Esquema
bilionário de combustíveis transformou Faria Lima em “paraíso fiscal”, diz
Emerson Kapaz
O
empresário e ex-deputado federal Emerson Kapaz afirmou que o esquema
investigado pela Polícia Federal envolvendo a Refit/Manguinhos, distribuidoras
de combustíveis, fintechs e operadores financeiros criou uma espécie de
“paraíso fiscal” no coração do mercado financeiro paulista. A declaração foi
dada em entrevista ao programa Boa Noite 247. Segundo Kapaz, o sistema permitia
movimentações bilionárias fora do radar de órgãos de fiscalização e alimentava
estruturas ligadas ao crime organizado.
Durante
a entrevista, baseada em informações da operação conduzida pela Polícia Federal
e citadas em decisão do ministro Alexandre de Moraes, Kapaz descreveu um
mecanismo sofisticado de evasão fiscal, lavagem de dinheiro e fraudes
tributárias que teria operado durante anos com apoio político e institucional.
“Era um paraíso fiscal aqui na Avenida Faria Lima. Eu não precisava mais de
dólar, nem de doleiro”, afirmou.
Segundo
o empresário, a Refit acumulou a maior dívida tributária do país em ICMS. Ele
citou números atualizados pelo Instituto Combustível Legal, indicando que o
conglomerado já teria acumulado cerca de R$ 52 bilhões em passivos tributários.
A cifra coincide com dados mencionados pela Procuradoria-Geral da Fazenda
Nacional e utilizados pelo ministro Alexandre de Moraes para determinar
bloqueios judiciais.
Kapaz
afirmou que o esquema foi sustentado ao longo de vários governos no Rio de
Janeiro e envolvia agentes públicos, integrantes da Secretaria de Fazenda,
procuradores e operadores financeiros. “Tinha um elefante azul andando na
frente de todo mundo e ninguém via”, disse, ao comentar a dimensão das
irregularidades.
Um dos
pontos centrais da entrevista foi a atuação de fintechs e fundos financeiros
ligados ao chamado fundo Reag. Segundo Kapaz, cerca de 40 fintechs operavam um
sistema de “conta bolsão”, no qual movimentações financeiras não apareciam de
forma transparente para os órgãos de controle, como o Coaf.
“Essas
fintechs permitiam movimentações gigantescas. Você colocava o dinheiro,
transformava em criptomoeda e mandava para fora. O sistema virou o doleiro do
crime organizado”, declarou.
De
acordo com ele, as investigações reveladas na operação Carbono Oculto acabaram
desencadeando consequências em cadeia, atingindo inclusive estruturas
relacionadas ao Banco Master. Kapaz sustenta que bilhões circularam entre 2021
e 2024 em operações suspeitas escondidas sob estruturas financeiras pouco
fiscalizadas.
O
empresário também afirmou que o setor de combustíveis se tornou mais lucrativo
para o crime organizado do que o tráfico de drogas. Citando dados do Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, ele disse que organizações criminosas faturam
cerca de R$ 62 bilhões por ano com combustíveis, contra aproximadamente R$ 20
bilhões com cocaína.
“Hoje
existe uma economia do crime no Brasil. Ela alimenta corrupção, financiamento
político e infiltração no Estado”, afirmou.
Kapaz
descreveu ainda mecanismos de fraude usados no mercado de combustíveis,
incluindo adulteração de bombas, manipulação tributária sobre etanol e gasolina
e uso de aplicativos para mascarar preços ao consumidor. Segundo ele, o sistema
criminoso atua “do poço ao posto”, envolvendo distribuidoras, transportadoras,
postos e operadores financeiros.
Ele
destacou que parte da mudança começou após operações policiais recentes e
afirmou que o governo interino do Rio de Janeiro, comandado pelo desembargador
Ricardo Couto, vem promovendo uma “guinada de 180 graus” no enfrentamento ao
esquema.
“Em um
mês e meio, eles fizeram mudanças impressionantes. Existe hoje vontade política
real para desmontar esse sistema”, disse.
Ao
comentar a possibilidade de prisão internacional do empresário Ricardo Magro,
apontado como um dos principais nomes ligados ao conglomerado, Kapaz afirmou
acreditar que a cooperação entre Brasil e Estados Unidos poderá facilitar uma
eventual extradição.
“O
mandado internacional e a lista vermelha da Interpol mudam completamente o
cenário”, declarou.
Na
parte final da entrevista, Kapaz fez uma reflexão sobre a relação entre elites
econômicas e estruturas criminosas no Brasil. Citando escândalos financeiros
recentes, ele lamentou o avanço do que chamou de “economia do crime”, mas
afirmou ainda acreditar na capacidade de reação institucional.
“Às
vezes parece que não vale a pena lutar. Mas a persistência acaba fazendo as
coisas florescerem. Se a sociedade civil não pressionar e não participar, eles
vão nadar de braçada”, concluiu.
• O escândalo: Master ou bolsonarista? Por
João Lister
O caso
Banco Master explodiu como um escândalo financeiro de proporções nacionais:
liquidação de instituições do conglomerado, suspeitas de fraude bilionária,
prisão de Daniel Vorcaro e a revelação de que Flávio Bolsonaro buscava um
financiamento privado de US$ 24 milhões para o filme Dark Horse, sobre Jair
Bolsonaro. Segundo a Reuters, o Banco Master teria colapsado em meio a uma
investigação de fraude multibilionária; o Financial Times falou em colapso
bancário de US$ 10 bilhões e suspeitas de fraude de US$ 2,3 bilhões. Flávio
admitiu a tratativa, mas afirmou que se tratava de contrato privado legítimo,
sem contrapartida ilícita.
Mas o
Master talvez seja apenas a face bancária mais recente de uma engrenagem
política muito mais ampla. A pergunta jornalística relevante não é apenas
“quanto custou o Master?”, mas quanto custou — em dinheiro público, captura
institucional, emendas, favores, bens apropriados, estruturas paralelas,
campanhas de desinformação e aparelhamento do Estado — o ciclo político que se
organizou em torno do bolsonarismo.
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As rachadinhas: o gabinete como unidade econômica
A conta
documentável começa antes do Palácio do Planalto, no Rio de Janeiro. O caso das
“rachadinhas” no gabinete de Flávio Bolsonaro, embora encerrado judicialmente
após anulações de provas e rejeição da denúncia, deixou uma cifra pública:
segundo a Reuters, a denúncia do MP-RJ atribuiu a Flávio participação em
esquema de desvio de salários de assessores na Alerj e falava em R$ 6,1 milhões
desviados; já o Coaf apontou movimentações atípicas de Fabrício Queiroz,
incluindo valores que chegaram a R$ 7 milhões em determinado recorte temporal,
segundo reportagens da época. O processo não resultou em condenação, e a defesa
sempre negou irregularidades, mas o caso permanece como marco inaugural da
suspeita de uma economia política familiar estruturada a partir de gabinete,
assessores, dinheiro vivo e intermediações.
O fato
jurídico de não haver condenação não elimina o fato político de que o caso
revelou um padrão de assessorias, dinheiro vivo, familiares de policiais,
operadores de confiança e movimentações financeiras incompatíveis com a
normalidade administrativa.
Fabrício
Queiroz, ex-assessor de Flávio e antigo amigo da família Bolsonaro, tornou-se
personagem-síntese desse sistema. Ele fazia a ponte entre gabinete parlamentar,
mundo policial e relações pessoais da família. O caso terminou sem condenação
contra Flávio, mas sua força histórica está em ter revelado a anatomia inicial
de um método: política como fonte de renda privada, gabinete como caixa
informal, fidelidade pessoal como mecanismo de blindagem.
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O patrimônio imobiliário: a pedagogia do dinheiro vivo
O
primeiro capítulo é patrimonial. Levantamento do UOL apontou que Jair Bolsonaro
e familiares próximos adquiriram 107 imóveis ao longo de três décadas, sendo 51
pagos total ou parcialmente em dinheiro vivo. Segundo a reportagem, o valor
corrigido dessas transações em espécie se aproximava de R$ 26 milhões. O
levantamento considerou imóveis de Jair Bolsonaro, filhos, mãe, irmãos e
ex-mulheres..
Dinheiro
vivo não é crime por si só. Compra de imóvel em espécie também não constitui,
automaticamente, lavagem de dinheiro. Mas, em uma família que fez carreira na
política profissional, com renda pública conhecida, o padrão chama atenção por
três razões: primeiro, pela quantidade; segundo, pela recorrência; terceiro,
pela coincidência com outros casos envolvendo assessores, movimentações
atípicas e suspeitas de retenção de salários em gabinetes parlamentares.
A
pergunta contábil é simples: qual a origem econômica de tanto numerário?
Salários parlamentares explicam patrimônio declarado, mas não necessariamente
explicam preferência reiterada por espécie, circulação informal e aquisição
pulverizada por vários membros da família.
Essa é
a primeira camada da contabilidade bolsonarista: antes da Presidência, antes do
orçamento secreto, antes do Master, havia um padrão patrimonial a ser
explicado.
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A vaquinha do Pix: militância como fluxo financeiro privado
O
terceiro capítulo é digital. Em 2023, Jair Bolsonaro recebeu R$ 17,2 milhões
via Pix, segundo relatório do Coaf divulgado pela imprensa e confirmado por
veículos públicos. O dinheiro teria vindo de apoiadores, em campanha organizada
para pagar multas impostas ao ex-presidente. O Coaf classificou as
movimentações como atípicas e apontou suspeita de possível lavagem de dinheiro,
inclusive porque parte dos recursos teria sido direcionada a aplicações
financeiras.
Aqui
está uma mutação importante: a velha política do dinheiro vivo se converteu em
política de multidão digital. O mecanismo já não depende apenas de gabinete e
assessor. Ele passa a operar por Pix, vaquinha, campanha emocional, perseguição
imaginária e fidelização militante. O líder transforma multas, condenações,
bloqueios ou derrotas judiciais em ativo político e financeiro.
Também
houve fraudes paralelas explorando a imagem de Bolsonaro e de aliados. A
Reuters checou vídeos manipulados por inteligência artificial que simulavam
Bolsonaro e Nikolas Ferreira pedindo doações para ato político, caso que ambos
negaram e classificaram como falso. Isso mostra que a economia digital
bolsonarista produziu não apenas arrecadação política real, mas também um
ambiente propício a golpes, vaquinhas apócrifas e exploração financeira da fé
militante.
O ponto
político é grave: o bolsonarismo criou uma base emocional monetizável. A
militância não é apenas eleitorado; é público consumidor, doador, replicador,
financiador e blindagem social.
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Joias, exterior e lavagem simbólica do poder
Há o
capítulo internacional dessa história. No caso das joias sauditas, a Polícia
Federal indiciou Jair Bolsonaro e outros investigados por suspeitas de
peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Os presentes oficiais
tinham valor estimado em cerca de US$ 1,2 milhão, e parte deles teria sido
levada ao exterior ou ter sua venda tentada. A defesa de Bolsonaro nega crime e
sustenta que não houve apropriação ilícita.
Esse
caso é pequeno se comparado ao orçamento secreto, mas enorme em significado
político. Ele mostra a passagem do presente de Estado para a esfera privada; do
bem público para o circuito familiar; do símbolo diplomático para o ativo
monetizável. O relógio, a joia, a caneta e o objeto de luxo funcionam como
metáfora perfeita: o Estado tratado como extensão do patrimônio pessoal.
Sobre
fundos no exterior, a cautela é necessária. Há informações públicas sobre
offshores e contas externas de integrantes relevantes do governo Bolsonaro,
como Paulo Guedes e Roberto Campos Neto, reveladas no contexto dos Pandora
Papers, mas isso não equivale, por si só, a afirmar que a família Bolsonaro
possuía offshore própria..
O que
existe, no caso recente do Master, é a menção jornalística a estruturas
externas e fundos associados ao financiamento do filme Dark Horse, incluindo
referência ao Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, apontado por
veículos brasileiros como possível foco de apuração envolvendo Banco Master,
Vorcaro e o entorno bolsonarista. Essa linha ainda exige investigação formal
robusta. Não se deve tratá-la como prova de crime consumado, mas como indício
jornalístico relevante dentro do circuito internacional de financiamento
político-cultural.
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Orçamento secreto: a corrupção legalizada pela opacidade
No
governo federal, a escala muda. O chamado orçamento secreto, formalizado pelas
emendas de relator RP9, atingiu cifras incompatíveis com a narrativa de um
governo “anticorrupção”. O STF declarou o mecanismo inconstitucional e
registrou que, em 2022, o uso dessas emendas chegou a R$ 16,5 bilhões, com R$
19,4 bilhões reservados para 2023 antes da derrubada do modelo. O Senado
apontou que, só naquele orçamento, metade dos R$ 19,4 bilhões ficava
concentrada em cinco ministérios, sobretudo Desenvolvimento Regional, Saúde e
Cidadania.
Se
tomada a série política do orçamento secreto, a conta sobe ainda mais:
levantamentos públicos apontaram cerca de R$ 46,2 bilhões autorizados entre
2020 e 2022 em emendas RP9.
Nem
todo real do orçamento secreto é corrupção comprovada. Mas todo real alocado
sem transparência suficiente é potencial instrumento de captura política. O
orçamento secreto foi o casamento entre Bolsonaro e o Centrão: o presidente
entregava o cofre; o Congresso entregava blindagem. A moral anticorrupção
morreu ali, não por escândalo de mala de dinheiro, mas por arquitetura
institucional.
Foi a
corrupção convertida em método de governabilidade.
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A pandemia como mercado de oportunidade: Covaxin e Ministério da Saúde
A
pandemia abriu outra frente. No caso Covaxin, a CPI da Covid investigou a
contratação de 20 milhões de doses por R$ 1,6 bilhão, com suspeitas de
sobrepreço, pressão interna no Ministério da Saúde e intermediação privada. O
contrato não foi pago, mas chegou a ser firmado e empenhado, e o Senado
registrou que a CPI apontou crimes atribuídos a Bolsonaro, ministros,
ex-ministros, parlamentares e empresários. Aqui, a cifra não é prejuízo final
consolidado, mas valor sob risco em uma operação pública suspeita.
O
bolsonarismo tratou a pandemia em duas frentes: ideologicamente, como guerra
cultural contra ciência, máscara, vacina e isolamento; administrativamente,
como campo de negócios, compras emergenciais, intermediários e contratos
bilionários.
Mesmo
quando o prejuízo não se consuma, a tentativa já revela o método.
A Abin
paralela: Estado, espionagem e proteção familiar
Tem-se,
também, a Abin paralela. A Polícia Federal apontou o uso ilegal da Agência
Brasileira de Inteligência para monitorar adversários, autoridades e produzir
informações de interesse político. O sistema FirstMile, citado nas
investigações, custou cerca de R$ 5,727 milhões. Carlos Bolsonaro e Alexandre
Ramagem foram indiciados em inquérito relacionado ao caso, segundo a Agência
Brasil.
Aqui a
conta não é apenas financeira. É institucional. O prejuízo está no uso de
aparato de Estado como extensão da trincheira familiar. Quando inteligência
pública vira ferramenta privada, a democracia deixa de ser regime e passa a ser
alvo.
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Milícia, Rio de Janeiro e o caso Marielle
Dentre
todos os capítulos, este é o mais sensível: a relação histórica do bolsonarismo
com o ambiente policial-miliciano do Rio de Janeiro.
Não há
condenação de Jair Bolsonaro no caso Marielle. A investigação avançou contra
Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, condenados como executores, e contra os irmãos
Brazão e outros acusados como mandantes ou articuladores, em processo que expôs
a ligação entre política, milícia, especulação imobiliária e violência no Rio.
Mas
também é fato público que o caso Marielle tangenciou o universo bolsonarista
por diversas coincidências e proximidades: Ronnie Lessa morava no mesmo
condomínio de Jair Bolsonaro; Élcio de Queiroz apareceu em registros de entrada
no condomínio; houve depoimento de porteiro mencionando a casa de Bolsonaro,
depois relativizado ou desmentido por perícias e novas declarações; e
integrantes do entorno bolsonarista mantinham relações antigas com policiais,
ex-policiais e personagens do mundo da segurança pública carioca e, até mesmo,
o criminoso Adriano da Nóbrega foi homenageado por Flávio em 2003 e 2005 e
defendido também em 2005 por Jair Bolsonaro, da tribuna da Câmara Federal,
elemento este ligado ao assassinato de Marielle.
O ponto
não é afirmar que Bolsonaro mandou matar Marielle. Isso não está demonstrado
nos autos conhecidos. O ponto é outro: a ascensão bolsonarista no Rio se deu no
mesmo ecossistema em que milícia, polícia, política local, controle territorial
e negócios imobiliários passaram a se confundir. Marielle foi assassinada
porque enfrentava exatamente essa zona de poder: a interseção entre violência
armada, loteamento urbano, captura institucional e política de extermínio.
Bolsonaro
não precisa ser autor do crime para ser politicamente representativo desse
ambiente. O bolsonarismo é a ideologia que naturalizou o braço armado,
glamourizou a violência policial, homenageou torturadores, relativizou
milicianos e transformou a política da morte em identidade eleitoral.
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Empresariado, Faria Lima e extrema direita como investimento
Por
fim, tem-se o capítulo empresarial. É preciso distinguir três níveis: apoio
ideológico, financiamento político lícito e participação em ilícitos. Empresas
como Havan, Riachuelo, Ypê ou empresários individualmente identificados no
campo bolsonarista podem ser mencionados quando houver fatos públicos: apoio
declarado, participação em atos, doações legais, ações judiciais, investigações
administrativas ou financiamento de campanhas. Mas não se pode afirmar, sem
prova, que uma empresa compõe organização criminosa apenas por seu alinhamento
ideológico.
O que
se pode afirmar, com segurança política, é que parte do empresariado brasileiro
aderiu ao bolsonarismo porque viu nele uma promessa de desregulação
trabalhista, redução de custos, enfraquecimento sindical, privatização, guerra
cultural contra a esquerda e Estado capturado por interesses privados. A Faria
Lima não aderiu ao bolsonarismo apesar de sua brutalidade; aderiu porque a
brutalidade vinha embalada em agenda econômica conveniente.
Paulo
Guedes simbolizou esse pacto: liberalismo para os pobres, orçamento secreto
para o Centrão, Banco Central independente para o mercado, precarização para o
trabalhador e tolerância com o autoritarismo enquanto a Bolsa reagisse bem.
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A soma possível
A conta
documentável, sem exagero, já é gigantesca.
A soma
bruta dessas rubricas ultrapassa, com folga, dezenas de bilhões de reais, mas
seria metodologicamente errado tratar tudo como “dinheiro roubado”. A conta
correta é outra: trata-se de um mapa de exposição patrimonial, institucional e
política. Nele, há valores efetivamente contratados, valores empenhados,
valores sob suspeita, valores de bens públicos, valores de financiamento
privado politicamente sensível e valores de estruturas estatais utilizadas fora
de sua finalidade republicana.
É aqui
que a comparação com o Master se torna insuficiente. O Master é um escândalo
financeiro. O bolsonarismo, em sua versão estatal, parlamentar, digital,
familiar e empresarial, aparece nos documentos públicos como algo mais extenso:
um ecossistema de poder, onde o Master está no seu interior, e não é um caso à
parte. Ele combinou orçamento opaco, base parlamentar fisiológica, redes
digitais, operadores privados, militares, policiais, empresários simpáticos ao
projeto político, agentes públicos e estruturas paralelas de informação.
Isso
não autoriza, sem prova, colocar toda empresa apoiadora, todo empresário de
direita, todo partido aliado ou todo prefeito bolsonarista dentro de uma
organização criminosa.
Mas a
prudência jurídica não diminui a gravidade política. Ao contrário: ela torna a
crítica mais forte. A contabilidade do bolsonarismo não depende de exagero.
Seus números documentados já bastam para mostrar que o discurso “anticorrupção”
conviveu com a maior experiência recente de orçamento opaco do país, com
suspeitas em compras bilionárias na saúde, com joias oficiais desviadas para
circuito privado, com espionagem estatal clandestina, com condenação por
tentativa de golpe e, por fim, é partícipe do caso Master.
O
escândalo Master pode ter revelado uma conexão tardia entre banco, cinema,
campanha e família. Mas a conta maior é anterior e estrutural. Ela está no uso
da política como negócio, do Estado como bunker, do orçamento como moeda de
fidelização e da máquina pública como instrumento de blindagem familiar e
guerra contra adversários.
O
desafio da imprensa, do Ministério Público, do Congresso e do Judiciário é não
reduzir o problema ao personagem Vorcaro. O Master pode ser a porta de entrada.
A pergunta maior é se, por trás dele, reaparece a mesma lógica: dinheiro
privado, influência pública, opacidade, lealdade política e captura
institucional.
Essa é
a verdadeira conta. E ela ainda não terminou de ser auditada.
Fonte:
Brasil 247

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