sexta-feira, 31 de julho de 2026

Humor na pré-campanha eleitoral

O Instagram é uma rede social de compartilhamento de vídeos, fotos e mensagens criado em 2010. Começou a ser utilizado no Brasil em 2012 e, atualmente, contabiliza-se, aproximadamente, 141 a 155 milhões de usuários ativos, ou seja, cerca de 66% a 69% da população brasileira na rede. É possível identificar nessa rede social perfis de humoristas.

A relação entre humor e política ocupa lugar privilegiado na compreensão das sociedades contemporâneas porque permite observar, simultaneamente, os conflitos, as disputas simbólicas e as formas pelas quais diferentes grupos constroem interpretações sobre a realidade. Muito além do entretenimento, o humor constitui uma linguagem social capaz de condensar tensões políticas, questionar hierarquias, produzir identificação coletiva e disputar sentidos acerca dos acontecimentos públicos.

Com intuito de analisar o humor e os humoristas no Instagram, selecionamos atores/comediantes/humoristas, que fazem desta mídia a sua forma de se expressar criticamente, com humor, sobre a realidade social, cultural e política do Brasil. Considera-se que os humoristas, ao utilizarem o Instagram, são importantes elementos para percepção dos conflitos em torno das construções de narrativas sobre a realidade política, social e cultural do Brasil.

O objetivo desse artigo corresponde entender como a temática da pré-campanha eleitoral e a repercussão da candidatura de Flávio Bolsonaro é problematizada pela ótica do humor. O corpus do artigo é composto pelas publicações realizadas nos perfis de Bruno Costoli, Mariana Armellini e Saulo Pinheiro durante o período de pré-campanha eleitoral, compreendido entre maio e julho de 2026.

Ao compreender que o humor pode salientar o que o discurso oficial quer esconder, ocorre o deslocamento do humor como um mero recurso cômico para compreendê-lo como uma forma de interpretação da realidade social. O riso produzido pelo humor político não representa apenas uma reação emocional; ele constitui um mecanismo de elaboração simbólica dos acontecimentos públicos. Ao exagerar características, inverter posições de poder, construir metáforas ou produzir situações absurdas, o humor reorganiza cognitivamente os fatos políticos e oferece ao público novas possibilidades de leitura da realidade.

Essa dimensão torna-se ainda mais evidente quando se considera que o humor atua simultaneamente como crítica e como memória política. Ao selecionar determinados acontecimentos para serem ridicularizados, o humor estabelece hierarquias de relevância e participa da construção das narrativas sobre o presente. Não se trata apenas de comentar acontecimentos, mas de produzir enquadramentos sobre eles. Ao rir de determinados atores políticos, o público também aprende quais comportamentos são considerados legítimos, incoerentes ou moralmente condenáveis.

Nesse sentido, a representação humorística participa da disputa simbólica em torno do poder. Entretanto, o humor político não atua apenas como instrumento de contestação. Conforme destaca Saliba (2017), ao longo da história ele também desempenhou funções distintas e, por vezes, contraditórias: contribuiu para aliviar tensões sociais, administrar ressentimentos, produzir pertencimento coletivo e, simultaneamente, reforçar determinadas visões de mundo.

O humor pode questionar o poder, mas também pode reproduzir hierarquias, consolidar estereótipos e naturalizar determinadas interpretações da realidade. Seu potencial crítico depende das condições históricas, dos contextos de circulação e das formas pelas quais é apropriado pelos diferentes públicos.

Essas reflexões tornam-se particularmente relevantes quando observamos as transformações recentes dos ambientes comunicacionais. Durante grande parte do século XX, o humor político circulou prioritariamente por meio dos jornais, revistas e programas televisivos. Entretanto, o desenvolvimento das plataformas digitais modificou profundamente essa dinâmica. Redes sociais como Instagram, TikTok, YouTube e X transformaram não apenas os meios de circulação do humor, mas também seus produtores, seus formatos narrativos e seus públicos.

Se anteriormente a mediação era realizada principalmente pelas empresas jornalísticas, atualmente observa-se um processo de descentralização da produção humorística. Humoristas independentes passaram a produzir conteúdo diretamente para milhões de seguidores, estabelecendo formas próprias de comentar os acontecimentos políticos sem a necessidade da mediação editorial tradicional.

Nas democracias contemporâneas, a disputa política desloca-se progressivamente da centralidade das organizações partidárias para a disputa em torno das imagens públicas das lideranças. A comunicação política passa a depender cada vez mais da construção de narrativas, da circulação de imagens e da capacidade de conquistar atenção em ambientes altamente competitivos.

As plataformas digitais intensificam esse processo ao combinar visibilidade, velocidade de circulação e lógica algorítmica. Uma publicação humorística no Instagram pode atingir milhões de usuários em poucas horas, ser compartilhada, remixada, comentada e reinterpretada continuamente.

Além disso, a lógica algorítmica das plataformas interfere diretamente na visibilidade dos conteúdos. O alcance das publicações deixa de depender exclusivamente da relevância jornalística e passa a ser condicionado também pelos mecanismos de engajamento, compartilhamento e interação. Assim, a crítica política produzida por humoristas digitais passa a disputar atenção dentro de um ambiente marcado pela economia da visibilidade, em que curtidas, comentários e compartilhamentos tornam-se elementos constitutivos da própria circulação do discurso político.

Apesar dessas mudanças tecnológicas, algumas permanências mantem-se evidentes. Assim como ocorria com as charges, os humoristas digitais continuam recorrendo ao exagero, à ironia, à paródia, à metáfora e à inversão como estratégias narrativas para representar acontecimentos políticos. A crítica continua sendo construída por meio da condensação simbólica dos fatos, ainda que agora incorporando recursos audiovisuais, edição, interpretação cênica e interação direta com o público.

<><> Humoristas no instagram

O corpus do artigo é composto por três humoristas que utilizam o Instagram como principal espaço de circulação de conteúdos humorísticos sobre a realidade política brasileira. Saulo Pinheiro, nascido em Fortaleza (CE) e radicado em Brasília desde a infância, tem 40 anos. É formado em jornalismo, cursou artes cênicas na Universidade de Brasília (UnB) e integrou a Companhia de Comédia Setebelos. Em seu perfil, apresenta-se como artista e comediante e reúne aproximadamente 716 mil seguidores.

Bruno Costoli, natural de Belo Horizonte (MG), também tem 40 anos e é formado em publicidade pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Define-se como “humorista empresarial” e produz conteúdos que articulam humor e opinião sobre temas da atualidade, alcançando cerca de 354 mil seguidores na plataforma.

Mariana Armellini, nascida em São José do Rio Preto (SP), tem 48 anos e é formada pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP). Ao longo de sua trajetória profissional, atuou em novelas, filmes e espetáculos teatrais e, atualmente, apresenta-se como atriz e humorista, mantendo um perfil no Instagram com aproximadamente 632 mil seguidores.

A seleção desses perfis fundamentou-se em três critérios analíticos. O primeiro corresponde ao fato de os três humoristas apresentarem produção contínua de conteúdos voltados à interpretação da conjuntura política brasileira, utilizando o Instagram como principal meio de circulação de suas produções. Em segundo lugar, durante o período analisado – correspondente à pré-campanha eleitoral de 2026, entre maio e julho –, publicaram de forma recorrente conteúdos relacionados ao cenário eleitoral, especialmente à repercussão da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Por fim, os perfis possuem expressivo alcance na plataforma, reunindo um número significativo de seguidores, característica que amplia o potencial de circulação e de impacto de suas narrativas humorísticas. Desse modo, mais do que produtores de entretenimento, esses humoristas podem ser compreendidos como agentes que participam da construção e da disputa de representações sobre a política brasileira no ambiente digital.

A análise das postagens parte da Teoria da Agenda Setting, formulada por McCombs e Shaw (1972), segundo a qual os meios de comunicação exercem influência na definição dos temas considerados socialmente relevantes. A agenda não determina o que os indivíduos devem pensar, mas contribui para estabelecer sobre quais assuntos concentram sua atenção. Em sua reformulação do conceito, McCombs (2004) acrescenta a noção de agenda de atributos, argumentando que os meios de comunicação também influenciam a maneira como os temas são interpretados ao enfatizar determinados aspectos em detrimento de outros. Assim, enquanto a agenda temática identifica a frequência com que determinados assuntos aparecem, a agenda de atributos permite observar quais características são reiteradamente associadas aos atores políticos, orientando a construção de sentidos sobre eles.

Com base nessa perspectiva, este artigo buscará identificar quais temas estruturam as narrativas produzidas pelos humoristas durante a pré-campanha presidencial de 2026 e quais atributos são associados aos principais atores políticos representados nas postagens.

Desse modo, mais do que identificar os temas predominantes nas publicações, o artigo pretende compreender como os humoristas constroem representações sobre candidatos, eleitores e demais atores da disputa política, evidenciando os enquadramentos recorrentes presentes em suas narrativas humorísticas.

<><> Análise

(i) A verdade sobre seu voto (24.07.2026)

Saulo Pinheiro, a partir de um olhar direto para a câmera, tom professoral, ausência de risos e reduzida gesticulação deixa seu vídeo mais de uma interpelação política do que como um quadro humorístico.

A postagem aborda a candidatura de Flávio Bolsonaro durante a pré-campanha presidencial, desloca o foco da crítica para o eleitor que pretende apoiá-lo. Os temas predominantes são corrupção, moralidade do voto, bolsonarismo, preconceito e responsabilidade política. Flávio Bolsonaro aparece associado aos atributos de corrupção, milícia, lavagem de dinheiro, “rachadinha” e ameaça à democracia. Já, o eleitor é representado como hipócrita, preconceituoso, anticientífico e corresponsável pelos problemas atribuídos ao bolsonarismo.

Você vai mesmo votar no político mais ligado ao maior escândalo de fraude bancária da história do Brasil que é o BolsoMaster? Você vai mesmo votar em um dos melhores amigos do Daniel Vorcaro que pedia centenas de milhões de reais de dinheiro sujo, que tira foto com um matador de aluguel de Vorcaro? Você vai mesmo votar em um miliciano que conspira com outro país para destruir o seu país?

A comicidade é construída pela repetição (“Você vai mesmo votar…?”), pela enumeração sucessiva de acusações e pelo uso da ironia. Em vez da piada tradicional, Saulo produz um humor baseado no constrangimento moral do interlocutor. Pode-se afirmar que o enquadramento predominante não recai sobre o candidato, mas sobre o eleitor. O vídeo constrói a ideia de que o voto em Flávio Bolsonaro não decorre do combate à corrupção, mas de afinidades ideológicas e preconceitos ocultados sob um discurso moralizante.

(ii) Aniversário de dois meses da promessa de Flávio Bolsonaro (13.07.2026)

Bruno Costoli interpreta um personagem simpático ao candidato. Diferentemente de Saulo Pinheiro, sua crítica é indireta: ela emerge da ironia dramática. A cenografia (balões verde-amarelos, camiseta da seleção, fotografia de Flávio ao fundo, bolo, presentes) reforça o caráter teatral da narrativa.

A postagem tem como eixo central a ausência de explicações sobre o financiamento relacionado ao Banco Master. A partir desse episódio, incorpora outros acontecimentos envolvendo Flávio Bolsonaro e sua família, como investigações, denúncias, fake news, rachadinha, artigos eleitorais e a situação jurídica de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro é representado como alguém permanentemente envolvido em escândalos políticos e judiciais.

“Eu tô muito feliz que vocês vieram na nossa festinha para comemorar os 2 meses desde que o Flávio Bolsonaro falou que ia explicar pra onde foi o dinheiro que pediu pro banqueiro golpista”.

Os atributos recorrentes são corrupção, mentira, impunidade, herdeiro político e proximidade com práticas ilícitas. Jair Bolsonaro aparece como condenado e possível futuro preso, enquanto seus apoiadores são associados ao fanatismo (“gado”) e à disseminação de fake news. O humor organiza-se como uma festa de aniversário fictícia. Todos os presentes remetem a denúncias envolvendo o candidato: notas fiscais, tornozeleira eletrônica, rachadinhas, artigos eleitorais e fake news tornam-se “presentes”.

Trata-se de uma inversão típica da sátira: aquilo que normalmente produziria constrangimento é tratado como motivo de celebração. A repetição da estrutura narrativa (“quem trouxe…?”) cria ritmo e intensifica a acumulação de acusações. O enquadramento é direcionado ao Flávio Bolsonaro, como um candidato cuja trajetória política é inseparável dos escândalos familiares. A comemoração simboliza a naturalização dessas denúncias por parte de seus apoiadores, produzindo uma crítica à banalização da corrupção dentro do bolsonarismo.

(iii) A assessoria de Flávio Bolsonaro (27.07.2026)

Mariana Armellini explora intensamente recursos da atuação teatral: mudanças de entonação, pausas, gesticulação e ritmo acelerado aproximam a postagem de um esquete televisivo.

A postagem trata do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, abordando sua dificuldade para construir alianças, a presença da família na campanha, os escândalos recentes, as investigações policiais e as estratégias eleitorais adotadas. Flávio Bolsonaro é representado como um candidato despreparado, dependente da família, cercado por escândalos e incapaz de apresentar um projeto de governo próprio. Seus aliados aparecem como igualmente problemáticos, reforçando uma imagem de isolamento político.

Mariana Armellini utiliza o recurso do monólogo teatral. Ela interpreta uma assessora desesperada tentando administrar sucessivas crises da campanha. O humor decorre da rapidez dos diálogos, da sobreposição de problemas e da incapacidade do personagem principal de controlar os acontecimentos.

“Eu fiquei incomodada com o exagero do discurso: ‘vou soltar meu pai’, ‘vou anistiar todos os presos’, ‘meu irmão vai poder voltar pro Brasil’, crianças falando, nós vamos voltar pro Brasil. Fica parecendo que na verdade cê não tem um plano de governo. Você tem um plano de fuga em massa.

“Trazer o Milei não era uma boa ideia: 1º porque os brasileiros não estão no momento muito empáticos para com os argentinos; 2º a gente não consegue entender ele, nem politicamente, nem esteticamente. Parece um ‘funko’ de costeleta pulando no palco, um discurso longo, chatíssimo, em espanhol, xingou meio mundo. Eu não consegui segurar os figurantes, metade da plateia foi embora. Achei um tiro no pé, mas ganhou uma medalhinha, já voltou pra Argentina, mas que horror, hein!!!”.

Há forte presença de exagero, caricatura verbal e referências constantes à conjuntura política. O vídeo enquadra Flávio Bolsonaro como um candidato improvisado, cuja campanha é definida menos por propostas políticas do que pela administração contínua de crises familiares, judiciais e eleitorais.

<><> Considerações Finais

Nesse sentido, pode-se compreender os humoristas presentes no Instagram como novos mediadores da interpretação política. Ao selecionar acontecimentos, construir personagens recorrentes, enfatizar determinados conflitos e ridicularizar figuras públicas, esses produtores de conteúdo participam da construção das representações sociais sobre a política brasileira. Não apenas comentam os fatos, mas disputam enquadramentos sobre eles, influenciando formas de percepção e interpretação dos acontecimentos.

É justamente nessa perspectiva que a análise das publicações de Bruno Costoli, Saulo Pinheiro e Mariana Armellini ganha relevância. Mais do que produzir conteúdo humorísticos, esses criadores constroem narrativas sobre o cenário político brasileiro durante o período pré-eleitoral de 2026. Suas publicações permitem observar como o humor atua na produção de sentidos acerca da pré-campanha presidencial e, particularmente, da candidatura de Flávio Bolsonaro, articulando crítica política, linguagem digital e disputas simbólicas próprias das plataformas sociais.

Assim, compreender o humor no Instagram significa ampliar a tradição dos estudos sobre humor político para um ambiente comunicacional profundamente transformado, no qual permanecem as funções históricas do riso, mas se alteram significativamente seus modos de produção, circulação e recepção.

 

Fonte: Por Vera Chaia e Silvana Martinho, em A Terra é Redonda

 

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