terça-feira, 1 de julho de 2025

Pastor critica ato de Bolsonaro e alerta para uso eleitoral da fé

Em vídeo divulgado nas redes sociais nesta semana, o pastor Daniel Batista, fundador do movimento Igreja Sem Política, fez duras críticas ao ato promovido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados, marcado para este domingo (29) na Avenida Paulista. A manifestação, organizada sob o lema “Justiça Já”, reúne políticos, líderes religiosos e apoiadores da direita cristã. As informações são portal O Fuxico Gospel.

Para Batista, a proposta do evento é menos sobre justiça e mais sobre mobilização eleitoral. “Essas convocações de rua visam a eleição do ano que vem. Eles estão trabalhando por poder e influência”, afirmou. Segundo ele, o uso da palavra “justiça” fora de seu contexto teológico é uma forma de manipulação da fé cristã: “O termo justiça no Evangelho de Cristo é usado para proclamar a vida redentora dele. Jamais poderia ser aplicado para fins ideológicos e gestores”.

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O pastor ainda criticou o que chama de “cristianismo político”, classificando o movimento como uma “heresia moderna” e denunciando a instrumentalização do nome de Jesus para atender interesses partidários. “Esses caras estão cumprindo a agenda do diálogo inter-religioso, usando causas sociais para unir católicos e evangélicos. Estão vendendo a ideia de que a redenção agora não vem mais pela cruz, mas por meio do Estado, por partidos e candidatos”, declarou.

Daniel Batista alertou para o que vê como uma nova forma de idolatria política travestida de religiosidade. “Eles dizem que a Igreja precisa eleger os cristãos escolhidos por Deus para governar. Isso não é evangelho, é manipulação”, afirmou. Para ele, o lema Justiça Já representa um uso estratégico da linguagem bíblica com objetivos eleitoreiros.Com uma atuação cada vez mais visível nas redes sociais, o pastor tem se destacado como uma das principais vozes evangélicas contrárias à mistura entre fé e política partidária. Seu movimento, Igreja Sem Política, defende a separação entre religião e disputa por poder institucional. A proposta central do grupo é manter a integridade do púlpito longe das estratégias dos palanques.

•        Ato de Bolsonaro não encheu nem dois quarteirões da Paulista

lopou de novo! O quarto ato convocado por Jair Bolsonaro (PL) na avenida Paulista após ser investigado pela Polícia Federal (PF) como líder da organização criminosa que tentou um golpe de Estado deve registrar novo recorde negativo de apoio ao ex-presidente.

Imagens transmitidas por sites bolsonaristas mostram que os apoiadores presentes não preencheram sequer dois quarteirões da avenida.

O carro de som, pago por Silas Malafaia, foi estacionado na esquina da Paulista com a rua Peixoto Gomide, que fica no final do Parque Trianon. No entanto, a aglomeração não se estendia sequer até a frente do Masp, que fica na mesma quadra.

Do lado oposto, os bolsonaristas não chegavam nem até a Alameda Rocha Azevedo, próximo quarteirão, rumo à Consolação.

Na plateia, figuras bizarras e cartazes em inglês eram mostradas em meio a bandeiras de Israel. Em cima do trio elétrico, Bolsonaro ensaiou novamente uma mensagem em inglês após o deputado Gustavo Gayer (PL-GO) fazer parte de seu discurso no idioma, para mandar mensagem para Donald Trump.

"Make Brazil Great Again", disse Bolsonaro, em tom envergonhado. A Fórum obteve imagens da hora em que Bolsonaro começou a discursar, que comprovam que o ato flopou.

<><> Skatistas invadem ato e bizarrices

Dezenas de skatistas invadiram a Avenida Paulista neste domingo (29) e fizeram um protesto poucas horas antes do ato marcado por Jair Bolsonaro (PL). O registro foi feito pelos próprios apoiadores do ex-presidente.

As imagens mostram diversos jovens chegando de skate no local marcado para o ato entoando um coro de protesto contra o ex-presidente: "eih, Bolsonaro, vai tomar no cu".

Antes mesmo de começar, o ato já colecionava fatos inusitados e cenas bizarras.

Parceiro de Eduardo Bolsonaro (PL) na empreitada conspiracionista nos EUA, Paulo Figueiredo, neto do ditador João Baptista Figueiredo, pediu para que os bolsonaristas enviarem fotos de cartazes em inglês com a promessa de que mostrará para Donald Trump e assessores.

"Coloque aqui APENAS imagens dos seus cartazes na Paulista em inglês e/ou pedindo sanções contra o Alexandre! Não precisa mostrar o seu rosto. Eu vou fazer, pessoalmente, com que estas imagens cheguem à Casa Branca!", escreveu o cúmplice de Eduardo e de Bolsonaro nos crimes contra a democracia.

As cenas bizarras surgiram logo em seguida. A primeira imagem mostra uma caricatura de Eduardo Bolsonaro com mensagem metade em português e metade em inglês.

"Fé em Deus, Eduardo Bolsonaro. Edu, nós o apoiamos. Donald Trump thank you very much", diz a mensagem.

<><> Sexta ‘micareta’ golpista do ano clama por ‘Justiça Já’, mas só para Bolsonaro

A sexta ‘micareta golpista’ do ano foi realizada neste domingo (29) na Avenida Paulista, convocada por Jair Bolsonaro e aliados sob o slogan “Justiça Já”, numa tentativa de pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) em meio ao julgamento que já tornou o ex-presidente réu por suposto envolvimento nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Por volta das 15h30 Bolsonaro discursou. Em tom de balanço político, afirmou ter chegado à Presidência em 2018 por um “milagre” — citando a facada que sofreu em Juiz de Fora — e creditou parte do sucesso ao trabalho do filho, o vereador Carlos Bolsonaro, a quem chamou de peça-chave de sua estratégia de comunicação.

Bolsonaro lamentou a derrota na eleição de 2022, voltou a atacar o STF — que, segundo ele, “pôs a mão pesada na balança” — e afirmou ter sido alvo de acusações de genocídio e racismo. Criticou novamente o resultado das urnas e justificou sua saída do país dizendo que “jamais passaria a faixa para um ladrão”, em referência ao presidente Lula.

No trecho mais polêmico, Bolsonaro minimizou o ataque golpista de 8 de janeiro de 2023, questionando as prisões e as condenações dos envolvidos. Disse que não havia armas, que “apenas estilingues e bolinhas de gude” foram apreendidos, e chamou as penas — que chegam a 17 anos de prisão — de “brutal injustiça”.

O ex-presidente inelegível e às portas da prisão ainda pediu apoio político para voltar a ter força no Congresso: “Se vocês me derem 50% da Câmara e 50% do Senado, eu mudo o destino do Brasil. Nem preciso ser presidente. Faremos isso por vocês”, disse.

<><> Tropa bolsonarista

O ato começou por volta das 14h, em frente ao vão livre do Masp, na Avenida Paulista. Além de Bolsonaro, estão presentes s governadores Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Cláudio Castro (RJ) e Jorginho Mello (SC), além de senadores como Marcos Rogério, Flávio Bolsonaro e Magno Malta, todos do PL, e o presidente do partido, Valdemar Costa Neto.

Deputados como Marco Feliciano, André do Prado, Bia Kicis e Gustavo Gayer, além do vice-prefeito de São Paulo, Coronel Ricardo Mello Araújo, também participaram.

Por volta das 15h, Tarcísio discursou defendendo Bolsonaro, criticando o governo federal e os juros altos, pedindo anistia e prometendo “resposta nas urnas”. Depois, o pastor Silas Malafaia atacou o STF por decidir sobre a responsabilidade das redes sociais por postagens criminosas.

<><> Anistia para golpistas

Além do apoio a Bolsonaro, o evento reforça pedidos anteriores, como a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, os “malucos” - como disse Bolsonaro durante depoimento ao ministro Alexandre de Moraes no dia 10 de junho sobre os próprios apoiadores - “que ficam com aquela ideia, de AI-5, intervenção militar”.

Manifestantes vestiam verde e amarelo, agitavam bandeiras do Brasil, EUA e Israel, concentrados próximo ao palco montado no cruzamento com a Alameda Ministro Rocha Azevedo.

Este é o sexto grande ato convocado pelo ex-presidente na Paulista desde que deixou o Planalto. Para os organizadores, o tamanho do público importa menos do que o recado político de pressionar o STF em nome de “justiça” e “liberdade”.

Ao rolar o feed no X, as imagens da "micareta golpista" mostram menos público — dependendo do ângulo, se não for montagem, IA ou foto antiga. Público menor ou não, há muito “maluco”.

•        Bolsonaro dá tom messiânico a novo ato com Tarcísio, que busca espólio eleitoral de radicais

Em seu quarto ato na Avenida Paulista desde 2024, quando foi colocado pela Polícia Federal (PF) no centro das investigações sobre a organização criminosa golpista, Jair Bolsonaro (PL) tenta dar um ar messiânico e usou uma linguagem religiosa para atrair extremistas, especialmente os doutrinados em prol do sionismo por meio das igrejas evangélicas neopentecostais - um dos nichos eleitorais mais fiéis ao ex-presidente.

Para conclamar apoiadores ao ato na manhã deste domingo (29), organizado mais uma vez pelo guru Silas Malafaia, Bolsonaro se referiu ao Brasil como "a Terra Prometida do Ocidente", parafraseando a narrativa sionista sobre Israel - a "Terra Prometida", que fica no Oriente -, que "deve ser livre e do povo de bem".

Repetindo antigos chavões, se vitimizando pela "perseguição", Bolsonaro afirmou na noite deste sábado (28) que fará um "discurso diferente", mas sem antecipar quaisquer novidades à ladainha de que é investigado "nesse golpe fictício, aí, nessa fumaça chamada golpe de Estado. Não tem nada contra mim".

A novidade, no entanto, vem da aceitação do ex-presidente, inelegível e prestes a ser preso por comandar a tentativa de golpe de Estado, de que não há condições para ser candidato em 2026 e já negocia condições além do indulto com Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), cada dia mais perto de encabeçar a candidatura anti-Lula da Terceira Via.

O governador paulista, que enfrenta resistência na horda mais radical do presidente e de nomes próximo como o próprio Malafaia, além de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deve acenar para o eleitorado mais radicalizado, tentando unir o espólio do ex-presidente aos anseios da Terceira Via.

Tarcísio, que não se pronunciou sobre o ato nas redes e tem sido criticado por não apoiar a conspiração de Eduardo nos EUA, já teria se comprometido em dar indulto a Bolsonaro, caso chegue ao Planalto.

Além disso, o ex-presidente tenta convencer Tarcísio a se afastar da Faria Lima - ao menos no discurso e nos acenos -, temendo o embate com Lula, que reagiu ao golpe dos ricaços com o embate entre quem defende ricos e quem defende pobres.

Tarcísio, no entanto, não tem intenção de se afastar dos endinheirados da Faria Lima, a quem serve com as privatizações em massa no governo, mas sabe que precisa dos votos dos radicais de Bolsonaro para vencer Lula em 2026.

•        Inelegível, Bolsonaro diz que não precisa ser presidente “para liderar o país”

Durante ato esvaziado realizado neste domingo (29) na Avenida Paulista, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou que não precisa retornar à Presidência da República para exercer influência sobre os rumos do país. “Me deem 50% da Câmara e do Senado que eu mudo o destino do Brasil, nem preciso ser presidente”, declarou Bolsonaro em discurso a apoiadores. As informações são da CNN Brasil.

Inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que o condenou por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação nas eleições de 2022, Bolsonaro sugeriu que sua liderança poderá ser exercida mesmo fora do cargo. Para ele, a chave está na formação de uma base parlamentar majoritária. “Se me derem isso, não interessa onde esteja, aqui ou no além, quem assumir a liderança vai mandar mais que o presidente”, disse, em referência ao papel estratégico do Congresso.

O ex-mandatário destacou que com maioria nas duas Casas legislativas, é possível eleger o presidente do Congresso, controlar comissões importantes e decidir o rumo de sabatinas para cargos públicos. “Maioria das comissões de peso no Senado e Câmara. Nas sabatinas decidimos quem prosseguirá”, afirmou, sinalizando a intenção de manter influência política por meio do Partido Liberal (PL), do qual continua presidente de honra.

“Apelo aos três poderes da República: sentem e conversem, pacifiquem o Brasil. Não quero crer que seja vingança de uma pessoa ou de outra. Queremos um Congresso altivo, um STF respeitado, Executivo trabalhando para o bem-estar do povo”, declarou.

•        Bolsonaro diz que é processado por “fumaça de golpe” e culpa esquerda pelo 8 de janeiro

Em nova manifestação realizada neste domingo (29), na Avenida Paulista, em São Paulo, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a mobilizar seus apoiadores sob o slogan “Justiça Já”, em protesto contra os julgamentos de envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Durante seu discurso, Bolsonaro voltou a negar qualquer responsabilidade pelos ataques aos prédios dos Três Poderes em Brasília e classificou o processo por tentativa de golpe de Estado, atualmente em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), como “fumaça de golpe”. “Se alguém quebrou alguma coisa que pague. Agora, julgar e prender por baciada, isso não existe no nosso ordenamento jurídico”, declarou o ex-presidente.

Ele também repetiu a alegação de que os atos de 8 de janeiro teriam sido orquestrados pela esquerda: “Um movimento mais do que claro orquestrado pela esquerda. Lula não estava em Brasília. No dia anterior, foi para Araraquara, porque sabia o que iria acontecer. Tanto que as imagens de quase 200 câmeras sumiram. Tudo foi quebrado antes daquelas pessoas que parte estavam no acampamento chegaram”, disse Bolsonaro.

Ao tentar se desvincular das acusações, Bolsonaro citou medidas adotadas no fim de seu mandato como prova de uma transição pacífica. “Nomeamos dois comandantes de força a pedido desse cara que está no governo agora. Quem quer dar golpe nomeia comandantes a pedido do governo opositor?”, questionou, referindo-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “No dia 30, algo me fez sair do Brasil. Não era apenas para não passar a faixa? Jamais eu passaria a faixa para um ladrão”, completou.

Sem citar diretamente ministros do STF ou do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-presidente também criticou decisões judiciais sobre os envolvidos nos ataques. “Que arma foi apreendida? Busquem as polícias legislativas da Câmara e do Senado. Nenhuma arma foi apreendida além de um estilingue e umas bolinhas de gude. Que tentativa armada é essa?”, ironizou. “Golpe se dá com forças armadas, com armamento, com o núcleo financeiro, com núcleo político, com apoio de instituições inclusive fora do Brasil. Que golpe é esse, meu Deus do céu?”

•        Ao lado de Bolsonaro, Tarcísio ataca Lula e volta a defender anistia a golpistas

Durante manifestação realizada neste domingo (29) na Avenida Paulista, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), voltou a defender o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e direcionou críticas contundentes ao governo Lula (PT). As declarações ocorreram durante o ato “Justiça Já”, que reuniu apoiadores da extrema-direita e aliados políticos do ex-presidente.

“A gente está aqui para pedir justiça, pedir anistia, pedir a pacificação”, afirmou Tarcísio, em discurso breve. Embora não tenha feito menções diretas aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o governador questionou, mais uma vez, a inelegibilidade de Bolsonaro, afirmando que o ex-presidente é alvo de uma “injustiça”.

Tarcísio, que foi ministro da Infraestrutura durante o governo Bolsonaro, voltou a afirmar que nunca ouviu seu ex-chefe defender atos antidemocráticos — mesmo tendo silenciado durante transmissões em que Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas e o ministro Alexandre de Moraes, do STF.

O governador paulista também aproveitou o ato para intensificar críticas ao atual governo federal. Citou prejuízos nos Correios, voltou a falar em corrupção e puxou um coro contra o PT: “Fora, PT”, gritou, em meio a aplausos da multidão. Em tom claramente voltado às eleições de 2026, afirmou: “O Brasil não aguenta mais a corrupção, o governo gastador, o juro alto. Vamos dar uma resposta no ano que vem”.

Mesmo cotado como um dos principais nomes da centro-direita para a disputa presidencial, Tarcísio tem reiterado que não pretende se candidatar ao Planalto.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), também presente no evento, elevou o tom ao colocar o indulto ao pai como condição para apoiar qualquer presidenciável em 2026. “O candidato vai ter que brigar com o STF por isso, se necessário, até com o uso da força”, afirmou à Folha neste mês.

 

 Fonte: Brasil 247/Fórum

 

O que significa ser um bom pai, biologicamente falando?

Ser um bom pai não é algo fácil de definir.

Na verdade, nossa ideia de "bom pai" não é determinada apenas pela espécie a que pertencemos, e mesmo entre os Homo sapiens, os contextos culturais fizeram com que o "pai ideal" do século XXI não tenha absolutamente nada a ver com o que seria considerado um bom pai para um homem da antiga Pérsia imperial.

Essa diversidade sociocultural se multiplica ainda mais quando comparamos com a enorme diversidade biológica do mundo animal.

Existem todos os tipos de comportamentos imagináveis (e também inimagináveis) por parte dos pais (os genitores do sexo masculino) em relação aos seus filhos.

Contudo, do ponto de vista estritamente biológico, seria possível sim encontrar uma definição objetiva de "bom pai" com base em argumentos da evolução.

Sob essa ótica, um bom pai seria aquele que garante a sobrevivência de sua prole, pelo menos até que ela atinja a maturidade sexual. Ou seja, todo comportamento paterno que aumente as chances de reprodução dos filhos seria considerado uma caraterística vantajosa, algo que aumente a eficiência biológica da espécie e, por isso, tende a ser favorecido pela seleção natural.

Os cuidados parentais, portanto, trazem benefícios evolutivos. Mas, por mais estranho que pareça, são surpreendentemente raros. Por quê?

•        Pais que não são presentes — e nem se espera que sejam

A primeira razão estaria relacionada com o nosso hábito de tentar identificar se o bebê recém-nascido se parece mais com a mãe ou com o pai.

Em muitas espécies que passam por fases larvais, essa discussão seria irrelevante, porque "a criatura" não se parece com nenhum dos pais.

Sua aparência é radicalmente diferente. Tanto que, quando o conhecimento biológico era ainda mais limitado, as diferentes fases de vida de muitas espécies eram frequentemente consideradas não apenas espécies diferentes, mas grupos (filos) completamente distintos.

Na verdade, essas diferenças entre pais e filhos não são apenas anatômicas e fisiológicas, mas também ecológicas.

Isso quer dizer que os filhotes, em suas fases iniciais de vida, não compartilham o mesmo habitat que os pais e vivem em "mundos" diferentes.

Vamos pegar um exemplo conhecido por todos: os mosquitos.

As larvas dos mosquitos são como "minhocas" que vivem, comem, respiram e se desenvolvem na água, enquanto seus pais vivem em outro mundo: o aéreo.

Nessas condições, a interação é praticamente nula, a convivência não existe e os cuidados parentais não são possíveis.

Poderíamos pensar que, quando não há fase larval, os pais se importariam mais com seus filhotes, pressupondo que cuidariam daquilo que se parece com eles.

Mas podemos descartar essa hipótese. Na maioria das espécies, os pais simplesmente ignoram a própria prole assim que os ovos eclodem.

•        O que determina se os pais cuidam ou não dos filhos?

São vários os fatores que parecem influenciar, e para entendê-los é necessário ter em mente uma obviedade: é preciso estar vivo para cuidar dos filhos.

Dito isso, não poderiam ser bons pais todos aqueles em que o processo reprodutivo resulta na morte, como é o caso dos salmões.

Mesmo que quisessem, eles não poderiam cuidar dos seus filhotes já que, depois de subir o rio onde nasceram, eles morrem após a desova.

Outro fator a ser considerado é o número de filhos gerados em um só ciclo de reprodução. É evidente que é complicado "preparar o café da manhã" para 20 mil filhotes, ainda mais quando eles se misturam com outros 20 mil filhotes de vizinhos, o que pode acontecer com muitas espécies marinhas que se reproduzem por fecundação externa.

Assim, eliminamos a possibilidade de cuidados parentais em todas as espécies que apostam mais na quantidade para garantir a sobrevivência de alguns de seus descendentes do que na qualidade dos cuidados oferecidos a um número reduzido de filhotes.

Um terceiro fator indispensável para cuidar dos filhos é a possibilidade de ter um lugar seguro onde eles possam sobreviver enquanto os pais saem em busca de alimentos.

A existência desse "ninho-lar" é uma característica comum entre mamíferos e aves, além de insetos sociais, como as abelhas e as formigas.

O ambiente em que os filhotes crescem também influencia bastante, tornando os cuidados parentais essenciais para garantir sua sobrevivência.

Por exemplo, as fêmeas do aracnídeo Mastigoproctus giganteus transportam seus filhotes em uma câmara incubadora localizada no abdômen, garantindo a umidade essencial para que eles sobrevivam em ambientes extremamente áridos.

Ainda mais curioso é como, no caso de algumas espécies predadoras, a própria natureza delas influencia esse comportamento.

Um exemplo interessante é o de muitos tubarões, que utilizam as chamadas nursery grounds, uma espécie de "berçários" submarinos, onde as mães-tubarão nadam ao redor dos seus filhotes, protegendo-os contra ataques dos próprios machos da espécie.

Mas, talvez, o que mais determina a existência de cuidados parentais seja o nível de dependência dos filhotes, ou seja, seu grau de indefesa por não terem capacidade de se alimentar e sobreviver sozinhos.

Aqui incluímos todas as espécies de mamíferos — que dependem da amamentação materna durante a primeira fase de vida—, mas também a maioria das aves, que precisam de cuidados depois do nascimento até começarem a se desenvolver de forma autônoma.

Se juntarmos todos esses requisitos, os cuidados parentais se desenvolveram principalmente em espécies que não morrem após a reprodução, que têm desenvolvimento direto (sem fase larval), que têm poucos descendentes, que não veem seus filhotes como possível alimento e, o mais importante, cujos filhotes precisam dos pais para sobreviver.

Nesse grupo extremamente reduzido de espécies estariam, basicamente, os insetos sociais, aves modernas e os mamíferos euterianos, cujo desenvolvimento embrionário ocorre dentro do útero.

•        Pais presentes e ativos

Os vertebrados não mostram uma grande variedade de formas de cuidar dos filhotes, e parece haver uma certa predominância de um tipo de cuidado nos grupos evolutivos de cada linhagem.

Nos poucos peixes ósseos que cuidam dos filhotes, geralmente são os machos que assumem essa função. No conhecido exemplo dos cavalos-marinhos, é o pai cavalo-marinho que carrega a prole até que eles possam nadar livremente.

Nesse caso, a fêmea se limita a depositar os ovos fecundados na bolsa ventral do parceiro, que é quem fica "grávido".

Por sua vez, os machos cíclidos, que incluem alguns peixes de água doce, secretam uma espécie de leite-muco pela pele, do qual se alimentam os filhote, embora essa tarefa seja compartilhada com as mães.

No entanto, o caso mais conhecido de pais presentes e ativos no cuidado dos filhotes é o das aves, em que o cuidado é majoritariamente biparental.

Esse comportamento é consequência do desenvolvimento homeotérmico de seus embriões, ou seja, os ovos precisam estar quentes para serem chocados. Se esfriarem, o desenvolvimento embrionário é interrompido.

Nessa atividade intensa e contínua, a seleção natural permitiu o revezamento e favoreceu a monogamia social. Em 95% das espécies de aves, os casais permanecem juntos durante a temporada de reprodução e ambos os pais chocam os ovos.

•        O vínculo entre mãe e filho no caso dos mamíferos

Nos mamíferos, os cuidados "parentais" são majoritariamente maternos.

Nós temos a sorte dos embriões não serem devorados por predadores, pisoteados, ou vítimas de várias outras circunstâncias que afetam as espécies ovíparas.

No nosso caso, o desenvolvimento embrionário e fetal acontece dentro do útero materno, quentinho, seguro e aconchegante. Esse vínculo entre mãe e filho continua durante o período de amamentação (que também é responsabilidade das fêmeas).

Tudo isso representa um enorme aumento na taxa de sobrevivência dos filhotes. No caso dos primatas — e especialmente dos seres humanos —, as habilidades da espécie se multiplicam quando se dedica muito tempo a "ensinar", desenvolvendo uma herança dupla (genética e cultural).

Isso merece uma reflexão importante: a grande vantagem que a viviparidade representa para os mamíferos é paga quase exclusivamente pelas fêmeas (no nosso caso, pelas mulheres).

Assim, o "bom pai humano" tem a fascinante possibilidade de equilibrar essa balança injusta com amor, tempo e ensinamento aos filhos.

Felizmente, cada vez mais homens estão descobrindo esse privilégio.

 

Fonte: A. Victoria de Andrés Fernández, The Conversation

 

Por que escovar os dentes é bom para o seu cérebro

Quando encontramos uma pessoa com uma doença cardiovascular, Alzheimer ou diabetes, não pensamos que ela possa não ter escovado os dentes corretamente.

Associamos a falta de higiene bucal a problemas na boca, como cáries, inflamação das gengivas e mau hálito, mas não a complicações em outras partes do corpo.

Ainda assim, uma boa saúde bucal é essencial para um ótimo funcionamento de todo o corpo.

As doenças bucais podem contribuir para o desenvolvimento de doenças sistêmicas.

De fato, há novas evidências de que as bactérias da boca podem chegar a outros lugares do corpo e causar problemas. Inclusive em nosso cérebro!

Em geral, cada pessoa tem entre 100 e 200 espécies de bactérias orais das 700 espécies identificadas.

Quando perguntamos a uma pessoa quantas bactérias ela acha que existem por mililitro de saliva, ela geralmente subestima a resposta correta: temos cerca de 100 milhões de bactérias por mililitro de saliva.

Essas bactérias vivem nos dentes, na língua, gengivas e outras superfícies orais.

Ali, elas formam comunidades estruturadas, como a placa dentária e o revestimento de língua branca.

Mas calma!

Em geral, esses microrganismos serão nossos amigos enquanto cuidarmos deles.

Em primeiro lugar, eles nos protegem contra patógenos (organismos que podem causar doenças) externos.

Efeitos positivos

Quando uma nova bactéria entra na boca, é muito difícil ela sobreviver porque existe um exército de bactérias que habita aquele espaço.

Além disso, bactérias orais benéficas convertem nitrato de frutas e verduras em nitrito.

Isso pode ter efeitos positivos no corpo, como redução da pressão arterial e efeitos antidiabéticos.

Normalmente, nossas próprias bactérias não são patogênicas, mas podem causar doenças bucais em pessoas saudáveis por conta de hábitos pouco saudáveis.

Uma dieta não saudável ou falta de higiene bucal podem causar um desequilíbrio: alguns tipos de bactérias aumentam em número e outros, diminuem.

Isso é chamado de "disbiose".

Por exemplo, se consumimos açúcar, as bactérias localizadas na placa dental que ingerem açúcar aumentam em número.

Estas convertem o açúcar em ácidos orgânicos.

Algumas produtoras de ácido são muito resistentes, enquanto as mais sensíveis morrem.

Se consumimos muito açúcar, as bactérias que comem açúcar e produzem ácido aumentam tanto na placa dental que a acidificação danifica o esmalte.

Com o tempo, isso pode produzir cáries.

A placa, inimiga do corpo

Outro exemplo mais relevante para doenças sistêmicas são as doenças periodontais.

Devido à falta de uma higiene bucal adequada, a placa dental se acumula.

Então, nosso corpo reage com a inflamação das gengivas, o que inclui um aumento nos componentes antibacterianos e células do sistema imunológico para reduzir o número de bactérias.

Se não tratarmos essa inflamação, as bactérias mais resistentes à resposta inflamatória podem aumentar em número, enquanto as mais sensíveis morrem.

Além disso, devido à inflamação, são produzidas mais proteínas que provêm de um soro gengival semelhante ao sangue, que sai do sulco gengival.

Elas se transformam em alimento para algumas bactérias, estimulam seu acúmulo e, assim, criam um círculo vicioso.

Se a inflamação inicial, que chamamos de gengivite e geralmente é reversível não for tratada, uma inflamação crônica e destrutiva pode se desenvolver: a periodontite.

A periodontite causa a perda de tecido humano e a formação de bolsas periodontais cheias de bactérias ao redor dos dentes.

Outras doenças

Existem evidências de que a periodontite pode contribuir para o desenvolvimento de diferentes complicações e doenças sistêmicas.

Ter periodontite aumenta o risco de, por exemplo, artrite reumatoide, aterosclerose, hipertensão, Alzheimer, diabetes e complicações no parto.

Em pessoas com periodontite, diferentes mecanismos podem contribuir para o desenvolvimento de outras doenças.

Por exemplo, a grande quantidade de moléculas pró-inflamatórias produzidas pelas células humanas nas gengivas inflamadas pode atingir outras partes do corpo e causar reações inflamatórias nessas áreas.

Ir ao dentista para tratar a periodontite é importante para reduzir as chances dessa inflamação.

Além disso, descobriu-se que algumas bactérias que aumentam durante a periodontite e os compostos produzidos por elas podem atingir diferentes partes do corpo pelo sangue ou via gastrointestinal.

Essas bactérias foram detectadas dentro de células imunológicas que circulam no sangue, na placa aterosclerótica, placenta e tumores intestinais, entre outros.

A bactéria mais estudada associada à periodontite é a Porhyromonas gingivalis e foram encontrados vários mecanismos que explicam como ela pode contribuir para a inflamação destrutiva das gengivas e o aparecimento de doenças sistêmicas.

Às vezes, ela é encontrada em pequenas quantidades em pessoas saudáveis, mas é comum em bolsas periodontais de pessoas com periodontite.

Recentemente, um grupo de pesquisadores estudou o cérebro de pessoas que morreram com Alzheimer.

Eles encontraram o DNA da Porhyromonas gingivalis e enzimas chamadas gengivinas, que degradam as proteínas humanas.

Além disso, a quantidade dessas enzimas foi correlacionada com a gravidade da doença.

Os pesquisadores então administraram grandes quantidades dessa bactéria em ratos, e o patógeno conseguiu colonizar o cérebro.

Os animais desenvolveram sintomas relacionados à doença de Alzheimer, mas aqueles que receberam tratamento com gengivina, um inibidor desenvolvido pelos autores do estudo, se saíram melhor.

Uma conclusão foi que a Porhyromonas gingivalis poderia atingir o cérebro e, ao longo dos anos, contribuir para o desenvolvimento da doença de Alzheimer.

O corpo humano saudável tem uma relação mutuamente benéfica com a microbiota humana, incluindo a microbiota oral.

Devido à higiene inadequada ou dieta pouco saudável, as bactérias orais podem causar complicações na boca e no resto do corpo.

Duas vezes ao dia

A American Dental Association recomenda escovar os dentes duas vezes por dia com creme dental com flúor (1.000 - 1.500 ppm), limpar diariamente os dentes e visitar o dentista regularmente.

As doenças bucais não devem ser deixadas sem tratamento.

Nesse sentido, nos Estados americanos em que os tratamentos bucais são reembolsados, os seguros gastam menos dinheiro com diabetes, derrames e ataques cardíacos.

Lembre-se de que outros fatores, como tabagismo (e também cigarros eletrônicos) e a suscetibilidade genética, aumentam o risco de desenvolver doenças bucais e sistêmicas.

Ainda assim, uma boa higiene bucal é a chave para prevenir doenças orais.

Além de mostrar um sorriso melhor, é importante manter uma boa saúde em todo o corpo.


Fonte: Por Bob T. Rosier e Alejandro Mira Obrador, The Conversation


 

Gustavo Guerreiro: O ódio separatista, a arte libertadora e o futuro de uma nação

Palavras definem fronteiras. Volta e meia a bravata separatista emerge das brumas do Sul do país. Não é nova, nem original. É um disco arranhado, que insiste em tocar a mesma música sem graça.

Desta vez, a regência coube ao governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), que, em mais um de seus arroubos, resolveu flertar com a ideia de que o Sul — essa entidade supostamente coesa e homogênea — estaria melhor por conta própria. A premissa, como sempre, é a de um simplismo pueril.

Disse Mello, com os aplausos dos governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), e do Paraná, Ratinho Júnior (PSD): “Daqui a pouco, se o negócio não funcionar muito bem lá para cima, nós passamos uma trena para o lado de cá e fazemos ‘o Sul é nosso país’, né? ”.

É um discurso que tem um público significativo, não podemos negar. Serve de combustível para uma ideologia construída não por suas virtudes intrínsecas, mas pela oposição a um “outro” caricaturado.

Falam em Brasil, mas o alvo preferencial é o Nordeste. O problema, e aqui está o cerne de nossa conversa, é que essa narrativa não é apenas politicamente tóxica; ela é, fundamentalmente, uma fraude econômica e um desserviço à inteligência nacional.

A falácia econômica sobre a qual se assenta o tal separatismo sulista é de uma fragilidade atroz. É inegável que os estados da região, junto com São Paulo, concentram uma parcela significativa do PIB nacional e, claro, da arrecadação de tributos federais.

O que a retórica indigente do “nós contra eles” convenientemente omite é a pergunta subsequente e essencial: para onde vai a riqueza produzida em Santa Catarina, no Paraná e no Rio Grande do Sul?

A indústria têxtil de Brusque, os polos de tecnologia de Florianópolis, a cerâmica de Criciúma ou a pujança do agronegócio do oeste paranaense não prosperam no vácuo.

Seus produtos, para existirem e gerarem lucro, dependem de um mercado consumidor de mais de 200 milhões de pessoas. Aquele mesmo Brasil, que na cabeça do governador parece ser apenas um fardo, é o principal cliente.

Uma Santa Catarina independente, por um passe de mágica que desafia a lógica e o direito internacional, teria de exportar seus produtos para o seu maior mercado, o Brasil, pagando tarifas de importação e enfrentando uma burocracia que hoje simplesmente não existe.

A ideia de que a região floresceria isolada é um delírio narcísico, um sofisma econômico que não resiste a cinco minutos de conversa com qualquer estudante de economia sério.

Mais do que isso, a infraestrutura que permite o escoamento dessa produção, como as rodovias federais como a BR-101, os portos modernizados com aportes da União e a energia que alimenta o parque fabril, oriunda de um sistema interligado nacional, não brotou do chão por obra divina.

Ela é fruto de um esforço nacional, financiado por um sistema federativo que, com todas as suas distorções e necessidades de aprimoramento (e elas são muitas, como a eterna discussão sobre a Lei Kandir), se baseia em um princípio civilizatório básico: a solidariedade.

O pacto federativo brasileiro, inscrito na Constituição de 1988, não é um contrato de contabilidade pura e simples, onde cada um leva para casa exatamente o que depositou no caixa comum. É um arranjo político e social pensado para mitigar as desigualdades abissais de um país de dimensões continentais.

Os repasses federais para o Norte e o Nordeste não são um “favor” ou um ato de caridade; são um instrumento de coesão, uma tentativa de garantir que um cidadão nascido em Exu, no sertão de Pernambuco, tenha acesso a um mínimo de dignidade, saúde e educação, assim como um cidadão nascido na abastada Balneário Camboriú. Questionar isso não é defender uma “revisão justa” do pacto; é atacar a própria ideia de nação.

Ao criar um inimigo externo (“Brasília”, “o governo federal”, “o Nordeste”), a retórica separatista oferece uma válvula de escape fácil e perigosa.

Ela nutre o estereótipo xenófobo do nordestino “acomodado”, que vive de programas sociais, ignorando a complexidade da história econômica do Brasil, que por séculos concentrou investimentos e poder no Centro-Sul, gerando o desequilíbrio que hoje se pretende corrigir.

Da Catalunha aos Bálcãs, o nacionalismo que se funda na suposta superioridade econômica ou cultural é o primeiro passo para a desintegração e o ódio. É um discurso dito nacionalista quer se sustentar na antítese dele próprio.

Curiosamente, a mais célebre peça cultural que fala em separação vem justamente do alvo preferido desse preconceito: o Nordeste.

Refiro-me à cançao “Nordeste Independente”, dos geniais Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova, imortalizada na voz potente de Elba Ramalho.

Seus versos são um trator passando por cima da hipocrisia: “Já que existe no Sul esse conceito / Que o Nordeste é ruim, seco e ingrato / Já que existe a separação de fato / É preciso torná-la de direito”.

Há uma diferença fundamental. A canção nordestina não é um projeto de poder, não parte de um sentimento de superioridade. Ela é um lamento, um grito, um desabafo poético de um povo historicamente alijado que, cansado de ser estigmatizado, usa a ironia como arma.

É um exercício de imaginação que pergunta: “Se somos o fardo, por que não nos deixam em paz com nossa cultura, nossa gente e nosso destino? ”.

É uma afirmação de identidade e valor, não uma proposta política concreta. Se a retórica sulista é uma agressão; a canção nordestina é uma reação.

O mais irônico, talvez, seja a ocsaião da bravata desse governador. Ela ressurge no exato momento em que o Brasil assiste assustado a elevação dos níveis dos rios, em uma possível volta da tragédia climática sem precedentes no Rio Grande do Sul, que foi a prova mais cabal e dolorosa da nossa interdependência.

Vimos um país inteiro se mobilizar. Doações, voluntários, recursos federais, a solidariedade veio de todos os cantos, de Belém a Porto Alegre, desmontando na prática o castelo de cartas do “cada um por si”.

Na hora da dor real, a fantasia separatista se desmancha no ar, revelando o que sempre foi: um argumento vazio de elites racistas.

Serve, no entanto, a um propósito político muito claro: o de ser uma cortina de fumaça. Enquanto o governador inflama sua base mais radicalizada com o aceno separatista, desvia a atenção dos problemas urgentes e reais de seu próprio estado.

Santa Catarina, longe de ser o paraíso ordeiro que a propaganda vende, enfrenta desafios gravíssimos. A desigualdade social é explícita entre o litoral desenvolvido e o interior esquecido; a violência no campo persiste.

O estado se tornou um dos principais focos de células neonazistas no país. É infinitamente mais cômodo culpar um inimigo abstrato, “o Brasil”, do que encarar as próprias contradições. É a velha tática de apontar o dedo para o vizinho enquanto a própria casa pega fogo.

Essa narrativa consolida uma base eleitoral que se sente sitiada e incompreendida. É um projeto de poder que se alimenta da desunião, garantindo votos para uma extrema-direita que vê na fragmentação do país o caminho para a sua hegemonia regional.

É preciso uma resposta à altura do desafio, como a construção de um “Pacto pela Unidade Nacional”.

Não me refiro a um documento vazio de boas intenções. Falo de uma iniciativa concreta, liderada por governadores de todas as regiões, do Sul ao Norte, que se comprometa em debater, com seriedade e dados, a reforma do pacto federativo, como a guerra fiscal entre os estados e as profundas desigualdades regionais, que precisa ser feito de forma adulta, sem a conhecida histeria da extrema direita.

O sonho separatista do governador Jorginho Mello não é apenas um projeto economicamente inviável; é um atentado contra a Constituição brasileira. É uma proposta que nos empobreceria a todos, não apenas nos cofres, mas no espírito. Um Brasil amputado de qualquer uma de suas partes seria um Brasil menor, mais fraco e infinitamente mais triste.

A questão que fica, e que deveria nos revoltar, é: até quando permitiremos que figuras tão mesquinhas ameacem o futuro de uma nação que só pode ser grande se for inteira?

Como derradeira inspiração, a síntese perfeita do Brasil na canção “João e Maria”, composta pelo carioca Chico Buarque e o paraibano Sivuca, e magistralmente interpretada pelo gaúcho Yamandu Costa e o pernambucano Dominguinhos.

 

Fonte: Viomundo

 

Por que líder supremo do Irã chefiará uma nação muito diferente quando sair do seu esconderijo

Depois de passar cerca de duas semanas em um bunker secreto em algum lugar do Irã, durante o conflito entre o seu país e Israel, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, pode querer usar a oportunidade do cessar-fogo para sair a público.

Na quinta-feira (26/6), Khamenei fez seu primeiro pronunciamento em vídeo desde os ataques dos Estados Unidos ao seu país. Segundo ele, "nada de significativo" ocorreu nas instalações nucleares atacadas no início da semana.

Khamenei tem 86 anos de idade e se tornou o líder supremo do seu país em 1989.

Acredita-se que ele tenha ficado escondido e incomunicável, temendo ser assassinado por Israel. Aparentemente, nem mesmo as principais autoridades do governo iraniano vinham mantendo contato com ele.

O líder teria sido aconselhado a ter cautela, apesar do frágil cessar-fogo negociado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pelo emir do Catar, o xeque Tamim bin Hamad al-Thani.

Trump teria supostamente instruído Israel a não matar o líder supremo do Irã, mas o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não descartou esta possibilidade.

Quando – ou até se – o aiatolá Khamenei sair do seu esconderijo, ele vai encontrar um cenário de morte e destruição. Sem dúvida, ele tentará restaurar a sua imagem. Mas Khamenei também irá enfrentar novas realidades e até uma nova era. Afinal, a guerra enfraqueceu significativamente seu país e a ele próprio.

<><> Rumores sobre dissidentes no alto comando

Durante a guerra, Israel tomou rapidamente o controle de grande parte do espaço aéreo iraniano e atacou a infraestrutura militar do país.

Altos comandantes do exército e da Guarda Revolucionária Iraniana foram mortos com rapidez.

A extensão dos danos militares ainda é incerta e contestada. Mas os repetidos bombardeios às bases e instalações do exército e da Guarda Revolucionária sugerem que a degradação do poderio militar do Irã foi substancial.

A militarização, há muito tempo, consome vasta parcela dos recursos da nação.

As conhecidas instalações nucleares do Irã renderam ao país cerca de duas décadas de sanções americanas e internacionais, com custo estimado de centenas de bilhões de dólares. Agora, estas instalações foram danificadas pelos ataques aéreos.

Mas ainda é difícil avaliar a extensão dos danos. E muitos perguntam de que serviu tudo isso.

Um grande número de iranianos irá responsabilizar pessoalmente o aiatolá Khamenei por ter colocado o Irã em curso de colisão com Israel e os Estados Unidos, o que acabou arruinando seu país e seu povo de forma considerável.

Eles irão culpar Khamenei por promover o objetivo ideológico de destruir Israel, algo que muitos iranianos não apoiam.

E também irão culpá-lo pelo que eles entendem como insensatez – a sua crença de que atingir o poderio nuclear tornaria seu regime invencível.

As sanções paralisaram a economia iraniana, reduzindo um dos principais exportadores de petróleo do mundo a uma pequena e abatida sombra do que era no passado.

"É difícil estimar quanto tempo mais o regime iraniano pode sobreviver sujeito a uma pressão tão significativa, mas este parece o princípio do fim", afirma a professora Lina Khatib, acadêmica visitante da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Para ela, "Ali Khamenei provavelmente se tornará o último 'Líder Supremo' da República Islâmica, no pleno sentido da expressão."

E vêm surgindo rumores sobre dissidências no alto comando do país.

No auge da guerra, uma agência de notícias semioficial do Irã informou que antigas figuras importantes do regime têm pedido a intervenção dos acadêmicos religiosos mais discretos do país, tentando mudar sua liderança. Estes acadêmicos são independentes do aiatolá e ficam na cidade sagrada de Qom.

"Haverá uma apuração", segundo o professor Ali Ansari, fundador e diretor do Instituto de Estudos Iranianos da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido.

"Fica muito claro que existem enormes discordâncias entre os líderes e também imensa insatisfação entre as pessoas comuns", afirma ele.

<><> 'A raiva e a frustração irão aumentar'

Nas últimas semanas, muitos iranianos enfrentaram sentimentos conflitantes entre a necessidade de defender o Irã e seu profundo rancor sobre o regime.

Eles se manifestaram a favor do seu país e saíram às ruas, não para defender o regime, mas para cuidar uns dos outros. Os relatos são de ampla solidariedade e proximidade.

As pessoas nas aldeias e cidades menores, longe das grandes áreas urbanas, abriram as portas para os que fugiam dos bombardeios nas grandes cidades. Comerciantes ofereciam produtos básicos com desconto e vizinhos batiam à porta uns dos outros para ver se eles precisavam de alguma coisa.

Mas muitas pessoas também sabiam que Israel provavelmente buscava uma mudança de regime no Irã.

Muitos iranianos desejam a mudança do regime. Mas eles talvez rejeitem uma mudança engendrada e imposta por potências estrangeiras.

O aiatolá Khamenei é um dos autocratas há mais tempo no poder em todo o mundo. E, nos seus quase 40 anos de liderança, ele dizimou a oposição do país.

Os líderes políticos oposicionistas ou estão na prisão, ou fugiram do Irã. E, no exterior, eles foram incapazes de elaborar um posicionamento que unificasse a oposição ao regime iraniano.

Os oposicionistas não conseguiram estabelecer nenhum tipo de organização que pudesse ser capaz de assumir o poder no país, se surgisse a ocasião.

O colapso do regime poderia ter sido uma possibilidade, se a guerra das últimas duas semanas permanecesse indefinidamente.

Mas, durante as duas semanas de conflito, muitos acreditaram que o cenário provável para o dia seguinte à queda do regime atual não seria a tomada do poder pela oposição, mas sim a entrada do país no caos e na anarquia.

"É improvável que a oposição doméstica derrube o regime iraniano", segundo Khatib. "O regime segue forte internamente e irá reforçar a opressão para esmagar os dissidentes."

Os iranianos, agora, receiam que o regime aumente a repressão.

Pelo menos seis pessoas foram executadas nas últimas semanas, desde o início da guerra contra Israel.

Elas foram acusadas de espionagem para o Estado judaico. E as autoridades afirmam terem detido cerca de 700 pessoas sob a mesma acusação.

Uma mulher iraniana declarou ao Serviço Persa da BBC que, mais do que a morte e a destruição causadas pela guerra, o seu receio é que um regime ferido e humilhado dirija sua raiva contra seu próprio povo.

"Se o regime for incapaz de fornecer mercadorias e serviços básicos, a raiva e a frustração irão aumentar", segundo Ansari.

"Vejo um processo em etapas. Não vejo como algo que, no sentido popular, irá necessariamente se enraizar por muito tempo após o término dos bombardeios."

Poucas pessoas no Irã acreditam que o cessar-fogo negociado na segunda-feira (23/6) vá durar muito tempo. Muitos acreditam que Israel ainda não tenha encerrado seus ataques, agora que o país detém total superioridade nos céus do Irã.

<><> Mísseis balísticos do Irã

Grande parte das bases balísticas do Irã parecem ter escapado da destruição.

Israel teve muita dificuldade para localizá-las, já que estão instaladas em túneis dentro de montanhas por todo o país.

O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, declarou que, quando seu país lançou seu primeiro ataque à República Islâmica, sabia-se que "o Irã possuía cerca de 2,5 mil mísseis de superfície".

Os mísseis disparados pelo Irã causaram mortes e considerável destruição em Israel. O Estado judaico deve estar preocupado com os 1,5 mil mísseis possivelmente restantes, ainda nas mãos do lado iraniano.

Existem também sérias preocupações em Tel Aviv, Washington e outras capitais da região e do Ocidente, de que o Irã ainda possa correr para construir uma bomba nuclear – um objetivo que o país sempre negou até agora.

As instalações nucleares iranianas, com quase toda certeza, foram danificadas – ou, possivelmente, inutilizadas – durante os bombardeios de Israel e dos Estados Unidos.

O Irã, no entanto, afirma ter transferido seu estoque de urânio altamente enriquecido para um lugar secreto e seguro.

Este estoque de urânio a 60%, se for enriquecido até 90% (o que é um processo relativamente fácil), é suficiente para produzir cerca de nove bombas, segundo os especialistas.

Pouco antes do início da guerra, o Irã havia anunciado a construção de uma nova instalação secreta de enriquecimento de urânio, que deveria entrar em operação em breve.

O Parlamento iraniano decidiu reduzir severamente sua cooperação com o órgão regulador atômico das Nações Unidas, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Esta medida ainda requer aprovação, mas, se entrar em vigor, deixará o país a um passo da sua retirada do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, como propõem as autoridades linha-dura que apoiam o líder supremo, liberando o Irã para construir a bomba.

O aiatolá Khamenei pode, agora, ter a confiança de que seu regime sobreviveu. Mas, doente e com 86 anos de idade, ele também sabe que seus dias de vida podem estar contados.

Por isso, talvez ele deseje garantir a continuidade do regime com uma transição de poder pacífica, para outro religioso sênior ou, até mesmo, um conselho de líderes.

De qualquer forma, os principais comandantes remanescentes da Guarda Revolucionária Iraniana, leais ao líder supremo, podem buscar exercer o poder nos bastidores.

¨      Irã pode começar a enriquecer urânio para bomba em alguns meses, diz chefe da agência nuclear da ONU

Irã tem capacidade para retomar o enriquecimento de urânio – para uma possível bomba – em "questão de meses", afirmou o chefe da agência nuclear da ONU.

Rafael Grossi, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), afirmou que os ataques dos EUA a três instalações iranianas no último fim de semana causaram danos graves, mas "não totais", contradizendo a afirmação de Donald Trump de que as instalações nucleares iranianas foram "totalmente destruídas".

"Francamente, não se pode afirmar que tudo desapareceu e que não há nada lá", disse Grossi neste sábado (28/6).

Israel atacou instalações nucleares e militares no Irã em 13 de junho, alegando que o Irã estava perto de construir uma arma nuclear.

Posteriormente, os EUA se juntaram aos ataques, lançando bombas sobre três instalações nucleares iranianas: Fordo, Natanz e Isfahan.

Desde então, a verdadeira extensão dos danos permanece incerta.

No sábado, Grossi disse à CBS News, parceira de mídia da BBC nos EUA, que Teerã poderia ter "em questão de meses... algumas cascatas de centrífugas girando e produzindo urânio enriquecido".

Ele acrescentou que o Irã ainda possui "capacidades industriais e tecnológicas... então, se assim o desejarem, poderão começar a fazer isso novamente".

A AIEA não é o primeiro órgão a sugerir que as capacidades nucleares do Irã ainda podem continuar - no início desta semana, uma avaliação preliminar vazada do Pentágono concluiu que os ataques americanos provavelmente apenas atrasaram o programa em meses.

É possível, no entanto, que futuros relatórios de inteligência incluam mais informações mostrando um nível diferente de danos às instalações.

Trump respondeu furiosamente, declarando que as instalações nucleares do Irã foram "completamente destruídas" e acusou a mídia de "uma tentativa de desmerecer um dos ataques militares mais bem-sucedidos da história".

Por enquanto, Irã e Israel concordaram com um cessar-fogo.

Mas Trump disse que consideraria "absolutamente" bombardear o Irã novamente se a inteligência descobrisse que o país poderia enriquecer urânio a níveis preocupantes.

O Irã, por outro lado, enviou mensagens conflitantes sobre a extensão dos danos causados.

Em um discurso na quinta-feira (26/6), o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, afirmou que os ataques não alcançaram nada de significativo. Seu ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, no entanto, afirmou que danos "excessivos e graves" foram causados.

O relacionamento já tenso do Irã com a AIEA foi ainda mais desafiado na quarta-feira (25), quando seu Parlamento decidiu suspender a cooperação com a agência de vigilância atômica, acusando a AIEA de se aliar a Israel e aos EUA.

Teerã rejeitou o pedido da AIEA para inspecionar as instalações danificadas e, na sexta-feira (27), Araghchi disse no X que "a insistência de Grossi em visitar os locais bombardeados sob o pretexto de salvaguardas é insignificante e possivelmente até mesmo maliciosa".

Israel e EUA atacaram o Irã depois que a AIEA, no mês passado, concluiu que Teerã violou suas obrigações de não proliferação pela primeira vez em 20 anos.

O Irã insiste que seu programa nuclear é pacífico e para uso exclusivamente civil.

Apesar da recusa iraniana em trabalhar com sua organização, Grossi disse esperar poder negociar com Teerã.

"Preciso conversar com o Irã e analisar isso, porque, no fim das contas, tudo isso, depois dos ataques militares, precisará de uma solução duradoura, que só pode ser diplomática", disse ele.

Segundo um acordo nuclear de 2015 com potências mundiais, o Irã não estava autorizado a enriquecer urânio acima de 3,67% de pureza – o nível exigido para combustível de usinas nucleares comerciais – e não estava autorizado a realizar qualquer enriquecimento em sua usina de Fordo por 15 anos.

No entanto, Trump abandonou o acordo durante seu primeiro mandato em 2018, alegando que ele fazia muito pouco para impedir o desenvolvimento de uma bomba, e restabeleceu as sanções americanas.

O Irã retaliou violando cada vez mais as restrições – particularmente aquelas relacionadas ao enriquecimento. O país retomou o enriquecimento em Fordo em 2021 e acumulou urânio enriquecido a 60% suficiente para potencialmente fabricar nove bombas nucleares, de acordo com a AIEA.

 

Fonte: BBC News Persa