quarta-feira, 27 de maio de 2026

Qual é o potencial das terras raras do Brasil?

Abrigando a segunda maior reserva declarada de terras raras, o Brasil se vê diante do potencial de ser alçado a uma nova posição geopolítica. Os depósitos brasileiros atraem o interesse dos Estados Unidos e da União Europeia (UE), que querem fazer frente à predominância da China, conquistada ao longo de três décadas, na extração, transformação e industrialização destas fontes de recursos minerais. Ao longo da corrida planetária por liderança científico-tecnológica, vem inflando progressivamente, há 15 anos, a percepção do lugar estratégico dos 17 elementos de terras raras (ETR). Todos na tabela periódica e sempre juntos na natureza, eles desempenham papel pequeno, porém insubstituível, em tecnologias variadas, incluindo smartphones, inteligência artificial (IA), carros elétricos, painéis fotovoltaicos, turbinas eólicas e sistemas de defesa.

Sozinho, o Brasil tem 21 milhões de toneladas de ETR mapeadas. São dez depósitos conhecidos em quatro estados, tendo sido geologicamente estudado pouco menos de um terço do território nacional. É o equivalente a 23% das reservas globais, apontam dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) citados pela contraparte brasileira, o Serviço Geológico do Brasil (SGB). "Nós temos condições de, num curto de espaço de tempo e com pesquisa, termos a maior reserva do mundo," afirma Valdir Silveira, diretor de Geologia e Recursos Minerais do SGB.

<><> Brasil extrai e exporta pouco

Mas o Brasil pouco extrai estas reservas — só há uma mina ativa com produção em escala industrial —, e mesmo exportações recorde continuam modestas.

Dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) citados pelo Valor Econômico apontaram para exportações no valor de 7,5 milhões de dólares entre janeiro e junho do ano passado, dez vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. O total das exportações minerais brasileiras para o período foi de 20 bilhões de dólares, de acordo com o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

Tampouco o país executa as fases seguintes da cadeia de produção. Uma mudança não só exigiria dar passos tecnológicos e costurar decisões políticas, como também implicaria riscos sociais e ambientais. A China, por sua vez, tem estimadas 44 milhões de toneladas de ETRs, além de ser responsável por cerca de 60% da exploração e 90% do refino a nível global. Para o gigante asiático, a concentração geográfica destes recursos serve de alavanca para a sua indústria e comércio de tecnologias da transição energética.

<><> Mercado pequeno, corrida acirrada

Só que o mercado global é ainda pequeno, e se acumulam as perguntas entre observadores sobre como ele de fato evoluirá nos próximos anos. "Especialmente nos EUA, existe premência para o assunto, o que cria pressa no resto do mundo. E falsas expectativas. A demanda mundial é importante, mas não se compara, por exemplo, à do minério de ferro," explica Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

A previsão da Agência Internacional de Energia (AIE) é que, caso mantidas as condições atuais, a demanda poderá se expandir em um terço até 2030, após ter dobrado desde 2015. Em contrapartida, explodiram entre 2023 e 2024 os pedidos anuais para autorização de pesquisa e exploração mineral em áreas delimitadas. Foram 1.662 protocolados em dois anos, sobretudo em Bahia, Goiás e Minas Gerais, em comparação a 250 entre 1975 e 2020. Segundo o SGB, o recuo desde então se explica pelo foco repousar agora na maturação dos projetos.

<><> Interesse também na Amazônia

A maioria dos projetos ainda se encontra em fase de exploração, que avalia se há depósito mineral e potencial econômico, ou nos estágios iniciais de desenvolvimento.

No ano passado, uma investigação da Repórter Brasil reportou que, das áreas miradas por estes pedidos, 17% estavam na Amazônia Legal. Elas estavam dentro ou a menos de dez quilômetros de 41 territórios quilombolas, terras indígenas ou unidades de conservação, segundo o levantamento, que teve apoio do Pulitzer Center e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Em Minaçu (GO), a única mina ativa de terras raras no Brasil é operada pela mineradora Serra Verde. A americana USA Rare Earth (USAR) comprou a empresa no mês passado, por 2,8 bilhões de dólares, com apoio do presidente Donald Trump. O governo de Goiás, então sob comando de Ronaldo Caiado, já assinara em março um memorando de entendimento com os EUA para promover a pesquisa e a exploração de minerais críticos no estado. É de interesse americano e europeu reduzir a dependência da China, que compra e refina a produção oriunda de Minaçu. O acordo gerou mal-estar com a União, à qual pertencem os recursos minerais. Outra parceria foi firmada por Caiado com o Japão.

<><> Nem terras nem raras

Não são terras nem raras as terras raras. A alcunha surgiu à época da sua descoberta, na Suécia do fim do século 18, supostamente porque nunca se tinham visto estas rochas, então chamadas de "terras", relata o Instituto da História da Ciência, nos EUA. Há chance de os ETRs serem encontrados em diversas partes do mundo — no Brasil, são centenas de pontos com, por ora, indícios da sua presença, e o número está sempre em expansão. Em média, estes elementos se tão abundantes ou mais na crosta terrestre quanto outros metais, como ouro e prata. Incomuns são os depósitos destes elementos, difíceis de extrair e separar, com viabilidade econômica para a mineração. Acha-se aí uma especificidade do Brasil, onde há a chamada argila iônica em quase dois a cada três dos pontos em exploração onde se acreditam haver terras raras.

Esta argila filtra e retém os ETRs, facilitando e barateando a extração de minérios. Os seus depósitos, cuja ocorrência conhecida já foi exclusividade da China, vêm sendo descobertos no território nacional e angariando curiosidade científica na última década. "Os geólogos não procuravam a argila iônica antes, por ser então desconhecida. Agora eles entenderam onde ela pode existir e estão indo atrás", acrescenta Landgraf, apontando para novas buscas e descobertas também fora do Brasil. O processo serve, em Minaçu, para obter concentrados de terras raras com altas proporções de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Os quatro ETRs entram na composição dos superimãs que, usados em várias tecnologias, têm maior força e durabilidade. A mina da Serra Verde é a única fora da Ásia que produz estes elementos em escala comercial.

<><> Responsabilidade socioambiental

O Brasil busca se posicionar como potencial fornecedor no Ocidente dos ETRs da argila iônica, apresentada como alternativa que poderia minimizar parte dos impactos ambientais associados a processos alternativos. Especialistas ressalvam, entretanto, que os danos para comunidades e ecossistemas provenientes da mineração jamais serão nulos. Por ora, pondera Landgraf, eles não podem ser plenamente conhecidos, diante do seu ineditismo no país e da tendência de avaliações prévias à execução de projetos em subestimar riscos. "A gente tem que tirar o bem mineral com responsabilidade social e ambiental. Não pode sair do horizonte que a população que vive no local da mineração é a que deve ser agraciada com os louros trazidos pelo setor," afirma Silveira, do SGB.

Mais preocupações de parte dos observadores incluem garantir soberania nacional sobre as reservas — o Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, fala em "defendê-las dos interesses estrangeiros" — e, também, evitar que o Brasil se limite ao papel de fornecedor de commodities. "É necessário entender quais são os melhores pontos para nos posicionarmos nestas cadeias, nos afastando da ideia de exportar só o mineral bruto, que tem baixíssimo valor agregado e alta concentração de renda," diz Rosana Santos, diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética. Neste mês, a Câmara dos Deputados aprovou o marco legal para a exploração de minerais críticos e estratégicos, que incluem as terras raras, prevendo benefícios para estimular o setor. Para Alice Dandara de Assis Correia, advogada do Instituto Socioambiental (ISA), entretanto, a proposta falha em garantir a proteção de terras indígenas e a obrigação de consulta prévia a populações afetadas.

•        Terras Raras: o assalto americano. Por Edna Aparecida da Silva

O debate recente sobre terras raras no Brasil não diz respeito apenas à expansão de investimentos ou à exploração de recursos naturais, mas à disputa pelo controle das reservas e das condições de sua exploração, financiamento e inserção nas cadeias minerais em escala global. Esse processo se insere em um contexto mais amplo de reorganização do sistema internacional, marcado pela formação de um bloco mineral ocidental sob direção dos Estados Unidos, que articula ação estatal, coordenação entre países aliados – particularmente Estados Unidos, Canadá e Austrália – com a participação de outros membros do G7, e atuação de grandes corporações para estruturar cadeias produtivas fora da China. Nesse cenário, iniciativas voltadas à aquisição de ativos, ao financiamento de projetos e à coordenação de cadeias produtivas não constituem operações isoladas, mas integram estratégias estatais coordenadas, voltadas à redefinição do controle sobre recursos e fluxos de valor em escala global.

O envio de uma missão de assessores vinculados à Comissão de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos ao Brasil, em maio de 2026, com agenda centrada em minerais críticos, deve ser compreendido como parte desse arranjo mais amplo de coordenação entre países aliados. Mais do que um gesto diplomático pontual, a iniciativa indica que o acesso e o controle sobre minerais estratégicos na América Latina foram elevados ao nível de prioridade geoeconômica, em articulação com estratégias desenvolvidas no âmbito desse bloco mineral ocidental para reorganizar cadeias de suprimento e reduzir a dependência em relação à China.

A partir desse arranjo, o Brasil passa a ocupar posição central como um dos principais espaços de expansão dessas cadeias. A combinação entre grande volume de reservas e baixa exploração torna o país estratégico para a construção de cadeias produtivas fora da China, no âmbito do bloco mineral ocidental. No seu núcleo está um processo de centralização do capital no setor, com a consolidação de empresas sediadas ou articuladas com Estados Unidos, Canadá e Austrália, países que, além de sua relevância na mineração global, desempenham papel central na coordenação financeira, regulatória e corporativa dessas cadeias, integradas a uma arquitetura que combina aquisição de ativos, coordenação financeira e instrumentos regulatórios. Ao mesmo tempo, essa dinâmica opera de forma seletiva, restringindo a participação de capitais não alinhados e reforçando o controle por parte de países e corporações privadas alinhados aos objetivos estratégicos e geoeconômicos dos Estados Unidos em setores considerados estratégicos.

Esse movimento revela que o Brasil se tornou peça central de uma estratégia mais ampla dos Estados Unidos voltada à reorganização global das cadeias de minerais críticos. Essa estratégia articula ação estatal, coordenação entre países aliados e atuação de grandes corporações para estruturar um bloco mineral ocidental sob direção norte-americana. Um de seus traços centrais é a operação seletiva desses mercados, por meio de instrumentos regulatórios e institucionais que restringem a participação de capitais não alinhados (em particular, chineses) e condicionam o acesso a setores considerados estratégicos.

No seu núcleo está um processo de centralização do capital no setor, com a consolidação de empresas sediadas ou articuladas com Estados Unidos, Canadá e Austrália, integradas a uma arquitetura voltada à construção de cadeias produtivas fora da China. Mais do que diversificar fornecedores, trata-se de reorganizar o controle sobre ativos estratégicos por meio da aquisição de empresas, da coordenação financeira e regulatória e do uso de instrumentos de governança.

Após o anúncio da aquisição, pela USA Rare Earth, da Serra Verde, que opera a mina de Pela Ema, em Minaçu (GO) — episódio que mobilizou o debate nacional – observa-se uma rápida intensificação da entrada de empresas estrangeiras no setor. Na sequência, avançam novos casos, como a atuação da canadense Origen Resources e a entrada de companhias australianas, incluindo a Oceana Metals, evidenciando a aceleração do processo de aquisição de ativos estratégicos no país.

Esses movimentos não constituem um conjunto disperso de investimentos motivados apenas pelas oportunidades de um mercado ainda pouco explorado. Trata-se, em todos os casos, de operações voltadas ao controle direto de ativos estratégicos, inseridas em uma dinâmica mais ampla de reorganização das cadeias minerais. Diferentemente do que se observa em países centrais, onde mecanismos regulatórios e regimes de investment screening operam filtrando, condicionando ou bloqueando a entrada de capitais não alinhados, no Brasil essa dinâmica se expressa, sobretudo por meio da aquisição integral de empresas e projetos por capitais estrangeiros, transferindo o controle sobre reservas e ativos minerais para corporações vinculadas ao bloco mineral ocidental.

Essa dinâmica se expressa de forma concreta na sequência recente de aquisições e na entrada de empresas estrangeiras no setorr.

O quadro evidencia que não se trata de investimentos pontuais, mas de um movimento coordenado de aquisição de ativos estratégicos por empresas alinhadas a economias centrais, inserido em uma dinâmica mais ampla de reorganização das cadeias minerais.

A interpretação desses movimentos exige ir além da identificação da presença crescente de empresas estrangeiras no setor. No debate recente, tem se difundido a ideia de que países como Estados Unidos, Austrália e Canadá já seriam, de fato, “donos” da mineração de terras raras no Brasil. Embora esse diagnóstico capture a expansão de capitais estrangeiros, ele não apreende o núcleo da dinâmica em curso. O que está em jogo não é apenas a origem das empresas, mas a construção de um bloco mineral ocidental, no qual a articulação entre Estado e capital organiza a aquisição de ativos, o financiamento e a coordenação das cadeias produtivas em escala global.

Nesse processo, a dimensão regulatória assume papel central. A reorganização dessas cadeias não se dá apenas por meio da aquisição de ativos ou da mobilização de financiamento, mas também pela construção de arcabouços institucionais capazes de definir quem pode (e quem não pode) participar de setores considerados estratégicos. Nos Estados Unidos, essa lógica se expressa por meio de mecanismos de segurança nacional aplicados à economia, como o Comitê de Investimento Externo (Committee on Foreign Investment in the United States — CFIUS), autorizado por lei a revisar investimentos estrangeiros. Mais do que um instrumento técnico de investment screening, trata-se de um dispositivo que permite ao Estado filtrar, condicionar e, em determinados casos, bloquear o acesso a ativos estratégicos.

Como será discutido a seguir, esse tipo de mecanismo não apenas regula o mercado doméstico, mas integra uma arquitetura mais ampla de coordenação entre Estados aliados, com implicações diretas para a organização das cadeias globais de minerais críticos.

Esse movimento se estende para além dos Estados Unidos e se expressa também em outras estratégias estatais de segurança econômica. O caso japonês ilustra essa dinâmica por meio de investimentos direcionados à construção de capacidades produtivas fora da China, com a ampliação de sua presença em países como Austrália e Brasil. Esse reposicionamento ganha ainda mais relevância quando considerado em conjunto com iniciativas norte-americanas, como os investimentos anunciados em Goiás em 2026.

A convergência entre Estados Unidos e Japão revela que o Brasil deixa de ser apenas um potencial fornecedor de recursos e passa a ocupar uma posição estratégica na disputa global por minerais críticos. Trata-se de uma inserção diretamente vinculada à rivalidade sino-americana e à necessidade, por parte de economias industrializadas, de reduzir sua exposição à concentração produtiva chinesa, ao mesmo tempo em que buscam estruturar cadeias com maior controle político e econômico. Como indicado ao longo da análise, esse processo combina a aquisição de ativos estratégicos com a capacidade de operar nesses mercados globais, inclusive mantendo relações comerciais com a própria China.

Mais do que uma convergência conjuntural, esse processo revela que a disputa em torno desses recursos não se restringe ao acesso físico às reservas, mas envolve o controle sobre ativos, cadeias produtivas e fluxos de valor. Trata-se de um movimento de centralização do capital no setor mineral, no qual o controle das reservas se converte em capacidade de organizar e capturar posições nos mercados internacionais.

Essa reorganização, por sua vez, responde à presença já consolidada da China na região, que, ao longo das últimas duas décadas, expandiu de forma significativa seus investimentos em infraestrutura, energia e recursos naturais, tornando-se um dos principais parceiros comerciais de diversos países latino-americanos. Como demonstrou Francisco Urdinez (2026), essa expansão deslocou a posição relativa dos Estados Unidos na região, especialmente em setores estratégicos.

Em termos mais amplos, essa dinâmica pode ser compreendida à luz da leitura de Emiliano Brancaccio (2023), para quem a rivalidade entre potências envolve processos de centralização do capital organizados sob coordenação estatal. Nesse sentido, a expansão chinesa na América Latina e a resposta norte-americana configuram momentos de uma mesma dinâmica de reorganização do sistema econômico internacional, na qual Estados e corporações articulam blocos de capital para disputar o controle de setores estratégicos.

 

Fonte: DW Brasil/Outras Palavras

 

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