terça-feira, 26 de maio de 2026

“Flávio Bolsonaro não passa de um picareta e esse dinheiro de filme é propina”, diz o ex-bolsonarista Julian Lemos

 O ex-deputado federal Julian Lemos comentou as recentes revelações envolvendo o empresário Daniel Vorcaro e a produção de um filme associado ao bolsonarismo. Em entrevista ao jornalista Joaquim de Carvalho, no Boa noite 247, o ex-bolsonarista afirmou que não se surpreende com o caso e acusou o filho de Jair Bolsonaro de utilizar o projeto audiovisual como mecanismo de arrecadação ilícita.

A entrevista repercutiu declarações recentes de Flávio Bolsonaro, que admitiu ter se encontrado pessoalmente com Daniel Vorcaro após inicialmente afirmar que havia mantido apenas contato telefônico com o empresário. Segundo Julian Lemos, a justificativa apresentada pelo senador não convence.

“Não tenho outro adjetivo. Para mim, Flávio é um picareta”, afirmou Julian. “Ele não se contém na sua ganância”, afirmou.

O ex-parlamentar também descartou a versão de que os recursos discutidos no caso seriam destinados exclusivamente ao financiamento de um filme. Segundo ele, as contradições ao tentar explicar a oriegem do financiamento demmonstram que haveria um esquema de arrecadação envolvendo diferentes grupos interessados.

“Não acredito em relação a esse tal financiamento de filme, isso não existe, isso aí é dinheiro de propina”, declarou. “Ele vendeu o mesmo produto a muita gente”, disse.

Julian Lemos afirmou ainda que os valores movimentados seriam muito superiores ao efetivamente investido na produção audiovisual.

“Ele apurou muito dinheiro nesse filme. E gastou? Não gastou 10% do que acham que ele gastou”, disse. “Esse dinheiro é para enriquecimento ilícito mesmo. Essa é a prática deles”, afirmou sem apresentar provas.

Ao analisar os possíveis desdobramentos do caso, Julian afirmou acreditar que Flávio Bolsonaro não conseguirá sustentar uma candidatura presidencial diante das investigações e das revelações que ainda podem surgir.

“Eu não dou uma semana, no máximo dez dias, para outras bombas estourarem”, afirmou. “Ele não vai aguentar”, acredita.

Segundo Julian, integrantes do núcleo político em Brasília já avaliam que novos vazamentos podem ampliar ainda mais a crise envolvendo a família Bolsonaro. Ele afirmou também que o senador dependeria diretamente do mandato para evitar problemas judiciais.

“Primeiro, ele não tem condição de ficar sem o mandato. Se ficar, é preso”, declarou.

Julian Lemos sustentou que os rastros financeiros do suposto esquema dificultariam qualquer tentativa de ocultação dos recursos movimentados.

“Dinheiro é rastreado demais”, afirmou. “Uma coisa é você esconder um milhão, outra coisa é você esconder quinhentos milhões”, acrescentou.

<><> Clã prefere perder para Lula

Em outro momento da conversa, o ex-deputado comentou a relação entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e a família Bolsonaro. Segundo ele, Michelle nunca foi plenamente aceita pelo núcleo familiar.

“Michelle não é tida pela família como uma Bolsonaro. Ela é mulher do pai”, declarou.

Julian também relatou conflitos internos envolvendo Michelle e o vereador Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente.

“Carlos Bolsonaro não suporta ela e ela muito menos”, relatou ele, que conviveu com o clã Bolsonaro.

Ao comentar o ambiente interno da família Bolsonaro, Julian classificou o grupo como uma “quadrilha familiar”. Segundo ele, a aproximação política com Jair Bolsonaro traz desgaste para aliados e lideranças conservadoras.

“A família Bolsonaro é uma espécie de buraco negro”, declarou. “Estar perto de Bolsonaro é arrastar o cara para a lama.”

Julian também afirmou que a família preferiria uma eventual vitória do presidente Lula nas eleições a transferir seu capital político para outros nomes da direita.

“A família Bolsonaro prefere que Lula vença a eleição, mas não vai dar o espólio deles a ninguém”, disse.

•        Dark Horse, um roteiro nada original. Por Gustavo Guerreiro

A cena é de 2026, mas o sentimento é de filme repetido. Um senador sobe o tom contra a corrupção alheia, cobra investigações, exige rigor, fala em decadência moral da República. Em paralelo, surgem mensagens, cifras vultosas, conversas reservadas, visitas politicamente comprometedoras. O enredo é contemporâneo, mas a estrutura é velha. Em algum ponto entre a tribuna do senado e o bastidor, entre a postagem indignada no “X” e a agenda discreta, o país reencontra um tipo político que nunca saiu realmente de cena. Lima Barreto, se estivesse vivo, talvez não se espantasse com nada disso. Reconheceria apenas a atualização de personagens que ele já conhecia bem.

Em “Numa e a Ninfa”, Lima Barreto descreve um mundo em que a eloquência pública do discurso não exclui a pequena negociação de gabinete. Ao contrário, uma coisa alimenta a outra. O discurso serve para produzir respeitabilidade. A respeitabilidade serve para ampliar o poder de barganha. O favor distribuído nos bastidores sustenta a posição de quem, diante do público, se apresenta como homem de convicções elevadas. O romance não expõe apenas indivíduos hipócritas, como Numa Pompílio de Castro, filho de um empregado humilde, que sobe na vida fazendo alianças por puro interesse e com a ajuda de Edgarda Cogominho, a "ninfa", filha de um oligarca da região. A relação deambos simboliza muito bem o jogo de interesses e a manipulação que mandam na sociedade. Expõe uma engrenagem social em que a política se organiza como administração simultânea de aparência e interesse. Ler certos episódios da vida pública brasileira de hoje dá a impressão de estar diante dessa mesma engrenagem, apenas com um roteiro mais caro, novas tecnologias e uma linguagem mais adaptada ao século XXI.

Antes de nomear o caso concreto, convém compreender o mecanismo. A política, em qualquer sociedade, envolve disputa por poder, influência e reconhecimento. No Brasil, essa disputa assume com frequência uma forma específica: a transformação de capital simbólico em capital material e de capital material em prestígio político. A virtude pública, ou ao menos sua encenação convincente, torna-se um ativo valioso. Na sociologia, Pierre Bourdieu ajuda a entender esse processo ao mostrar que o campo político é um mercado particular de bens simbólicos. Nele, a imagem de integridade, coragem e firmeza moral tem grande valor. E justamente por ter grande valor, ela é produzida com zelo. O moralismo, nesse contexto, não é necessariamente uma convicção profunda. Muitas vezes é um recurso relativamente barato e extremamente lucrativo. E a extrema-direita o faz com maestria.

Isso não significa que toda indignação pública seja cínica. Significa algo mais incômodo: em sistemas políticos marcados por baixa confiança institucional, a linguagem da moralidade pode funcionar como um fundo de investimento estratégico. Quem acusa com energia ganha crédito. Quem se apresenta como fiscal dos outros ocupa uma posição vantajosa na disputa por legitimidade. E esse crédito acumulado na praça pode ser convertido, mais adiante, em acesso, proteção, proximidade com financiadores e margem de manobra. O discurso de pureza, então, não aparece como um antídoto da negociação privada. Surge muitas vezes como sua cobertura mais eficiente.

É por isso que certos escândalos precisam ser lidos para além da superfície partidária. Não se trata apenas de dizer que um ator político traiu o que pregava, como faz cinicamente Rodrigo Constantino, afirmando estar “de saco cheio dessa postura amadora e irresponsável”, Alexandre Garcia ou comentaristas da Jovem Pan. Mais importante do que entender os porquês desse “rompimento” é perceber como o próprio sistema estimula a convivência entre sermão e negócio, entre pose moral e cálculo prático. Há uma espécie de dupla consciência em ação. O político corrupto sabe que representa. O público, em grande medida, sabe que há representação. Ainda assim, ambos seguem participando do ritual. O primeiro porque depende dele. O segundo porque, sem alguma crença residual na cena, a política se tornaria insuportavelmente crua.

É nesse quadro que o caso Flávio Bolsonaro (Numa) e Daniel Vorcaro (Ninfa) ganha sentido mais amplo. Os fatos, quando alinhados, têm uma eloquência própria. Flávio Bolsonaro, senador da República, sustentou ao longo dos últimos anos uma identidade política fortemente associada ao combate à corrupção do campo adversário. Fez disso não apenas uma posição, mas uma linguagem constante. Em discursos, entrevistas e redes sociais, apresentou-se como voz de denúncia contra o suposto escândalo permanente dos outros. Tentou jogar o caso no colo do governo Lula, justamente o responsável pelas investigações que culminaram nas prisões. Essa atuação compõe aquilo que Erving Goffman chamaria na teatralização da políticade front stage (palco), o espaço em que o ator administra a impressão que deseja produzir. O palco institucional, nas democracias de massa, inclui o plenário, os cortes de vídeo, as postagens e as frases desenhadas para circular.

O problema começa quando o bastidor deixa rastros demais. As mensagens divulgadas, a negociação de R$ 61 milhões para o projeto cinematográfico Dark Horse e a posterior visita ao banqueiro Daniel Vorcaro, já preso e usando tornozeleira eletrônica, compõem uma sequência difícil de tratar como coincidência sem significado. O ponto decisivo não está em um gesto isolado, mas na cronologia. Primeiro, há a retórica pública da vigilância moral. Depois, aparece a negociação privada com um agente econômico poderoso. Em seguida, a relação persiste mesmo quando o financiador já se encontra em condição judicial comprometida. A força do caso está exatamente nessa ordem dos fatos. Ela reduz bastante a necessidade de adjetivar.

A tentação, diante de episódios assim, é entregar-se ao deboche. Seria fácil explorar o contraste entre o senador indignado e a visita ao banqueiro de tornozeleira. Mas o excesso de ironia, embora tentador, às vezes empobrece a análise. Melhor registrar o essencial: um representante eleito, empenhado em construir capital político a partir do discurso moral, manteve interlocução financeira e simbólica com um personagem cujo peso econômico e situação judicial tornavam a relação, no mínimo, politicamente reveladora. Em contextos como esse, o fato fala mais quando o cronista não grita.

Os defensores do senador recorreram a um argumento previsível. O dinheiro, dizem, era privado. O projeto, igualmente privado. Não haveria uso de verba pública, nem ato oficial do mandato diretamente vinculado ao financiamento. Em termos formais, a distinção existe. E é justamente aí que a análise precisa ser mais rigorosa. O clientelismo contemporâneo raramente opera como caricatura. Ele não depende mais, na maior parte do tempo, da entrega grosseira de um envelope ou da troca explícita de um favor administrativo por uma contribuição. Seu terreno favorito é a zona cinzenta em que relações privadas produzem efeitos públicos sem assumir inteiramente essa condição.

A defesa, portanto, não deve ser tratada como uma simples mentira. Ela é mais sofisticada do que isso. É uma distinção que parece sólida quando observada em abstrato, mas enfraquece quando submetida ao contexto. Um filme não é apenas um filme quando envolve uma figura política com capital eleitoral consolidado, um projeto de imagem de longo prazo e um financiador cuja proximidade oferece vantagens mútuas evidentes. A pergunta adequada não é apenas de onde vem o dinheiro. A pergunta é a quem o investimento serve, quais redes ele fortalece, que tipo de proteção recíproca ele sugere, que dividendos políticos e simbólicos tende a produzir.

Aqui, a crítica de Lima Barreto ao bacharelismo brasileiro volta a ser útil. O bacharelismo não é apenas gosto pela frase rebuscada ou pela formalidade jurídica. É uma cultura de racionalização elegante das conveniências do poder. Consiste em organizar justificativas tecnicamente apresentáveis para práticas que, embora dificilmente enquadráveis de imediato como ilícitas em sentido estrito, corroem o mínimo de distinção republicana entre interesse público e projeto particular. A elite política e econômica brasileira sempre demonstrou invejável habilidade para construir argumentos corretos na forma e profundamente enviesados no conteúdo. O moderno não aboliu esse traço. Apenas o profissionalizou.

Se o caso se esgotasse em si mesmo, já seria grave. Mas ele importa sobretudo porque revela uma continuidade histórica. O Brasil conheceu, ao longo de sua formação, diferentes modalidades de associação entre capital privado e poder político. No coronelismo clássico, o apoio material ao candidato era parte de uma rede de dependência local que incluía contratos, proteção e acesso ao Estado. No patrimonialismo analisado por Raymundo Faoro, a fronteira entre o público e o privado sempre foi porosa, porque o Estado se organizou menos como instância impessoal e mais como espaço de apropriação seletiva por grupos capazes de convertê-lo em extensão de seus interesses.

Faoro é importante aqui porque ajuda a afastar duas ilusões muito comuns. A primeira é a de que escândalos dessa natureza seriam simples desvios morais ocasionais. A segunda é a de que bastaria trocar os ocupantes do poder para sanear o problema. Em Os Donos do Poder, o que aparece é uma estrutura de longa duração, adaptável a diferentes atores. Não importa tanto se o discurso do momento é liberal, conservador, fascista ou desenvolvimentista. A lógica de reprodução do poder encontra meios de sobreviver. O estamento muda de linguagem com facilidade, porque sua permanência depende menos da coerência ideológica do que da capacidade de se recolocar no centro da máquina. Isso não significa dizer que pouco ou nada importa o governo de ocasião. Quando um governo abraça, de fato, pautas populares, como o fim da jornada 6x1, a regulamentação das redes, o combate ao trabalho precarizado ou a ampliação dos serviços básicos, como saúde, educação e cultura, ele tende a ser “refém” da vontade do povo. Isso é o cerne da democracia.

Isso exige um cuidado importante. Dizer que o mecanismo é estrutural não equivale a diluir responsabilidades concretas num vago “todos fazem”. Essa operação, muito comum em colunas de jornais enviesados pelo capital financeiro, acaba servindo como álibi universal. O fato de a política já ter produzido diversos esquemas de acomodação entre moral pública e negociação privada não torna menos revelador, nem menos criticável, o esquema bolsonarista. Apenas confirma que o problema brasileiro é mais profundo do que a fidelidade tribal permite admitir.

Talvez a imagem do “coronel de terno” seja útil justamente porque evita tanto a nostalgia folclórica quanto a abstração sociológica excessiva. Não se trata do velho mandonismo rural reaparecendo intacto. Trata-se de sua atualização num ambiente financeirizado, midiatizado e juridicamente sofisticado. O controle já não se exerce apenas pela coerção local ou pelo favor grosseiro. Ele passa por acesso a recursos, construção de narrativas, financiamento de produtos culturais, influência em redes, blindagem discursiva. O coronelismo contemporâneo aprendeu a parecer moderno. Isso não o torna menos arcaico em sua lógica. Apenas mais difícil de nomear para quem ainda espera encontrar a corrupção sempre na forma antiquada do escambo explícito.

No fim, voltamos a Lima Barreto não apenas para cultuar um clássico, mas porque ele continua oferecendo uma chave desconfortável de leitura. O mais perturbador nesses episódios talvez não seja o conteúdo do escândalo, mas a familiaridade que ele produz. A reação de muitos brasileiros já não é propriamente surpresa. É uma espécie de resignação cansada ou até complacente, como se a fusão entre retórica moral e conveniência privada fosse parte inevitável do mobiliário nacional. E talvez seja aí que resida o sintoma mais sério. Uma sociedade não adoece apenas quando presencia a farsa. Adoece de modo mais profundo quando se acostuma a reconhecê-la e, ainda assim, continua tratando-a como rotina.

A cena que Lima Barreto descreveu há mais de um século permanece legível porque nunca deixamos de reencená-la. A pergunta, portanto, já não é se o país sabe o que está vendo. Sabe. A pergunta é outra, e bem mais incômoda: por que boa parte do nosso povo continua a considerar normal um sistema em que quase ninguém se surpreende quando o discurso da moral encontra, nos bastidores, o dinheiro de sempre?

•        Datafolha indica que caso Dark Horse ainda pode ampliar desgaste de Flávio Bolsonaro

A primeira pesquisa Datafolha realizada após a eclosão do caso Dark Horse acendeu um alerta no entorno de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O levantamento mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nove pontos à frente do senador, a maior vantagem registrada sobre o pré-candidato do PL desde o início do ano.

A informação foi publicada em análise do Valor Econômico, que destaca um dado central: 36% dos entrevistados ainda não tomaram conhecimento do caso. Isso significa que o potencial de desgaste político de Flávio Bolsonaro ainda pode crescer à medida que o episódio se torne mais conhecido pelo eleitorado.

O caso envolve as relações de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, no contexto do financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Segundo a análise, a exploração política dessas conexões ainda não se esgotou.

O impacto inicial já aparece no aumento da rejeição do senador. Pela primeira vez, sua rejeição superou a de Lula, ainda que dentro da margem de erro: 46% contra 45%.

A pesquisa também trouxe uma má notícia para a família Bolsonaro. Nenhum nome testado se mostrou mais competitivo do que Michelle Bolsonaro no lugar de Flávio. Embora sua candidatura enfrente resistência dos enteados e do próprio marido, a ex-primeira-dama aparece como o nome que mais atrai o voto antilulista em um eventual segundo turno.

No cenário de segundo turno, Lula venceria Michelle por 48% a 43%, diferença de cinco pontos. O desempenho dela é melhor do que o de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), contra quem Lula aparece com vantagem de 48% a 39%.

A análise aponta ainda que o caso Dark Horse pode afetar um dos principais atributos explorados por Flávio Bolsonaro contra Lula. Na rodada anterior do Datafolha, Lula aparecia à frente no quesito “mais corrupto”, por 50% a 17%. Agora, a revelação das relações do senador com Daniel Vorcaro pode reduzir essa vantagem comparativa do pré-candidato do PL.

Com mais de um terço dos eleitores ainda sem conhecimento do episódio, o caso Dark Horse permanece como um fator de risco para Flávio Bolsonaro e para a estratégia eleitoral da direita em 2026.

<><> Cúpula do PL enquadra Flávio Bolsonaro e dá ultimato sobre rumo da candidatura

A crise no PL passou a ameaçar a viabilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, depois que o senador admitiu ter se encontrado com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após a prisão dele no fim do ano passado. A nova revelação ampliou a pressão interna sobre o pré-candidato e levou integrantes da cúpula partidária a defenderem um prazo de cerca de 10 a 15 dias para avaliar se ele ainda terá condições políticas de seguir na disputa.

As informações são do O Globo. Segundo a reportagem, dirigentes e parlamentares do PL demonstraram desconfiança em relação às versões apresentadas por Flávio e passaram a temer o surgimento de novos fatos capazes de comprometer de forma definitiva o projeto presidencial do senador.

A situação se agravou porque Flávio já havia sido cobrado por aliados a explicar sua relação com Vorcaro. Antes da revelação do encontro presencial, o senador já havia admitido ter pedido recursos ao banqueiro para financiar uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. O caso ganhou maior repercussão após a divulgação de informações de que Vorcaro teria autorizado um repasse de R$ 61 milhões ao filme “Dark horse”, transação investigada pela Polícia Federal.

Flávio afirmou que a conversa com o dono do Banco Master teve como único objetivo encerrar a negociação relacionada ao longa-metragem. Ele disse que procurou Vorcaro porque o banqueiro estava restrito a São Paulo, em razão das medidas impostas após sua prisão.

“Fui, sim, até o encontro dele (Vorcaro). Ele estava restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele”, declarou Flávio.

O senador também sustentou que a reunião ocorreu para tentar resolver a situação envolvendo o financiamento do filme.

“Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco”, afirmou.

Nos bastidores, porém, a explicação não foi suficiente para conter o incômodo no PL. Parlamentares avaliam que a candidatura pode se tornar inviável caso surjam elementos que contrariem a versão de que a relação entre Flávio e Vorcaro esteve limitada exclusivamente ao projeto cinematográfico.

A revelação do encontro presencial se somou a outros episódios que já vinham provocando desgaste na pré-campanha. A escolha de um ex-policial civil para comandar a comunicação do projeto eleitoral gerou insatisfação em uma ala do partido. Além disso, a postura de Flávio durante uma operação que mirou Ciro Nogueira, do PP do Piauí, contribuiu para afastar parte do Centrão, que tende a adotar posição de neutralidade na disputa presidencial.

O ambiente interno também foi afetado por versões desencontradas apresentadas por Flávio, Eduardo Bolsonaro, produtores do filme e pela empresa envolvida no projeto. Para aliados, a falta de uma narrativa clara aumentou a percepção de que a crise foi mal administrada politicamente.

Depois de reuniões reservadas com Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Rogério Marinho, Flávio se encontrou com cerca de 70 deputados e senadores do PL em Brasília. Na reunião, ele pediu desculpas por não ter esclarecido antes detalhes de sua relação com Vorcaro e repetiu que não haveria outros fatos além da negociação sobre o filme.

Mesmo assim, parte dos parlamentares cobrou garantias de que o partido não será surpreendido por novas revelações. A principal preocupação é que a crise se prolongue e desgaste a imagem do pré-candidato antes da consolidação da campanha.

No entorno de Valdemar Costa Neto, cresceu a avaliação de que o PL precisa observar alternativas caso a candidatura de Flávio não se sustente. Entre os nomes citados internamente estão Michelle Bolsonaro, a senadora Tereza Cristina e o senador Rogério Marinho, atual coordenador da pré-campanha de Flávio.

Aliado da família Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia afirmou que a relação do senador com o eleitorado evangélico pode ser afetada se surgirem provas de que houve recebimento de recursos para finalidades além do filme.

“A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto, estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se não tiver, vamos com Flávio.”

Rogério Marinho, por outro lado, fez uma defesa enfática da permanência do senador como nome do PL na corrida presidencial.

“Não existe nenhuma chance de Flávio ser substituído”, disse Marinho.

A crise também gerou desconforto entre aliados próximos da família Bolsonaro. O influenciador Paulo Figueiredo, ligado a Eduardo Bolsonaro, afirmou publicamente que a oposição enfrenta um problema de comunicação e de articulação política. Eduardo, por sua vez, reconheceu em uma transmissão ao vivo que o grupo demorou a reagir para evitar contradições.

A orientação interna no PL agora é tentar reorganizar o discurso, impedir que Flávio fique acuado e ampliar sua exposição pública. Aliados defendem que ele intensifique viagens pelo país, aumente agendas com empresários e tente recuperar a iniciativa política.

Em evento da Marcha dos Prefeitos, em Brasília, Flávio afirmou estar sendo alvo de perseguição, mas não detalhou o encontro com Daniel Vorcaro. A avaliação de parte do partido é que os próximos dias serão decisivos para medir o impacto eleitoral do caso e definir se o senador conseguirá manter sua candidatura em meio à pressão crescente.

 

Fonte: Brasil 247

 

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