“Flávio
Bolsonaro não passa de um picareta e esse dinheiro de filme é propina”, diz o
ex-bolsonarista Julian Lemos
O ex-deputado federal Julian Lemos comentou as
recentes revelações envolvendo o empresário Daniel Vorcaro e a produção de um
filme associado ao bolsonarismo. Em entrevista ao jornalista Joaquim de
Carvalho, no Boa noite 247, o ex-bolsonarista afirmou que não se surpreende com
o caso e acusou o filho de Jair Bolsonaro de utilizar o projeto audiovisual
como mecanismo de arrecadação ilícita.
A
entrevista repercutiu declarações recentes de Flávio Bolsonaro, que admitiu ter
se encontrado pessoalmente com Daniel Vorcaro após inicialmente afirmar que
havia mantido apenas contato telefônico com o empresário. Segundo Julian Lemos,
a justificativa apresentada pelo senador não convence.
“Não
tenho outro adjetivo. Para mim, Flávio é um picareta”, afirmou Julian. “Ele não
se contém na sua ganância”, afirmou.
O
ex-parlamentar também descartou a versão de que os recursos discutidos no caso
seriam destinados exclusivamente ao financiamento de um filme. Segundo ele, as
contradições ao tentar explicar a oriegem do financiamento demmonstram que
haveria um esquema de arrecadação envolvendo diferentes grupos interessados.
“Não
acredito em relação a esse tal financiamento de filme, isso não existe, isso aí
é dinheiro de propina”, declarou. “Ele vendeu o mesmo produto a muita gente”,
disse.
Julian
Lemos afirmou ainda que os valores movimentados seriam muito superiores ao
efetivamente investido na produção audiovisual.
“Ele
apurou muito dinheiro nesse filme. E gastou? Não gastou 10% do que acham que
ele gastou”, disse. “Esse dinheiro é para enriquecimento ilícito mesmo. Essa é
a prática deles”, afirmou sem apresentar provas.
Ao
analisar os possíveis desdobramentos do caso, Julian afirmou acreditar que
Flávio Bolsonaro não conseguirá sustentar uma candidatura presidencial diante
das investigações e das revelações que ainda podem surgir.
“Eu não
dou uma semana, no máximo dez dias, para outras bombas estourarem”, afirmou.
“Ele não vai aguentar”, acredita.
Segundo
Julian, integrantes do núcleo político em Brasília já avaliam que novos
vazamentos podem ampliar ainda mais a crise envolvendo a família Bolsonaro. Ele
afirmou também que o senador dependeria diretamente do mandato para evitar
problemas judiciais.
“Primeiro,
ele não tem condição de ficar sem o mandato. Se ficar, é preso”, declarou.
Julian
Lemos sustentou que os rastros financeiros do suposto esquema dificultariam
qualquer tentativa de ocultação dos recursos movimentados.
“Dinheiro
é rastreado demais”, afirmou. “Uma coisa é você esconder um milhão, outra coisa
é você esconder quinhentos milhões”, acrescentou.
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Clã prefere perder para Lula
Em
outro momento da conversa, o ex-deputado comentou a relação entre a
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e a família Bolsonaro. Segundo ele,
Michelle nunca foi plenamente aceita pelo núcleo familiar.
“Michelle
não é tida pela família como uma Bolsonaro. Ela é mulher do pai”, declarou.
Julian
também relatou conflitos internos envolvendo Michelle e o vereador Carlos
Bolsonaro, filho do ex-presidente.
“Carlos
Bolsonaro não suporta ela e ela muito menos”, relatou ele, que conviveu com o
clã Bolsonaro.
Ao
comentar o ambiente interno da família Bolsonaro, Julian classificou o grupo
como uma “quadrilha familiar”. Segundo ele, a aproximação política com Jair
Bolsonaro traz desgaste para aliados e lideranças conservadoras.
“A
família Bolsonaro é uma espécie de buraco negro”, declarou. “Estar perto de
Bolsonaro é arrastar o cara para a lama.”
Julian
também afirmou que a família preferiria uma eventual vitória do presidente Lula
nas eleições a transferir seu capital político para outros nomes da direita.
“A
família Bolsonaro prefere que Lula vença a eleição, mas não vai dar o espólio
deles a ninguém”, disse.
• Dark Horse, um roteiro nada original.
Por Gustavo Guerreiro
A cena
é de 2026, mas o sentimento é de filme repetido. Um senador sobe o tom contra a
corrupção alheia, cobra investigações, exige rigor, fala em decadência moral da
República. Em paralelo, surgem mensagens, cifras vultosas, conversas
reservadas, visitas politicamente comprometedoras. O enredo é contemporâneo,
mas a estrutura é velha. Em algum ponto entre a tribuna do senado e o bastidor,
entre a postagem indignada no “X” e a agenda discreta, o país reencontra um
tipo político que nunca saiu realmente de cena. Lima Barreto, se estivesse
vivo, talvez não se espantasse com nada disso. Reconheceria apenas a
atualização de personagens que ele já conhecia bem.
Em
“Numa e a Ninfa”, Lima Barreto descreve um mundo em que a eloquência pública do
discurso não exclui a pequena negociação de gabinete. Ao contrário, uma coisa
alimenta a outra. O discurso serve para produzir respeitabilidade. A
respeitabilidade serve para ampliar o poder de barganha. O favor distribuído
nos bastidores sustenta a posição de quem, diante do público, se apresenta como
homem de convicções elevadas. O romance não expõe apenas indivíduos hipócritas,
como Numa Pompílio de Castro, filho de um empregado humilde, que sobe na vida
fazendo alianças por puro interesse e com a ajuda de Edgarda Cogominho, a
"ninfa", filha de um oligarca da região. A relação deambos simboliza
muito bem o jogo de interesses e a manipulação que mandam na sociedade. Expõe
uma engrenagem social em que a política se organiza como administração
simultânea de aparência e interesse. Ler certos episódios da vida pública
brasileira de hoje dá a impressão de estar diante dessa mesma engrenagem,
apenas com um roteiro mais caro, novas tecnologias e uma linguagem mais
adaptada ao século XXI.
Antes
de nomear o caso concreto, convém compreender o mecanismo. A política, em
qualquer sociedade, envolve disputa por poder, influência e reconhecimento. No
Brasil, essa disputa assume com frequência uma forma específica: a
transformação de capital simbólico em capital material e de capital material em
prestígio político. A virtude pública, ou ao menos sua encenação convincente,
torna-se um ativo valioso. Na sociologia, Pierre Bourdieu ajuda a entender esse
processo ao mostrar que o campo político é um mercado particular de bens
simbólicos. Nele, a imagem de integridade, coragem e firmeza moral tem grande
valor. E justamente por ter grande valor, ela é produzida com zelo. O
moralismo, nesse contexto, não é necessariamente uma convicção profunda. Muitas
vezes é um recurso relativamente barato e extremamente lucrativo. E a
extrema-direita o faz com maestria.
Isso
não significa que toda indignação pública seja cínica. Significa algo mais
incômodo: em sistemas políticos marcados por baixa confiança institucional, a
linguagem da moralidade pode funcionar como um fundo de investimento
estratégico. Quem acusa com energia ganha crédito. Quem se apresenta como
fiscal dos outros ocupa uma posição vantajosa na disputa por legitimidade. E
esse crédito acumulado na praça pode ser convertido, mais adiante, em acesso,
proteção, proximidade com financiadores e margem de manobra. O discurso de
pureza, então, não aparece como um antídoto da negociação privada. Surge muitas
vezes como sua cobertura mais eficiente.
É por
isso que certos escândalos precisam ser lidos para além da superfície
partidária. Não se trata apenas de dizer que um ator político traiu o que
pregava, como faz cinicamente Rodrigo Constantino, afirmando estar “de saco
cheio dessa postura amadora e irresponsável”, Alexandre Garcia ou comentaristas
da Jovem Pan. Mais importante do que entender os porquês desse “rompimento” é
perceber como o próprio sistema estimula a convivência entre sermão e negócio,
entre pose moral e cálculo prático. Há uma espécie de dupla consciência em
ação. O político corrupto sabe que representa. O público, em grande medida,
sabe que há representação. Ainda assim, ambos seguem participando do ritual. O
primeiro porque depende dele. O segundo porque, sem alguma crença residual na
cena, a política se tornaria insuportavelmente crua.
É nesse
quadro que o caso Flávio Bolsonaro (Numa) e Daniel Vorcaro (Ninfa) ganha
sentido mais amplo. Os fatos, quando alinhados, têm uma eloquência própria.
Flávio Bolsonaro, senador da República, sustentou ao longo dos últimos anos uma
identidade política fortemente associada ao combate à corrupção do campo
adversário. Fez disso não apenas uma posição, mas uma linguagem constante. Em
discursos, entrevistas e redes sociais, apresentou-se como voz de denúncia
contra o suposto escândalo permanente dos outros. Tentou jogar o caso no colo
do governo Lula, justamente o responsável pelas investigações que culminaram
nas prisões. Essa atuação compõe aquilo que Erving Goffman chamaria na
teatralização da políticade front stage (palco), o espaço em que o ator administra
a impressão que deseja produzir. O palco institucional, nas democracias de
massa, inclui o plenário, os cortes de vídeo, as postagens e as frases
desenhadas para circular.
O
problema começa quando o bastidor deixa rastros demais. As mensagens
divulgadas, a negociação de R$ 61 milhões para o projeto cinematográfico Dark
Horse e a posterior visita ao banqueiro Daniel Vorcaro, já preso e usando
tornozeleira eletrônica, compõem uma sequência difícil de tratar como
coincidência sem significado. O ponto decisivo não está em um gesto isolado,
mas na cronologia. Primeiro, há a retórica pública da vigilância moral. Depois,
aparece a negociação privada com um agente econômico poderoso. Em seguida, a
relação persiste mesmo quando o financiador já se encontra em condição judicial
comprometida. A força do caso está exatamente nessa ordem dos fatos. Ela reduz
bastante a necessidade de adjetivar.
A
tentação, diante de episódios assim, é entregar-se ao deboche. Seria fácil
explorar o contraste entre o senador indignado e a visita ao banqueiro de
tornozeleira. Mas o excesso de ironia, embora tentador, às vezes empobrece a
análise. Melhor registrar o essencial: um representante eleito, empenhado em
construir capital político a partir do discurso moral, manteve interlocução
financeira e simbólica com um personagem cujo peso econômico e situação
judicial tornavam a relação, no mínimo, politicamente reveladora. Em contextos
como esse, o fato fala mais quando o cronista não grita.
Os
defensores do senador recorreram a um argumento previsível. O dinheiro, dizem,
era privado. O projeto, igualmente privado. Não haveria uso de verba pública,
nem ato oficial do mandato diretamente vinculado ao financiamento. Em termos
formais, a distinção existe. E é justamente aí que a análise precisa ser mais
rigorosa. O clientelismo contemporâneo raramente opera como caricatura. Ele não
depende mais, na maior parte do tempo, da entrega grosseira de um envelope ou
da troca explícita de um favor administrativo por uma contribuição. Seu terreno
favorito é a zona cinzenta em que relações privadas produzem efeitos públicos
sem assumir inteiramente essa condição.
A
defesa, portanto, não deve ser tratada como uma simples mentira. Ela é mais
sofisticada do que isso. É uma distinção que parece sólida quando observada em
abstrato, mas enfraquece quando submetida ao contexto. Um filme não é apenas um
filme quando envolve uma figura política com capital eleitoral consolidado, um
projeto de imagem de longo prazo e um financiador cuja proximidade oferece
vantagens mútuas evidentes. A pergunta adequada não é apenas de onde vem o
dinheiro. A pergunta é a quem o investimento serve, quais redes ele fortalece,
que tipo de proteção recíproca ele sugere, que dividendos políticos e
simbólicos tende a produzir.
Aqui, a
crítica de Lima Barreto ao bacharelismo brasileiro volta a ser útil. O
bacharelismo não é apenas gosto pela frase rebuscada ou pela formalidade
jurídica. É uma cultura de racionalização elegante das conveniências do poder.
Consiste em organizar justificativas tecnicamente apresentáveis para práticas
que, embora dificilmente enquadráveis de imediato como ilícitas em sentido
estrito, corroem o mínimo de distinção republicana entre interesse público e
projeto particular. A elite política e econômica brasileira sempre demonstrou
invejável habilidade para construir argumentos corretos na forma e
profundamente enviesados no conteúdo. O moderno não aboliu esse traço. Apenas o
profissionalizou.
Se o
caso se esgotasse em si mesmo, já seria grave. Mas ele importa sobretudo porque
revela uma continuidade histórica. O Brasil conheceu, ao longo de sua formação,
diferentes modalidades de associação entre capital privado e poder político. No
coronelismo clássico, o apoio material ao candidato era parte de uma rede de
dependência local que incluía contratos, proteção e acesso ao Estado. No
patrimonialismo analisado por Raymundo Faoro, a fronteira entre o público e o
privado sempre foi porosa, porque o Estado se organizou menos como instância
impessoal e mais como espaço de apropriação seletiva por grupos capazes de
convertê-lo em extensão de seus interesses.
Faoro é
importante aqui porque ajuda a afastar duas ilusões muito comuns. A primeira é
a de que escândalos dessa natureza seriam simples desvios morais ocasionais. A
segunda é a de que bastaria trocar os ocupantes do poder para sanear o
problema. Em Os Donos do Poder, o que aparece é uma estrutura de longa duração,
adaptável a diferentes atores. Não importa tanto se o discurso do momento é
liberal, conservador, fascista ou desenvolvimentista. A lógica de reprodução do
poder encontra meios de sobreviver. O estamento muda de linguagem com
facilidade, porque sua permanência depende menos da coerência ideológica do que
da capacidade de se recolocar no centro da máquina. Isso não significa dizer
que pouco ou nada importa o governo de ocasião. Quando um governo abraça, de
fato, pautas populares, como o fim da jornada 6x1, a regulamentação das redes,
o combate ao trabalho precarizado ou a ampliação dos serviços básicos, como
saúde, educação e cultura, ele tende a ser “refém” da vontade do povo. Isso é o
cerne da democracia.
Isso
exige um cuidado importante. Dizer que o mecanismo é estrutural não equivale a
diluir responsabilidades concretas num vago “todos fazem”. Essa operação, muito
comum em colunas de jornais enviesados pelo capital financeiro, acaba servindo
como álibi universal. O fato de a política já ter produzido diversos esquemas
de acomodação entre moral pública e negociação privada não torna menos
revelador, nem menos criticável, o esquema bolsonarista. Apenas confirma que o
problema brasileiro é mais profundo do que a fidelidade tribal permite admitir.
Talvez
a imagem do “coronel de terno” seja útil justamente porque evita tanto a
nostalgia folclórica quanto a abstração sociológica excessiva. Não se trata do
velho mandonismo rural reaparecendo intacto. Trata-se de sua atualização num
ambiente financeirizado, midiatizado e juridicamente sofisticado. O controle já
não se exerce apenas pela coerção local ou pelo favor grosseiro. Ele passa por
acesso a recursos, construção de narrativas, financiamento de produtos
culturais, influência em redes, blindagem discursiva. O coronelismo
contemporâneo aprendeu a parecer moderno. Isso não o torna menos arcaico em sua
lógica. Apenas mais difícil de nomear para quem ainda espera encontrar a
corrupção sempre na forma antiquada do escambo explícito.
No fim,
voltamos a Lima Barreto não apenas para cultuar um clássico, mas porque ele
continua oferecendo uma chave desconfortável de leitura. O mais perturbador
nesses episódios talvez não seja o conteúdo do escândalo, mas a familiaridade
que ele produz. A reação de muitos brasileiros já não é propriamente surpresa.
É uma espécie de resignação cansada ou até complacente, como se a fusão entre
retórica moral e conveniência privada fosse parte inevitável do mobiliário
nacional. E talvez seja aí que resida o sintoma mais sério. Uma sociedade não
adoece apenas quando presencia a farsa. Adoece de modo mais profundo quando se
acostuma a reconhecê-la e, ainda assim, continua tratando-a como rotina.
A cena
que Lima Barreto descreveu há mais de um século permanece legível porque nunca
deixamos de reencená-la. A pergunta, portanto, já não é se o país sabe o que
está vendo. Sabe. A pergunta é outra, e bem mais incômoda: por que boa parte do
nosso povo continua a considerar normal um sistema em que quase ninguém se
surpreende quando o discurso da moral encontra, nos bastidores, o dinheiro de
sempre?
• Datafolha indica que caso Dark Horse
ainda pode ampliar desgaste de Flávio Bolsonaro
A
primeira pesquisa Datafolha realizada após a eclosão do caso Dark Horse acendeu
um alerta no entorno de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O levantamento mostrou o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nove pontos à frente do senador, a
maior vantagem registrada sobre o pré-candidato do PL desde o início do ano.
A
informação foi publicada em análise do Valor Econômico, que destaca um dado
central: 36% dos entrevistados ainda não tomaram conhecimento do caso. Isso
significa que o potencial de desgaste político de Flávio Bolsonaro ainda pode
crescer à medida que o episódio se torne mais conhecido pelo eleitorado.
O caso
envolve as relações de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do
Banco Master, no contexto do financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair
Bolsonaro. Segundo a análise, a exploração política dessas conexões ainda não
se esgotou.
O
impacto inicial já aparece no aumento da rejeição do senador. Pela primeira
vez, sua rejeição superou a de Lula, ainda que dentro da margem de erro: 46%
contra 45%.
A
pesquisa também trouxe uma má notícia para a família Bolsonaro. Nenhum nome
testado se mostrou mais competitivo do que Michelle Bolsonaro no lugar de
Flávio. Embora sua candidatura enfrente resistência dos enteados e do próprio
marido, a ex-primeira-dama aparece como o nome que mais atrai o voto
antilulista em um eventual segundo turno.
No
cenário de segundo turno, Lula venceria Michelle por 48% a 43%, diferença de
cinco pontos. O desempenho dela é melhor do que o de Ronaldo Caiado (PSD) e
Romeu Zema (Novo), contra quem Lula aparece com vantagem de 48% a 39%.
A
análise aponta ainda que o caso Dark Horse pode afetar um dos principais
atributos explorados por Flávio Bolsonaro contra Lula. Na rodada anterior do
Datafolha, Lula aparecia à frente no quesito “mais corrupto”, por 50% a 17%.
Agora, a revelação das relações do senador com Daniel Vorcaro pode reduzir essa
vantagem comparativa do pré-candidato do PL.
Com
mais de um terço dos eleitores ainda sem conhecimento do episódio, o caso Dark
Horse permanece como um fator de risco para Flávio Bolsonaro e para a
estratégia eleitoral da direita em 2026.
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Cúpula do PL enquadra Flávio Bolsonaro e dá ultimato sobre rumo da candidatura
A crise
no PL passou a ameaçar a viabilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro à
Presidência, depois que o senador admitiu ter se encontrado com o banqueiro
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após a prisão dele no fim do ano passado.
A nova revelação ampliou a pressão interna sobre o pré-candidato e levou
integrantes da cúpula partidária a defenderem um prazo de cerca de 10 a 15 dias
para avaliar se ele ainda terá condições políticas de seguir na disputa.
As
informações são do O Globo. Segundo a reportagem, dirigentes e parlamentares do
PL demonstraram desconfiança em relação às versões apresentadas por Flávio e
passaram a temer o surgimento de novos fatos capazes de comprometer de forma
definitiva o projeto presidencial do senador.
A
situação se agravou porque Flávio já havia sido cobrado por aliados a explicar
sua relação com Vorcaro. Antes da revelação do encontro presencial, o senador
já havia admitido ter pedido recursos ao banqueiro para financiar uma
cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. O caso ganhou maior repercussão após a
divulgação de informações de que Vorcaro teria autorizado um repasse de R$ 61
milhões ao filme “Dark horse”, transação investigada pela Polícia Federal.
Flávio
afirmou que a conversa com o dono do Banco Master teve como único objetivo
encerrar a negociação relacionada ao longa-metragem. Ele disse que procurou
Vorcaro porque o banqueiro estava restrito a São Paulo, em razão das medidas
impostas após sua prisão.
“Fui,
sim, até o encontro dele (Vorcaro). Ele estava restrito e não podia sair do
estado de São Paulo, então fui até ele”, declarou Flávio.
O
senador também sustentou que a reunião ocorreu para tentar resolver a situação
envolvendo o financiamento do filme.
“Eu
fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história. Dizer que,
se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido
atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco”,
afirmou.
Nos
bastidores, porém, a explicação não foi suficiente para conter o incômodo no
PL. Parlamentares avaliam que a candidatura pode se tornar inviável caso surjam
elementos que contrariem a versão de que a relação entre Flávio e Vorcaro
esteve limitada exclusivamente ao projeto cinematográfico.
A
revelação do encontro presencial se somou a outros episódios que já vinham
provocando desgaste na pré-campanha. A escolha de um ex-policial civil para
comandar a comunicação do projeto eleitoral gerou insatisfação em uma ala do
partido. Além disso, a postura de Flávio durante uma operação que mirou Ciro
Nogueira, do PP do Piauí, contribuiu para afastar parte do Centrão, que tende a
adotar posição de neutralidade na disputa presidencial.
O
ambiente interno também foi afetado por versões desencontradas apresentadas por
Flávio, Eduardo Bolsonaro, produtores do filme e pela empresa envolvida no
projeto. Para aliados, a falta de uma narrativa clara aumentou a percepção de
que a crise foi mal administrada politicamente.
Depois
de reuniões reservadas com Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Rogério
Marinho, Flávio se encontrou com cerca de 70 deputados e senadores do PL em
Brasília. Na reunião, ele pediu desculpas por não ter esclarecido antes
detalhes de sua relação com Vorcaro e repetiu que não haveria outros fatos além
da negociação sobre o filme.
Mesmo
assim, parte dos parlamentares cobrou garantias de que o partido não será
surpreendido por novas revelações. A principal preocupação é que a crise se
prolongue e desgaste a imagem do pré-candidato antes da consolidação da
campanha.
No
entorno de Valdemar Costa Neto, cresceu a avaliação de que o PL precisa
observar alternativas caso a candidatura de Flávio não se sustente. Entre os
nomes citados internamente estão Michelle Bolsonaro, a senadora Tereza Cristina
e o senador Rogério Marinho, atual coordenador da pré-campanha de Flávio.
Aliado
da família Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia afirmou que a relação do senador
com o eleitorado evangélico pode ser afetada se surgirem provas de que houve
recebimento de recursos para finalidades além do filme.
“A
relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver comprovação de que
recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto, estamos todos com
cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se não tiver, vamos com
Flávio.”
Rogério
Marinho, por outro lado, fez uma defesa enfática da permanência do senador como
nome do PL na corrida presidencial.
“Não
existe nenhuma chance de Flávio ser substituído”, disse Marinho.
A crise
também gerou desconforto entre aliados próximos da família Bolsonaro. O
influenciador Paulo Figueiredo, ligado a Eduardo Bolsonaro, afirmou
publicamente que a oposição enfrenta um problema de comunicação e de
articulação política. Eduardo, por sua vez, reconheceu em uma transmissão ao
vivo que o grupo demorou a reagir para evitar contradições.
A
orientação interna no PL agora é tentar reorganizar o discurso, impedir que
Flávio fique acuado e ampliar sua exposição pública. Aliados defendem que ele
intensifique viagens pelo país, aumente agendas com empresários e tente
recuperar a iniciativa política.
Em
evento da Marcha dos Prefeitos, em Brasília, Flávio afirmou estar sendo alvo de
perseguição, mas não detalhou o encontro com Daniel Vorcaro. A avaliação de
parte do partido é que os próximos dias serão decisivos para medir o impacto
eleitoral do caso e definir se o senador conseguirá manter sua candidatura em
meio à pressão crescente.
Fonte:
Brasil 247

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