João
Filho: O preço de Flávio 2026 - Como os novos escândalos do senador assombram a
direita
“O
Ministério Público tá com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na
gente”, disse Fabrício Queiroz em um áudio de 2019, quando ele e Flávio
Bolsonaro eram investigados por lavagem de dinheiro, peculato e organização
criminosa. Mal sabia que essa seria a menor das “picas” a serem enfrentadas por
Flávio Bolsonaro no decorrer da sua carreira política.
Sete
anos depois, o senador é pré-candidato à presidência e está enfrentando uma
série de graves acusações. Além das negociações milionárias suspeitíssimas com
o maior ladrão do Brasil, Flávio terá que passar o ano eleitoral explicando os
escândalos de corrupção em que está envolvido. Não estamos falando de um caso
ou outro, mas de muitos. A relação obscura com Vorcaro é só uma gota no oceano
de lama no qual o senador está atolado.
Flávio
terá que explicar por que enviou uma emenda parlamentar de R$199 mil para uma
ONG suspeita de integrar um esquema de desvio de verbas públicas, comandado
pelos irmãos Brazão — os mandantes do assassinato de Marielle Franco. Segundo a
Polícia Federal, o envio foi intermediado por um policial militar conhecido
como “Peixe”, que também foi condenado pelo assassinato da vereadora. O senador
terá que esclarecer os motivos que o levaram a manter negócios com a quadrilha
que matou a vereadora do PSOL.
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Operação ‘Sem Refino’
Há um
outro caso que está prestes a explodir no colo de Flávio. A operação “Sem
Refino” da Polícia Federal investiga um esquema bilionário de sonegação
envolvendo a Refit, uma empresa do setor de combustíveis.
As
investigações estão chegando cada vez mais perto de Flávio Bolsonaro, que viu
seu aliado Cláudio Castro ser alvo de busca e apreensão na semana passada. O
caso tem grande potencial para arrastar Flávio para o olho do furacão. Um
relatório da PF enviado ao Supremo Tribunal Federal destaca que a “a leniência
e a criação de um ambiente propício para a propagação da atividade espúria
desenvolvida pela organização criminosa (…) retratam o amálgama do crime
organizado com agentes públicos influentes na política fluminense, a começar
pelo então chefe do Poder Executivo”.
Não é
possível falar em “agentes públicos influentes na política fluminense” sem
falar na família Bolsonaro, especialmente Flávio. Até os paralelepípedos da Rua
do Ouvidor conhecem a influência do senador na política fluminense. Um esquema
dessa grandiosidade, considerado o maior caso de sonegação do país,
dificilmente seria ignorado pelo filho mais velho de Jair Bolsonaro. Ainda mais
um caso envolvendo dois parças tão próximos como Cláudio Castro, do PL do Rio
de Janeiro, e o senador Ciro Nogueira, do Progressistas do Piauí, a quem foi
entregue a “alma do governo” Bolsonaro. Aliados mais próximos a Flávio sabem
disso e estão desesperados com a possibilidade real do caso respingar nele.
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Ninguém confia no Flávio
Flávio
Bolsonaro é um mentiroso contumaz, como ficou evidente depois das reportagens
do Intercept. Não que isso seja novidade, mas descobrimos que ele mente até
mesmo para seus aliados. No início da pré-campanha, os dirigentes do PL
questionaram o senador sobre suas relações com Vorcaro. Ele negou. Meses
depois, Flávio mudou a história, mas continuou mentindo. Disse que foi
procurado pelo banqueiro, mas recusou o encontro. Hoje, sabe-se que ele não só
o encontrou como pediu milhões para financiar o filme panfletário sobre seu
pai. Ninguém confia em Flávio, nem mesmo os seus companheiros.
O
desespero para encontrar uma narrativa que salve o candidato é grande. Cavaram
até um encontro com Trump nos EUA para tentar virar o jogo no noticiário. É uma
tentativa de mostrar credibilidade junto ao presidente americano, já que aqui
no Brasil nem a confiança de Valdemar da Costa Neto ele tem mais.
As
chances do encontro ser um mico são grandes. Primeiro porque o presidente
americano já não é mais visto como um bom cabo eleitoral. Uma fotinho ao lado
dele não rende votos, apenas serve para deixar sua base eleitoral excitada.
Segundo porque a imprevisibilidade de Trump pode até melar o encontro, ainda
mais em meio a uma guerra. Viajar até os EUA e voltar sem o encontro seria
vergonhoso e aumentaria as manchetes negativas. No fim das contas, a reunião
com Trump é só um ato de desespero.
São
muitos os esqueletos no armário de Flávio mas, pelo menos por enquanto, nada
indica que ele desistirá da candidatura. Em condições normais de pressão e
temperatura, um candidato que não inspira confiança já teria sido rifado pelos
aliados. Ocorre que toda a direita brasileira está sequestrada pelos
Bolsonaros.
Afinal
de contas, quem tem votos é a família e, para ela, não interessa vencer a
eleição sem um parente à frente da candidatura. É melhor perder e manter a
família com o controle político da direita do que ganhar e entregar todo o
capital eleitoral de bandeja para alguém de fora do clã.
A
direita hoje está refém de uma família cujo patriarca está preso, um dos filhos
está foragido e o mais velho está escalado para a disputa presidencial mesmo
atolado por escândalos de corrupção. Outros candidatos de direita, como Zema e
Caiado, até tentam se diferenciar, mas não podem romper de uma vez com o
bolsonarismo. Seria um suicídio eleitoral. Além disso, seria incoerente largar
o osso depois de terem sido cúmplices dos maiores absurdos protagonizados pelo
clã Bolsonaro, desde a roubalheira generalizada até a tentativa de golpe de
estado. Vejam só onde a direita brasileira foi amarrar seu burro. Agora é tarde
demais. Vão ter que segurar essa pica do tamanho de 10 cometas até o final da
eleição.
• ‘DEUS TE ABENÇOE MEU BROTHER’: Mario
Frias agradeceu Daniel Vorcaro por apoio a filme sobre Jair Bolsonaro
Essa é
uma edição especial da newsletter Cartas Marcadas, assinada por boa parte dos
autores da investigação que chacoalhou o Brasil nos últimos dias. A proposta
inicial do mês de maio é que esse espaço seria dedicado apenas a reportagens
sobre a tramitação da escala 6×1.
Fizemos
isso nas primeiras duas semanas, nos debruçando sobre o lobby empresarial que
usa a extrema direita para atravancar a proposta. Mas, no meio do caminho, veio
um turbilhão. O Intercept Brasil publicou o maior furo jornalístico do país
desde as revelações da Vaza Jato: as mensagens secretas que colocam a família
Bolsonaro no centro do escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
É claro
que não abriremos mão de nossa cobertura da urgente luta dos milhões de
trabalhadores que suportam o desumano regime 6×1. Mas faremos uma pausa porque
sabemos que a nossa audiência anseia por mais informações sobre a relação do
bolsonarismo com o Banco Master.
Portanto,
resolvemos mudar os planos e, nesta semana, brindar os leitores com mais um
capítulo de nossa investigação: o áudio e as mensagens de texto que revelam a
proximidade de mais um líder da extrema direita no Congresso com Daniel
Vorcaro. Vamos aos fatos.
Pouco
menos de uma hora após o horário em que estava previsto um encontro entre o
senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, e o dono do Banco Master,
Daniel Vorcaro, no dia 11 de dezembro de 2024, em Brasília, o deputado federal
Mario Frias, do PL de São Paulo, enviou um áudio ao banqueiro agradecendo pelo
apoio ao filme “Dark Horse”.
Na
gravação, obtida com exclusividade pelo Intercept, Frias afirma que o longa
sobre Jair Bolsonaro “vai mexer com o coração de muita gente”, será “muito
importante para o nosso país” e pede autorização para informar Vorcaro sobre o
andamento da produção.
O
registro mostra intimidade entre Frias e Vorcaro, algo que o deputado vem
tentando esconder. Na semana passada, após o Intercept revelar que o senador
Flávio Bolsonaro havia negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o
filme “Dark Horse”, Frias disse que o banqueiro não havia dado “um único
centavo” para o longa-metragem.
Cerca
de 20 horas depois, o deputado emitiu outra nota e disse que havia “uma
diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”. Ele destacou
apenas que Vorcaro ou o Banco Master não haviam aparecido como investidores. A
postura demonstra um distanciamento entre os dois – uma versão que um áudio e
mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept desmontam.
O
conteúdo indica que, além de produtor-executivo de “Dark Horse”, o
ex-secretário especial de Cultura de Jair Bolsonaro atuava diretamente na
articulação do filme financiado pelo banqueiro, que viria a ser investigado
pela maior fraude bancária da história do país.
Na
gravação, enviada por WhatsApp para Vorcaro em 11 de dezembro de 2024, às
18h24, Frias diz: “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de
muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em
quando te falar como as coisas vão andando, tá?” Imediatamente depois, Vorcaro
responde: “Eu to numa ligação te chamo em seguida”. Frias diz “Blz” e, às
19h06, os dois se falam por ligação de voz durante cerca de 2 minutos.
Como já
apontamos no início do texto, o agradecimento veio menos de uma hora após o
horário previsto para o encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, naquele dia,
na residência do banqueiro em Brasília. Segundo mensagens reveladas pelo
Intercept, a reunião foi organizada por Thiago Miranda, fundador e sócio do
Portal Leo Dias, para tratar do financiamento do filme biográfico internacional
sobre Jair Bolsonaro.
Flávio
Bolsonaro participava de uma reunião da Comissão de Constituição, Justiça e
Cidadania, a CCJ, no Senado naquele dia e deixou a sua cadeira por volta de
17h30, no horário em que havia sido marcado o encontro. Só voltou às 18h, o que
indica que uma possível participação na reunião teria ocorrido de forma remota
ou em outro local. O Intercept não conseguiu confirmar se o encontro, de fato,
ocorreu.
Na
sequência do áudio, Frias mandou novas mensagens ao banqueiro. Em 15 de
dezembro de 2024, o deputado enviou uma captura de tela a Vorcaro que exibe uma
troca de mensagens entre ele e o diretor Cyrus Nowrasteh, revelando negociações
preliminares para a produção de uma obra sobre “um homem comum que se tornou
presidente por um milagre”.
No
diálogo, o diretor se compromete a conversar com o ator Jim Caviezel sobre o
projeto, alertando, contudo, que o astro fará duas perguntas: “1) Posso ler o
roteiro? 2) Eles vão me pagar bem?”. Frias respondeu que o ator “será
imortalizado por esse papel”.
Abaixo
do print, Frias escreveu para Vorcaro: “Milagres só são possíveis quando a fé”,
“Esse é um desses milagres” e “Vai ser a maior super produção de uma história
brasileira”. Aparentemente, na primeira frase, o parlamentar quis dizer “quando
há fé”.
Em 22
de dezembro de 2024, houve outra conversa entre o deputado e Vorcaro. O
banqueiro disse, às 10h19, que estava na igreja e prometeu chamá-lo quando
saísse. Frias não se conteve e, uma hora e 16 minutos depois, antes mesmo que
Vorcaro avisasse que estava disponível, escreveu que o filme seria “o grande
milagre”, capaz de tocar “milhões de pessoas em todo mundo”, e teria “um papel
histórico imprescindível para as futuras gerações”. Disse ainda que o
longa-metragem sobre o ex-presidente era uma “questão de justiça divina”, ao
que Vorcaro respondeu, às 11h40: “Tenho certeza disso”. “JB precisa ter sua
verdadeira história revelada”, acrescentou Mario Frias. Em outra mensagem,
afirmou: “2026 é do Brasil” e depois, frisou: “Deus te abençoe meu Brother”.
As
mensagens mostram que a relação entre Frias e Vorcaro ia além de um contato
protocolar entre um potencial investidor e um produtor. O deputado também
chamava o banqueiro de “meu irmão”, fazia elogios em tom religioso e
demonstrava acompanhar de perto o desenvolvimento da obra.
Frias,
que foi produtor-executivo de “Dark Horse” e peça-chave na articulação da obra
com o banqueiro investigado pela maior fraude bancária do país, passou a
propagar mentiras nas redes sociais, na tentativa de descredibilizar as
reportagens do Intercept.
Como
revelamos no último sábado, o parlamentar compartilhou, no dia 14 de maio,
publicações falsas alegando que o Intercept teria recuado sobre as cifras do
filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O
rastreamento da autoria dos conteúdos compartilhados por Frias expõe uma rede
de desinformação financiada e estruturalmente ligada ao PL, partido do
deputado. O site diario360, por exemplo, pertence a Fagner Leandro de Lima,
secretário parlamentar do também deputado federal André Fernandes, do PL do
Ceará e tesoureiro da sigla no estado.
Já a
página Hora Brasília é registrada em nome de uma empresa de Hugo Alves dos
Santos, aliado próximo do bolsonarista Oswaldo Eustáquio. A firma de
comunicação atuou nas eleições de 2024 como fornecedora de duas campanhas do
PL, recebendo R$ 55 mil de candidatos a vereador, em Atibaia, no interior de
São Paulo. Foi nessa cidade que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio
Bolsonaro, foi preso, em 2020, na casa do advogado da família Bolsonaro,
Frederik Wassef, num desdobramento da investigação que apurava o esquema de
rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
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Outro lado
Após a
publicação da primeira reportagem da série, a defesa de Mario Frias confirmou
que o deputado manteve contato com Vorcaro, mas afirmou que as mensagens
“refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um
potencial apoiador privado da iniciativa”. Segundo os advogados, Frias não
exerceu papel de articulador político ou financeiro em nome do banqueiro.
A
defesa acrescentou que o entusiasmo manifestado nas conversas privadas decorria
da “dimensão artística e cultural do projeto”. Procuramos Mario Frias nesta
terça-feira, 19, por meio de sua assessoria. Não houve resposta até a
publicação desta reportagem.
O PL
também foi procurado, mas não respondeu. O espaço segue aberto.
A
defesa de Daniel Vorcaro foi procurada, mas informou que ele não vai se
manifestar.
Fonte:
The Intercept

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