terça-feira, 26 de maio de 2026

Maria Luiza Falcão: Xi, Trump e a diplomacia da contenção em um mundo à deriva

No momento em que Xi Jinping recebe Donald Trump em Pequim, nesta terça-feira, 13 de maio de 2026, o encontro entre as duas maiores potências do planeta ocorre em circunstâncias muito mais delicadas do que aquelas da primeira visita de Trump à China, em 2017.

O mundo mudou profundamente desde então. A rivalidade entre Washington e Pequim deixou de ser apenas comercial e tecnológica para assumir dimensões militares, energéticas e geopolíticas muito mais amplas. Ao mesmo tempo, a guerra envolvendo o Irã, o fechamento do Estreito de Ormuz e a crescente instabilidade internacional transformaram a reunião em algo muito maior do que uma simples agenda bilateral. 

<><> A guerra que Washington já não consegue controlar sozinho

O encontro acontece em um contexto no qual a China vem consolidando sua presença diplomática no Sul Global, fortalecendo laços com a Rússia, o Sudeste Asiático, a África e a América Latina, enquanto os Estados Unidos enfrentam dificuldades crescentes para preservar a coesão de suas alianças tradicionais. Nos últimos meses, Xi Jinping recebeu em Pequim líderes do Canadá, do Reino Unido e da Alemanha, em movimentos que muitos analistas interpretaram como demonstrações simbólicas da capacidade chinesa de ocupar espaços deixados pelo desgaste diplomático promovido pelo próprio trumpismo. 

Ao mesmo tempo, diversos países passaram a olhar para a China não apenas como parceiro comercial, mas como elemento de estabilidade econômica em um cenário internacional cada vez mais fragmentado. Em meio à guerra com o Irã e às perturbações energéticas globais, a liderança chinesa em tecnologia verde, infraestrutura e cadeias industriais ampliou ainda mais sua relevância internacional. 

Do lado americano, porém, a situação é mais contraditória. A desastrosa política externa de Trump continua marcada por forte retórica nacionalista, tarifas comerciais e confrontação estratégica contra Pequim e o resto do mundo. Entretanto, a própria realidade econômica vem impondo limites crescentes a essa lógica de confronto permanente. 

A guerra comercial iniciada ainda no primeiro mandato de Trump produziu custos significativos para ambos os lados. Tarifas elevaram preços, desorganizaram cadeias produtivas globais e ampliaram a insegurança nos mercados internacionais. A China conseguiu diversificar parte de suas exportações e fortalecer seu mercado interno, mas os custos também atingiram empresas e consumidores americanos. Agricultores, varejistas e setores industriais dos EUA sentiram diretamente os efeitos da deterioração das relações sino-americanas. 

Agora, a crise no Oriente Médio adiciona uma dimensão ainda mais perigosa. O fechamento do Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa parcela significativa do petróleo e gás mundial — recolocou a questão energética no centro da geopolítica global. A escalada militar envolvendo o Irã ameaça inflação, crescimento econômico e estabilidade financeira internacional. Nesse contexto, tanto Pequim quanto Washington possuem um interesse comum fundamental: evitar o colapso da economia global. 

Mas existe um elemento novo que começa a aparecer de maneira cada vez mais explícita nas análises internacionais: a percepção de que os próprios Estados Unidos talvez já não saibam como encerrar a crise que ajudaram a aprofundar. Trump percebeu rapidamente aquilo que parte do establishment americano demorou a admitir. Iniciar uma escalada militar pode ser relativamente simples para uma superpotência. O problema é controlar seus efeitos econômicos, energéticos e políticos depois que eles se espalham pelo sistema internacional.

O risco de inflação global, alta persistente nos preços da energia, desorganização financeira e desaceleração econômica passou a atingir diretamente interesses americanos. E isso ajuda a explicar por que o encontro com Xi Jinping ganhou importância ainda maior. Mais do que discutir tarifas, semicondutores ou comércio bilateral, Washington pode estar buscando também canais de estabilização diplomática para uma crise regional cujos impactos ameaçam a própria economia americana.

<><> Xi Jinping e a diplomacia da estabilidade

É justamente nesse contexto que a China emerge como ator indispensável. Pequim mantém relações econômicas e diplomáticas profundas com Teerã, possui crescente influência no Oriente Médio e construiu, ao longo dos últimos anos, uma posição singular de interlocução simultânea com Irã, Arábia Saudita e Rússia.

Foi a própria China que patrocinou a histórica reaproximação diplomática entre iranianos e sauditas em 2023 — movimento que surpreendeu o Ocidente e revelou uma capacidade diplomática que Washington já não exerce com a mesma eficácia.

Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes do encontro. Apesar da rivalidade estratégica crescente, China e Estados Unidos continuam presos a uma interdependência profunda demais para permitir uma ruptura completa. O próprio establishment empresarial americano começa a reconhecer isso de forma cada vez mais explícita. 

Em artigo publicado no China Daily, o ex-presidente da Câmara Americana de Comércio em Xangai, Ker Gibbs, afirmou que “quando os EUA e a China cooperam, ambos se beneficiam, e a economia global prospera; quando não cooperam, todos perdem”. O diagnóstico é revelador porque parte de alguém profundamente inserido no universo corporativo americano. 

Mais importante ainda é a lembrança de que Pequim e Washington já conseguiram cooperar em temas altamente sensíveis no passado. Durante as negociações do acordo nuclear com o Irã, em 2015, China e Estados Unidos trabalharam conjuntamente ao lado de europeus e russos para construir uma solução diplomática capaz de evitar uma escalada militar regional. 

Hoje, porém, o cenário é diferente. A ordem internacional encontra-se mais fragmentada, as instituições multilaterais mais enfraquecidas e os mecanismos tradicionais de coordenação global menos eficazes. É justamente nesse vazio que a diplomacia chinesa vem tentando se apresentar como força de estabilização.

Parte crescente do Sul Global observa Pequim não apenas como potência econômica ascendente, mas como ator capaz de oferecer previsibilidade em meio ao caos geopolítico contemporâneo. Para muitos países, a China passou a representar um contraponto à lógica de sanções, guerras preventivas e confrontações permanentes que marcaram parte importante da política externa americana nas últimas décadas.

<><> Taiwan e os limites do poder americano

A questão de Taiwan permanece como um dos pontos mais explosivos da relação bilateral. Para Pequim, a ilha constitui questão central de soberania nacional e integridade territorial. Para Washington, Taiwan transformou-se em peça-chave da estratégia americana de contenção da China no Indo-Pacífico. 

Nos últimos anos, os Estados Unidos ampliaram vendas de armas, cooperação militar e apoio político a Taipei, enquanto a China intensificou demonstrações militares na região. O risco não está apenas em uma guerra deliberada, mas em acidentes, provocações ou escaladas involuntárias capazes de desencadear uma crise de enormes proporções. 

E aqui reside uma das grandes contradições da atual conjuntura internacional: enquanto o sistema econômico global permanece profundamente integrado às cadeias produtivas chinesas, a lógica geopolítica caminha progressivamente para a militarização do Indo-Pacífico. 

A própria guerra envolvendo o Irã ajuda a evidenciar os limites dessa estratégia americana. Os Estados Unidos descobriram que sustentar simultaneamente conflitos no Oriente Médio, pressões militares sobre a Rússia e uma política agressiva de contenção da China talvez seja economicamente, politicamente e militarmente mais difícil do que parecia há alguns anos.

Pequim percebe isso claramente. Para a liderança chinesa, o desgaste americano no Oriente Médio reduz capacidade de pressão simultânea sobre a Ásia-Pacífico. Quanto mais recursos Washington consome em guerras externas, maior tende a ser a dificuldade de sustentar uma disputa estratégica prolongada no Indo-Pacífico.

Trump também parece compreender os riscos. Uma guerra longa envolvendo o Irã poderia elevar preços de combustíveis, pressionar inflação, ampliar instabilidade financeira e afetar diretamente o eleitorado americano. Existe ainda outro elemento delicado: cresce dentro dos próprios Estados Unidos uma fadiga social diante de conflitos externos permanentes e de seus custos humanos e econômicos.

<><> Cooperação e rivalidade no mesmo tabuleiro

Por isso, o encontro de Pequim talvez represente menos uma reconciliação histórica e mais uma tentativa de contenção mútua em um mundo crescentemente instável. 

Os acordos concretos provavelmente serão modestos: ajustes tarifários, compromissos comerciais específicos, cooperação parcial em cadeias de suprimentos e talvez entendimentos limitados sobre minerais estratégicos e energia. Mas o verdadeiro significado do encontro parece ser outro. 

O problema central hoje já não é apenas comercial. Trata-se da ausência de um novo equilíbrio para administrar a convivência entre duas potências gigantescas dentro de uma ordem internacional em transição. Como observou Ker Gibbs, o mundo parece ter perdido o “mapa comum” que orientava as relações sino-americanas durante as décadas anteriores de integração econômica. 

Esse vazio estratégico vem sendo preenchido por desconfiança, nacionalismos, guerras tecnológicas e disputas militares cada vez mais perigosas. 

Ainda assim, o simples fato de Xi Jinping e Donald Trump sentarem-se novamente à mesa já possui enorme significado político. Em um cenário internacional marcado por guerras, sanções, fragmentação econômica e erosão das instituições multilaterais, o encontro sugere que as duas maiores economias do planeta compreendem, ao menos parcialmente, que o custo de uma ruptura total talvez seja grande demais até mesmo para elas. 

Mais do que isso: o encontro revela uma transformação histórica silenciosa. Pela primeira vez em muitas décadas, os Estados Unidos parecem precisar não apenas negociar com a China, mas também depender parcialmente de sua capacidade de influência diplomática para ajudar a estabilizar crises internacionais.

O mundo entra, assim, em uma nova fase da transição geopolítica global: uma era em que cooperação e rivalidade deixam de ser opostos absolutos e passam a coexistir simultaneamente, em um equilíbrio cada vez mais tenso, instável e imprevisível. 

¨      O diálogo China-EUA é fundamental para a estabilidade global. Por José Reinaldo de Carvalho

A visita de Estado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China, programada para ocorrer entre os dias 13 e 15 de maio, a convite do presidente chinês, Xi Jinping, recoloca no centro da política internacional a importância do diálogo China-EUA para a estabilidade global, em um momento de turbulência internacional, tensões comerciais, disputas estratégicas e incertezas econômicas.

O encontro anunciado por Pequim reveste-se de grande importância para o fortalecimento das relações bilaterais, o enfrentamento de desafios comuns e a facilitação da administração das divergências existentes entre as duas partes, além de ter grande alcance geopolítico e estar destinado a repercutir na evolução do quadro mundial. 

Terão relevância as trocas de opiniões aprofundadas sobre questões importantes relativas às relações China-EUA e à paz e ao desenvolvimento mundiais. Quanto aos temas econômicos e comerciais de interesse mútuo, as consultas serão orientadas pelo consenso alcançado entre os dois líderes no encontro em Busan, na Coreia do Sul, em outubro do ano passado e em telefonemas anteriores.

Quando as duas maiores economias do mundo retomam a interlocução direta no mais alto nível, não apenas seus mercados acompanham cada gesto; governos, empresas e organismos internacionais também ajustam expectativas diante de uma relação que influencia cadeias produtivas, fluxos comerciais, tecnologia, segurança e o próprio equilíbrio da ordem mundial.

A diplomacia entre grandes potências tem peso especial justamente porque seus efeitos ultrapassam fronteiras. A China e os Estados Unidos concentram capacidades econômicas, industriais, tecnológicas e militares que tornam qualquer escalada de tensão um fator de instabilidade global. Por isso, a disposição de manter canais de diálogo abertos não deve ser vista como gesto protocolar, mas como instrumento indispensável para evitar que divergências legítimas se convertam em confrontação permanente.

Nesse contexto, a China aparece como ator central e incontornável. Ao receber Trump em visita de Estado, o Presidente Xi Jinping reafirma o papel de seu país como potência relevante na construção de uma agenda internacional baseada em estabilidade, previsibilidade e cooperação. A posição chinesa, expressa em comunicados recentes, tem insistido em princípios como respeito mútuo, coexistência pacífica e benefício recíproco, conceitos que ganham força em um cenário global marcado por fragmentação, disputas tarifárias e pressões sobre o comércio internacional.

A relevância mundial da China não se resume ao tamanho de sua economia. O país ocupa posição decisiva nas cadeias globais de produção, no comércio internacional, na inovação tecnológica e na articulação diplomática com diferentes regiões do mundo. Por isso, qualquer tentativa de estabilizar a relação sino-americana passa necessariamente pelo reconhecimento de que Pequim não é apenas parte interessada, mas protagonista de uma nova configuração internacional.

A experiência recente mostra que a confrontação entre a China e os Estados Unidos produz custos para ambos os lados e amplia inseguranças para o restante do mundo. Já a cooperação, mesmo quando limitada e difícil, contribui para preservar algum grau de racionalidade nas relações internacionais. Em um sistema global interdependente, nenhuma grande potência consegue resolver sozinha os desafios econômicos, comerciais e geopolíticos que se acumulam.

É por isso que a diplomacia de alto nível entre grandes potências continua sendo insubstituível. Reuniões entre chefes de Estado podem abrir caminhos para destravar negociações e sinalizar compromisso com a estabilidade. Em tempos de volatilidade, esses gestos têm valor estratégico.

A visita de Trump à China desperta grande atenção mundial porque dela podem sair sinais importantes sobre o futuro da relação entre Pequim e Washington. Se o encontro contribuir para reduzir incertezas, fortalecer consultas econômicas e reafirmar a necessidade de respeito mútuo, já terá cumprido papel relevante. Para o mundo, a estabilidade entre China e Estados Unidos não é apenas uma questão bilateral: é um elemento essencial para a paz, o equilíbrio e a previsibilidade da ordem internacional.

Um parâmetro adequado para avaliar a viabilidade desse novo modelo de relações internacionais está nas relações entre grandes potências. Em vez de evitar ou negar a existência de disputas entre os principais países, essa nova abordagem busca afirmar que é possível estabelecer uma estrutura de relações entre grandes potências baseada na estabilidade geral e no desenvolvimento equilibrado, especialmente entre a China e os Estados Unidos. A condição indispensável para isto é que os Estados Unidos abandonem a lógica da contenção, da hegemonia e do jogo de soma zero.

A proposta de uma nova forma de relações internacionais parte da ideia de que China e Estados Unidos podem conviver como grandes potências se adotarem princípios como não confronto, respeito mútuo e cooperação.

É importante que a ascensão da China não seja vista como ameaça à ordem internacional ou como uma movimentação contrária aos interesses nacionais dos Estados Unidos ou como manifestação de ambições hegemônicas. O desenvolvimento impetuoso da China e sua ascensão ao primeiro plano da vida internacional são um direito inalienável do povo chinês e parte inseparável da revitalização da nação chinesa. Do ponto de vista internacional, a incontornável resultante é a ordem internacional multipolar, o soerguimento da nova governança global e o reconhecimento por todos os atores relevantes da vida política mundial de que há espaço para mais de um centro de poder.

 

Fonte: Brasil 247

 

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