quarta-feira, 29 de julho de 2026


 

Mulheres vivem mais, mas passam mais anos com a saúde debilitada

Um estudo global publicado na revista científica The Lancet Public Health mostra que, embora as mulheres vivam mais tempo do que os homens em todo o mundo, elas passam mais anos de suas vidas convivendo com incapacidades e saúde precária

De acordo comos dados do estudo de Carga Global de Doenças (GBD) de 2023, as mulheres apresentaram, em média, 12,1 anos vividos com a saúde debilitada (o que equivale a 15,9% de sua expectativa de vida total), enquanto os homens apresentaram 9,3 anos nessas mesmas condições (representando 13,0% de sua expectativa de vida).

O estudo baseia-se no conceito de lacuna de morbidade que representa a diferença entre a quantidade de anos que vivemos e a quantidade de anos que de fato desfrutamos com plena saúde. Entre 1990 e 2023, a expectativa de vida geral global ao nascer cresceu de 64,6 anos para 73,8 anos.

A ginecologista Dra. Ana Paula Fabricio analisa que “Um dos momentos que merece atenção especial nessa trajetória é a transição para a menopausa. A queda dos níveis dos hormônios ovarianos, especialmente do estrogênio, não deve ser vista como uma doença, mas provoca mudanças importantes em diferentes sistemas do organismo. Nesse período, podem ocorrer alterações na composição corporal, com maior tendência ao acúmulo de gordura abdominal, perda de massa muscular, mudanças no metabolismo da glicose e dos lipídios, além de impactos sobre a saúde óssea, cardiovascular, o sono e a saúde mental. Quando esses fatores se somam ao processo natural de envelhecimento e a outros riscos modificáveis, podem contribuir para que as mulheres vivam mais anos convivendo com doenças crônicas e limitações.”

O estudo sobre a Carga Global de Doenças (GBD, na sigla em inglês), publicado na edição de agosto da revista The Lancet Public Health, aponta que mais da metade dos anos vividos com a saúde precária em todo o mundo é impulsionado por doenças crônicas, sendo a maioria não fatais e que representam 57,4% dos anos de vida com saúde debilitada em 2023.

A endocrinologista Dra. Deborah Beranger explica que “os distúrbios musculoesqueléticos, particularmente a dor lombar, foram os que mais contribuíram para a disparidade de morbidade, seguidos por transtornos mentais como depressão e ansiedade, doenças dos órgãos dos sentidos, incluindo perda auditiva relacionada à idade, quedas e outras lesões não intencionais, e outras doenças crônicas não transmissíveis.”

Ela ainda ressalta que o padrão mostra que a expectativa de vida entre as mulheres não se traduz em anos de vida saudável, sendo necessário dar mais atenção às condições e fatores de risco, visando um envelhecimento saudável.

A pesquisa sobre BGD também expõe que, devido ao envelhecimento da população, é necessário redobrar a prevenção de doenças crônicas, ao adiamento da incapacidade e à garantia de acesso à reabilitação, a serviços de saúde mental e a cuidados crônicos de longo prazo.

“Para as mulheres, isso também significa ampliar o acesso à informação, à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento individualizado das condições relacionadas à menopausa. Não se trata apenas de aliviar sintomas, mas de aproveitar essa fase como uma oportunidade para cuidar da saúde e favorecer mais anos vividos com qualidade”, conclui a Dra. Ana.

        Por que as mulheres são subdiagnosticadas em doenças cardíacas?

Durante décadas, a cardiologia foi construída com base em estudos predominantemente realizados em homens. Esse recorte gerou um modelo de diagnóstico e tratamento que nem sempre reflete a realidade feminina.

Na prática, isso significa que muitas mulheres não se encaixam no “padrão clássico” de doença cardíaca – e acabam sendo diagnosticadas mais tardiamente, quando o quadro já está mais avançado.

<><> Um erro histórico que ainda impacta o presente

Grande parte das pesquisas que definiram critérios de risco, sintomas e condutas clínicas teve baixa participação feminina. Isso criou uma distorção que persiste até hoje.

A consequência é direta: sinais típicos descritos nos livros nem sempre correspondem ao que as mulheres sentem. E, muitas vezes, sintomas acabam sendo subvalorizados ou atribuídos a ansiedade, estresse ou cansaço.

Esse atraso no reconhecimento contribui para piores desfechos, incluindo maior risco de complicações após eventos como infarto.

<><>Fatores de risco que vão além do tradicional

Além dos fatores clássicos, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e tabagismo, existem condições específicas da saúde feminina que aumentam o risco cardiovascular e ainda são pouco exploradas na prática clínica.

Histórico de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, menopausa precoce e uso de anticoncepcionais hormonais são exemplos importantes. Essas condições podem deixar uma “marca” no organismo e aumentar o risco de doença cardiovascular ao longo da vida.

Reconhecer esses fatores é essencial para uma avaliação mais precisa e para estratégias de prevenção mais eficazes.

<><> Sintomas diferentes que atrasam o diagnóstico

O infarto em mulheres nem sempre se apresenta com a dor intensa no peito, irradiando para o braço esquerdo, que ficou marcada como o sintoma clássico.

Muitas mulheres relatam sinais mais sutis ou atípicos, como cansaço extremo, falta de ar, náusea, dor nas costas, desconforto no pescoço ou mandíbula. Esses sintomas podem ser confundidos com outras condições e acabam retardando a busca por atendimento.

Esse atraso é crítico, porque o tempo é determinante no tratamento das doenças cardíacas.

<><>Reconhecer para proteger melhor

Nos últimos anos, a medicina vem corrigindo essas distorções, com mais estudos voltados à saúde cardiovascular feminina e maior conscientização sobre o tema.

Ainda assim, o desafio permanece. É fundamental que mulheres conheçam seus fatores de risco, estejam atentas aos sinais do corpo e busquem acompanhamento regular.

Para os profissionais de saúde, o olhar também precisa ser ampliado, considerando as particularidades femininas desde a prevenção até o diagnóstico.

Cuidar do coração da mulher exige mais do que aplicar protocolos tradicionais. Exige entender diferenças – e agir a tempo.

 

Fonte: CNN Brasil


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