Paulo
Henrique Arantes: Luciano Huck e a República de sapatênis
O
apresentador global Luciano Huck é useiro de mantras liberais que saturam a
paciência. Apesar do sapatênis, sua postura nas telas segue a velha, velhíssima
estratégia de premiar cidadãos de classe baixa com dinheiro de parceiros
comerciais e enaltecê-los pelo “empreendedorismo”. A generosidade privada que
faz a fortuna dele próprio, contudo, revela-se em seus discursos como inimiga
da justiça social promovida pelo Estado.
O
enjoativo mauricinho das tardes de domingo na Globo agora criticou o Bolsa
Família por provocar, na sua tendenciosa visão, uma acomodação dos seus
beneficiários nos braços do Estado. O milionário animador de plateias não leu o
estudo “Filhos do Bolsa Família: uma análise da última década do programa”,
feito pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e
Combate à Fome (MDS) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o qual demonstrou
que, em média, independentemente da idade, 60,68% dos beneficiários de 2014
deixaram o programa até 2025. A saída mais elevada foi entre os adolescentes:
68,8% na faixa de 11 a 14 anos e 71,25% na faixa de 15 a 17 anos.
Luciano
Huck - cuja alegria incontida pela convocação de Neymar para a Copa do Mundo
merece explicação, seja psiquiátrica ou financeira - deveria perder um pouco do
seu valorizado tempo para explicar suas amizades, e não para atacar um plano de
inclusão social aplaudido no mundo inteiro. São raras as figurinhas borradas
por corrupção com que não tenha demonstrado intimidade, amizade, admiração ou
sociedade.
A lista
é de fácil confecção pela memória, se não por uma busca simples na internet:
Daniel
Vorcaro. Reportagens recentes mencionaram encontros e conversas entre Vorcaro e
Huck num período em que o banco já enfrentava questionamentos financeiros e
regulatórios. Estima-se que o mafioso do momento tenha dado entre 120 e 160
milhões de reais em patrocínios ao insuportável programa dominical do
mauricinho. Luciano Huck foi o principal garoto-propaganda do Will Bank, um
banco digital ligado ao conglomerado de Vorcaro. O apresentador também chegou a
avaliar a compra do Will Bank junto com um grupo de investidores.
Roberto
Rzezinski. Ex-sócio. Foi preso na Operação Câmbio, Desligo, por ligação com
esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo operadores do MDB e doleiros.
Alexandre
Accioly. Empresário do ramo fitness e entretenimento, frequentemente associado
ao círculo social de Huck. O nome de Accioly apareceu em investigações e
delações relacionadas ao entorno político do Rio de Janeiro durante os governos
de Sérgio Cabral.
André
Esteves. Huck participou de lives e debates promovidos pelo banqueiro do BTG.
Esteves chegou a ser preso preventivamente na Lava Jato em 2015.
Junior
Durski. Dono do Madero e sócio de Huck em alguns negócios. Não é conhecido por
condenações por corrupção, mas apareceu em controvérsias políticas e
investigações administrativas ligadas a relações empresariais e incentivos
públicos.
Entre
os políticos, nenhum trocou tanta empatia com Luciano Huck quanto Aécio Neves.
O mauricinho foi filmado às lágrimas quando o tucano perdeu a eleição
presidencial para Dilma Rousseff. Depois que Aécio foi atingido pelas delações
da JBS em 2017 — especialmente o caso dos 2 milhões de reais mendigados a
Joesley Batista — a amizade virou tema nacional e Huck apagou suas fotos com o
dito cujo nas redes sociais.
O
padrinho de Tiazinha e Feiticeira, ícones da exploração da mulher como objeto
de desejo machista, não esconde sua intenção de ser presidente do Brasil. Se
isso se concretizar, o país fatalmente se tornará um caldeirão de
idiossincrasias neoliberais e pieguices dominicais. A República calçará
sapatênis.
• Luciano Huck tenta disfarçar, mas é só
mais um rico com preconceito contra pobres. Por Chico Alves
Desde
que surgiu como apresentador de TV, em 1994, Luciano Huck faz o estilo garotão
simpático, parceiro da galera. Segue nesse personagem até hoje, viajando ao
interior do país para distribuir prêmios e conversando com os felizardos como
se entendesse o que é ser um morador de periferia.
Infelizmente,
nem todos os concorrentes das gincanas criadas por Huck conseguem cumprir as
provas exigidas. Quando um dos participantes — sempre alguém muito pobre e com
necessidade urgente de dinheiro — não acerta a pergunta ou não realiza a tarefa
exigida, o apresentador tenta se mostrar muito comovido. Nem parece que está
faturando audiência em cima da pobreza alheia; faz parecer que sua real
preocupação é “social”.
Esse
jeitão de garotão simpático, que é mantido mesmo hoje, quando o apresentador já
é um senhor de 54 anos, foi forjado desde criança. Não exatamente nos bairros
populares, segundo ele próprio conta.
“Eu
gosto de comunicação, eu gosto, eu me interesso pelas pessoas. Acho que sempre
fui curioso. Minha mãe falou que, quando eu era pequeno, era aquele garoto que
saltava do avião e ia conversando com o avião inteiro”, relembrou certa vez ao
podcast PodPah.
No
programa dominical é diferente; não fala para quem viaja de avião, está sempre
conversando com o povão.
Não
apenas para apresentar as atrações globais, mas para se beneficiar da grande
audiência e vender algum produto lucrativo, como o tal “Familhão“, uma espécie
de carnê do Baú da Felicidade dos tempos atuais, em que usa a simpatia para
arrancar uma mensalidade de assalariados em troca do sonho de ganhar uma barra
de ouro.
O
garotão parceiro também jogou o papo sedutor para fisgar apostadores na bet dos
patrões. Huck foi o principal nome no lançamento da Bet MGM, em que a Globo tem
sociedade.
O dono
das tardes globais de domingo não passa de dublê de apresentador e
garoto-propaganda, mas, desde 2018, quando cogitou se candidatar à Presidência
da República e coletou algumas informações econômicas sobre o Brasil a título
de plataforma eleitoral, passou também a dar pitacos sobre política e a ser
ouvido por empresários tão ricos quanto ele.
Suas
opiniões sobre esses temas sempre são fora de esquadro. Foi assim quando quis
discutir segurança pública a partir da experiência de ter o relógio Rolex
roubado em São Paulo, quando encontrou o general golpista Villas Boas para
dizer “eu me vejo muito em você” ou ainda em 2018, quando deixou claro seu
antipetismo e sinalizou voto em Jair Bolsonaro: “Eu não voto no PT, eu nunca
votei no PT e eu não vou votar no PT”, disse, então.
Agora,
o garotão Luciano Huck, parceiro da galera, volta à carga para despejar
desinformação sobre o programa Bolsa Família, uma das iniciativas sociais mais
exitosas e elogiadas por especialistas de vários países. No sábado (23),
repetiu mentiras para um público de grandes empresários que devem compartilhar
das mesmas falácias e divulgá-las por aí.
Pior:
deu a entender que o povão, aquele com quem ele conversa tão amigavelmente
todos os domingos, se mantém no benefício à custa do “jeitinho”, ou atalhos,
como ele chamou. Em bom português, para ele os beneficiários seriam
espertalhões manejando táticas para mamar nas tetas do Estado.
À
vontade com seus pares endinheirados, Huck deu vazão ao preconceito contra as
classes populares que tenta recalcar na telinha da Globo para faturar milhões.
Episódios
como esse servem momentaneamente para desmascarar impostores que se fazem de
amigos do povo.
Mas,
com o tempo, como aconteceu em outras vezes, o caso vai ser esquecido e Luciano
Huck continuará a ser assistido na TV como o parceiro da galera, o cara que tem
preocupações sociais.
Para
usar o bordão do apresentador, isso sim é loucura, loucura, loucura.
• Crítico do Bolsa Família, Luciano Huck
comprou jatinho com juros subsidiados pelo BNDES
O
apresentador Luciano Huck voltou a gerar polêmica após criticar o Bolsa Família
durante participação no 5º Fórum Esfera, realizado no Guarujá (SP). Huck
afirmou que o programa social “não gera estímulo” para que famílias deixem a
situação de vulnerabilidade e disse que beneficiários criam “atalhos” para
permanecer no auxílio, dando a entender que optam por estender a remuneração
concedida pelo Estado.
As
declarações provocaram forte reação nas redes sociais e fizeram ressurgir um
episódio envolvendo o próprio apresentador, em que ele se beneficiou de
condições especiais de um órgão governamental para comprar um jatinho. Em 2013,
Huck utilizou um financiamento de R$ 17,7 milhões do BNDES para adquirir um
jatinho da Embraer com juros subsidiados de 3% ao ano.
Segundo
reportagem da Folha de S. Paulo, o empréstimo foi realizado por meio do
programa Finame, do BNDES, tendo como beneficiária a empresa Brisair Serviços
Técnicos e Aeronáuticos Ltda., da qual Huck e Angélica são sócios. O contrato
previa prazo de 114 meses para pagamento.
Na
época, o apresentador afirmou que a operação foi legal e dentro das regras do
programa, criado para incentivar a indústria nacional. Em 2019, Huck declarou
que o financiamento foi “transparente” e “pago até o fim”.
A
repercussão recente ocorreu justamente pela comparação feita por críticos entre
o discurso de Huck contra programas de transferência de renda e o fato de ele
próprio ter recorrido a crédito público subsidiado para aquisição de uma
aeronave particular. Nas redes sociais, usuários apontaram contradição entre a
crítica ao auxílio destinado à população pobre e o uso de recursos estatais em
benefício privado.
• Luciano Huck critica Bolsa Família
porque ‘quer manutenção de desigualdades’, afirma cientista político
O
apresentador Luciano Huck criticou, no sábado (23), o programa Bolsa Família,
afirmando que ele não gera estímulos para a saída dos beneficiários e que
famílias criariam “atalhos” para permanecer nele “ad eternum”, embora dados
levantados pelo Brasil de Fato mostrem um cenário bastante diferente.
Em
entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o cientista político Paulo
Roberto de Souza avalia que a narrativa equivocada vocalizada por Huck reforça
preconceitos e reflete o discurso de uma elite econômica que não quer ver a
transformação social do Brasil.
“Eles
não estão preocupados com índices de sustentabilidade econômica. Eles não estão
preocupados com o índice de políticas públicas saudáveis. Eles estão
preocupados com a manutenção de desigualdades que os beneficiem de forma
radical. Muitas vezes a gente acha que é contrassenso, mas endividamento e alta
desigualdade geram benefícios a determinados grupos”, afirma.
“Quando
dizem: ‘Ah, as pessoas que recebem o Bolsa Família não se mexem’. Não, elas se
mexem, sim, mas não do jeito que essa elite gostaria que elas se mexessem,
dessa forma de extrema subordinação e dependência”, diz.
Para o
cientista político, o aumento no número de beneficiários nos últimos anos se
deu, basicamente, por dois fatores: a reforma trabalhista promovida pelo
ex-presidente Michel Temer e a pandemia gerida pelo governo Bolsonaro. “Tudo
isso gera de novo para um outro governo Lula uma necessidade de reorganização
do Estado brasileiro, que estava jogado às traças e que mostra a potência de
políticas como o Bolsa Família”, afirma.
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Fim da escala 6×1
Esta
semana pode ser decisiva para o fim da escala 6×1. Manifestações por todo o
país no domingo (24) pediram a urgente aprovação da medida pelo Congresso
Nacional.
Paulo
Roberto de Souza defende que o projeto seja aprovado o mais rápido possível,
porque, caso isso não aconteça, Lula terá que assumir o tema como compromisso
de campanha dependendo de um Congresso com possível renovação de quadros que
podem, inclusive, ser mais conservadores.
“Se não
entregar [a aprovação do fim da escala 6×1], você tem um recálculo aí por parte
da base de apoio do presidente, que é pautar essa 6×1 como uma promessa de
campanha. Mas veja, ela não perde força enquanto pauta, porque 70% da população
é favorável, como dizem as pesquisas, mas gera uma certa desconfiança, um
desgaste em boa parte do eleitorado, principalmente aquele que não tem uma
adesão ideológica ao presidente Lula. Ele vai olhar e falar: ‘Bom, você tem
promessas e promessas e aí eu vou ter que dar mais um cheque em branco para
trazer essa pauta de novo, a depender de como vai ser a configuração do
Congresso'”, avalia.
Fonte:
Brasil 247/ICL Notícias/Brasil de Fato

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