Humor
na pré-campanha eleitoral
O
Instagram é uma rede social de compartilhamento de vídeos, fotos e mensagens
criado em 2010. Começou a ser utilizado no Brasil em 2012 e, atualmente,
contabiliza-se, aproximadamente, 141 a 155 milhões de usuários ativos, ou seja,
cerca de 66% a 69% da população brasileira na rede. É possível identificar
nessa rede social perfis de humoristas.
A
relação entre humor e política ocupa lugar privilegiado na compreensão das
sociedades contemporâneas porque permite observar, simultaneamente, os
conflitos, as disputas simbólicas e as formas pelas quais diferentes grupos
constroem interpretações sobre a realidade. Muito além do entretenimento, o
humor constitui uma linguagem social capaz de condensar tensões políticas,
questionar hierarquias, produzir identificação coletiva e disputar sentidos
acerca dos acontecimentos públicos.
Com
intuito de analisar o humor e os humoristas no Instagram, selecionamos
atores/comediantes/humoristas, que fazem desta mídia a sua forma de se
expressar criticamente, com humor, sobre a realidade social, cultural e
política do Brasil. Considera-se que os humoristas, ao utilizarem o Instagram,
são importantes elementos para percepção dos conflitos em torno das construções
de narrativas sobre a realidade política, social e cultural do Brasil.
O
objetivo desse artigo corresponde entender como a temática da pré-campanha
eleitoral e a repercussão da candidatura de Flávio Bolsonaro é problematizada
pela ótica do humor. O corpus do artigo é composto pelas publicações realizadas
nos perfis de Bruno Costoli, Mariana Armellini e Saulo Pinheiro durante o
período de pré-campanha eleitoral, compreendido entre maio e julho de 2026.
Ao
compreender que o humor pode salientar o que o discurso oficial quer esconder,
ocorre o deslocamento do humor como um mero recurso cômico para compreendê-lo
como uma forma de interpretação da realidade social. O riso produzido pelo
humor político não representa apenas uma reação emocional; ele constitui um
mecanismo de elaboração simbólica dos acontecimentos públicos. Ao exagerar
características, inverter posições de poder, construir metáforas ou produzir
situações absurdas, o humor reorganiza cognitivamente os fatos políticos e
oferece ao público novas possibilidades de leitura da realidade.
Essa
dimensão torna-se ainda mais evidente quando se considera que o humor atua
simultaneamente como crítica e como memória política. Ao selecionar
determinados acontecimentos para serem ridicularizados, o humor estabelece
hierarquias de relevância e participa da construção das narrativas sobre o
presente. Não se trata apenas de comentar acontecimentos, mas de produzir
enquadramentos sobre eles. Ao rir de determinados atores políticos, o público
também aprende quais comportamentos são considerados legítimos, incoerentes ou
moralmente condenáveis.
Nesse
sentido, a representação humorística participa da disputa simbólica em torno do
poder. Entretanto, o humor político não atua apenas como instrumento de
contestação. Conforme destaca Saliba (2017), ao longo da história ele também
desempenhou funções distintas e, por vezes, contraditórias: contribuiu para
aliviar tensões sociais, administrar ressentimentos, produzir pertencimento
coletivo e, simultaneamente, reforçar determinadas visões de mundo.
O humor
pode questionar o poder, mas também pode reproduzir hierarquias, consolidar
estereótipos e naturalizar determinadas interpretações da realidade. Seu
potencial crítico depende das condições históricas, dos contextos de circulação
e das formas pelas quais é apropriado pelos diferentes públicos.
Essas
reflexões tornam-se particularmente relevantes quando observamos as
transformações recentes dos ambientes comunicacionais. Durante grande parte do
século XX, o humor político circulou prioritariamente por meio dos jornais,
revistas e programas televisivos. Entretanto, o desenvolvimento das plataformas
digitais modificou profundamente essa dinâmica. Redes sociais como Instagram,
TikTok, YouTube e X transformaram não apenas os meios de circulação do humor,
mas também seus produtores, seus formatos narrativos e seus públicos.
Se
anteriormente a mediação era realizada principalmente pelas empresas
jornalísticas, atualmente observa-se um processo de descentralização da
produção humorística. Humoristas independentes passaram a produzir conteúdo
diretamente para milhões de seguidores, estabelecendo formas próprias de
comentar os acontecimentos políticos sem a necessidade da mediação editorial
tradicional.
Nas
democracias contemporâneas, a disputa política desloca-se progressivamente da
centralidade das organizações partidárias para a disputa em torno das imagens
públicas das lideranças. A comunicação política passa a depender cada vez mais
da construção de narrativas, da circulação de imagens e da capacidade de
conquistar atenção em ambientes altamente competitivos.
As
plataformas digitais intensificam esse processo ao combinar visibilidade,
velocidade de circulação e lógica algorítmica. Uma publicação humorística no
Instagram pode atingir milhões de usuários em poucas horas, ser compartilhada,
remixada, comentada e reinterpretada continuamente.
Além
disso, a lógica algorítmica das plataformas interfere diretamente na
visibilidade dos conteúdos. O alcance das publicações deixa de depender
exclusivamente da relevância jornalística e passa a ser condicionado também
pelos mecanismos de engajamento, compartilhamento e interação. Assim, a crítica
política produzida por humoristas digitais passa a disputar atenção dentro de
um ambiente marcado pela economia da visibilidade, em que curtidas, comentários
e compartilhamentos tornam-se elementos constitutivos da própria circulação do
discurso político.
Apesar
dessas mudanças tecnológicas, algumas permanências mantem-se evidentes. Assim
como ocorria com as charges, os humoristas digitais continuam recorrendo ao
exagero, à ironia, à paródia, à metáfora e à inversão como estratégias
narrativas para representar acontecimentos políticos. A crítica continua sendo
construída por meio da condensação simbólica dos fatos, ainda que agora
incorporando recursos audiovisuais, edição, interpretação cênica e interação
direta com o público.
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Humoristas no instagram
O
corpus do artigo é composto por três humoristas que utilizam o Instagram como
principal espaço de circulação de conteúdos humorísticos sobre a realidade
política brasileira. Saulo Pinheiro, nascido em Fortaleza (CE) e radicado em
Brasília desde a infância, tem 40 anos. É formado em jornalismo, cursou artes
cênicas na Universidade de Brasília (UnB) e integrou a Companhia de Comédia
Setebelos. Em seu perfil, apresenta-se como artista e comediante e reúne
aproximadamente 716 mil seguidores.
Bruno
Costoli, natural de Belo Horizonte (MG), também tem 40 anos e é formado em
publicidade pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Define-se como
“humorista empresarial” e produz conteúdos que articulam humor e opinião sobre
temas da atualidade, alcançando cerca de 354 mil seguidores na plataforma.
Mariana
Armellini, nascida em São José do Rio Preto (SP), tem 48 anos e é formada pela
Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP). Ao longo de sua
trajetória profissional, atuou em novelas, filmes e espetáculos teatrais e,
atualmente, apresenta-se como atriz e humorista, mantendo um perfil no
Instagram com aproximadamente 632 mil seguidores.
A
seleção desses perfis fundamentou-se em três critérios analíticos. O primeiro
corresponde ao fato de os três humoristas apresentarem produção contínua de
conteúdos voltados à interpretação da conjuntura política brasileira,
utilizando o Instagram como principal meio de circulação de suas produções. Em
segundo lugar, durante o período analisado – correspondente à pré-campanha
eleitoral de 2026, entre maio e julho –, publicaram de forma recorrente
conteúdos relacionados ao cenário eleitoral, especialmente à repercussão da
candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
Por
fim, os perfis possuem expressivo alcance na plataforma, reunindo um número
significativo de seguidores, característica que amplia o potencial de
circulação e de impacto de suas narrativas humorísticas. Desse modo, mais do
que produtores de entretenimento, esses humoristas podem ser compreendidos como
agentes que participam da construção e da disputa de representações sobre a
política brasileira no ambiente digital.
A
análise das postagens parte da Teoria da Agenda Setting, formulada por McCombs
e Shaw (1972), segundo a qual os meios de comunicação exercem influência na
definição dos temas considerados socialmente relevantes. A agenda não determina
o que os indivíduos devem pensar, mas contribui para estabelecer sobre quais
assuntos concentram sua atenção. Em sua reformulação do conceito, McCombs
(2004) acrescenta a noção de agenda de atributos, argumentando que os meios de
comunicação também influenciam a maneira como os temas são interpretados ao
enfatizar determinados aspectos em detrimento de outros. Assim, enquanto a
agenda temática identifica a frequência com que determinados assuntos aparecem,
a agenda de atributos permite observar quais características são reiteradamente
associadas aos atores políticos, orientando a construção de sentidos sobre
eles.
Com
base nessa perspectiva, este artigo buscará identificar quais temas estruturam
as narrativas produzidas pelos humoristas durante a pré-campanha presidencial
de 2026 e quais atributos são associados aos principais atores políticos
representados nas postagens.
Desse
modo, mais do que identificar os temas predominantes nas publicações, o artigo
pretende compreender como os humoristas constroem representações sobre
candidatos, eleitores e demais atores da disputa política, evidenciando os
enquadramentos recorrentes presentes em suas narrativas humorísticas.
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Análise
(i) A
verdade sobre seu voto (24.07.2026)
Saulo
Pinheiro, a partir de um olhar direto para a câmera, tom professoral, ausência
de risos e reduzida gesticulação deixa seu vídeo mais de uma interpelação
política do que como um quadro humorístico.
A
postagem aborda a candidatura de Flávio Bolsonaro durante a pré-campanha
presidencial, desloca o foco da crítica para o eleitor que pretende apoiá-lo.
Os temas predominantes são corrupção, moralidade do voto, bolsonarismo,
preconceito e responsabilidade política. Flávio Bolsonaro aparece associado aos
atributos de corrupção, milícia, lavagem de dinheiro, “rachadinha” e ameaça à
democracia. Já, o eleitor é representado como hipócrita, preconceituoso,
anticientífico e corresponsável pelos problemas atribuídos ao bolsonarismo.
Você
vai mesmo votar no político mais ligado ao maior escândalo de fraude bancária
da história do Brasil que é o BolsoMaster? Você vai mesmo votar em um dos
melhores amigos do Daniel Vorcaro que pedia centenas de milhões de reais de
dinheiro sujo, que tira foto com um matador de aluguel de Vorcaro? Você vai
mesmo votar em um miliciano que conspira com outro país para destruir o seu
país?
A
comicidade é construída pela repetição (“Você vai mesmo votar…?”), pela
enumeração sucessiva de acusações e pelo uso da ironia. Em vez da piada
tradicional, Saulo produz um humor baseado no constrangimento moral do
interlocutor. Pode-se afirmar que o enquadramento predominante não recai sobre
o candidato, mas sobre o eleitor. O vídeo constrói a ideia de que o voto em
Flávio Bolsonaro não decorre do combate à corrupção, mas de afinidades
ideológicas e preconceitos ocultados sob um discurso moralizante.
(ii)
Aniversário de dois meses da promessa de Flávio Bolsonaro (13.07.2026)
Bruno
Costoli interpreta um personagem simpático ao candidato. Diferentemente de
Saulo Pinheiro, sua crítica é indireta: ela emerge da ironia dramática. A
cenografia (balões verde-amarelos, camiseta da seleção, fotografia de Flávio ao
fundo, bolo, presentes) reforça o caráter teatral da narrativa.
A
postagem tem como eixo central a ausência de explicações sobre o financiamento
relacionado ao Banco Master. A partir desse episódio, incorpora outros
acontecimentos envolvendo Flávio Bolsonaro e sua família, como investigações,
denúncias, fake news, rachadinha, artigos eleitorais e a situação jurídica de
Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro é representado como alguém permanentemente
envolvido em escândalos políticos e judiciais.
“Eu tô
muito feliz que vocês vieram na nossa festinha para comemorar os 2 meses desde
que o Flávio Bolsonaro falou que ia explicar pra onde foi o dinheiro que pediu
pro banqueiro golpista”.
Os
atributos recorrentes são corrupção, mentira, impunidade, herdeiro político e
proximidade com práticas ilícitas. Jair Bolsonaro aparece como condenado e
possível futuro preso, enquanto seus apoiadores são associados ao fanatismo
(“gado”) e à disseminação de fake news. O humor organiza-se como uma festa de
aniversário fictícia. Todos os presentes remetem a denúncias envolvendo o
candidato: notas fiscais, tornozeleira eletrônica, rachadinhas, artigos
eleitorais e fake news tornam-se “presentes”.
Trata-se
de uma inversão típica da sátira: aquilo que normalmente produziria
constrangimento é tratado como motivo de celebração. A repetição da estrutura
narrativa (“quem trouxe…?”) cria ritmo e intensifica a acumulação de acusações.
O enquadramento é direcionado ao Flávio Bolsonaro, como um candidato cuja
trajetória política é inseparável dos escândalos familiares. A comemoração
simboliza a naturalização dessas denúncias por parte de seus apoiadores,
produzindo uma crítica à banalização da corrupção dentro do bolsonarismo.
(iii) A
assessoria de Flávio Bolsonaro (27.07.2026)
Mariana
Armellini explora intensamente recursos da atuação teatral: mudanças de
entonação, pausas, gesticulação e ritmo acelerado aproximam a postagem de um
esquete televisivo.
A
postagem trata do lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro,
abordando sua dificuldade para construir alianças, a presença da família na
campanha, os escândalos recentes, as investigações policiais e as estratégias
eleitorais adotadas. Flávio Bolsonaro é representado como um candidato
despreparado, dependente da família, cercado por escândalos e incapaz de
apresentar um projeto de governo próprio. Seus aliados aparecem como igualmente
problemáticos, reforçando uma imagem de isolamento político.
Mariana
Armellini utiliza o recurso do monólogo teatral. Ela interpreta uma assessora
desesperada tentando administrar sucessivas crises da campanha. O humor decorre
da rapidez dos diálogos, da sobreposição de problemas e da incapacidade do
personagem principal de controlar os acontecimentos.
“Eu
fiquei incomodada com o exagero do discurso: ‘vou soltar meu pai’, ‘vou
anistiar todos os presos’, ‘meu irmão vai poder voltar pro Brasil’, crianças
falando, nós vamos voltar pro Brasil. Fica parecendo que na verdade cê não tem
um plano de governo. Você tem um plano de fuga em massa.
“Trazer
o Milei não era uma boa ideia: 1º porque os brasileiros não estão no momento
muito empáticos para com os argentinos; 2º a gente não consegue entender ele,
nem politicamente, nem esteticamente. Parece um ‘funko’ de costeleta pulando no
palco, um discurso longo, chatíssimo, em espanhol, xingou meio mundo. Eu não
consegui segurar os figurantes, metade da plateia foi embora. Achei um tiro no
pé, mas ganhou uma medalhinha, já voltou pra Argentina, mas que horror,
hein!!!”.
Há
forte presença de exagero, caricatura verbal e referências constantes à
conjuntura política. O vídeo enquadra Flávio Bolsonaro como um candidato
improvisado, cuja campanha é definida menos por propostas políticas do que pela
administração contínua de crises familiares, judiciais e eleitorais.
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Considerações Finais
Nesse
sentido, pode-se compreender os humoristas presentes no Instagram como novos
mediadores da interpretação política. Ao selecionar acontecimentos, construir
personagens recorrentes, enfatizar determinados conflitos e ridicularizar
figuras públicas, esses produtores de conteúdo participam da construção das
representações sociais sobre a política brasileira. Não apenas comentam os
fatos, mas disputam enquadramentos sobre eles, influenciando formas de
percepção e interpretação dos acontecimentos.
É
justamente nessa perspectiva que a análise das publicações de Bruno Costoli,
Saulo Pinheiro e Mariana Armellini ganha relevância. Mais do que produzir
conteúdo humorísticos, esses criadores constroem narrativas sobre o cenário
político brasileiro durante o período pré-eleitoral de 2026. Suas publicações
permitem observar como o humor atua na produção de sentidos acerca da
pré-campanha presidencial e, particularmente, da candidatura de Flávio
Bolsonaro, articulando crítica política, linguagem digital e disputas
simbólicas próprias das plataformas sociais.
Assim,
compreender o humor no Instagram significa ampliar a tradição dos estudos sobre
humor político para um ambiente comunicacional profundamente transformado, no
qual permanecem as funções históricas do riso, mas se alteram
significativamente seus modos de produção, circulação e recepção.
Fonte:
Por Vera Chaia e Silvana Martinho, em A Terra é Redonda

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