião.
Só
então, a BBC News Brasil apurou, o governo vai estudar se adotará algum
posicionamento.
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A crise de Flávio
A crise
que abalou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro começou na semana passada,
depois que o portal The Intercept divulgou mensagens e um áudio do senador para
Daniel Vorcaro em que ele chama o banqueiro de "irmão" e pede
dinheiro para o suposto financiamento do filme "Dark Horse", sobre
Jair Bolsonaro.
Documentos
apontam que pelo menos R$ 61 milhões foram transferidos de uma empresa ligada a
Vorcaro para a produtora do filme.
Inicialmente,
Flávio Bolsonaro negou qualquer envolvimento com Vorcaro. Depois, contudo, ele
admitiu ter pedido o dinheiro e defendeu a tese de que não cometeu nenhuma
irregularidade.
Segundo
ele, o pedido fez parte do trabalho de captação de investidores privados para o
filme e que, à época, novembro de 2025, ele não teria conhecimento das
suspeitas sobre Vorcaro.
"É
preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi
um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história
do próprio pai", disse Flávio em uma nota divulgada na quarta-feira
(13/05)", disse Flávio em nota.
Depois
disso, porém, o The Intercept Brasil divulgou que Flávio se encontrou com
Vorcaro pessoalmente, no início deste ano, dias depois de ele ter sido colocado
em liberdade pela Justiça brasileira. Na ocasião, as acusações de fraudes
financeiras contra Vorcaro já eram conhecidas.
Em
resposta, Flávio disse que sua ida à casa de Vorcaro, em São Paulo, foi uma
tentativa de dar um "ponto final" à negociação de patrocínio do
filme.
"Ele
não poderia sair da cidade de São Paulo, e eu fui sim ao encontro dele para
botar um ponto final nessa história, dizer que se ele tivesse me avisado que a
situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há
muito mais tempo e o filme não correria risco", disse Flávio.
Após
essas revelações, a Polícia Federal passou a investigar a possibilidade de que
os repasses feitos por empresas ligadas a Vorcaro tinham como objetivo
financiar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O
ex-parlamentar, no entanto, negou ter se beneficiado direta ou indiretamente de
recursos oriundos de Vorcaro ou de empresas vinculadas a ele.
Desde a
revelação dos contatos entre Flávio e Vorcaro, no entanto, pesquisas como as da
Atlas/Intel e do Datafolha apontam queda nas intenções de voto de Bolsonaro e
crescimento de Lula.
A mais
recente, divulgada pelo Datafolha, aponta que uma queda de 45% para 43% de
Bolsonaro contra um crescimento de 45% para 47% de Lula. A margem de erro da
pesquisa é de dois pontos percentuais.
A crise
fez com que o comando da pré-campanha de Flávio Bolsonaro trocasse o seu
marqueteiro, Marcello Lopes. Em seu lugar, entrou o publicitário Eduardo
Fischer.
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Inversão de papéis e atenção
O
encontro entre o senador e Trump deverá acontecer três semanas depois de Lula
ser recebido pelo presidente norte-americano na Casa Branca, no dia 7 de maio.
Na
ocasião, segundo pesquisas de intenção de voto, era Lula quem vinha em viés de
baixa e a oposição alegava que sua ida a Washington tinha o objetivo de
garantir uma agenda positiva ao cenário em que Flávio Bolsonaro liderava,
numericamente, as simulações para segundo turno.
A
reunião entre Lula e Trump tinha previsão de durar uma hora, acabou se
alongando por três e terminou sem entrevista coletiva ou anúncios de acordos.
Apesar disso, Lula classificou o encontro como positivo.
"Olha
para a minha fisionomia. Você acha que eu estou otimista, ou pessimista? Eu
estou muito otimista", disse Lula a jornalistas após o encontro.
Trump
também avaliou o encontro positivamente. "Tivemos uma ótima reunião com o
presidente do Brasil. Fazemos muito comércio e vamos ampliar esse comércio.
Falamos sobre tarifas. Falamos também que eles gostariam de algum alívio nas
tarifas. Mas foi uma reunião muito boa. Ele é um bom homem. É um sujeito
inteligente", disse Trump a repórteres em Washington.
A BBC
News Brasil apurou que o governo Lula, a princípio, não vê o encontro entre
Flávio e Trump como um problema ou uma ingerência do governo Trump no processo
eleitoral brasileiro.
Um
interlocutor do presidente disse, no entanto, que será necessário avaliar o
resultado da reunião para fazer uma análise mais precisa sobre a disposição de
Trump ou de parte de seu governo de interferir nas eleições deste ano.
Há
alguns dias, integrantes do governo Lula vinham afirmando em caráter reservado
que não descartavam a possibilidade de algum tipo de tentativa de interferência
dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.
Segundo
eles, a imposição do tarifaço de 50% a produtos brasileiros em julho do ano
passado e a vinculação da medida ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro
no Supremo Tribunal Federal (STF) já era uma demonstração de que o governo
Trump teria os meios e a disposição de interferir na política doméstica
brasileira.
Eles
afirmam, contudo, que após a aproximação entre Trump e Lula e a queda de parte
das tarifas, os contatos entre os dois nos últimos meses eram uma forma de
dificultar a atuação de uma suposta ala mais radical dentro do governo Trump
ligada a bolsonaristas como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o
jornalista Paulo Figueiredo, ambos vivendo nos Estados Unidos.
A
avaliação de parte do governo Lula é de que apesar do tom amistoso do encontro
mantido entre os dois em maio, isso não significa, porém, que o Palácio do
Planalto veja neutralidade absoluta nos Estados Unidos e que setores do governo
norte-americano prefeririam um governo brasileiro mais alinhado a Washington,
especialmente em temas como China, minerais críticos, big techs e política
externa.
Auxiliares
do presidente Lula avaliam, porém, que há dúvidas sobre até que ponto Flávio e
seus aliados explorariam um apoio explícito de Trump na campanha brasileira. A
razão, segundo ele, é que Trump teria uma alta rejeição em parte da opinião
pública brasileira.
Além
disso, existiria a avaliação na direita brasileira de que o tarifaço imposto
por Trump ao Brasil no ano passado ajudou a aumentar, ainda que
temporariamente, a popularidade de Lula.
Na
avaliação desse integrante do governo, um gesto de Trump poderia animar setores
da direita, mas também dar munição ao discurso de defesa da soberania nacional
e de crítica ao alinhamento automático com os Estados Unidos feito por Lula
durante o tarifaço.
Fonte:
BBC News

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