Cuba
está sob ameaça de um novo ataque
Havana
está respirando por aparelhos. Pela primeira vez desde o Período Especial, Cuba
enfrenta uma crise de proporções existenciais — e a ameaça de intervenção
militar dos EUA está agora às claras.A visita do diretor da CIA, John
Ratcliffe, a Cuba na semana passada acendeu o alerta. A portas fechadas,
Washington parece pronto para indiciar Raúl Castro pela queda, em 1996, de duas
aeronaves civis pilotadas pela Hermanos al Rescate, uma organização
civil contrarrevolucionária de Miami mais do que acostumada a violar o espaço
aéreo cubano, como dramatizado no filme Wasp Network da
Netflix.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
O que pode explicar esta oposição visceral dos Estados
Unidos em relação a um país com não mais de 10 milhões de habitantes?
JUAN
ANTONIO FERNÁNDEZ PALACIOS - Uma coisa
importante que devemos destacar é que o que chamamos de diferendo histórico —
mais do que conflito — entre Cuba e os Estados Unidos não começa com a
revolução, nem com a chegada de Fidel, nem após o triunfo de 1º de janeiro de
1959. Na verdade, é um diferendo ancorado na história e, para ser honesto, vem
do século XVIII. Talvez seja uma particularidade de Cuba que não se vê tão
claramente em outros países da nossa América. Fomos a última colônia da
Espanha. Quando todo o continente já havia sido libertado, com as grandes
façanhas dos libertadores, permanecemos como colônia até o início do século XX.
Por Cuba, dizia na sua época o primeiro-ministro espanhol, Antonio Cánovas del
Castillo, “até o último homem e a última peseta”. Cuba era a joia mais preciosa
da coroa. Mas voltando ao ponto: o diferendo histórico com os Estados Unidos é
muito anterior, desde o século XVIII, devido ao seu afã de dominação e
conquista. A disjuntiva histórica tem sido sempre dominação versus soberania,
e o nosso direito de existir como nação. Isso se arrasta até hoje. Anexação ou
independência.
Em
1783, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Adams — depois presidente
da União — falava, e cito, que “Cuba é uma extensão natural do continente
norte-americano, e a continuidade dos Estados Unidos ao longo desse continente
passa necessariamente pela anexação de Cuba”. Esta tese foi depois desenvolvida
por seu filho — um pouco do nepotismo americano —, John Quincy Adams, em 1823,
com a teoria da fruta madura. Nem mesmo naquele momento achavam que era
necessário confrontar ou ir à guerra com a Espanha, porque a penetração do
capital americano pressupunha para eles que Cuba cairia como fruta madura por
seu próprio peso e se uniria à União Americana como mais um estado. Um
pouquinho disso estão pensando hoje também. Por isso o contexto histórico é
importante: nos traz desde 200 anos atrás até agora qual é a essência do
diferendo. Repito, não tem nada a ver com a revolução, embora esta, claro,
tenha acelerado esse conflito por outras razões.
Dizia
que em 1823, John Quincy Adams e a doutrina Monroe nos reaparecem hoje, embora
mudem o nome. Agora chamam de doutrina Donroe. É o mesmo: América para os
americanos. Naquele momento era uma mensagem muito clara para os europeus,
notadamente para o Reino Unido e a França. Hoje o donroísmo vai ainda mais
longe, até o insulto: “Vou chegar até a Groenlândia”. Normalmente era o olhar
para “o quintal”, como sempre nos consideraram, do Rio Grande até Tierra del
Fuego.
Mas
agora incluem o Canadá, do qual dizem que deveria ser o Estado 51, e a
Groenlândia, que querem tomar. Ou seja, todo o hemisfério ocidental. Aí está,
novamente, uma linha histórica do pensamento imperialista das classes
dominantes nos Estados Unidos. Isso é o que poderia dizer quanto a essa
primeira metade. Depois será preciso explicar como aquilo continuou após a
guerra hispano-cubano-norte-americana de 1898 — nossa segunda guerra pela
independência.
Os
Estados Unidos intervieram após o incidente do Maine [NE —
navio norte-americano que afundou perto de Havana, em 15 de fevereiro de 1898,
e contribuiu para a explosão da guerra Hispano-Americana em Cuba em abril]. A
Espanha já estava exausta, quase derrotada, e eles intervêm supostamente para
ajudar. Termina com a derrota da Espanha e a ocupação da ilha, de 1898 a 1902.
São quatro anos de ocupação onde, diga-se, não deixaram entrar as tropas
libertadoras em Santiago de Cuba — a segunda cidade mais importante — nem o
general Calixto García.Chegamos à independência em 1902. A última das
repúblicas americanas. Hoje nos resta, de qualquer forma, Porto Rico como um
Estado livre associado, uma situação colonial. Mas a última república
independente do hemisfério fomos nós. É importante entender isso para chegar
novamente ao presente, com a famosa Emenda Platt, cujos resultados até hoje
sofremos.
O
que era a Emenda Platt? Em síntese: direito de intervenção. Sempre que os
Estados Unidos entendessem que a situação no país poderia pôr em perigo seus
interesses e sua segurança — sempre apelam para isso — tinham o direito de
intervir. E o fizeram ao longo do século XX várias vezes. Adicionalmente, junto
com essa emenda veio o Tratado de Bases Navais e Carboníferas, que explica a
existência da Base Naval de Guantánamo — hoje um centro internacional de
torturas e uma ocupação do território nacional. Assim funcionava a Cuba
republicana, se é que se pode chamar realmente de república. Uma república
neocolonial, uma espécie de protetorado no século XX, através do controle do
grande capital dos Estados Unidos sobre as riquezas fundamentais da nação: a
indústria açucareira, o sistema bancário. Os Estados Unidos chegaram a ter,
para mencionar alguns dados, no ano de 1958, 70% do comércio exterior de Cuba.
O controle das terras, os latifúndios, também era enorme. Também as empresas
elétricas, telefônicas. Tudo estava em
inglês: The Cuban Telephone Company, The Cuban Electric
Company. Essa
foi a Cuba da primeira metade do século XX: uma forte dependência e controle em
todos os setores da vida econômica, política e social. Tudo isso explica, de
alguma maneira, o porquê da revolução. Passando por diferentes processos
revolucionários em Cuba: desde a fundação do primeiro Partido Comunista em
1925, a revolução de 33 — que, como diziam também, se frustrou — até a crise
completa do sistema, o golpe de Estado de Batista e a instauração de uma
ditadura sangrenta. Uma etapa, diga-se, em que a América Latina estava repleta
de ditaduras: os Jiménez, os Somoza, os Duvalier, Trujillo. O cenário era
completamente ditatorial.
É
importante notar, sobretudo para o público estrangeiro — porque às vezes a
gente confunde —, que nossa revolução foi completamente autêntica e
profundamente popular. Depois, não sei se toca falar ou não do que foi o campo
socialista. Há diferenças que marcam realidades distintas. No nosso caso, não
veio o Exército Vermelho nem tanques soviéticos para trazer consigo ou
instaurar um regime socialista. Isso foi um resultado autóctone, popular, de
uma revolução profunda e radical. O triunfo revolucionário é realmente um
divisor de águas da vida nacional e, de alguma maneira, também um
aprofundamento desse diferendo, a partir das ações iniciais dos Estados Unidos:
o início do bloqueio, a eliminação da cota açucareira, as primeiras medidas de
pressão e coerção econômica — isso antes mesmo de se declarar o caráter
socialista da revolução. Estou falando já dos anos 60. Era Eisenhower naquela
época. Depois veio a preparação da invasão da Baía dos Porcos em 61, já com
Kennedy. A partir daí, com o caráter socialista da revolução, inicia-se o
processo mais profundo de transformações e de nacionalização — que em outras
palavras é a recuperação da soberania nacional, dos recursos naturais, com
nosso completo apego ao direito internacional. Isso explica este período de mais
de 65 anos, que poderíamos caracterizar como o recrudescimento do bloqueio.
Hoje, uma espécie de teia de aranha, um novelo bem emaranhado de leis, medidas,
decretos, que tornam tremendamente turvo e duradouro o bloqueio mais longo da
história.
·
Passemos agora à situação presente e à conjuntura atual.
O que há de novo? O que mudou com a presidência de Donald Trump nas relações
entre Cuba e Estados Unidos? E, em particular, em que a situação atual se
diferencia daquela que Cuba atravessou durante o chamado Período Especial, após
o colapso da União Soviética?
FP- A
chegada desta administração — o que poderíamos chamar de Trump 2.0 —
caracteriza-se por um recrudescimento e um reforço das medidas de bloqueio
econômico. É realmente uma política de máxima pressão. Já desde o primeiro
mandato de Trump foram aprovadas mais de 243 medidas, diversas ordens
executivas. O bloqueio se converteu nisso que disse: uma imensa teia de aranha
que em última instância busca o estrangulamento do país. É com Trump que, pela
primeira vez, se implementa o título três da lei Helms-Burton, que
havia sido suspenso em todas as administrações anteriores [NE — O
Título III da Lei Helms-Burton (aprovada pelos Estados Unidos em 1996) permite
que cidadãos e empresas estadunidenses apresentem ações judiciais contra
indivíduos ou corporações estrangeiras que “traficarem” com propriedades
nacionalizadas pelo governo cubano após 1959]. A política de hostilidade
atingiu níveis nunca antes vistos, com um enfoque muito mais cirúrgico,
atacando diretamente as principais fontes de renda do país. Por um lado, cerco
energético e perseguição às nossas transações legítimas. Perseguição
financeira, que é a reinclusão de Cuba na famosa lista dos patrocinadores do
terrorismo. Tem um efeito devastador porque nos exclui do sistema financeiro
internacional. O senhor não tem ideia das dificuldades que enfrentamos aqui na
Bélgica com os bancos, com o KBC, por exemplo, ou com o Belfius. Negam-nos
contas e impõem-nos uma vigilância realmente abusiva. Cobram-nos — não é que
devamos pagar, tiram-nos sem perguntar — 1.100 euros mensais só pelo direito de
vigilância da conta. Uma conta com um número que não passa de quatro zeros. E o
mais cruel e atual — vocês conhecem — é a ordem executiva de 29 de janeiro, que
declara uma emergência nacional para os Estados Unidos ao considerar Cuba como
uma ameaça incomum e extraordinária à sua segurança nacional. Um país de 9
milhões de habitantes. Com isso, ameaçam atores públicos e privados — Estados
ou empresas — que forneçam energia a Cuba, que forneçam petróleo, combustível
ao nosso país.
Nos
últimos quatro meses, apenas um navio petroleiro chegou ao porto cubano, a
partir de uma doação do governo da Federação da Rússia no que vai do ano. Para
vocês terem uma ideia: Cuba precisa de oito navios petroleiros por mês. No
mínimo, dois navios por semana, 100.000 toneladas, para manter a vitalidade em
todo o âmbito da vida econômica, política, social e cultural. A situação neste
momento — todos a conhecem — é difícil, crítica, dura, quase de emergência
humanitária. Há uma enorme afetação ao sistema de saúde e ao sistema de
educação, dois grandes pilares, duas grandes conquistas da revolução pelo
princípio de acesso igualitário, livre e universal. O sistema de saúde,
seriamente afetado. Um único hospital, o Hospital Juan Manuel Márquez — um
hospital pediátrico a oeste de Havana, um dos maiores — atende todos os dias
aproximadamente 600 crianças. Esse hospital precisa, para funcionar, de 500
litros de combustível a cada oito horas para manter a vitalidade de todos os
serviços que presta. Imagine-se nas condições em que estamos. Os apagões — os
cortes elétricos, para se entender — chegaram a alcançar 30 horas. Isso é um
dia e um pouco mais. Golpeiam com muita força nas províncias, e em Havana, a
cidade capital, igual: apagões de 12, 14, 18 horas. Uma situação muito dura que
nunca antes tivemos.
O
senhor perguntava: o que diferencia isso do Período Especial? Efetivamente, há
similitudes pela gravidade da situação. As medidas que o governo teve que tomar
guardam semelhança com aquelas da década de 90: redução da jornada de trabalho,
racionamento mais extremo dos recursos de que dispomos — fundamentalmente,
combustível. Agora, há uma diferença em relação ao Período Especial. O país já
está construído sobre bases mais sólidas, e hoje estamos falando de uma
“resistência criativa”. A resiliência marcou nossa história, mas hoje não se
trata apenas de resistir sem avançar. O presidente chamou de “resistência
criativa” a buscar, com nosso talento, com nossa inteligência, com nossos
recursos, a maneira e as portas para sair desta situação. O melhor exemplo é o
caminho acelerado para a transição energética: deixar de depender dos
combustíveis fósseis para ir a fontes renováveis de energia. Em apenas um ano
já estamos a 10% de energias renováveis, fundamentalmente fotovoltaica. Mas a
situação é dura, é crítica, é difícil.
·
Justamente queria lhe perguntar, que efeitos concretos
esta conjuntura especial teve na transição energética, e se essas mostras de
solidariedade estão ajudando Cuba nessa empreitada.
FP - Sim.
Recentemente, houve o comboio Nuestra América, o qual fazia
referência ao ensaio filosófico e
político de
mesmo nome, escrito por José Martí, herói da independência cubana, em
1891. Uma coisa muito bonita. É apenas um dos múltiplos exemplos de
solidariedade e apoio. Dizia antes que um grupo de cubanos acaba de chegar a
Cuba, o apoio mais importante neste minuto. Os amigos e a solidariedade estão
fazendo por diferentes vias, seja arrecadando fundos ou de maneira material,
com painéis fotovoltaicos, por exemplo, para apoiar a transição energética. Também
há uma espécie de kits fotovoltaicos que permitem a independência energética a
residências em zonas remotas ou a postos médicos. Nós temos, como vocês sabem,
o sistema do médico da família. Para cada 120 famílias, um médico e uma
enfermeira. Isso chega às montanhas, às zonas remotas, às vezes onde já não há luz
ou não chega a telefonia. Instalamos painéis lá. A única coisa que não podem
bloquear é o sol. O combustível, os navios poderão bloquear, mas o sol não.
Ajuda muitíssimo também a contribuição em insumos médicos e alimentos. Chegam
de todas as partes do mundo. A gente entra hoje nos meios cubanos e nas redes
sociais, e vê por toda parte. Eu estava lendo hoje desde Chipre, desde a
Bélgica, desde a África. Também chega da América Latina. Colômbia, por exemplo,
fez uma doação muito importante recentemente por parte do governo do presidente
Gustavo Petro. E o México igualmente, que tem sido extrermamente fraternal com
Cuba, da maneira como sempre foi conosco. Agradecemos todo esse esforço dos
movimentos sociais, da solidariedade, dos cubanos que vivem no exterior.
·
Além do cerco financeiro, comercial e energético, também
parece se consolidar um cerco de ameaça militar. Gostaríamos de entender como
Cuba está se organizando. Se está pensando num cenário militar e que tipo de
decisões estão sendo tomadas a respeito.
FP - A
ameaça é real. É que simplesmente há uma banda criminosa. Esta é uma
administração belicista, atroz — não tenho outra palavra para dizer —,
agressiva. Estamos vendo os acontecimentos de 3 de janeiro com a intervenção e
o sequestro do presidente constitucional Nicolás Maduro e sua esposa, Silvia
Flores. Uma operação militar onde caíram 32 cubanos — o círculo talvez mais
próximo de proteção — junto com outros venezuelanos. A ordem executiva de 29 de
janeiro — que já mencionei —, a guerra ilegal no Irã que estamos vendo. Nas
últimas semanas se reiteram as ameaças, já explícitas, desde o presidente até o
secretário de Estado, o secretário de guerra, inclusive políticos da Flórida,
chamando a uma intervenção militar em Cuba. Nada justifica uma intervenção em
Cuba, nem há razão alguma para fazê-lo. Primeiro, somos um país de paz. América
Latina e Caribe é uma zona de paz. Nada justificaria uma intervenção dos
Estados Unidos, e nós temos o direito de preservar nossa soberania, nossa
independência, nosso modelo e sistema político.
Não
tomamos as ameaças de ânimo leve. E também nos preparamos. A melhor maneira de
evitar uma guerra, uma intervenção que não desejamos, é nos prepararmos. Nós,
há muito tempo, temos uma doutrina própria: a guerra de todo o povo. A relação
com os Estados Unidos é absolutamente assimétrica. Eles são a principal
potência militar do mundo. Não se pode pensar que uma pequena Cuba possa
derrotar militarmente o exército dos Estados Unidos. Mas na guerra moderna, na
relação assimétrica entre quem se assume poderoso e o mais fraco, a vitória se
decide pelo tempo e pela resistência. O Irã está demonstrando de alguma
maneira, guardadas as devidas proporções. Nós — repito — estamos nos
preparando. Nossas forças armadas também, com caráter dissuasivo. Mas nossa
doutrina é a guerra de todo o povo, urbana e rural igualmente. Da serra
desceram aqueles barbudos, e sabemos lutar. Assim se fez a revolução: a guerrilha
desde a serra e, também nas zonas urbanas, a ação dos movimentos
revolucionários. Aprendemos a lutar e a defender o mais sagrado, que é a
pátria. Nosso hino nacional — inclusive, o lema “Pátria ou morte, venceremos” —
não faz senão recolher esse tremendo sentido e vocação independentista dos
cubanos, que vem desde nosso hino nacional do século XIX: morrer pela pátria é
viver. Isto é o que gostaria de dizer. Tomara que isso não aconteça. Ninguém o
deseja. A América Latina e o Caribe não precisam disso. O mundo não precisa
disso. Mas sim, estamos nos preparando, sob as bases do que estamos dizendo.
Tomara que isso não aconteça.
·
Passemos agora ao modelo político cubano e às suas
evoluções. Em 2022, Cuba celebrou um referendo sobre o casamento homossexual e
a política familiar. Alguns anos antes, houve um referendo sobre a
Constituição. Por que esse recurso aos referendos? É um mecanismo que as
autoridades cubanas têm intenção de multiplicar no futuro? Está algo assim
previsto?
FP - Sim.
Você fazia referência ao referendo de 2022, que se associou — porque acabou
resultando nisso — ao reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas
o referendo de 2022 se referia ao novo Código das Famílias, algo também muito
plural. Dentro desse novo código estava também o reconhecimento dessa forma de
união. Mas parto disso: do reconhecimento de um olhar mais amplo, mais plural
da sociedade em direção à diversidade de modelos de família, que mude pela raiz
a visão patriarcal e a hipocrisia burguesa da família monoparental. Era algo
necessário.Temos ido a referendos em algumas ocasiões. A Constituição também
foi submetida a referendo em 2019. O recurso do referendo está amparado em
nossas leis, e cabe à Assembleia Nacional decidir quando apelar a esse recurso,
que tem sido utilizado quando se busca aprovar leis de especial transcendência
para a vida da nação ou reformas constitucionais. Não é um recurso cotidiano.
Não é o caso da Suíça, onde para abrir uma rua convocam um referendo. É custoso.
E temos outras dinâmicas, mas estão amparadas em nossas leis. Sobre a pergunta
concreta, eu creio que sim: quando for necessário, se convocará. Até agora o
fizemos para reformas constitucionais, para a aprovação da Constituição da
República, ou para leis de especial transcendência, como é o caso do Código das
Famílias. É um recurso que temos e que está à disposição.
Os
próprios modelos de participação que nos brindam nosso Parlamento e nossas
estruturas de base permitem que não seja tão necessário o referendo como figura
jurídica, mas que seja especificamente para assuntos de maior relevância. Os
temas mais pontuais, cotidianos, mais comuns, sempre são vistos na Assembleia
Nacional, nos delegados. Nosso sistema democrático é de bairro. Não há
participação de partidos. É vizinhança, absolutamente. O sistema democrático
cubano desde a base começa com a eleição do delegado. Está dividido por
circunscrição. Depois, assembleia municipal, assembleia provincial e assembleia
nacional. Mas a parte mais democrática e absolutamente representativa é essa
eleição do delegado, que é uma decisão dos vizinhos. A lei exige, além disso,
que sempre tenha que haver mais de dois candidatos. Vota-se em voto direto e
secreto. Podem ser propostos pelos próprios vizinhos. Com escrutínio público,
claro. Abrem-se as urnas para a contagem, com acesso dos eleitores. Além disso,
pode ser revogado. Assim como o elegem, também os vizinhos podem se reunir,
dizer “não serve”, e votando o tiram. É um pouco para complementar o do
referendo. Por isso algumas coisas se resolvem fundamentalmente a nível de
bairro e depois, pelos diferentes degraus do sistema do poder popular.
·
Nas evoluções do modelo cubano, tem havido mudanças no
plano econômico, formas de liberalização de certos setores de atividade
econômica, especialmente no setor do turismo. Dito isso, há observadores que
lamentam que não tenha havido liberalização no sentido político do termo, que
não haja sindicatos independentes do partido em Cuba, ou que o direito à livre
expressão e à crítica do regime não esteja suficientemente estabelecido na
cultura política cubana. O senhor concorda com esse diagnóstico? O que responderia
a essas críticas?
FP- Não,
não. Para começar, tomo o termo ou conceito de “liberalização” que tu usas, que
é comumente empregado nos meios de comunicação, porque compreendo que assim se
entende talvez melhor para o público europeu ou não familiarizado com
realidades distintas e diferentes como a nossa. Mas stricto sensu,
nós não estamos num processo de liberalização econômica no sentido literal da
palavra, pensando no liberalismo como corrente econômica e política. Nós
estamos avançando numa atualização do nosso modelo econômico e social. A
revolução é legítima e está em mudança permanente. Um revolucionário sempre
aspira a mudar as coisas. A revolução não é estática. Fidel o dizia quando dá o
conceito de revolução: temos que mudar tudo aquilo que necessite ser mudado.
Estamos ajustando, atualizando o modelo econômico. Na Constituição de 2019,
pela primeira vez se reconhece o setor privado — como não o tínhamos feito
antes — como uma das formas de propriedade. Não só a propriedade cooperativa, a
propriedade estatal, mas também a propriedade privada. É um exemplo do que
estou dizendo. A partir desse processo de maior abertura, ressurgiram as
pequenas e médias empresas, as PMEs, como atores complementares. Aprovaram-se
novas leis para buscar uma maior associação, sinergia, inclusive entre o setor
estatal e o setor privado, ambos em função do desenvolvimento do país. É um
processo normal, dialético dentro da doutrina.
Agora,
eu não vejo por que ter que fazer um paralelismo — usando de novo o termo — com
liberalismo político. Não vejo a necessidade, nem creio que seja o desejo da
maioria dos cubanos, a mudança de regime. Ou se se entende por liberalismo
político a mudança de sistema, não vejo. Aprofundar nossa democracia para
torná-la cada vez mais participativa, envolvendo mais o povo e os trabalhadores
nas decisões: sim, precisamos disso. Sim, é necessário. E creio que também por
esse caminho vamos.
Você me
fala sobre sindicatos. Nós temos uma central única, a Central dos Trabalhadores
de Cuba. Mas tem mais de 17 sindicatos ramais, que são independentes. A
pergunta é: somos o único país com uma central única? Não. No Uruguai está a
PIT-CNT, que é uma só central sindical. No nosso caso, responde a uma tradição
do movimento operário. A Central dos Trabalhadores de Cuba é
pré-revolucionária, não se criou com a revolução. Vem de muito antes. Sempre
foi uma vocação do movimento operário cubano a unidade. Aqui nos têm acostumado
a nos dividir. Quando entendo a divisão em termos de democracia, a discussão se
torna infinita. Mas Martí, para buscar a independência de Cuba, fundou um só
partido: o Partido Revolucionário Cubano, unidade de todas as forças revolucionárias.
Se queremos ganhar… na nossa história, que é rica e também dolorosa, perdemos
guerras e batalhas quando não estivemos unidos.
Perdemos
a Guerra dos Dez Anos, a primeira guerra de independência. A
divisão nas fileiras revolucionárias, nas fileiras do exército libertador,
levou à frustração dessa guerra e ao Pacto de Zanjón, que terminou por ser um
acordo de rendição diante das autoridades coloniais — o tratado assinado em 10
de fevereiro de 1878, que estabeleceu a capitulação do exército libertador
cubano frente às tropas espanholas, pondo fim à chamada Guerra dos Dez
Anos (1868-1878). Esse ensinamento de Martí foi trazido por Fidel
depois: a unidade das forças. O mesmo acontece no movimento operário. Mas
insisto: é uma central única, com 17 ou 18 sindicatos ramais. As outras
liberdades típicas e conhecidas estão todas amparadas na Constituição e suas
leis complementares. Verdadeiramente, é não nos conhecer quem insiste que não
há liberdade de expressão. Basta caminhar pelas ruas de Cuba para ouvir a
enorme diversidade de opiniões. Eu mesmo sou crítico de algumas coisas que não
me agradam e não tenho vergonha em dizer que é preciso mudá-las. De fato,
comentei: sim, creio que é preciso aprofundar o sistema democrático, mais
participação popular, mais representatividade, mais envolvimento dos
trabalhadores nas decisões econômicas, inclusive a nível de empresa. Isso nos
falta, temos que buscá-lo. Mas todas essas liberdades conhecidas estão
amparadas na Constituição. Em Cuba há mais de 2.000 associações e organizações
não governamentais. A Lei 54 ampara a liberdade de associação, de reunião e de
expressão. Agora, veja, porque são debates interessantes: a liberdade de
expressão, igual que a de associação, ambas têm limites legítimos que o direito
internacional reconhece.
Lamento,
mas aqui na Europa — em nenhum país europeu, nem na Bélgica — todos têm emendas
e reservas à Convenção para a Discriminação Racial das Nações Unidas, à
Convenção sobre os Direitos Civis e Políticos. Uma expressão racista não é
liberdade de opinião, é racismo. Estou me explicando? Há limites legítimos que
têm a ver com a moral pública, com a segurança e também com valores humanos que
a gente reconhece. Um partido de extrema direita xenófobo é legítimo na Europa.
Eu não o vejo em Cuba. Simplesmente não. Quem odeia o semelhante, quem pede
exclusão, eu não lhe vejo direito nem espaço democrático. Porque o que prega é
a antidemocracia, é a exclusão. Para mim isso não é liberdade de expressão. Lá
eles, não me meto. Não gosto, nem creio que isso seja legítimo. A Europa vem
infestada de partidos de extrema direita, racistas, xenófobos e alguns
fascistas. Essas são liberdades. Eu não as quero para mim. Não digo que nosso
sistema seja perfeito. Creio que temos que avançar. Sempre a busca da justiça
social, das máximas liberdades, é um caminho quase infinito, crescendo sempre.
E nisso sim creio.
·
A revolução cubana e a figura de Fidel Castro são quase
indissociáveis. Gostaríamos de perguntar-lhe, sobretudo porque este ano é o
centenário de seu nascimento, pela importância de Fidel Castro na revolução
cubana hoje, e que lições deixa, sobretudo para este momento tão sensível que
Cuba e o mundo atravessam.
FP - Fidel
Castro, um grande dos cubanos do século XX, paradigma da nação, é quem nos
colocou no mapa. Aquela Cuba pré-revolucionária era o prostíbulo e a sala de
jogos dos Estados Unidos, e dos grupos mafiosos que também controlavam a ilha.
Fidel simplesmente fez a revolução mais profunda e autenticamente popular, com
o mérito de lograr a unidade das forças revolucionárias, das forças
progressistas, e de conduzir a revolução triunfante que prevalece até o dia de
hoje. Foi uma sorte tê-lo numa grande parte deste caminho, desta longa marcha,
preservando nossa independência e nossos valores. Fidel é um referente
necessário, e seu legado é enorme. Sua influência na política internacional, no
mundo, sua visão de longo alcance — quase como diria alguém, de poder olhar o
futuro, voltar e nos contar o que via. Estamos no ano de seu centenário, que
nos inspira para seguir adiante, para buscar seus ensinamentos. A ele sempre
regressamos para entender inclusive os problemas do presente. Fidel também foi
a hidalguia, o não se pôr de joelhos, o manter a fronte altiva, com sua visão
anti-imperialista e internacionalista. Como ser humano, não foi perfeito. Foram
mais suas virtudes. Martí dizia: “Só os ingratos veem as manchas que o sol tem.
Os agradecidos preferimos ver a luz, que sempre é maior”. Sobre suas ideias,
sobre seus ensinamentos, seguimos caminhando nestes tempos e neste mundo
imprevisível e de tantas ameaças.
Fonte: Entrevista
com Juan Antonio Fernández Palacios

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