Carlos
Fidelis: Soberania científica, tecnológica e sanitária em risco
Desde
os tempos de Oswaldo Cruz, a construção de capacidades científicas,
tecnológicas, produtivas e sanitárias soberanas no Brasil jamais foi um
processo linear, espontâneo ou consensual. Ao contrário, tratou-se de uma
trajetória marcada por disputas políticas, resistências institucionais e
frequentes tensões com setores das elites econômicas e políticas historicamente
mais inclinados à dependência tecnológica externa, à importação de soluções
prontas ou à subordinação da saúde a racionalidades estritamente mercantis.
A
criação de Manguinhos, a consolidação do Instituto Butantan, o desenvolvimento
posterior de Bio-Manguinhos e a própria trajetória da saúde pública brasileira
expressam, em diferentes momentos históricos, a persistência de um projeto
nacional que compreende a saúde não apenas como política social, mas como
dimensão estratégica da soberania, da capacidade científica, da autonomia
tecnológica e produtiva e do próprio desenvolvimento nacional É precisamente à
luz dessa longa trajetória histórica que deve ser analisado o Projeto de Lei nº
2.583/2020.
À
primeira vista, a proposta parece alinhar-se a uma agenda positiva de
fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), mobilizando
conceitos politicamente relevantes como autonomia produtiva, segurança
sanitária, desenvolvimento tecnológico e fortalecimento industrial. Contudo,
uma leitura mais atenta de seu desenho institucional revela uma contradição
profunda entre os objetivos declarados e seus possíveis efeitos concretos.
Em vez
de fortalecer a soberania sanitária brasileira, o projeto pode produzir
precisamente o efeito inverso: ampliar a dependência tecnológica externa,
enfraquecer laboratórios públicos estratégicos como Bio-Manguinhos e Butantan e
comprometer um dos mais sofisticados instrumentos de política industrial
construídos pelo Estado brasileiro no campo da saúde — o uso estratégico do
poder de compra do SUS para indução tecnológica, produtiva e industrial. O
problema central não reside, portanto, na retórica do projeto, mas em seus
pressupostos e na arquitetura institucional proposta.
Um dos
equívocos conceituais mais relevantes consiste na confusão entre presença
produtiva em território nacional, autonomia tecnológica efetiva, soberania
nacional e capacidade de autodeterminação estratégica. O texto parte da
premissa implícita de que a simples instalação de unidades produtivas no país —
ainda que pertencentes a empresas multinacionais — seria suficiente para
assegurar autonomia. Trata-se de um pressuposto profundamente equivocado. A
existência de uma planta fabril em território nacional não implica, por si só,
domínio tecnológico, nem capacidade autônoma de decisão sobre preços,
cronogramas, prioridades produtivas, atualização tecnológica ou acesso em
contextos de emergência sanitária.
A
trajetória da indústria farmacêutica e biotecnológica em países de baixa e
média renda demonstra exatamente o contrário: a produção localizada pode
coexistir com dependência estrutural, sem garantir emparelhamento tecnológico
ou acesso equitativo e soberano a bens e serviços de saúde. Essa fragilidade
torna-se ainda mais evidente quando o próprio projeto admite que Empresas
Estratégicas de Saúde possam ser constituídas por agentes privados com sede,
filial ou subsidiária no país, sem mecanismos robustos e efetivos de controle
nacional do capital e dos ativos estratégicos. Isso representa uma guinada
significativa no desenho da política pública, pois permite que instrumentos
estratégicos do Estado brasileiro sejam mobilizados em favor de agentes cuja
lógica decisória responde prioritariamente a interesses corporativos globais e
a centros externos de poder econômico.
Essa
questão é especialmente grave no setor saúde, no qual vacinas, biofármacos,
diagnósticos moleculares, terapias avançadas e outros insumos críticos não
podem ser tratados como mercadorias ordinárias. Trata-se de tecnologias
estratégicas, cujo controle determina não apenas preços ou condições
comerciais, mas a própria capacidade de um país proteger sua população em
situações de crise. Quem controla a tecnologia controla, em larga medida, a
capacidade de resposta sanitária.
A
pandemia de Covid-19 tornou essa realidade dramaticamente evidente para todo o
mundo, particularmente para os países de baixa e média renda. O nacionalismo
vacinal, a interrupção de cadeias globais de suprimentos, a retenção de insumos
estratégicos e a priorização unilateral de mercados nacionais demonstraram que
a dependência tecnológica não constitui mera vulnerabilidade econômica, mas
risco concreto à segurança sanitária nacional.
A
história das emergências sanitárias oferece lições semelhantes.
Surtos
recentes de ebola e hantavírus, assim como inúmeras crises epidemiológicas ao
longo da história, evidenciam que, em contextos de emergência, prevalecem
frequentemente lógicas de proteção nacional e competição por recursos escassos.
No caso brasileiro, foi justamente a necessidade de enfrentar grandes desafios
sanitários no início do século XX que impulsionou a criação de instituições
estratégicas como o Instituto Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan, antecedentes
centrais do que posteriormente se consolidaria como a rede de laboratórios
oficiais. Paradoxalmente, o Brasil esteve entre os países que, apesar da
volatilidade de seu ambiente institucional, conseguiram construir capacidades
industriais e tecnológicas nacionais — em especial no setor público e sem fins
lucrativos — que permitiram respostas que muitos outros países, inclusive
alguns de alta renda, não lograram alcançar com a mesma efetividade.
Essa
experiência ajuda a explicar por que, em diferentes partes do mundo, cresce o
debate sobre a relevância da produção pública e sem fins lucrativos como
componente estratégico da segurança sanitária, da autonomia tecnológica e da
soberania nacional.
Em
termos mais estruturais, o projeto parece repousar sobre um pressuposto
ideológico recorrente nas formulações liberalizantes contemporâneas: a ideia de
que o mercado privado concorrencial seria, por definição, o melhor alocador de
recursos públicos e o mecanismo mais eficiente para promover inovação, expansão
produtiva e acesso. Essa formulação, contudo, não encontra respaldo consistente
nem na experiência histórica brasileira, nem nas trajetórias internacionais
mais bem-sucedidas de construção de capacidades científicas, tecnológicas e
industriais. Ao contrário do que sustenta o ideário liberal, os países que
lograram avançar de posições periféricas ou dependentes para patamares mais
elevados de autonomia tecnológica o fizeram precisamente por meio de forte
coordenação estatal, políticas industriais ativas, proteção estratégica de
mercados internos, exigências de internalização produtiva e mecanismos
deliberados de aprendizagem tecnológica.
A
experiência da Coreia do Sul é particularmente emblemática. O país não
construiu sua atual capacidade tecnológica — hoje expressa em setores
intensivos em conhecimento como eletrônica, semicondutores, tecnologias
digitais e manufaturas avançadas — por submissão passiva à lógica do mercado
internacional. Ao contrário, combinou planejamento estatal de longo prazo,
financiamento público direcionado, proteção seletiva, metas de desempenho
tecnológico e estímulos deliberados à formação de conglomerados nacionais
capazes de competir globalmente.
A
trajetória da Índia oferece exemplo igualmente relevante. O fortalecimento de
sua indústria farmacêutica e biotecnológica resultou da combinação entre
políticas industriais, proteção regulatória, investimento em capacitação
científica, fortalecimento de empresas nacionais e uso estratégico de
instrumentos públicos voltados à construção de capacidades produtivas e
tecnológicas. O país deixou uma posição periférica e dependente para tornar-se
protagonista global na produção de medicamentos genéricos, vacinas e diversos
insumos farmacêuticos estratégicos, ainda que preserve dependências relevantes
em segmentos específicos.
A China
representa talvez o caso mais eloquente. Sua ascensão científica, tecnológica e
industrial nas últimas décadas não decorreu de confiança passiva em mecanismos
autorregulados de mercado, mas de um projeto nacional deliberado de construção
de capacidades soberanas. Transferência condicionada de tecnologia, exigências
de conteúdo local, forte investimento estatal em ciência, inovação e
infraestrutura produtiva, além da articulação entre planejamento estratégico e
um mercado interno de grande escala, foram instrumentos decisivos para
transformar dependência em capacidade competitiva.
Mesmo
as grandes potências econômicas, historicamente associadas à defesa da retórica
liberal, recorreram — e seguem recorrendo — a instrumentos robustos e
estruturantes de proteção econômica, incluindo compras governamentais
estratégicas, financiamento público e coordenação estatal, para consolidar
setores críticos. Em saúde, defesa, energia e tecnologias de fronteira, a ideia
de neutralidade mercantil jamais correspondeu à realidade histórica.
A
experiência do atual governo Donald Trump torna essa contradição
particularmente explícita. Em nome da defesa do interesse nacional, da
reindustrialização e da segurança econômica, os Estados Unidos vêm reafirmando
políticas marcadas por nacionalismo econômico, protecionismo comercial,
restrições tecnológicas e defesa agressiva de capacidades produtivas
consideradas estratégicas. O aspecto politicamente mais revelador desse
movimento é que a principal potência capitalista do mundo, frequentemente apresentada
como referência do liberalismo econômico, recorre sem constrangimento ao uso
ativo do Estado — articulando proteção econômica, pressão geopolítica,
restrições tecnológicas e a projeção de seu poder estratégico global — para
proteger setores críticos, reorganizar cadeias produtivas e disputar liderança
tecnológica.
Se isso
é considerado legítimo para os Estados Unidos, torna-se ainda mais difícil
sustentar que países periféricos ou dependentes devam abrir mão de instrumentos
semelhantes justamente em áreas tão sensíveis quanto saúde, ciência, tecnologia
e produção estratégica. Nesse sentido, a hipótese de que a simples abertura de
espaço privilegiado para empresas privadas — inclusive multinacionais —
produziria, por si só, fortalecimento tecnológico nacional carece não apenas de
sustentação empírica brasileira, mas também de respaldo comparativo
internacional. Ao contrário, a história da saúde pública nacional demonstra
precisamente as limitações estruturais dessa lógica. Os grandes laboratórios
públicos brasileiros surgiram justamente em resposta às falhas do mercado.
A
experiência brasileira oferece exemplos eloquentes. A crise da meningite, nos
anos 1970, evidenciou dramaticamente os riscos da dependência externa e
impulsionou o fortalecimento de capacidades nacionais, culminando no Programa
de Autossuficiência Nacional em Imunobiológicos (PASNI). No enfrentamento da
epidemia de HIV/Aids, a combinação entre política pública, ação estatal e
produção nacional permitiu ampliar o acesso e enfrentar barreiras impostas pelo
mercado farmacêutico internacional. Mais recentemente, durante a pandemia de
Covid-19, não foi o mercado que assegurou proteção à população brasileira, mas
precisamente instituições públicas e capacidades estatais acumuladas ao longo
de décadas.
Bio-Manguinhos
internalizou, em tempo recorde, tecnologia crítica da vacina Oxford/AstraZeneca
por meio de instrumentos excepcionais como a Encomenda Tecnológica (ETEC) e
posterior transferência tecnológica; o Butantan estabeleceu parceria
estratégica com a Sinovac; Bio-Manguinhos desenvolveu e produziu diagnósticos
moleculares nacionais em larga escala.
Nada
disso foi fruto espontâneo da lógica de mercado. Foi resultado de capacidade
pública, aprendizado institucional e investimentos estratégicos construídos ao
longo de década Esse histórico é particularmente relevante porque evidencia a
centralidade do poder de compra estatal como instrumento de política industrial
e tecnológica. O SUS não é apenas um sistema assistencial; é também um dos
maiores mercados públicos de saúde do mundo e, justamente por isso, um poderoso
instrumento de indução do desenvolvimento.
As
Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) expressam de forma
particularmente sofisticada essa racionalidade. Não estamos nos referindo a
simples mecanismos de compras públicas, mas de instrumentos estruturados para
internalização tecnológica, fortalecimento produtivo nacional, absorção de
conhecimento, desenvolvimento industrial e redução da dependência externa. Seu
núcleo conceitual repousa no uso deliberado do poder de compra estatal para
induzir aprendizado tecnológico, construção de capacidades nacionais e
fortalecimento da soberania produtiva no campo da saúde. É precisamente essa
racionalidade que o projeto ameaça deslocar. Ao permitir que Empresas
Estratégicas de Saúde privadas assumam centralidade nos arranjos produtivos e
nas compras estratégicas, inclusive por meio de margens de preferência e
mecanismos específicos de contratação, abre-se espaço para uma reconfiguração
estrutural das PDPs.
Em vez
de funcionarem prioritariamente como instrumentos de transferência tecnológica
orientados ao fortalecimento de capacidades nacionais públicas, as PDPs podem
converter-se em mecanismos de contratação favorecida de agentes privados,
inclusive multinacionais. Isso significaria uma mudança qualitativa no papel do
Estado: de indutor de autonomia tecnológica para financiador indireto de formas
sofisticadas de dependência produtiva. Os defensores dessa lógica
frequentemente invocam o argumento da eficiência econômica. Contudo, essa
categoria exige problematização. Eficiência para quem? Sob quais critérios? Sob
qual racionalidade?
A
racionalidade privada tende a maximizar retorno financeiro e rentabilidade
corporativa. A racionalidade pública estratégica deve orientar-se pela proteção
da vida, pela segurança sanitária, pela continuidade do abastecimento, pelo
acesso universal, pelo aprendizado tecnológico e pela soberania nacional. Essas
métricas não são equivalentes. Uma compra aparentemente mais barata no curto
prazo pode destruir capacidades nacionais estratégicas e produzir custos muito
mais elevados no médio e longo prazo, na forma de dependência cambial, perda de
poder de negociação, vulnerabilidade diante de emergências sanitárias e captura
por oligopólios globais.
Outro
ponto crítico refere-se à profunda assimetria tecnológica existente no setor
saúde. O projeto parece pressupor relações negociais relativamente equilibradas
entre agentes econômicos, o que não corresponde à realidade concreta da
economia política contemporânea da inovação em saúde.
Grandes
corporações multinacionais controlam plataformas tecnológicas proprietárias,
bancos celulares mestres, processos industriais críticos, cadeias globais de
suprimentos, dossiês regulatórios, reagentes específicos e propriedade
intelectual.
Mesmo
quando há produção localizada, a dependência tecnológica pode permanecer
estrutural. A experiência recente de Bio-Manguinhos com a vacina contra a
Covid-19 é ilustrativa: embora tenha havido extraordinária internalização
produtiva, persistiram dependências relevantes relacionadas a insumos críticos,
padrões analíticos, componentes regulatórios e insumos estratégicos
internacionais. Ou seja, produção local, por si só, não equivale
automaticamente à soberania tecnológica.
Nesse
contexto, o risco de marginalização dos laboratórios públicos e sem fins
lucrativos torna-se particularmente grave. Instituições como Bio-Manguinhos,
Butantan, Farmanguinhos, Tecpar, Funed e outros não operam segundo lógica
empresarial convencional. Sua missão não é maximizar lucro, mas assegurar
abastecimento estratégico, responder a necessidades sanitárias, sustentar
políticas públicas e construir capacidades nacionais.
Ao
desenhar instrumentos ancorados predominantemente em categorias empresariais
privadas, o projeto corre o risco de excluir ou enfraquecer precisamente os
atores cuja função estratégica foi historicamente central para o país. Os
efeitos potenciais desse deslocamento são cumulativos e perversos: menor
participação em contratos estratégicos levaria à redução de escala produtiva;
menor escala comprometeria investimentos; menos investimentos reduziriam
capacidade de absorção tecnológica; menor capacidade tecnológica enfraqueceria
relevância institucional; e essa perda de protagonismo alimentaria ainda mais a
dependência externa. Trata-se de um ciclo regressivo incompatível com qualquer
projeto sério de soberania sanitária. Há ainda uma dimensão geopolítica incontornável.
O mundo contemporâneo atravessa crescente fragmentação geopolítica, disputas
tecnológicas, reorganização de cadeias produtivas e intensificação de políticas
industriais nacionais. Nesse contexto, fragilizar capacidades públicas
nacionais no setor saúde representa erro estratégico de grandes proporções.
Emergências sanitárias futuras não serão enfrentadas com abstrações de mercado,
mas com capacidade concreta de produção, desenvolvimento tecnológico, regulação
e coordenação estatal. Soberania sanitária não se improvisa em momentos de
crise; constrói-se institucionalmente ao longo do tempo.
Mais do
que simples unidades produtoras, laboratórios públicos como Bio-Manguinhos e
Butantan constituem plataformas de aprendizado tecnológico e institucional.
Produzem bens, mas também conhecimento, infraestrutura, competências
regulatórias, engenharia industrial, recursos humanos altamente qualificados e
capacidade de articulação entre ciência, inovação, produção e política pública.
São
instrumentos centrais para qualquer estratégia nacional que pretenda disputar
posições tecnológicas mais avançadas em campos como vacinas de RNA mensageiro,
terapias celulares, biofármacos complexos, diagnósticos avançados e medicina
personalizada. Por tudo isso, a contradição central do projeto torna-se
evidente. O texto afirma buscar autonomia, mas pode ampliar dependência.
Declara promover estratégia nacional, mas enfraquece instrumentos nacionais
consolidados. Invoca fortalecimento industrial, mas pode favorecer agentes
globais dominantes. Fala em segurança sanitária, mas reduz a capacidade do
Estado de induzir soberania tecnológica. Em última instância, subordina uma
política estratégica de saúde a pressupostos liberalizantes que a experiência
histórica brasileira e internacional reiteradamente desmente.
Nos
termos em que se apresenta, o Projeto de Lei nº 2.583/2020 representa risco
relevante de esvaziamento das PDPs, enfraquecimento dos laboratórios públicos,
redução do poder estratégico do SUS, ampliação da dependência tecnológica e
fragilização da capacidade nacional de resposta a emergências sanitárias. O
Brasil necessita, sim, de uma estratégia nacional robusta para a saúde, mas
essa estratégia deve fortalecer — e não enfraquecer — o protagonismo do Estado,
dos laboratórios públicos e dos instrumentos de política industrial e
tecnológica orientados pelo interesse público. Em saúde, dependência não é
apenas um problema econômico. Pode custar vidas.
Fonte:
Cebes

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