Mulheres
vivem mais, mas passam mais anos com a saúde debilitada
Um
estudo global publicado na revista científica The Lancet Public Health mostra
que, embora as mulheres vivam mais tempo do que os homens em todo o mundo, elas
passam mais anos de suas vidas convivendo com incapacidades e saúde precária
De
acordo comos dados do estudo de Carga Global de Doenças (GBD) de 2023, as
mulheres apresentaram, em média, 12,1 anos vividos com a saúde debilitada (o
que equivale a 15,9% de sua expectativa de vida total), enquanto os homens
apresentaram 9,3 anos nessas mesmas condições (representando 13,0% de sua
expectativa de vida).
O
estudo baseia-se no conceito de lacuna de morbidade que representa a diferença
entre a quantidade de anos que vivemos e a quantidade de anos que de fato
desfrutamos com plena saúde. Entre 1990 e 2023, a expectativa de vida geral
global ao nascer cresceu de 64,6 anos para 73,8 anos.
A
ginecologista Dra. Ana Paula Fabricio analisa que “Um dos momentos que merece
atenção especial nessa trajetória é a transição para a menopausa. A queda dos
níveis dos hormônios ovarianos, especialmente do estrogênio, não deve ser vista
como uma doença, mas provoca mudanças importantes em diferentes sistemas do
organismo. Nesse período, podem ocorrer alterações na composição corporal, com
maior tendência ao acúmulo de gordura abdominal, perda de massa muscular,
mudanças no metabolismo da glicose e dos lipídios, além de impactos sobre a
saúde óssea, cardiovascular, o sono e a saúde mental. Quando esses fatores se
somam ao processo natural de envelhecimento e a outros riscos modificáveis,
podem contribuir para que as mulheres vivam mais anos convivendo com doenças
crônicas e limitações.”
O
estudo sobre a Carga Global de Doenças (GBD, na sigla em inglês), publicado na
edição de agosto da revista The Lancet Public Health, aponta que mais da metade
dos anos vividos com a saúde precária em todo o mundo é impulsionado por
doenças crônicas, sendo a maioria não fatais e que representam 57,4% dos anos
de vida com saúde debilitada em 2023.
A
endocrinologista Dra. Deborah Beranger explica que “os distúrbios
musculoesqueléticos, particularmente a dor lombar, foram os que mais
contribuíram para a disparidade de morbidade, seguidos por transtornos mentais
como depressão e ansiedade, doenças dos órgãos dos sentidos, incluindo perda
auditiva relacionada à idade, quedas e outras lesões não intencionais, e outras
doenças crônicas não transmissíveis.”
Ela
ainda ressalta que o padrão mostra que a expectativa de vida entre as mulheres
não se traduz em anos de vida saudável, sendo necessário dar mais atenção às
condições e fatores de risco, visando um envelhecimento saudável.
A
pesquisa sobre BGD também expõe que, devido ao envelhecimento da população, é
necessário redobrar a prevenção de doenças crônicas, ao adiamento da
incapacidade e à garantia de acesso à reabilitação, a serviços de saúde mental
e a cuidados crônicos de longo prazo.
“Para
as mulheres, isso também significa ampliar o acesso à informação, à prevenção,
ao diagnóstico e ao tratamento individualizado das condições relacionadas à
menopausa. Não se trata apenas de aliviar sintomas, mas de aproveitar essa fase
como uma oportunidade para cuidar da saúde e favorecer mais anos vividos com
qualidade”, conclui a Dra. Ana.
• Por que as mulheres são
subdiagnosticadas em doenças cardíacas?
Durante
décadas, a cardiologia foi construída com base em estudos predominantemente
realizados em homens. Esse recorte gerou um modelo de diagnóstico e tratamento
que nem sempre reflete a realidade feminina.
Na
prática, isso significa que muitas mulheres não se encaixam no “padrão
clássico” de doença cardíaca – e acabam sendo diagnosticadas mais tardiamente,
quando o quadro já está mais avançado.
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Um erro histórico que ainda impacta o presente
Grande
parte das pesquisas que definiram critérios de risco, sintomas e condutas
clínicas teve baixa participação feminina. Isso criou uma distorção que
persiste até hoje.
A
consequência é direta: sinais típicos descritos nos livros nem sempre
correspondem ao que as mulheres sentem. E, muitas vezes, sintomas acabam sendo
subvalorizados ou atribuídos a ansiedade, estresse ou cansaço.
Esse
atraso no reconhecimento contribui para piores desfechos, incluindo maior risco
de complicações após eventos como infarto.
<><>Fatores
de risco que vão além do tradicional
Além
dos fatores clássicos, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e
tabagismo, existem condições específicas da saúde feminina que aumentam o risco
cardiovascular e ainda são pouco exploradas na prática clínica.
Histórico
de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, menopausa precoce e uso de
anticoncepcionais hormonais são exemplos importantes. Essas condições podem
deixar uma “marca” no organismo e aumentar o risco de doença cardiovascular ao
longo da vida.
Reconhecer
esses fatores é essencial para uma avaliação mais precisa e para estratégias de
prevenção mais eficazes.
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Sintomas diferentes que atrasam o diagnóstico
O
infarto em mulheres nem sempre se apresenta com a dor intensa no peito,
irradiando para o braço esquerdo, que ficou marcada como o sintoma clássico.
Muitas
mulheres relatam sinais mais sutis ou atípicos, como cansaço extremo, falta de
ar, náusea, dor nas costas, desconforto no pescoço ou mandíbula. Esses sintomas
podem ser confundidos com outras condições e acabam retardando a busca por
atendimento.
Esse
atraso é crítico, porque o tempo é determinante no tratamento das doenças
cardíacas.
<><>Reconhecer
para proteger melhor
Nos
últimos anos, a medicina vem corrigindo essas distorções, com mais estudos
voltados à saúde cardiovascular feminina e maior conscientização sobre o tema.
Ainda
assim, o desafio permanece. É fundamental que mulheres conheçam seus fatores de
risco, estejam atentas aos sinais do corpo e busquem acompanhamento regular.
Para os
profissionais de saúde, o olhar também precisa ser ampliado, considerando as
particularidades femininas desde a prevenção até o diagnóstico.
Cuidar
do coração da mulher exige mais do que aplicar protocolos tradicionais. Exige
entender diferenças – e agir a tempo.
Fonte:
CNN Brasil

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