Terras
raras, velha espoliação: O avanço da mineração sobre os territórios camponeses
A luta
em defesa da natureza mudou de patamar. Hoje, a ‘bancada do boi’ não passa
boiada sem enfrentar a resistência do povo, e este é o caso da disputa pelas
“terras raras”, que entrou em uma nova fase no Brasil com o Congresso
acelerando a criação de um marco legal para minerais críticos e estratégicos e,
ao mesmo tempo, com a intensificação da pressão de investidores, do agronegócio
e de empresas transnacionais sobre territórios ainda pouco protegidos.
Para
denunciar o crime e anunciar a vida, o MST ocupa as ruas, estradas e espaços do
campo e realiza na primeira semana de junho a Jornada Nacional em Defesa da
Natureza e seus Povos, proposta pelo Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir
Alimentos Saudáveis. Sob o lema “Combater o agronegócio é cuidar da natureza”,
o Movimento denuncia as violências e a destruição ambiental promovidas por esse
modelo extrativista e anuncia a Reforma Agrária Popular, como a única saída
para dar um basta à violência contra quem produz vida. A Jornada reafirma que
práticas agroecológicas representam uma alternativa concreta para enfrentar a
crise ambiental e o combate à fome no país.
Lucas
Zenha, pesquisador do GeografAR (grupo de pesquisa que articula geografia,
militância e diálogo com movimentos sociais), comenta que nos últimos doze anos
a questão agrária e a questão mineral passaram a se sobrepor de forma
inevitável: “A mineração acaba desterritorializando, impactando inúmeras
populações do campo”, afirma. O pesquisador e geógrafo Eduardo Carlini, em
levantamento exclusivo para esta reportagem, aponta um diagnóstico preciso
dessa destruição. Apenas no intervalo entre 2023 e 2024, foram suprimidos 96,38
mil hectares de vegetação nativa, o equivalente a quase 100 estádios de futebol
perdidos em um curto período, de um ano.
Carlini
destaca que o rastro de destruição revela-se ainda mais acentuado ao observar o
pico de transição ocorrido entre 2019 e 2020, quando 270,34 hectares de
formação natural foram sacrificados em um único ano em razão da mineração,
contribuindo para o acumulado de 592,86 hectares registrados no ciclo de gestão
iniciado em 2018. A análise detalha o impacto severo em estados como São Paulo
(434,85 hectares) e Pernambuco (72,87 hectares).
“A
Bahia tem quase 800 concessões de lavra, em mais de 240 municípios. Muito
provavelmente todos esses municípios possuem conflitos, mas a gente não tem
relato de todos, não temos braços e pernas para chegar nesses diversos
projetos”, reconhece Lucas Zenha. O setor mineral, acrescenta ele, também não
dá conta de fiscalizar o que já existe. O crescimento dos números revela uma
tensão estrutural que Bianca Dieile da Silva, pesquisadora da Fiocruz e
pós-doutoranda no GeografAR, resume com precisão.
“Nada
disso vai passar incólume às populações que serão impactadas próximas a esse
tipo de projeto”. Os impactos começam ainda antes da extração — na fase de
pesquisa mineral. Como descreve Zenha, só a presença de uma empresa realizando
estudos em determinada localidade “já causa temor nas populações, ansiedade,
dúvidas e gera expectativas e possíveis remoções”, enquanto estradas são
abertas, matas derrubadas e buracos abertos no solo, muitas vezes sem a
autorização de quem vive na superfície.
O
tamanho do estrago não cabe no mapa, e o que vemos é o saque desenfreado de
nossas riquezas. Em 2022, o estado do Pará, polo de exploração de ferro e
níquel, registrou 4.528,02 km² de área desmatada, o que totaliza 633.922 campos
de futebol de floresta destruída. Outros biomas seguem a mesma trilha de
espoliação sob influência de mineradoras: em 2002, a Bahia perdeu 4.137,47 km²
de Caatinga; o Rio Grande do Sul viu 2.866,00 km² do Pampa desaparecerem em
2001. E o Cerrado em Goiás teve 6.670,84 km² suprimidos, em 2002. Em Minas
Gerais, 1.183,51 km² de Mata Atlântica foram desmatados em 2006, enquanto o
Pantanal, no Mato Grosso do Sul, perdeu 747,65 km² de bioma original em 2021.
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Mas afinal, o que são “terras raras”?
Terras
raras são um grupo de 17 elementos químicos usados em ímãs, eletrônicos,
baterias, turbinas e equipamentos de alta tecnologia, e sua exploração costuma
exigir grandes volumes de remoção de solo, consumo de água e uso de reagentes
químicos. Em áreas sensíveis, como o sul de Minas Gerais, ambientalistas e
autoridades já alertam para risco ao abastecimento de água, poluição do ar por
poeira e consequências irreversíveis a áreas de Mata Atlântica.
Embora
a propaganda empresarial tente vender essa mineração como moderna e até mesmo
“limpa”, a experiência concreta mostra abertura de cavas, geração de rejeitos,
contaminação hídrica e transformação permanente da paisagem. Mesmo quando se
fala em técnicas de lixiviação e reuso de água, a própria disputa política em
torno do setor revela que o problema central não é “só” tecnológico, mas o
modelo de extração orientado pela exportação e pelo lucro rápido.
Não nos
deixemos enganar com essa nova investida mineral, afinal, terras raras, lítio,
cobre e urânio estão no centro de uma disputa geopolítica global, impulsionada
pela corrida tecnológica e pela chamada transição energética. Na Bahia, o
GeografAR mapeou 886 poligonais de pesquisa somente de terras raras, mais de
600 de lítio e mais de 1.800 de cobre, concentradas sobretudo no Vale do
Jequitinhonha e no norte do estado.
Maíra
Pereira Santiago, do setor de Produção, Cooperação e Meio Ambiente do MST em
Minas Gerais, é direta ao nomear essa continuidade. “As terras raras no Brasil
só reproduzem uma lógica colonial de apropriação privada desses recursos
minerais naturais, com aporte legal e legitimação estatal”. Ela acrescenta um
elemento frequentemente silenciado no debate público de que, além da narrativa
de transição verde, os minerais estratégicos estão diretamente ligados à
indústria bélica.
Júlia
Martins, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), no Pará, é
ainda mais direta. “É o Brasil de 1500 com roupagem tecnológica. O Brasil entra
com a terra arrasada, o sangue do seu povo e o minério bruto baratinho,
enquanto o Norte Global fica com a tecnologia, a energia limpa e os bilhões de
dólares”.
A
história do Brasil, sempre marcada pela concentração fundiária, pelo latifúndio
e pela subordinação dos bens naturais aos interesses externos, apenas continua.
Os dados do relatório Desmascarando o lobby mineral em terras indígenas, da
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), com apoio técnico da
Cosmopolíticas, reforçam essa denúncia de invasão territorial, apontando que
existem mais de 5 mil requerimentos de mineração em aberto na Amazônia, sendo
que mais de 1.300 pedidos são incidentes em Terras Indígenas (TIs) ou a menos
de 10 km de distância.
Globalmente,
70% das minas de minerais de transição sobrepõem-se a terras indígenas ou
comunidades tradicionais, e este lobby é bilionário: o IBRAM (organização
privada, sem fins lucrativos, responsáveis por 85% da produção mineral do
Brasil) projeta atrair US$ 68,4 bilhões em investimentos até 2028, enquanto o
PIB brasileiro projeta ganhos de R$ 243 bilhões até 2050 com minerais críticos.
Bancos de apenas cinco países (China, EUA, França, Canadá e Japão) detém 63% do
crédito global para este setor, expondo a face financeira da espoliação.
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Captura dos Três Poderes
O
Congresso Nacional virou peça central dessa engrenagem ao acelerar o PL
2.780/2024 e abrir espaço para fundos, incentivos fiscais e mecanismos de
estímulo à cadeia mineradora. A tramitação foi tratada como prioridade e chegou
a ser vinculada, segundo a cobertura parlamentar, à promessa de ampliar o
processamento no país e controlar operações consideradas sensíveis à soberania.
O projeto prevê a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com
fundo garantidor de R$ 2 bilhões e incentivos fiscais de até R$ 5 bilhões para
o setor.
Mas a
realidade desmente o discurso, como alerta Lucas Zenha a partir da pesquisa do
professor Bruno Milanez, que demonstra que os minerais críticos ou estratégicos
“capturaram os três poderes”: o Legislativo, com licenciamentos ambientais
diferenciados; o Executivo, com resoluções ministeriais e a participação do
BNDES em projetos de mineração de lítio; e o Judiciário, com debates no STF
sobre o marco temporal e a mineração em terras indígenas.
No
relatório divulgado pela APIP, a senadora Tereza Cristina (PP/MS), presidente
do GTMTI, aparece com sua base vinculada a grandes produtores e empresas de
insumos minerais. O senador Zequinha Marinho (Podemos/PA), vice-presidente da
Frente Parlamentar da Mineração Sustentável (FPMin), é autor de projetos para
abrir TIs ao garimpo. Já o senador Jaime Bagattoli (PL/RO), relator do PL
6050/2023 sobre atividades em TIs, possui fazenda em terra indígena em
Rondônia. Outros articuladores incluem o deputado Ricardo Salles (PL/SP) e o
senador Mecias de Jesus (Republicanos/RR), que indicou aliados para o
DSEI-Yanomami enquanto defende a mineração. Até mesmo o senador Marcos Rogério
(PL/RO) preside a Comissão de Infraestrutura, onde 8 de 11 membros integram o
GT de minerais de transição.
O lobby
setorial é comandado pelo IBRAM, que coordenou a criação da FPMin e realiza
reuniões com a ANM e parlamentares da FPA (como Alceu Moreira e Arnaldo Jardim)
para tratar de licenciamento. A Vale S.A. e o IBRAM financiam inclusive
seminários no IDP para discutir flexibilização regulatória.
No
plano jurídico, Luís Inácio Adams atua para a mineradora Potássio do Brasil e,
simultaneamente, representa o partido Progressistas (PP) na Câmara de
Conciliação do STF. Enquanto isso, a ADIMB organiza o “Brazilian Mining Day“,
no Canadá, com apoio do Ministério de Minas e Energia. O histórico jurídico de
ataque aos povos tradicionais remonta ao PL 1.610/1996, de Romero Jucá, com
apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
No
plano fiscal, a Lei Kandir — em vigor desde 1996 — isenta as exportadoras de
ICMS, beneficiando diretamente o setor mineral e o agronegócio. “Estamos
falando de uma exoneração fiscal muito grande que permite que essas empresas
prefiram fazer exportação sem pagar impostos”, resume Zenha. Maíra aprofunda a
crítica ao papel do Estado, lembrando que o mesmo “vai transferindo esse
capital, que poderia ser usado para as populações que habitam ali,
historicamente, para o capital privado”.
A
resposta vem no discurso ESG, de “empresa responsável e/ou sustentável”, que
Lucas Zenha logo desmonta: “Como é que as empresas vão conciliar pautas tão
distintas? Uma empresa precisa ter lucro, precisa responder ao capital
internacional de maneira rápida, e nisso ela não consegue de fato implantar uma
gestão ambiental e social junto às populações atingidas”.
Para
Júlia Martins, o Congresso Nacional hoje “funciona como um balcão de negócios
das transnacionais”. Essa ofensiva legislativa, sustenta ela, “nada mais é do
que passar a boiada para afrouxar o licenciamento ambiental e rasgar os
direitos dos povos tradicionais”. Um dos mecanismos mais graves dessa captura é
o esvaziamento do direito à consulta livre, prévia e informada. Os órgãos
públicos não reconhecem territórios quilombolas não titulados, e a consulta só
ocorre raramente. “Existem raríssimos casos onde essa consulta foi de fato
aplicada”, constata Zenha, justificando a luta dos movimentos pelo “direito de
dizer não”.
As
corporações que sustentam essa engrenagem de espoliação operam sob nomes
conhecidos e contam com o silêncio cúmplice de instâncias superiores. A
Potássio do Brasil, empresa de capital canadense que busca explorar potássio no
território do povo Mura, em Autazes (AM), é um exemplo emblemático dessa
articulação. Representada juridicamente por Luís Inácio Adams, a mineradora
atuou na Câmara de Conciliação do STF para tentar classificar a mineração como
“atividade de relevante interesse público”, enquanto é investigada pelo
Ministério Público Federal por suposto aliciamento de lideranças indígenas.
Na
mesma linha, a multinacional norueguesa Norsk Hydro utiliza a retórica do
“alumínio verde” para mascarar impactos socioambientais severos em Barcarena
(PA), onde decisões judiciais de paralisação foram revertidas sob o argumento
de “prejuízo à economia nacional”, ignorando os danos irreversíveis às
comunidades locais.
E a
impunidade segue sendo a regra que beneficia gigantes como a BHP, sócia da Vale
no crime de Mariana, que foi alvo de uma ação coletiva em Londres de R$ 260
bilhões. No entanto, o andamento internacional dessa ação foi dificultado por
uma decisão do STF provocada pelo lobby direto do IBRAM. O setor minerador e
seus aliados buscam transformar o Brasil em fornecedor de minerais estratégicos
para a indústria elétrica, digital e bélica global, enquanto o agronegócio vê
nessas áreas uma nova fronteira de negócios e ocupação territorial. Essa
simbiose entre “minério-negócio” e agroexportação aprofunda a mesma matriz
primário-exportadora que concentra renda, destrói ecossistemas e expulsa
populações do campo desde a colonização do país.
A
pressão empresarial empurra para uma desregulação de fato, onde gestoras de
ativos como BlackRock, Capital Group e Vanguard, as maiores detentoras de
títulos de gigantes como Vale, BHP e Glencore, ditam o ritmo da destruição.
Bancos como JPMorgan Chase, Bank of America, Citi e BNP Paribas lideram o
fornecimento de crédito global que financia essa ofensiva contra os
territórios. Ao mesmo tempo, a Vale S.A. busca limpar sua imagem ao assegurar
US$ 27 bilhões em financiamento estratégico para cadeias de ferro, níquel,
cobre e cobalto, além de financiar infraestrutura e cobertura jornalística da
COP 30 para promover sua fachada de “mineradora verde”.
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Veneno no sangue camponês
Bianca
Dieile da Silva detalha que a área explorada é totalmente descaracterizada por
meio de terraplanagem, abertura de minas e organização de sistemas de
transporte, impactando toda a região. A mineração pode causar drenagem ácida,
ou seja, quando rejeitos em contato com a água geram resíduos ácidos, e uma
alta concorrência hídrica, reduzindo tanto a vazão quanto a qualidade da água.
“E isso pode acirrar conflitos já identificados, principalmente pelas
alterações climáticas”, alerta a pesquisadora.
Os
dados da APIB revelam um cenário de envenenamento em massa dos povos
originários, quando 95% das amostras de cabelo coletadas entre os Yanomami
demonstram alta concentração de mercúrio. A situação é igualmente desesperadora
entre o povo Xikrin, no Pará, onde a atividade mineradora de níquel da Vale na
mina Onça Puma resultou em laudos de 2025, que comprovam a contaminação de
98,5% do povo Xikrin por metais pesados. O crime é geracional, já que 100% das
crianças Xikrin de 0 a 10 anos apresentam metais pesados no organismo. Além
disso, 99% dos 720 indígenas testados no Pará apresentam níveis alarmantes de
chumbo, mercúrio, lítio e manganês.
Maíra
Pereira Santiago recorda que os grandes desastres de Mariana, em 2015 e
Brumadinho em 2019, de responsabilidade da Vale e BHP, provocaram um colapso
total, com rejeitos e metais pesados contaminando bacias inteiras, destruindo a
hidrografia e o modo de vida das populações ribeirinhas.
No caso
específico das terras raras, Bianca aponta um agravante pouco discutido: sua
associação com elementos radioativos. “Não dá para minerar só terra rara. Ela
sempre vai estar associada a outros metais que também têm toxicidade”, explica.
Enquanto isso, a ciência ainda engatinha na compreensão total desses danos.
“Ainda vamos precisar de um processo de estudo e avaliação constante de como
vamos lidar com esses novos tipos de exposição, porque há um desconhecimento
muito grande da toxicidade de muitos desses elementos no corpo humano”.
A
poluição do ar por poeira e as consequências irreversíveis para áreas de Mata
Atlântica e outros biomas são alertas constantes de ambientalistas. Na Bahia, a
pesquisa mineral já deixou marcas concretas de contaminação por chumbo e
amianto em projetos já encerrados, onde o problema ambiental permanece
afligindo as populações locais. Outro impacto severo mencionado por Bianca é o
aumento dos acidentes de trânsito provocados pelo intenso fluxo de veículos
pesados no transporte dos minerais, transformando a rotina e a segurança das
comunidades rurais.
O
modelo de extração orientado pela exportação e pelo lucro rápido ignora que a
poeira e a água contaminada extrapolam os limites das minas e chegam aos
campos, expondo trabalhadores e a própria produção de alimentos a riscos
biológicos e químicos severos. A mineração de terras raras, em áreas sensíveis
como o sul de Minas Gerais, já ameaça diretamente o abastecimento de água de
cidades inteiras, revelando que o custo do “avanço tecnológico” é pago com a
saúde do povo brasileiro.
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A terra cercada pelo capital
“Se a
gente for olhar diretamente, a mineração compromete a qualidade da água porque,
quando há um processo de mineração, dá-se uma supressão vegetal, movimentando
os solos, o que afeta demais também a qualidade dos solos. Com a compactação e
retirada daquela superfície, destrói-se espaços que são cruciais em relação à
geração da água, seja em áreas de preservação permanente, seja de áreas de
reserva legal, seja de áreas de nascente, áreas de recursos hídricos
importantes”, denúncia Maíra.
Uma das
brechas mais graves para esse avanço é a Instrução Normativa 112 do Incra, que
permite a mineração dentro de assentamentos rurais, realizada durante o governo
Bolsonaro e vigente até hoje. Lucas Zenha afirma que essa normativa é
completamente incompatível com a função social da terra. “Como que um
assentamento de Reforma Agrária, que produz alimentos e cuida da terra, pode
ter uma atividade consorciada com extrativismo mineral?”, questiona ele.
Estima-se que quase 50% dos assentamentos do país já estejam sendo impactados
por pesquisas minerais, gerando insegurança jurídica e temor constante de
remoções. O resultado dessa exposição é o adoecimento físico e mental, perda de
safras e a alteração drástica do modo de vida camponês.
Júlia
Martins denuncia que a lógica da mineração é, por natureza, excludente. “Onde a
grande mineração se instala, a agricultura familiar morre. A água some ou fica
contaminada, as criações de animais morrem e a produção perde o valor de
mercado”. O desfecho trágico é o êxodo rural forçado, e em áreas próximas às
jazidas, a pressão por licenciamento atinge justamente quem preserva a
sociobiodiversidade, destruindo a base material da vida no campo para favorecer
o lucro de acionistas internacionais.
Apesar
da ofensiva, a resistência camponesa se organiza. Em Itarantim (BA),
agricultores familiares e movimentos sociais pressionam pela criação de uma
legislação municipal em defesa das serras e das águas contra a chegada de
pesquisas de nióbio, lítio e terras raras. “Essa legislação é um importante
instrumento que está sendo construído como forma de dizer não a esse setor”,
avalia Zenha.
A luta
contra a fragmentação da vida comunitária é a linha de frente contra o projeto
que busca transformar territórios de vida em zonas de sacrifício para a
exportação de natureza bruta.
A
simbiose entre o agronegócio e as mineradoras reforça um ciclo de destruição
onde poucos lucram e muitos perdem. A resposta dos movimentos é de que “não há
conciliação possível entre a preservação da vida e um modelo que enxerga a
terra apenas como estoque de valor a ser extraído e exportado”. Proteger a
natureza e o território camponês é um dever que se impõe contra a barbárie do
capital mineral.
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Agroecologia é o caminho
Atualmente,
há pesquisas em curso, como a desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB) em
diálogo com movimentos sociais como o MST, sobre o uso de rejeitos de mineração
para enriquecimento do solo em sistemas agroecológicos. Trata-se, segundo
Maíra, de pensar formas de reversão dos impactos dentro de uma perspectiva que
priorize as comunidades e o cuidado com a terra, rompendo com a lógica de que o
território é apenas um estoque de valor para o capital financeiro.
Maíra
apresenta a Reforma Agrária Popular como o núcleo central dessa construção
alternativa contra a hegemonia mineral. Para a militante do MST, “é um projeto
de vida, um projeto humano, civilizatório, de contraposição à concentração de
terras”. No entendimento do Movimento, a Reforma Agrária Popular não se limita
apenas à desapropriação de terras, ela exige uma dimensão produtiva, ecológica,
cultural, educacional e política, pensadas de forma articulada para enfrentar o
domínio do agronegócio e das mineradoras.
No
plano da Soberania Mineral Popular, a disputa é para que o subsolo deixe de ser
uma maldição para quem vive sobre ele. Maíra é clara quanto ao que está em
jogo: “As decisões em relação à extração do minério, ao uso dos minerais
estratégicos e ao próprio processamento precisam servir às comunidades e aos
territórios que vivem no ciclo da mineração, e não ao mercado internacional com
preços de commodities que vai beneficiar um pequeno grupo de pessoas”. Esse
modelo exige que o território seja colocado a serviço da vida e da reprodução
social, e não da acumulação de capital por gestoras de ativos como BlackRock ou
Vanguard.
Lucas
Zenha sublinha que o verdadeiro interesse nacional não pode ser reduzido à
extração para exportação de minério bruto. “O interesse nacional também é
produzir alimentos, é assentar pessoas de forma digna na terra, é produzir de
forma sustentável e agroecológica. A soberania alimentar deveria ser de
interesse nacional, assim como essa produção agroecológica”, defende o
pesquisador do GeografAR. Enquanto o agronegócio e as mineradoras planejam
lucros de R$ 243 bilhões até 2050 com minerais críticos, o povo brasileiro
segue pagando o preço com a destruição de seus biomas e a contaminação de suas
águas.
“O
minério do Brasil tem que servir para construir hospital, escola e transporte
público aqui dentro, e não para virar especulação na Bolsa de Nova York”,
afirma Júlia Martins, do Movimento Pela Soberania Popular na Mineração (MAM).
Para ela, a verdadeira riqueza do país não está na lixiviação das terras raras,
mas “na terra livre, na semente crioula e na capacidade de produzir comida sem
veneno, fixando o camponês no campo com dignidade. Continuamos sempre na luta
para impedir que o Brasil de 1500 continue sendo reeditado através de uma
roupagem tecnológica e ‘verde’”.
A
Reforma Agrária Popular e a Agroecologia aparecem, portanto, como um projeto
estrutural de soberania, porque reorganizam o uso da terra para produzir
alimento, preservar água, recompor a biodiversidade e fortalecer o trabalho com
permanência no campo. Em vez de exportar natureza bruta e importar dependência
tecnológica, trata-se de colocar cada hectare a serviço da vida. Na prática, é
o único caminho que produz comida, cuida da água e não deixa o povo para trás
diante da predatória corrida pela terra, pela água e pela vida.
Fonte:
Por Fernanda Alcântara, da Página do MST

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