Maria
Luiza Falcão: Xi, Trump e a diplomacia da contenção em um mundo à deriva
No
momento em que Xi Jinping recebe Donald Trump em Pequim, nesta terça-feira, 13
de maio de 2026, o encontro entre as duas maiores potências do planeta ocorre
em circunstâncias muito mais delicadas do que aquelas da primeira visita de
Trump à China, em 2017.
O mundo
mudou profundamente desde então. A rivalidade entre Washington e Pequim deixou
de ser apenas comercial e tecnológica para assumir dimensões militares,
energéticas e geopolíticas muito mais amplas. Ao mesmo tempo, a guerra
envolvendo o Irã, o fechamento do Estreito de Ormuz e a crescente instabilidade
internacional transformaram a reunião em algo muito maior do que uma simples
agenda bilateral.
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A guerra que Washington já não consegue controlar sozinho
O
encontro acontece em um contexto no qual a China vem consolidando sua presença
diplomática no Sul Global, fortalecendo laços com a Rússia, o Sudeste Asiático,
a África e a América Latina, enquanto os Estados Unidos enfrentam dificuldades
crescentes para preservar a coesão de suas alianças tradicionais. Nos últimos
meses, Xi Jinping recebeu em Pequim líderes do Canadá, do Reino Unido e da
Alemanha, em movimentos que muitos analistas interpretaram como demonstrações
simbólicas da capacidade chinesa de ocupar espaços deixados pelo desgaste
diplomático promovido pelo próprio trumpismo.
Ao
mesmo tempo, diversos países passaram a olhar para a China não apenas como
parceiro comercial, mas como elemento de estabilidade econômica em um cenário
internacional cada vez mais fragmentado. Em meio à guerra com o Irã e às
perturbações energéticas globais, a liderança chinesa em tecnologia verde,
infraestrutura e cadeias industriais ampliou ainda mais sua relevância
internacional.
Do lado
americano, porém, a situação é mais contraditória. A desastrosa política
externa de Trump continua marcada por forte retórica nacionalista, tarifas
comerciais e confrontação estratégica contra Pequim e o resto do mundo.
Entretanto, a própria realidade econômica vem impondo limites crescentes a essa
lógica de confronto permanente.
A
guerra comercial iniciada ainda no primeiro mandato de Trump produziu custos
significativos para ambos os lados. Tarifas elevaram preços, desorganizaram
cadeias produtivas globais e ampliaram a insegurança nos mercados
internacionais. A China conseguiu diversificar parte de suas exportações e
fortalecer seu mercado interno, mas os custos também atingiram empresas e
consumidores americanos. Agricultores, varejistas e setores industriais dos EUA
sentiram diretamente os efeitos da deterioração das relações sino-americanas.
Agora,
a crise no Oriente Médio adiciona uma dimensão ainda mais perigosa. O
fechamento do Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa parcela
significativa do petróleo e gás mundial — recolocou a questão energética no
centro da geopolítica global. A escalada militar envolvendo o Irã ameaça
inflação, crescimento econômico e estabilidade financeira internacional. Nesse
contexto, tanto Pequim quanto Washington possuem um interesse comum
fundamental: evitar o colapso da economia global.
Mas
existe um elemento novo que começa a aparecer de maneira cada vez mais
explícita nas análises internacionais: a percepção de que os próprios Estados
Unidos talvez já não saibam como encerrar a crise que ajudaram a aprofundar.
Trump percebeu rapidamente aquilo que parte do establishment americano demorou
a admitir. Iniciar uma escalada militar pode ser relativamente simples para uma
superpotência. O problema é controlar seus efeitos econômicos, energéticos e
políticos depois que eles se espalham pelo sistema internacional.
O risco
de inflação global, alta persistente nos preços da energia, desorganização
financeira e desaceleração econômica passou a atingir diretamente interesses
americanos. E isso ajuda a explicar por que o encontro com Xi Jinping ganhou
importância ainda maior. Mais do que discutir tarifas, semicondutores ou
comércio bilateral, Washington pode estar buscando também canais de
estabilização diplomática para uma crise regional cujos impactos ameaçam a
própria economia americana.
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Xi Jinping e a diplomacia da estabilidade
É
justamente nesse contexto que a China emerge como ator indispensável. Pequim
mantém relações econômicas e diplomáticas profundas com Teerã, possui crescente
influência no Oriente Médio e construiu, ao longo dos últimos anos, uma posição
singular de interlocução simultânea com Irã, Arábia Saudita e Rússia.
Foi a
própria China que patrocinou a histórica reaproximação diplomática entre
iranianos e sauditas em 2023 — movimento que surpreendeu o Ocidente e revelou
uma capacidade diplomática que Washington já não exerce com a mesma eficácia.
Esse
talvez seja um dos aspectos mais importantes do encontro. Apesar da rivalidade
estratégica crescente, China e Estados Unidos continuam presos a uma
interdependência profunda demais para permitir uma ruptura completa. O próprio
establishment empresarial americano começa a reconhecer isso de forma cada vez
mais explícita.
Em
artigo publicado no China Daily, o ex-presidente da Câmara Americana de
Comércio em Xangai, Ker Gibbs, afirmou que “quando os EUA e a China cooperam,
ambos se beneficiam, e a economia global prospera; quando não cooperam, todos
perdem”. O diagnóstico é revelador porque parte de alguém profundamente
inserido no universo corporativo americano.
Mais
importante ainda é a lembrança de que Pequim e Washington já conseguiram
cooperar em temas altamente sensíveis no passado. Durante as negociações do
acordo nuclear com o Irã, em 2015, China e Estados Unidos trabalharam
conjuntamente ao lado de europeus e russos para construir uma solução
diplomática capaz de evitar uma escalada militar regional.
Hoje,
porém, o cenário é diferente. A ordem internacional encontra-se mais
fragmentada, as instituições multilaterais mais enfraquecidas e os mecanismos
tradicionais de coordenação global menos eficazes. É justamente nesse vazio que
a diplomacia chinesa vem tentando se apresentar como força de estabilização.
Parte
crescente do Sul Global observa Pequim não apenas como potência econômica
ascendente, mas como ator capaz de oferecer previsibilidade em meio ao caos
geopolítico contemporâneo. Para muitos países, a China passou a representar um
contraponto à lógica de sanções, guerras preventivas e confrontações
permanentes que marcaram parte importante da política externa americana nas
últimas décadas.
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Taiwan e os limites do poder americano
A
questão de Taiwan permanece como um dos pontos mais explosivos da relação
bilateral. Para Pequim, a ilha constitui questão central de soberania nacional
e integridade territorial. Para Washington, Taiwan transformou-se em peça-chave
da estratégia americana de contenção da China no Indo-Pacífico.
Nos
últimos anos, os Estados Unidos ampliaram vendas de armas, cooperação militar e
apoio político a Taipei, enquanto a China intensificou demonstrações militares
na região. O risco não está apenas em uma guerra deliberada, mas em acidentes,
provocações ou escaladas involuntárias capazes de desencadear uma crise de
enormes proporções.
E aqui
reside uma das grandes contradições da atual conjuntura internacional: enquanto
o sistema econômico global permanece profundamente integrado às cadeias
produtivas chinesas, a lógica geopolítica caminha progressivamente para a
militarização do Indo-Pacífico.
A
própria guerra envolvendo o Irã ajuda a evidenciar os limites dessa estratégia
americana. Os Estados Unidos descobriram que sustentar simultaneamente
conflitos no Oriente Médio, pressões militares sobre a Rússia e uma política
agressiva de contenção da China talvez seja economicamente, politicamente e
militarmente mais difícil do que parecia há alguns anos.
Pequim
percebe isso claramente. Para a liderança chinesa, o desgaste americano no
Oriente Médio reduz capacidade de pressão simultânea sobre a Ásia-Pacífico.
Quanto mais recursos Washington consome em guerras externas, maior tende a ser
a dificuldade de sustentar uma disputa estratégica prolongada no Indo-Pacífico.
Trump
também parece compreender os riscos. Uma guerra longa envolvendo o Irã poderia
elevar preços de combustíveis, pressionar inflação, ampliar instabilidade
financeira e afetar diretamente o eleitorado americano. Existe ainda outro
elemento delicado: cresce dentro dos próprios Estados Unidos uma fadiga social
diante de conflitos externos permanentes e de seus custos humanos e econômicos.
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Cooperação e rivalidade no mesmo tabuleiro
Por
isso, o encontro de Pequim talvez represente menos uma reconciliação histórica
e mais uma tentativa de contenção mútua em um mundo crescentemente
instável.
Os
acordos concretos provavelmente serão modestos: ajustes tarifários,
compromissos comerciais específicos, cooperação parcial em cadeias de
suprimentos e talvez entendimentos limitados sobre minerais estratégicos e
energia. Mas o verdadeiro significado do encontro parece ser outro.
O
problema central hoje já não é apenas comercial. Trata-se da ausência de um
novo equilíbrio para administrar a convivência entre duas potências gigantescas
dentro de uma ordem internacional em transição. Como observou Ker Gibbs, o
mundo parece ter perdido o “mapa comum” que orientava as relações
sino-americanas durante as décadas anteriores de integração econômica.
Esse
vazio estratégico vem sendo preenchido por desconfiança, nacionalismos, guerras
tecnológicas e disputas militares cada vez mais perigosas.
Ainda
assim, o simples fato de Xi Jinping e Donald Trump sentarem-se novamente à mesa
já possui enorme significado político. Em um cenário internacional marcado por
guerras, sanções, fragmentação econômica e erosão das instituições
multilaterais, o encontro sugere que as duas maiores economias do planeta
compreendem, ao menos parcialmente, que o custo de uma ruptura total talvez
seja grande demais até mesmo para elas.
Mais do
que isso: o encontro revela uma transformação histórica silenciosa. Pela
primeira vez em muitas décadas, os Estados Unidos parecem precisar não apenas
negociar com a China, mas também depender parcialmente de sua capacidade de
influência diplomática para ajudar a estabilizar crises internacionais.
O mundo
entra, assim, em uma nova fase da transição geopolítica global: uma era em que
cooperação e rivalidade deixam de ser opostos absolutos e passam a coexistir
simultaneamente, em um equilíbrio cada vez mais tenso, instável e
imprevisível.
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O diálogo China-EUA é fundamental para a estabilidade
global. Por José Reinaldo de Carvalho
A
visita de Estado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China,
programada para ocorrer entre os dias 13 e 15 de maio, a convite do presidente
chinês, Xi Jinping, recoloca no centro da política internacional a importância
do diálogo China-EUA para a estabilidade global, em um momento de turbulência
internacional, tensões comerciais, disputas estratégicas e incertezas
econômicas.
O
encontro anunciado por Pequim reveste-se de grande importância para o
fortalecimento das relações bilaterais, o enfrentamento de desafios comuns e a
facilitação da administração das divergências existentes entre as duas partes,
além de ter grande alcance geopolítico e estar destinado a repercutir na
evolução do quadro mundial.
Terão
relevância as trocas de opiniões aprofundadas sobre questões importantes
relativas às relações China-EUA e à paz e ao desenvolvimento mundiais. Quanto
aos temas econômicos e comerciais de interesse mútuo, as consultas serão
orientadas pelo consenso alcançado entre os dois líderes no encontro em Busan,
na Coreia do Sul, em outubro do ano passado e em telefonemas anteriores.
Quando
as duas maiores economias do mundo retomam a interlocução direta no mais alto
nível, não apenas seus mercados acompanham cada gesto; governos, empresas e
organismos internacionais também ajustam expectativas diante de uma relação que
influencia cadeias produtivas, fluxos comerciais, tecnologia, segurança e o
próprio equilíbrio da ordem mundial.
A
diplomacia entre grandes potências tem peso especial justamente porque seus
efeitos ultrapassam fronteiras. A China e os Estados Unidos concentram
capacidades econômicas, industriais, tecnológicas e militares que tornam
qualquer escalada de tensão um fator de instabilidade global. Por isso, a
disposição de manter canais de diálogo abertos não deve ser vista como gesto
protocolar, mas como instrumento indispensável para evitar que divergências
legítimas se convertam em confrontação permanente.
Nesse
contexto, a China aparece como ator central e incontornável. Ao receber Trump
em visita de Estado, o Presidente Xi Jinping reafirma o papel de seu país como
potência relevante na construção de uma agenda internacional baseada em
estabilidade, previsibilidade e cooperação. A posição chinesa, expressa em
comunicados recentes, tem insistido em princípios como respeito mútuo,
coexistência pacífica e benefício recíproco, conceitos que ganham força em um
cenário global marcado por fragmentação, disputas tarifárias e pressões sobre o
comércio internacional.
A
relevância mundial da China não se resume ao tamanho de sua economia. O país
ocupa posição decisiva nas cadeias globais de produção, no comércio
internacional, na inovação tecnológica e na articulação diplomática com
diferentes regiões do mundo. Por isso, qualquer tentativa de estabilizar a
relação sino-americana passa necessariamente pelo reconhecimento de que Pequim
não é apenas parte interessada, mas protagonista de uma nova configuração
internacional.
A
experiência recente mostra que a confrontação entre a China e os Estados Unidos
produz custos para ambos os lados e amplia inseguranças para o restante do
mundo. Já a cooperação, mesmo quando limitada e difícil, contribui para
preservar algum grau de racionalidade nas relações internacionais. Em um
sistema global interdependente, nenhuma grande potência consegue resolver
sozinha os desafios econômicos, comerciais e geopolíticos que se acumulam.
É por
isso que a diplomacia de alto nível entre grandes potências continua sendo
insubstituível. Reuniões entre chefes de Estado podem abrir caminhos para
destravar negociações e sinalizar compromisso com a estabilidade. Em tempos de
volatilidade, esses gestos têm valor estratégico.
A
visita de Trump à China desperta grande atenção mundial porque dela podem sair
sinais importantes sobre o futuro da relação entre Pequim e Washington. Se o
encontro contribuir para reduzir incertezas, fortalecer consultas econômicas e
reafirmar a necessidade de respeito mútuo, já terá cumprido papel relevante.
Para o mundo, a estabilidade entre China e Estados Unidos não é apenas uma
questão bilateral: é um elemento essencial para a paz, o equilíbrio e a
previsibilidade da ordem internacional.
Um
parâmetro adequado para avaliar a viabilidade desse novo modelo de relações
internacionais está nas relações entre grandes potências. Em vez de evitar ou
negar a existência de disputas entre os principais países, essa nova abordagem
busca afirmar que é possível estabelecer uma estrutura de relações entre
grandes potências baseada na estabilidade geral e no desenvolvimento
equilibrado, especialmente entre a China e os Estados Unidos. A condição
indispensável para isto é que os Estados Unidos abandonem a lógica da
contenção, da hegemonia e do jogo de soma zero.
A
proposta de uma nova forma de relações internacionais parte da ideia de que
China e Estados Unidos podem conviver como grandes potências se adotarem
princípios como não confronto, respeito mútuo e cooperação.
É
importante que a ascensão da China não seja vista como ameaça à ordem
internacional ou como uma movimentação contrária aos interesses nacionais dos
Estados Unidos ou como manifestação de ambições hegemônicas. O desenvolvimento
impetuoso da China e sua ascensão ao primeiro plano da vida internacional são
um direito inalienável do povo chinês e parte inseparável da revitalização da
nação chinesa. Do ponto de vista internacional, a incontornável resultante é a
ordem internacional multipolar, o soerguimento da nova governança global e o
reconhecimento por todos os atores relevantes da vida política mundial de que
há espaço para mais de um centro de poder.
Fonte:
Brasil 247

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