Como
mulheres podem identificar abusos no ginecologista
Consultas
ginecológicas, exames físicos e procedimentos íntimos fazem parte da rotina de
cuidados com a saúde de uma mulher. Mas nem sempre é fácil distinguir o que faz
parte de um atendimento adequado do que pode representar uma conduta errada ou
até mesmo um abuso.
Protocolos
para a realização de exames e procedimentos existem, mas especialistas dizem
que muitas pacientes desconhecem quais explicações devem receber antes de um
toque, quando podem recusar um procedimento, solicitar um acompanhante ou
interromper uma consulta caso se sintam desconfortáveis.
O tema
voltou ao debate no Brasil após a denúncia contra um ginecologista suspeito de
filmar uma paciente durante uma consulta com uma câmera escondida num par de
óculos em Salvador, na Bahia.
O
médico chegou a ser preso, mas foi liberado após a audiência de custódia. O
episódio reacendeu discussões sobre os limites da atuação médica e os direitos
das pacientes durante consultas e exames.
"A
consulta ginecológica exige respeito absoluto à privacidade da paciente e
comunicação clara sobre cada procedimento. Perguntas e exames devem se
restringir ao necessário para o atendimento", explica a ginecologista Lia
Cruz Vaz da Costa Damásio, presidente da Comissão Nacional Especializada em
Defesa e Valorização Profissional da Federação Brasileira das Associações de
Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
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Como deve ser uma consulta ginecológica
Nem
toda consulta com um ginecologista exige exame físico. Segundo as especialistas
ouvidas pela DW, a necessidade de avaliar as mamas, realizar exame pélvico,
toque vaginal ou coletar o Papanicolau depende da idade da paciente, da queixa
apresentada, dos antecedentes clínicos, dos fatores de risco e do objetivo da
consulta. A prescrição de métodos contraceptivos, por exemplo, não exige
automaticamente a realização de exame pélvico.
Antes
de qualquer procedimento, a paciente deve ser informada sobre qual exame será
realizado, por que ele é indicado, quais partes do corpo serão examinadas e
quais sensações podem ocorrer. Também deve ter privacidade para trocar de
roupa, receber uma cobertura adequada e permanecer exposta apenas na região que
estiver sendo examinada.
"É
preciso explicar tudo o que será feito, em linguagem clara, e pedir licença
antes de cada etapa do exame", afirma a ginecologista e obstetra Fátima
Iyetunde Oladejo, especialista em perícia médica e medicina legal pela
Universidade de São Paulo (USP).
Quando
há indicação de exame das mamas, a avaliação costuma começar pela inspeção
visual, observando possíveis alterações na pele, no formato e nos mamilos. Em
seguida, é realizada a palpação das mamas e, quando necessário, das axilas.
Durante esse processo, a exposição do corpo deve ser limitada ao local
examinado, mantendo a outra mama coberta.
Já o
exame ginecológico pode incluir a inspeção da vulva e da região perineal e,
quando indicado, a introdução do espéculo para visualizar o colo do útero e
realizar a coleta do Papanicolau ou de outros testes de rastreamento. As
médicas explicam que o espéculo deve ser adequado ao perfil da paciente,
introduzido de forma delicada e somente após explicação prévia.
O toque
vaginal também não deve ser realizado de forma automática. O exame é indicado
para avaliar estruturas como útero, colo uterino e anexos, quando há
justificativa clínica. Segundo a ginecologista Luiza Sprung, da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a permissão não pode ser presumida.
Ela ressalta que o fato de a paciente ter marcado uma consulta, tirado a roupa
ou se posicionado na maca não significa autorização automática para todos os
procedimentos possíveis.
O
consentimento deve ser renovado sempre que houver mudança relevante no exame ou
a realização de um novo procedimento. Ao final da consulta, cabe ao médico
explicar os achados, esclarecer dúvidas e orientar os próximos passos do
atendimento.
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Quais condutas fogem do protocolo
Embora
exames ginecológicos envolvam procedimentos íntimos, eles seguem protocolos
éticos e técnicos voltados à proteção da paciente. Quando esses parâmetros
deixam de ser observados, a conduta do profissional pode caracterizar uma
infração ética e, em determinadas situações, também um crime.
O
Código de Ética Médica estabelece princípios que também se aplicam aos exames
ginecológicos, como o respeito à dignidade, à intimidade, à autonomia da
paciente. Ainda que não exista um capítulo específico sobre esse tipo de
atendimento, essas normas orientam a conduta dos profissionais.
"Salvo
risco iminente de morte, é vedado ao médico realizar procedimentos sem o
consentimento esclarecido", afirma o ginecologista César Eduardo
Fernandes, membro licenciado do Conselho Federal de Medicina (CFM). Segundo
ele, qualquer conduta que extrapole o exame ginecológico de rotina ou
desrespeite a privacidade da paciente pode configurar infração ética.
Na
prática, isso significa que iniciar um exame sem explicar previamente o que
será feito, realizar toques íntimos sem autorização, insistir após a paciente
se queixar de dor, medo ou pedir para interromper o procedimento são sinais de
alerta.
Também
fogem da boa conduta manter a paciente despida por mais tempo do que o
necessário, não oferecer cobertura adequada durante o exame, permitir a entrada
de outras pessoas sem autorização ou fazer comentários de cunho sexual, piadas
ou julgamentos sobre o corpo, a orientação sexual ou o comportamento da
paciente. Embora perguntas sobre a vida sexual possam ser necessárias, elas
devem estar relacionadas à assistência e ter finalidade clínica.
Outro
ponto destacado pelos especialistas é que nenhum exame pode ser imposto sem
indicação médica. Também não é aceitável condicionar a emissão de receitas,
atestados ou a continuidade do atendimento à realização injustificada de exames
íntimos. Da mesma forma, exames em pacientes sedadas ou anestesiadas exigem
consentimento prévio, assim como a participação de estudantes em consultas e
procedimentos.
Fernandes
ressalta ainda que fotografias, filmagens ou gravações durante consultas não
podem ser realizadas sem autorização prévia e específica da paciente. Apesar de
o CFM ainda não ter uma resolução específica sobre o uso de dispositivos como
óculos inteligentes, celulares ou tablets durante exames, o médico afirma que
pareceres dos conselhos de medicina orientam que esses equipamentos sejam
evitados em consultas, especialmente durante exames ginecológicos, salvo quando
houver finalidade assistencial claramente definida e consentimento específico
da paciente.
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Paciente tem direito a acompanhante
Além
dos protocolos adotados pelos serviços de saúde, a legislação brasileira também
assegura o direito da paciente de estar acompanhada por uma pessoa maior de
idade de sua escolha durante consultas, exames e procedimentos realizados em
unidades públicas e privadas.
A
presença de um acompanhante ou de uma profissional da equipe pode aumentar a
segurança e a transparência do atendimento, mas não substitui o consentimento
da paciente. "Todo contato físico realizado durante uma consulta precisa
ter finalidade clínica, ser explicado, consentido e limitado ao necessário.
Quando o profissional utiliza sua posição de autoridade para ultrapassar esses
limites, a conduta precisa ser questionada", diz Sprung.
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Como identificar abusos e denunciar
Se a
paciente perceber que um exame fugiu dos protocolos ou suspeitar de uma conduta
inadequada, a orientação é interromper o atendimento, sempre que isso puder ser
feito com segurança, e deixar o local. Em situações de risco imediato, a
recomendação é acionar a polícia militar pelo telefone 190.
Também
é importante que a paciene registre, o quanto antes, tudo o que lembrar da
consulta, como data, horário, local, nome do profissional, quem estava presente
e a sequência dos acontecimentos. Guardar receitas, comprovantes, mensagens,
e-mails e outros documentos relacionados ao atendimento também pode auxiliar
numa eventual investigação.
Nos
casos em que houver suspeita de violência sexual ou outro crime, a recomendação
é procurar imediatamente um serviço de saúde, mesmo antes do registro de
boletim de ocorrência. A equipe poderá avaliar lesões, orientar sobre a
preservação de vestígios e adotar medidas de prevenção de infecções sexualmente
transmissíveis e gravidez, quando indicadas. A paciente também pode solicitar
uma cópia integral do prontuário e dos demais registros do atendimento.
Além da
esfera criminal, a ocorrência pode ser comunicada à ouvidoria ou à direção da
clínica ou hospital e ao Conselho Regional de Medicina (CRM).
O Ligue
180 (central de atendimento à mulher do governo federal) também oferece
orientações sobre a rede de atendimento à mulher.
Sprung
ressalta que a paciente não precisa ter certeza de que houve uma infração ética
ou um crime para buscar ajuda, pois cabe às autoridades esclarecer isso.
Quem
denuncia também ajuda a proteger outras pacientes. Oladejo concorda que esse
processo pode ser emocionalmente difícil e recomenda buscar apoio psicológico
durante a investigação. "Às vezes, só a lembrança do que aconteceu já é
algo tão doloroso que reviver isso várias vezes machuca muito. Procurar um
apoio profissional é muito importante", diz.
Fonte:
DW Brasil

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