sexta-feira, 17 de julho de 2026

O crime contra a humanidade em Cuba e o necessário ódio aos indiferentes

Cuba é um dos exemplos mais duradouros de como o irreversível processo de declínio da hegemonia global do império estadunidense não é apenas uma questão econômica ou tecnológica. Semelhante reducionismo impediria calibrar em toda sua magnitude as múltiplas dimensões deste lento, mas inexorável ocaso. É também uma questão militar: a impossibilidade de ganhar guerras, continuamente ressaltada pelos analistas deste país e ratificada nestes dias pelo revés experimentado por Washington (e seus cupinchas em Tel-Aviv) na guerra contra o Irã.

É também política, porque uma das consequências da ditadura do capital que subjaz à lógica do império foi a crescente insatisfação com a democracia burguesa, cuja prática só serviu para enriquecer exponencialmente os ricos e manter na pobreza as grandes maiorias da população dos Estados Unidos, cada vez mais inclinada a buscar opções progressistas ou de esquerda, as mesmas que foram fulminadas como “comunistas” por Donald Trump no recente 4 de julho.

E é também moral porque as sociedades, não só a estadunidense como em geral as do Ocidente coletivo, parecem ter sido anestesiadas para não ter compaixão alguma pelas vítimas da brutalidade desencadeada pelo genocídio, a limpeza étnica e o roubo de territórios alheios praticados pelo regime neofascista israelense, com seus indiscriminados ataques contra populações civis indefesas; ou pelos brutais ataques que os Estados Unidos e Israel lançaram contra a população e o seletivo aniquilamento da direção religiosa e política iraniana; ou pelo bombardeio norte-americano contra uma Caracas indefesa e o posterior sequestro do presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores.

Fatos aberrantes, próprios de figuras monstruosas como Adolf Hitler, que em seu tempo suscitavam uma condenação quase universal e que hoje são “normalizados” e aceitos com indiferença pela população por obra da canalha midiática, o reinado dos algoritmos e os dispositivos de controle cognitivo e volitivo que as classes dominantes têm a sua disposição para submeter os povos e consolidar sua supremacia.

As formas do genocídio foram mudando com o passar do tempo. A barbárie nazista que produziu o Holocausto dos judeus na Europa, ou o atual massacre da população palestina, especialmente de mulheres e crianças, convivem hoje com uma forma mais dissimulada, mas não menos criminosa de genocídio: a política de “sanções” praticada pelos Estados Unidos e seus indignos peões europeus contra um sem-número de países.

Em datas recentes, uma conferência do professor da Universidade de Chicago, John Mearsheimer citou um estudo publicado na prestigiosa revista britânica The Lancet em que eram divulgados os resultados de uma investigação sobre as consequências médico-sociais das medidas coercitivas unilaterais aplicadas sobre 152 países entre 1971 e 2021.

Os autores do mencionado estudo, Francisco Rodríguez, Silvio Rendón e Mark Weisbrot sintetizaram suas descobertas dizendo que “as sanções unilaterais estão associadas a uma taxa de mortes anual de 564.258 pessoas”. Ou seja, cerca de 28 milhões de pessoas morreram devido às “sanções” econômicas aplicadas por Washington ao longo de meio século – pouco mais de um terço das vítimas ocasionadas pela Segunda Guerra Mundial. Em consequência, estamos em presença de um genocídio lento, invisibilizado, inclemente e que não provoca repúdio senão em uma pequena fração da opinião pública mundial. É por isso que o acadêmico de Chicago fala de um “homicídio massivo” produzido por essas políticas.

Entre os muitos países que as sofreram estão a Venezuela, sobretudo a partir de 2015, e Cuba, ininterruptamente desde 1960, quando a administração Eisenhower começou a impor as primeiras sanções contra a Revolução Cubana. A criminosa intensificação do bloqueio decretada por Donald Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, levou as coisas a um extremo sem precedentes. Em vão a esmagadora maioria dos países membros da ONU vêm solicitando por décadas ao governo dos Estados Unidos pôr fim ao bloqueio (que os publicistas do império tentam suavizar falando de “embargo” e não de bloqueio).

O império, cuja brutalidade cresce à medida que avança seu declínio, fez caso omisso destas demandas e continuou infringindo um “castigo coletivo” ao povo cubano, provocando mortes e terríveis padecimentos, sobretudo àqueles que necessitam de atendimento médico. Isso além do castigo que significa a política do bloqueio no que se refere ao abastecimento de petróleo para a vida cotidiana de toda a população: longuíssimos cortes de energia elétrica, obstáculos à mobilidade, desabastecimento de bens essenciais, paralisia nas instituições, desde escolas e universidades até hospitais públicos.

No estritamente médico, é preciso lembrar que Cuba, que se achava na frente dos países com menor taxa de mortalidade infantil no mundo, experimentou um aumento de 148% entre 2018 e 2025, passando de 4.0 por mil nascidos vivos a 9.9, segundo um estudo divulgado pelo Center for Economic and Policy Research de Washington. Este salto significa que aproximadamente 1.800 crianças cubanas morreram devido ao bloqueio, cifra que se altera quando se lhe acrescentam as mortes ocasionadas em pacientes que não podem ter acesso a seus medicamentos oncológicos ou a drogas para o tratamento da diabetes e muitas outras enfermidades crônicas.

Em suma, a política de Washington é um crime de guerra e seus responsáveis deveriam ser processados como se fez nos processos de Nuremberg, depois da derrota do nazismo, com os hierarcas do regime responsáveis pelo genocídio dos judeus. Hoje temos outro em curso — em Gaza, Cisjordânia, sul do Líbano — que, no entanto, não provoca a indignação e o repúdio suscitado naquele momento e, para cúmulo, encontramos uma sociedade anestesiada em sua capacidade de pensar criticamente e de reagir contra este verdadeiro assassinato em massa que a política de sanções estadunidenses provoca em Cuba, na Venezuela e em numerosos países de todo o mundo.

Esta tácita naturalização do bloqueio é um dos grandes triunfos do “soft power” imperial. Daí a urgência de travar a “guerra de pensamento”, como dizia Martí, e que urgia que a ganhássemos “a força de pensamento”. Isto implica em combater com todas as nossas forças o senso comum dominante e os atores que, como Pôncio Pilatos, lavam as mãos e ignoram esta tragédia, os apáticos e os que cultuam a despolitização e a recuo para os interesses egoístas.

Em sua putrefação, o império envileceu as sociedades do Ocidente coletivo, fomentando o egoísmo e tornando-as insensíveis à dor de seus semelhantes.

Vêm ao caso as palavras que um jovem Gramsci inclui em seu artigo intitulado “Ódio aos indiferentes”. Ali dizia, entre outras coisas, que “a indiferença é o peso morto da história. A indiferença opera potentemente na história. Opera passivamente, mas opera. É a fatalidade; aquilo com que não se pode contar.”

Ou, acrescentamos nós, o que se pode, mas não se quer contar, porque o espaço midiático está dominado pelo inimigo, empenhado em encobrir os crimes do sistema. E continuava Gramsci dizendo que “viver quer dizer tomar partido. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. A indiferença e a abulia são parasitismo, são covardia, não vida. Por isso, ódio aos indiferentes.” Gramsci retoma nesse pequeno artigo o legado humanista que Dante Alighieri deixara estampado na Divina Comédia quando sentenciou que o “círculo mais horrendo do inferno Deus reservou para aqueles que em tempos de crise moral optaram pela neutralidade”.

¨      Democratas chamam Cuba de ‘Gaza silenciosa’ ao criticarem políticas de Trump

Após uma visita a Cuba nos últimos dias, quatro membros democratas do Congresso norte-americano criticaram na segunda-feira (13/07) o embargo energético imposto pelo presidente Donald Trump na ilha caribenha, denunciando que as restrições do republicano estão transformando o país em uma “Gaza silenciosa”.

Os representantes Mark Pocan, de Wisconsin, Teresa Leger-Fernández, do Novo México, Maxine Dexter, do Oregon, e Delia Catalina Ramrez, de Illinois, desembarcaram em Havana na quinta-feira (09/07) e permaneceram até segunda-feira, cumprindo uma agenda que incluiu reuniões com ministros, médicos e empresários, além do presidente Miguel Díaz-Canel. Esta é a segunda viagem que os delegados fazem em três meses.

Em entrevista à imprensa, os políticos norte-americanos concluíram que não há diálogos entre Washington e Havana que possam resolver a situação humanitária do país caribenho. “Acho que (o Secretário de Estado) Marco Rubio está tornando isso pessoal e não profissional”, disse Pocan, ao ser questionado sobre o progresso no diálogo bilateral para desbloquear o cerco energético.

Ainda segundo o deputado, alguém com quem ele se comunicou em Cuba teria descrito a situação atual como “Gaza silenciosa”. “Pode não haver bombardeios, mas certamente há condições que impedem as pessoas de seguir suas rotinas. Eles não podem ir trabalhar, não conseguem conservar seus alimentos, não podem acessar suprimentos médicos ou viver como antes. Achei uma descrição muito precisa”, endossou.

Por sua vez, Leger-Fernández repudiou as condições de Cuba ao afirmar que “não faz sentido algum forçar um país a sofrer”. Os deputados Dexter, que é também médico, e Ramírez disseram que buscarão promover emendas no Congresso para mitigar o impacto na saúde e evitar novas sanções de Trump sem autorização legislativa, como as operações armadas que ele repetidamente ameaçou implementar.

Nos últimos dias, os Estados Unidos intensificaram as hostilidades contra o povo cubano, suas condições de vida e fontes de subsistência. O ministro das Relações Exteriores do país, Bruno Rodríguez Parrilla, denunciou as recentes sanções impostas pela Casa Branca contra 10 entidades estatais na ilha.

O recente pacote de limitações estende as sanções ao Ministério do Turismo de Cuba, que é visto como um setor essencial e estratégico para a economia da ilha, assim como às empresas Enetec, S.A., Coreydan S.A. e Grupo Empresarial del Comercio Exterior (Gecomex), que são responsáveis pela gestão das operações de comércio internacional, de importação e exportação, além do comércio de combustíveis.

¨      Cuba libera mais terras para enfrentar falta de alimentos e recuperar produção agrícola

O governo cubano anunciou um conjunto de modificações voltadas a acelerar a entrega de terras em usufruto e fortalecer o papel das cooperativas na gestão agrícola, como parte das Transformações Econômicas e Sociais incluídas no Programa Econômico e Social de Governo para 2026.

Durante um encontro com cooperativistas e produtores de municípios do oeste de Havana, o vice-primeiro-ministro Jorge Luis Tapia Fonseca explicou que essas medidas buscam aumentar a produção de alimentos por meio da incorporação de novos produtores e de um maior aproveitamento das terras ociosas ou subutilizadas.

Entre as mudanças mais relevantes está a simplificação do processo de entrega de terras. A partir de agora, as empresas do Sistema de Agricultura poderão concedê-las diretamente aos solicitantes, em coordenação com as cooperativas, desde que estes apresentem um projeto produtivo que defina o uso previsto do terreno, seja para pecuária, lavouras, fruticultura ou outras atividades agropecuárias.

Segundo as autoridades, o processo poderá ser concluído em um prazo de quinze a vinte dias, reduzindo significativamente o tempo que anteriormente caracterizava esse procedimento.

Outra das transformações consiste na eliminação dos limites de extensão de terra que um usufrutuário poderia receber, bem como das restrições quanto ao tempo de exploração. O ministro da Agricultura, Ydael Pérez Brito, afirmou que a área será determinada em função do projeto apresentado e das prioridades produtivas do país.

Como requisito, aqueles que solicitarem novas áreas deverão demonstrar que já exploram de forma eficiente as terras anteriormente concedidas.

As novas disposições também ampliam o universo de atores com acesso ao usufruto. Além de camponeses e cooperativistas, poderão solicitar terras trabalhadores por conta própria, micro, pequenas e médias empresas, empresas de capital misto e investidores estrangeiros interessados em desenvolver projetos relacionados à produção de alimentos ou à exportação.

No caso das Cooperativas de Produção Agropecuária, as decisões sobre a incorporação de novas terras continuarão sendo de competência das assembleias de cooperados, uma vez que essas entidades administram propriedades de caráter privado.

As modificações também incluem mudanças no tratamento jurídico da propriedade e do usufruto. As reclamações relacionadas a heranças e outros conflitos legais deixarão de ser competência do Ministério da Agricultura e passarão aos tribunais e às diretorias municipais e provinciais de Justiça.

Da mesma forma, as terras concedidas em usufruto poderão ser herdadas, inclusive quando o titular tiver emigrado, desde que mantenha a cidadania cubana efetiva. Também será ampliado para até cinco por cento da área total o espaço destinado às chamadas benfeitorias, ou seja, às construções e investimentos realizados pelo produtor na propriedade.

Na área da habitação, o Executivo anunciou que os produtores com mais de cinco anos de resultados sustentados poderão obter a propriedade da moradia construída no terreno concedido em usufruto, uma demanda apresentada durante anos pelo setor agrícola.

Representantes das cooperativas avaliaram positivamente as reformas, especialmente a maior participação que terão na avaliação dos produtores e na destinação de terras. Para o governo, essas medidas buscam criar melhores incentivos para aumentar a produção nacional e recuperar áreas improdutivas, em um contexto no qual a segurança alimentar constitui uma das principais prioridades econômicas do país.

¨      Sem energia, Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba corre risco de interromper aulas e perder filmes em produção

O site goteo.org lançou uma campanha de apoio financeiro para a autonomia energética da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños (EICTV), em Cuba.

“Nossa escola é muito mais do que um espaço acadêmico. É um lugar de criação, de encontro e de futuro. Cada projeto que começa aqui é uma voz que quer contar uma história, um olhar que busca existir. Mas hoje, essas vozes correm o risco de se apagar por causa da instabilidade no fornecimento de energia elétrica. Por isso lançamos esta campanha: para construir, passo a passo, a autonomia energética da EICTV”, diz o site.

As doações variam de 10 a mil euros, com recompensas como “um livro digital editado pela editora da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, além da participação em um workshop on-line e cinco números para o sorteio de um workshop presencial de duas semanas na escola”.

A primeira fase para alcançar a autonomia energética da EICTV será na área de pós-produção, “onde as histórias ganham sua forma definitiva. Com os recursos desta primeira campanha, instalaremos estações portáteis de energia com painéis solares e baterias para proteger esse processo de trabalho, fundamental para a conclusão das obras audiovisuais.

A compra e a instalação de painéis solares para fornecer energia durante o dia e de estações de energia (baterias) para armazená-la e completar os processos durante a noite garantirão fornecimento constante por, no mínimo, oito horas”.

A segunda fase concentra-se nas salas de aula e na área docente, com o objetivo de “assegurar que as aulas não sejam interrompidas nem afetadas pela falta de energia; também nesta fase buscamos autonomia elétrica para as áreas de escritórios docentes e administrativos. Estender a autonomia energética ao restante das áreas de ensino por meio de sistemas fotovoltaicos fixos e baterias de armazenamento para garantir o funcionamento elétrico completo da escola durante o dia”.

<><> Transformação sustentável

O passo seguinte será de longo prazo: “nosso objetivo final vai além de resistir à crise atual. Buscamos uma transformação sustentável em toda a EICTV para que ela se torne uma escola 100% funcional com energias renováveis e reduza drasticamente a dependência de combustíveis fósseis e a pegada de carbono da instituição”.

E incentivaram: “apoiar esta campanha é apostar na continuidade da criação, na formação de novas gerações de cineastas e na possibilidade de que suas histórias continuem existindo. Porque, quando a energia se apaga, as histórias também se apagam”.

A EICTV é uma referência mundial na formação audiovisual, cuja “principal característica e fator de diferenciação é nosso modelo de aprender fazendo, no qual estudantes de todo o mundo convivem e produzem cinema. Hoje, nossa continuidade está ameaçada pela crise energética que atravessa a ilha de Cuba.

“Em nosso campus convivem habitualmente mais de 100 estudantes de diversas partes do mundo. Aqui vivemos, aprendemos e formamos a maior comunidade audiovisual do mundo.”

Como o espírito criativo de toda arte é irrefreável, a instituição afirmou: “Queremos continuar sendo um espaço aberto ao mundo, onde estudantes de diferentes países e culturas possam se encontrar, aprender e criar, e onde a presença de professoras e professores internacionais continue enriquecendo nosso processo formativo. Apostamos em seguir impulsionando o desenvolvimento de projetos audiovisuais e em acompanhar nossas ex-alunas e nossos ex-alunos em sua integração às redes profissionais do setor”.

Ao longo de quatro décadas, “a EICTV formou milhares de profissionais. Hoje podemos dizer, com orgulho, que somos uma das maiores e mais diversas comunidades audiovisuais do mundo. Por isso, esta campanha é dirigida a todas as pessoas que passaram por nosso campus, e também àquelas que passarão no futuro: às que já fazem parte desta história e às que ainda irão escrevê-la. Somar-se a esta iniciativa é sustentar um projeto coletivo, apostar na criação, na educação e na continuidade de uma comunidade que não para de crescer”.

A EICTV consolidou-se como uma referência internacional na formação de cineastas, recebendo estudantes de todo o mundo e colocando a excelência no ensino audiovisual no centro de sua missão. Ao longo de sua história, formou milhares de profissionais que hoje integram a indústria cinematográfica e televisiva global, com obras presentes em festivais de prestígio como Cannes, Berlim, San Sebastián e Havana. Seu modelo pedagógico, baseado na prática intensiva e no intercâmbio direto com professores convidados de reconhecido prestígio, permitiu manter um alto nível acadêmico e um impacto cultural significativo na região.

Fonte: Por Atilio A. Boron, na Página 12/TeleSUUR/Prensa Rural/Diálogos do Sul Global

 

Brasil é país que mais viu tarifas aumentarem desde que Trump voltou ao poder; entenda os impactos do tarifaço

Após o anúncio de novas tarifas de 25% contra produtos brasileiros feito pelo governo dos Estados Unidos na quarta-feira (15/07), o Brasil passará a ser o país que mais viu aumento de alíquotas americanas desde a volta de Donald Trump à Casa Branca, em comparação com os 30 países que mais exportam para os EUA.

Quando Joe Biden encerrou seu mandato em janeiro de 2025, a tarifa efetiva média dos EUA contra produtos brasileiros era de 1,19%. Atualmente a tarifa efetiva média é de 11,66%. No final deste mês, quando as medidas do governo Trump entrarem em vigor, a tarifa contra o Brasil terá subido para 14,42% — um salto de mais de 13 pontos percentuais.

Nenhum outro país viu um salto de tarifas tão grande desde que Trump voltou ao poder — apesar de diversos países terem sofrido também aumento nas suas alíquotas. As tarifas efetivas de importação subiram 9,57 pontos percentuais para produtos da Coreia do Sul, 8,39 para Tailândia, 7,7 para o Japão e 7,48 pontos para a China.

Os dados atualizados nesta quinta-feira (16/07) são de uma iniciativa chamada Global Trade Alert (GTA), em que números de comércio global são compilados pelo St. Gallen Endowment, um centro de estudos independente baseado na Suíça. Esses dados já incluem o novo anúncio feito pela Casa Branca.

Os dados do GTA compilados com exclusividade a pedido da BBC News Brasil consideram apenas as tarifas efetivas (ou seja, as que realmente são cobradas em cima dos produtos) e não as tarifas nominais (que são as explícitas na legislação e anunciadas pelo governo).

Existe uma diferença entre as duas alíquotas, já que os EUA listam diversas exceções de produtos brasileiros que não precisam pagar as mesmas alíquotas (confira abaixo na reportagem).

A alíquota nominal anunciada pela Casa Branca é de 25%, mas na prática — considerando os mais de 2 mil produtos que são ou isentos dessas tarifas ou recebem alíquota menor — a tarifa efetiva média é de 14,42%, segundo o cálculo do GTA.

Produtos brasileiros só têm taxação menor do que a dos chineses — a tarifa efetiva média para importados da China nos EUA chegará a 21,5% no final deste mês.

Antes do anúncio, o Brasil era o 13º país com a maior tarifa efetiva média nos EUA.

O novo tarifaço de Trump fez o Brasil ultrapassar 11 países no ranking dos mais tarifados do mundo: Turquia, Indonésia, Vietnã, Tailândia, Japão, Coreia do Sul, Alemanha, Índia, Áustria, Suécia e Itália.

<><> Exceções

O Brasil foi alvo de uma grande investigação comercial iniciada em julho do ano passado — na qual acusa o governo brasileiro de uma série de práticas comerciais desleais.

Em junho, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês), que conduziu a investigação, havia sugerido em um documento de 107 páginas diversas medidas de retaliação contra o Brasil, com tarifas de 25% sobre os produtos brasileiros.

Nesta quarta-feira, o governo americano anunciou sua decisão final, que é levemente mais branda do que a sugestão dada pelo USTR no mês passado.

A proposta original da USTR teria elevado as tarifas efetivas médias contra produtos brasileiros a 14,89%, pelos cálculos do GTA. Agora a entidade suíça calcula que a tarifa média será de 14,42%.

As tarifas americanas incidem sobre milhares de produtos importados como açúcar, máquinas agrícolas, vestuário, máquinas elétricas, papel e aço — mas há também uma vasta lista de exceções que foram divulgadas em um anexo em junho.

Na nova decisão desta semana, os EUA incluíram outros produtos como mel orgânico, ferro-gusa e café solúvel sem sabor na lista de isenções.

Os EUA fizeram consultas em audiências públicas abertas a todos os setores da economia. O documento divulgado pelo governo americano nesta semana afirma que nas consultas as autoridades receberam comentários de setores industriais dos EUA, alegando que alguns produtos brasileiros deveriam entrar na lista de exceção das tarifas.

Entre os motivos alegados estão o fato de que alguns desses produtos são de difícil substituição, apresentam risco de causar interrupções na cadeia de suprimentos ou pouco contribuiriam para os objetivos da investigação dos EUA.

Apenas um quarto dos produtos brasileiros vão pagar a tarifa máxima de 25%, segundo o GTA. Isso significa que dos US$ 39,6 bilhões exportados pelo Brasil para os EUA — usando valores de 2024 — cerca de US$ 8,5 bilhões estariam sujeitos a alíquota máxima.

<><> Impacto

Para Rodrigo Zeidan, professor da New York University Shanghai, na China, e da Fundação Dom Cabral, mesmo com a grande quantidade de exceções na lista, alguns produtores brasileiros podem sofrer com o novo tarifaço.

"A lista é longa. Não vai ser 25% em tudo. Grande parte do que exportamos para eles está na lista exceção, logo o impacto será menor", disse Zeidan à BBC News Brasil.

"Mas [o tarifaço] afeta muita gente sim, porque eles negaram autorização para produtos manufaturados industrializados específicos. E esses produtos são muito mais difíceis de você achar outros compradores no mundo."

Ele diz que para indústrias que trabalham produtos homogêneos — como commodities — há menos impacto no tarifaço, pois as vendas podem ser redirecionadas a outros países sem mudanças na produção.

"Mas é mais complicado quando você produz máquinas e peças e equipamentos que são específicos para um setor. Quanto mais especializado é, mais problemático [o tarifaço] é para uma empresa."

"O tarifaço, no geral, acabou sendo muito menor do que 25%. Mas para diversas empresas o impacto vai ser bastante grande."

<><> Reação do Brasil

Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão anunciada, disse que o dia 15 de julho "passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável".

Ainda de acordo com a nota, o Brasil iniciará os trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade aprovada pelo Congresso Nacional e levará o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Na terça-feira (14/07), antes do anúncio oficial das tarifas, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo brasileiro poderia adotar a reciprocidade caso os Estados Unidos confirmassem um novo tarifaço contra o Brasil.

"A gente chegou a suspender a tramitação do processo de reciprocidade, seguindo a lei do Congresso Nacional, quando houve uma espécie de volta atrás no tarifaço. Com isso agora, acho que é provável que a gente, uma vez consultado o presidente Lula, retome o processo de reciprocidade. Tudo isso dentro de um cenário de avaliação cautelosa", afirmou a jornalistas.

O anúncio das tarifas já era esperado por diplomatas ouvidos em caráter reservado pela BBC News Brasil e pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa.

Em entrevista concedida há duas semanas à BBC News Brasil, o ministro afirmou que o governo brasileiro ainda tentava negociar um acordo de última hora com Washington, mas já admitia a possibilidade de um desfecho desfavorável para o país.

O professor Rodrigo Zeidan acredita que o Brasil tem capacidade para adotar medidas de reciprocidade — mas que isso pode gerar uma nova retaliação americana. Nesse caso, é difícil prever o que aconteceria.

"Os Estados Unidos disseram que as negociações continuam. É possível haver negociação. Mas a atenção dos americanos às vezes muda muito rápido."

<><> Fim de outro tarifaço

Johannes Fritz — diretor do St. Gallen Endowment que compilou os dados do GTA — ressaltou que as tarifas americanas contra produtos brasileiros estão entrando em vigor poucos dias antes do fim de um outro tarifaço americano de 10% contra diversos países do mundo, inclusive o Brasil.

Em fevereiro, Trump assinou uma proclamação com base na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, que lhe permitia impor uma nova tarifa temporária de 10% sobre produtos de todos os países.

Mas em maio essa tarifa foi derrubada por um tribunal. No entanto, elas seguem em vigor enquanto tramita um recurso e devem expirar apenas em 26 de julho. Em um breve período de quatro dias — entre 22 e 26 de julho — a alíquota efetiva contra produtos do Brasil será de 18,17%, pelos cálculos do GTA.

<><> O que é a investigação contra o Brasil?

Em julho do ano passado, o governo dos EUA abriu uma investigação comercial contra o Brasil com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento legal que permite a Washington apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos.

O procedimento, conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), resultou nas medidas de retaliação, como a imposição de tarifas adicionais sobre exportações brasileiras, anunciadas nesta quarta-feira.

O governo americano concluiu, em relatório divulgado no mês passado, que certas práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA".

Um dos alvos do documento americano é o sistema de pagamentos Pix.

"O Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento.

O governo americano acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no Pix — "como regulador e proprietário/operador" — criando um "conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".

O documento do USTR de 107 páginas divulgado em junho trouxe conclusões da investigação em seis áreas distintas:

•        Comércio digital e serviços de pagamento eletrônico: segundo o governo americano, "tribunais brasileiros emitiram decisões sigilosas determinando que empresas americanas de redes sociais removam determinados conteúdos políticos e suspendam perfis de residentes nos Estados Unidos — em alguns casos, com alcance global —, além de proibirem as plataformas de informar os usuários sobre essas ordens". O documento fala em imposição de multas elevadas, restrições ao acesso a ativos, contas e sistemas de pagamento no Brasil e, em pelo menos um caso, o bloqueio total de um site.

•        Tarifas preferenciais consideradas injustas: "por meio de acordos comerciais preferenciais de escopo limitado com México e Índia — que abrangem setores nos quais esses países são produtores avançados e competitivos globalmente —, o Brasil concede tarifas mais baixas e tratamento preferencial a centenas de produtos mexicanos e indianos em diversos setores".

•        Combate à corrupção: "o Brasil não adota medidas de fiscalização suficientes para enfrentar práticas de suborno e corrupção".

•        Proteção à propriedade intelectual: "o Brasil não reforça adequadamente a aplicação de suas leis penais e normas aduaneiras para combater produtos falsificados"; "não resolve a demora excessiva na análise de pedidos de patentes, especialmente no setor biofarmacêutico"; e "não mantém ações consistentes e contínuas contra a pirataria".

•        Acesso ao mercado de etanol: em 2017, "o Brasil interrompeu abruptamente o tratamento tarifário anteriormente equilibrado para o etanol e, desde então, não passou a oferecer reciprocidade às exportações americanas".

•        Desmatamento ilegal: apesar de contar com um arcabouço legal para combater o desmatamento ilegal, "o Brasil historicamente não consegue aplicá-lo de forma eficaz, e a prática persiste".

Analistas afirmam que o governo Trump vem usando investigações da seção 301 como alternativa a outra proposta de tarifaço que foi derrubada pela Suprema Corte do país.

Em fevereiro, o tribunal decidiu que Trump extrapolou sua autoridade ao usar uma lei diferente — a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) de 1977 – para impor tarifas abrangentes a parceiros comerciais dos EUA, incluindo o Brasil.

A legislação usada agora — a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — resistiria a contestações judiciais, na avaliação de especialistas.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Para não se render à cibermediocridade

A palavra medíocre carrega hoje um peso que sua origem latina jamais previu. Mediocris descrevia simplesmente quem estava no meio, equilibrado entre extremos. Para Horácio, a aurea mediocritas, a mediocridade dourada, era uma aspiração: a virtude de quem recusa tanto a miséria quanto o excesso. Estar no meio era, para os antigos, uma forma de sabedoria, não de vergonha.

A virada começa com a modernidade. Quando o Romantismo eleva o gênio individual como ideal supremo, ocupar o meio deixa de ser equilíbrio e passa a ser insuficiência. Ser médio é não ser extraordinário. Numa cultura que progressivamente confunde valor com distinção, a mediocridade perde sua neutralidade descritiva e se torna acusação: o medíocre não falhou tecnicamente, mas recusou o esforço de ultrapassar o suficiente.

É sobre essa palavra já carregada que a inteligência artificial generativa opera uma terceira alteração, focada na forma que lidamos com o próprio algoritmo. Proponho chamar essa terceira transformação semântica de cibermediocridade. A cibermediocridade sendo essa terceira figura: a submissão ao output sem questionamento, permanecendo em uma média gerada com uma aceitação não irrestrita. Mais precisa e mais perturbadora do que seus predecessores semânticos, mas no momento em que publicamos sem examinar o que recebemos e sem assumir o que entregamos, abdicamos de algo que não é o talento. É a responsabilidade em prol da comodidade.

A inteligência artificial generativa não criou este problema. Ela o tornou visível e o acelerou. A tendência de publicar sem examinar existia antes dos modelos de linguagem. A literatura científica oferece um exemplo eloquente desse problema. Para quem duvida basta buscar o número de artigos científicos que são retratados, só em 2023 mais de 10 mil artigos foram retratados segundo dados da Revista Pesquisa FAPESP. Com a utilização cada vez maior da Inteligência artificial o que muda é a escala, a velocidade, e um elemento novo: a aparência de competência com que textos são gerado.

O output gerado por IA raramente parece hesitante. Ele chega estruturado, fluente, com o ritmo e a confiança de quem domina o assunto. E é precisamente essa fluência que seduz. O cérebro humano, diante de uma fonte que soa como especialista, tende a reduzir o escrutínio. A psicologia cognitiva mostra que tendemos a confiar mais em informações processadas com facilidade. Daniel Kahneman chamou esse fenômeno de facilidade cognitiva (cognitive ease): quando algo parece claro, fluente e familiar, nosso cérebro tende a examiná-lo menos criticamente.

Em contextos nos quais a fluência exigia conhecimento especializado, confiar em quem parecia competente costumava ser uma estratégia adaptativa. Contudo, em um mundo onde modelos de linguagem podem gerar prosa de aparência impecável, esse atalho se torna uma armadilha sedutora. Será que deixamos de agir sobre o que recebemos e passamos apenas a reagir a ele?

Quem reage ao output sem interrogá-lo, aceitando a conclusão da máquina apenas porque ela soa como a de um especialista, já iniciou esse deslocamento. A fluência da máquina desarmou o impulso de questionar antes que ele pudesse se formar. E no momento em que publica sem examinar o que recebeu e sem assumir o que entrega, abdica de algo que não é o talento. É o julgamento. E é precisamente aí que o problema deixa de ser técnico e se torna ético.

Esse risco não permanece apenas no plano psicológico. Quando o julgamento é terceirizado em ambientes institucionais, ele produz consequências concretas. O caso mais revelador não veio de um usuário descuidado, mas de uma das maiores consultorias do mundo. Em 2024, o governo australiano contratou uma grande consultoria internacional para realizar uma revisão independente de seu sistema de conformidade de bem-estar social. O relatório entregue continha muitas páginas com informações aparentemente relevantes e uma aparência de rigor que se esperava. Só que este estava repleto de referências a fontes e especialistas que não existem. A empresa havia usado inteligência artificial para redigir partes do documento, o que em si não configura o problema que discutimos aqui, mas sem verificar o que a máquina produziu exemplificamos a cibermediocridade em ação. A assinatura da consultoria estava na capa. O julgamento que essa assinatura deveria representar não estava nas páginas. O governo australiano recebeu de volta parte do valor pago. A reputação construída em décadas não foi reembolsada junto.

O contraponto existe, e é igualmente público. O artista turco-americano Refik Anadol cria instalações de grande escala usando sistemas de aprendizado de máquina treinados em vastos acervos culturais. O processo é profundamente distribuído, atravessando sistemas algorítmicos, acervos de dados e redes de colaboradores. Mas Anadol não desaparece atrás da tecnologia. Ele define os parâmetros, seleciona o material, molda a experiência e assume publicamente a responsabilidade por cada camada do trabalho. Quando sua instalação Unsupervised foi exibida no MoMA em 2022, ele falou abertamente sobre cada decisão, dos dados às escolhas estéticas. O processo era híbrido, mas a autoria permanecia singular. A singularidade da autoria de Anadol está na responsabilidade, que permaneceu inteiramente sua independentemente de quantas camadas tecnológicas participaram do processo. A diferença entre os dois não é tecnológica. É a presença de quem assina.

Há um equívoco confortável que a cibermediocridade alimenta: o de que, quando a produção é distribuída entre humano e máquina, a responsabilidade pelo resultado também se distribui. Como se o algoritmo fosse um coautor que absorve parte do ônus do que é publicado.

A máquina não responde por nada. Ela não tem reputação a perder, não é chamada a prestar contas, não sofre consequências quando o output está errado ou causa dano. Quem assina é o humano. E assinar não é um gesto burocrático: é a declaração pública de que aquele conteúdo passou pelo julgamento de alguém que se responsabiliza por ele.

É por isso que a cibermediocridade é um problema ético antes de ser técnico ou estético. Não se trata de saber se o texto ficou bom ou se a imagem é bonita. Trata-se de saber se quem assinou estava presente no processo de decidir o que aquilo significa e pelo que responde. A qualidade do output não absolve a ausência de julgamento. Um texto impecável publicado sem exame é tão problemático quanto um texto ruim, porque em ambos os casos o que falta é o mesmo: alguém que responda por ele.

Esta é a reconfiguração que a cibermediocridade opera na autoria: não a elimina formalmente, mas a esvazia por dentro, deixando o nome intacto onde a presença deveria estar. Em termos precisos, a cibermediocridade é a condição em que a geração escala mais rápido do que o julgamento: a produção se multiplica enquanto a capacidade de examinar, defender e responder pelo que é produzido permanece estagnada ou recua. É um problema institucional antes de ser individual, porque prospera em ambientes que recompensam volume e punem a lentidão do exame.

Seria um erro ler o argumento até aqui como uma crítica à inteligência artificial. Não é. A cibermediocridade não é um efeito colateral da tecnologia: é uma escolha humana diante dela. E como toda escolha, admite alternativa.

Quem examina o output antes de publicar, quem devolve à máquina o que não serve, quem decide o que fica e o que sai, esse usa inteligência artificial de forma autoral. Porque autor, aqui, significa uma coisa precisa: quem assume as consequências do que assina.

É nesse sentido que a cibermediocridade revela um paradoxo do nosso tempo. Nunca foi tão fácil produzir, e raramente foi tão tentador fazê-lo sem pensar. O que se torna escasso é a disposição de responder pelo que se produz. Numa cultura que recompensa quem produz mais e aparece primeiro, o gesto mais raro e necessário é também o mais radical: o silêncio do exame antes da assinatura. Estar presente no que se assina não é um ato de produtividade; é um ato de dignidade. É a nossa última forma de garantir que, em um mundo saturado por máquinas podem produzir respostas, apenas pessoas podem responder por elas.

 

Fonte: Por Helio Miranda Costa Junior, em Outras Palavras

 

5 dicas para comer cuscuz no café da manhã convivendo com diabetes

Presente no café da manhã de muitas famílias, o cuscuz pode fazer parte da alimentação de pessoas com diabetes. O cuidado, segundo especialistas, está na quantidade consumida, na forma de preparo e na combinação com outros alimentos da refeição.

Segundo Carol Netto, nutricionista e educadora em diabetes, a resposta é sim. No entanto, o consumo exige atenção à quantidade, ao preparo e ao equilíbrio com outros alimentos ricos em carboidratos.

O cuscuz é produzido a partir do milho e, por isso, é fonte de carboidratos. Isso significa que ele aumenta a glicose no sangue e deve ser incluído no planejamento alimentar de quem vive com diabetes.

<><> O cuscuz aumenta a glicose?

Carol Netto explica que o cuscuz possui índice glicêmico moderado, ou seja, a velocidade com que ele eleva a glicose no sangue não é das mais rápidas nem das mais lentas.

Mesmo assim, isso não significa que ele possa ser consumido sem controle.

Além de fornecer vitaminas A e do complexo B, o alimento contém carboidratos que precisam ser considerados na alimentação diária. Segundo a nutricionista, uma colher de sopa de cuscuz contém cerca de 5 gramas de carboidratos.

Para quem faz contagem de carboidratos, essa informação ajuda no cálculo da quantidade de insulina necessária antes da refeição.

Já quem não utiliza esse método pode recorrer à substituição de alimentos para evitar o excesso de carboidratos em uma mesma refeição.

<><> Como consumir cuscuz convivendo com diabetes

A nutricionista reforça que o cuscuz pode fazer parte da alimentação, desde que seja consumido com moderação. Ela também destaca que ele funciona de forma semelhante a outros alimentos ricos em carboidratos, como arroz, macarrão e tapioca.

Confira cinco orientações para incluir o alimento no café da manhã.

>>> 1. Controle a quantidade

Quanto maior a porção, maior tende a ser o impacto na glicemia. Se a pessoa consumir mais de um cuscuz ou aumentar muito a quantidade no prato, a carga de carboidratos da refeição também aumenta. Por isso, controlar a porção é um dos primeiros cuidados.

>>> 2. Faça a contagem de carboidratos, se esse for o seu tratamento

Quem utiliza insulina e faz contagem de carboidratos deve considerar que cada colher de sopa de cuscuz fornece cerca de 5 gramas de carboidratos.

Segundo Carol Netto, esse cálculo permite ajustar corretamente a dose de insulina antes da refeição.

>>> 3. Se não faz contagem, faça substituições

Para quem convive com diabetes tipo 2 e não realiza contagem de carboidratos, a orientação é evitar somar vários alimentos ricos em carboidratos na mesma refeição.

Se a escolha for o cuscuz, o ideal é não consumir pão ao mesmo tempo, por exemplo.

Essa estratégia ajuda a controlar melhor a quantidade total de carboidratos ingerida.

>>> 4. Atenção ao preparo com manteiga

O modo de preparo também interfere na resposta da glicemia.

Segundo a nutricionista, algumas pessoas preparam o cuscuz com manteiga. A gordura presente nesse ingrediente funciona como um freio na digestão dos carboidratos.

Isso significa que a glicose pode não subir rapidamente logo após a refeição. No entanto, cerca de três a quatro horas depois, esse aumento pode acontecer justamente por causa do efeito da gordura sobre a digestão.

Por isso, quem monitora a glicemia deve observar esse comportamento após consumir a combinação.

>>> 5. Não transforme o cuscuz em alimento diário

Carol Netto explica que o cuscuz pode ser consumido por pessoas com diabetes, mas não precisa fazer parte do café da manhã todos os dias.

Assim como arroz, macarrão e tapioca, ele é uma fonte de carboidratos e deve entrar em uma alimentação equilibrada, alternando com outras opções.

<><> Cuscuz é saudável, mas isso não elimina os cuidados

O fato de o cuscuz ser derivado do milho faz com que muitas pessoas o considerem um alimento saudável. De acordo com Carol Netto, ele realmente é uma fonte de carboidrato de origem vegetal e também fornece vitaminas.

No entanto, isso não significa que seu consumo seja livre para quem vive com diabetes.

A nutricionista lembra que alimentos considerados saudáveis também podem elevar a glicose quando consumidos em excesso. Por isso, a quantidade continua sendo um dos principais fatores para manter o controle glicêmico.

 

Fonte: Um Diabético

 

A política do tempo: por que o fim da escala 6×1 é uma luta pela sustentabilidade da vida

O debate sobre o fim da escala 6×1 voltou ao centro da cena política brasileira. Trabalhadores e trabalhadoras reivindicam mais tempo para viver. Parte do empresariado reage com previsões de aumento de custos, perda de competitividade e redução da produtividade.

Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

O que está em disputa não é apenas uma jornada de trabalho. O que está em disputa é a forma como organizamos o tempo da vida. Afinal, para quem deve servir a economia? À acumulação do capital ou à sustentação da vida humana?

Durante décadas, aprendemos a pensar a economia quase exclusivamente a partir da produção de riqueza. Crescimento, produtividade e lucro transformaram-se em indicadores centrais do sucesso de uma sociedade. Nesse modelo, o trabalho aparece como motor da economia, enquanto tudo aquilo que sustenta a própria vida permanece invisível.

É justamente essa lógica que a economista feminista Cristina Carrasco nos convida a inverter. Em vez de perguntarmos como tornar as pessoas mais produtivas para o mercado, deveríamos perguntar como organizar a economia para garantir a sustentabilidade da vida humana.

Essa mudança de perspectiva altera completamente o centro do debate.

Quando colocamos a vida no centro, muda também aquilo que entendemos por riqueza.

O cotidiano do cuidado não é um “resto” da vida econômica. É justamente o que torna a vida e a própria economia possíveis.

Todos os dias, alguém prepara alimentos, limpa uma casa, acompanha uma criança à escola, acolhe uma pessoa adoecida, cuida de um idoso, organiza a rotina de uma família, educa, escuta, conforta e mantém vivos os vínculos que sustentam nossa existência coletiva.

Nada disso movimenta bolsas de valores.

Pouco disso aparece nos indicadores econômicos.

Mas absolutamente tudo isso torna possível que a economia continue funcionando.

É exatamente nesse ponto que Silvia Federici nos ajuda a compreender uma dimensão estrutural do capitalismo. A acumulação de riqueza nunca dependeu apenas da exploração do trabalho assalariado. Ela também se apoiou na apropriação silenciosa do trabalho reprodutivo realizado gratuitamente, sobretudo pelas mulheres. Tornar esse trabalho invisível foi uma condição para explorá-lo sem remuneração, naturalizando a ideia de que cuidar da vida seria uma obrigação feminina, e não um trabalho essencial para a reprodução da sociedade.

Essa invisibilidade não é casual.

Ela é produzida e continuamente reproduzida por aquilo que Helena Hirata denomina divisão sexual do trabalho. Mesmo com a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, a responsabilidade pelo cuidado continua distribuída de forma profundamente desigual. As mulheres conquistaram espaço no trabalho remunerado, mas não foram liberadas do trabalho doméstico, do cuidado com crianças, idosos e pessoas adoecidas, nem da organização cotidiana da vida.

Não substituímos uma jornada pela outra.

Acumulamos ambas.

Por isso, o debate sobre o fim da escala 6×1 nunca foi neutro.

Ele tem gênero.

Para muitas mulheres, a jornada termina no trabalho formal apenas para recomeçar em casa. O chamado “dia de descanso” frequentemente se transforma em um dia dedicado ao trabalho invisível que mantém a vida funcionando.

Não estamos apenas diante de uma desigualdade na distribuição das tarefas.

Estamos diante de uma profunda desigualdade na distribuição do tempo.

Nancy Fraser denomina esse processo de crise do cuidado. Enquanto o mercado exige jornadas cada vez mais intensas, acelera ritmos de trabalho e amplia a disponibilidade permanente das pessoas, os Estados reduzem investimentos em políticas públicas e as famílias absorvem responsabilidades cada vez maiores. E, dentro das famílias, essa sobrecarga continua recaindo, majoritariamente, sobre as mulheres.

Nossa economia trata o cuidado como se fosse um recurso infinito.

Mas o cuidado depende de algo profundamente finito: o tempo humano.

Quando o trabalho remunerado captura quase todo o nosso tempo, o cuidado não desaparece. Ele apenas se torna mais precário, mais exaustivo e mais invisível.

É justamente aí que o debate sobre a escala 6×1 revela toda a sua potência.

Reduzir a jornada não significa apenas trabalhar menos horas; significa redistribuir tempo social. E redistribuir tempo é também redistribuir poder.

O tempo não é apenas uma medida cronológica. É a condição material da cidadania.

Tempo para sustentar a vida, tempo para descansar, tempo para estudar.

Tempo para participar da vida política, tempo para produzir cultura, tempo para construir vínculos comunitários.

Tempo para exercer plenamente a democracia.

Não por acaso, a história do movimento sindical sempre foi uma disputa pelo tempo. A jornada de oito horas, as férias, o descanso semanal remunerado, a licença-maternidade e tantos outros direitos nunca foram apenas conquistas trabalhistas. Foram conquistas civilizatórias. Representaram o reconhecimento de que o trabalho não pode consumir toda a existência humana.

O debate sobre o fim da escala 6×1 insere-se nessa mesma tradição histórica.

Mas há um desafio que não podemos ignorar: a redução da jornada, por si só, não garante que o tempo conquistado permanecerá nas mãos da classe trabalhadora.

O capitalismo possui enorme capacidade de reinventar mecanismos de apropriação do tempo. Faz isso por meio da hiperconectividade, da disponibilidade permanente imposta pelas tecnologias digitais, da intensificação das metas, da economia de plataformas, da precarização das relações de trabalho e da mercantilização crescente da própria vida.

Por isso, disputar o tempo é também disputar seus sentidos.

O tempo conquistado não pode se transformar em mais uma oportunidade para o mercado produzir lucro; ele precisa ser um tempo para sustentar a vida. Um tempo para fortalecer a democracia, um tempo para cuidar, para conviver, para criar. Um tempo para participar da comunidade. Um tempo que não seja imediatamente capturado pela lógica da produção e do consumo.

Caso contrário, corremos o risco de permitir que o capital se aproprie, mais uma vez, daquilo que a luta coletiva conquistou.

É nesse horizonte que Joan Tronto oferece uma contribuição indispensável: o cuidado não pode continuar sendo tratado como responsabilidade privada das mulheres ou como uma obrigação exclusiva das famílias. O cuidado é uma responsabilidade coletiva, uma prática democrática e um compromisso político.

Uma sociedade verdadeiramente democrática não apenas reconhece o valor do cuidado; ela reorganiza suas instituições para compartilhá-lo.

O debate sobre o fim da escala 6×1 não terminará quando uma proposta for aprovada ou rejeitada pelo Congresso Nacional, porque ele revela uma questão muito mais profunda: que sociedade desejamos construir?

Uma sociedade que continue medindo seu sucesso apenas pela capacidade de produzir riqueza? Ou uma sociedade capaz de reconhecer que a maior riqueza que existe é a própria possibilidade de sustentar a vida?

Não estamos discutindo apenas uma escala de trabalho. Estamos discutindo um projeto de sociedade. Um projeto que insiste em tratar o cuidado como responsabilidade privada das mulheres, o descanso como privilégio e o tempo como mercadoria, quando todos eles são condições indispensáveis para sustentar a vida.

O cotidiano do cuidado não é um “resto” da vida econômica. É justamente o que torna a vida e a própria economia possíveis.

Se a economia depende da vida para existir, então é a vida que precisa voltar a ocupar o centro das decisões políticas. Porque o tempo não é apenas uma categoria econômica. O tempo é uma categoria política.

E decidir quem tem direito ao tempo é decidir, em última instância, quais vidas importam, quais vidas merecem cuidado e quais vidas queremos sustentar coletivamente.

•        Fim da 6x1 permitirá 'trabalhar melhor para produzir mais', diz Paulo Paim

O fim da escala 6x1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés de diminuir, previu o senador Paulo Paim (PT-RS) em pronunciamento no Plenário nesta quarta-feira (15). Ele argumentou que países com jornadas menores apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.

— Não estamos propondo trabalhar menos para produzir menos. Estamos propondo trabalhar melhor para produzir mais. Uma jornada de 40 horas semanais com certeza significa mais saúde, mais qualidade de vida, mais tempo para estudar, mais convivência familiar e melhores condições para que o trabalhador desenvolva todo o seu potencial — declarou.

O senador citou dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre Alemanha, Dinamarca e Países Baixos, e apontou que o Brasil trabalha mais horas por ano, mas produz menos por hora.

Segundo o parlamentar, a medida pode reduzir afastamentos por problemas de saúde. Ele mencionou estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) que associam jornadas exaustivas ao aumento do risco de doenças cardiovasculares e de mortes relacionadas ao excesso de trabalho

Aprovada em maio pela Câmara, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que também reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, aguarda votação no Senado.

Ao defender a proposta, Paim disse esperar que o Senado vote a matéria em agosto, após o recesso parlamentar.

•        Quaest: Maioria apoia fim da escala 6x1 e diz que usaria tempo livre para descansar

Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (15) mostra que 69% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6x1, contra 22% que se dizem contrários.

O percentual a favor variou pouco desde julho de 2025 (69%), passando por 72% em dezembro de 2025 e 68% em maio de 2026.

🔎 A proposta reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana em até 14 meses e permite o fim da escala 6x1.

A proposta, que acaba com a jornada de seis dias de trabalho por um de folga, já é conhecida pela maioria da população. 75% dos entrevistados disseram saber que a Câmara aprovou o fim da escala 6x1 e que o texto agora tramita no Senado, enquanto 25% ficaram sabendo apenas ao responder à pesquisa.

Apesar do apoio majoritário, a população se divide sobre os efeitos práticos da mudança: 50% acreditam que, se aprovada, passarão a trabalhar menos horas por semana, enquanto 45% não acreditam nisso e 5% não souberam responder.

A Quaest também perguntou o que os entrevistados pretendem fazer com seu tempo livre, caso a proposta seja aprovada. Veja as respostas:

•        Descansar e passar mais tempo com a família: 53%

•        Buscar outro trabalho ou fazer hora extra para aumentar a renda: 13%

•        Fazer cursos/estudar: 12%

•        Ir à igreja ou à cerimônias religiosas: 9%

•        Passear/ir a bares e restaurantes/fazer festas: 6%

•        Viajar: 4%

•        Não sabe/não respondeu: 3%.

O levantamento foi encomendado pela Genial Investimentos e ouviu 2.004 eleitores entre os dias 10 e 13 de julho. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro no TSE é BR-07181/2026.

 

Fonte: Por Duda Quiroga, em Brasil 247/Agencia Senado