Por
que São Cristóvão foi representado como figura antropozoomórfica
Mártir
da Igreja Católica celebrado como protetor dos viajantes — e depois da invenção
do automóvel também dos motoristas —, São Cristóvão é comumente representado
como um brutamontes que leva o menino Jesus sobre os ombros.
Existe,
porém, uma versão menos conhecida do santo: o chamado São Cristóvão Cinocéfalo,
com tronco e membros humanos e cabeça de cachorro. Com essas feições, o mártir
foi cultuado desde o final do século 5º, da Ásia Menor até os Bálcãs e a
Rússia.
Entre
os séculos 5 e 11, uma versão em inglês arcaico da Vida de São Cristóvão, um
texto medieval sobre o santo, foi reunida com outras obras no mesmo manuscrito
que preserva Beowulf, um dos textos mais importantes da literatura anglo-saxã.
Ele
descreve o santo como "a pior besta" do mundo, gigantesco e
cinocéfalo. O antropozoomorfismo — ou seja, a representação de formas humanas e
animais em um mesmo indivíduo — é frequente no imaginário cristão, mas na era
moderna costuma ser empregado com propósitos metafóricos ou alegóricos.
No caso
da imagem de São Cristóvão Cinocéfalo, inscrições, localização nos templos e
elementos pictóricos evidenciam a intenção dos artistas sacros de representar o
próprio mártir.
O
enigma do santo com cabeça de cachorro intriga estudiosos há séculos.
Segundo
Asa Simon Mittman, professor de História da Arte na California State University
e autor do livro Maps and Monsters in Medieval England (Mapas e Monstros na
Inglaterra Medieval, sem edição brasileira), os cinocéfalos foram apresentados
ao mundo cristão por meio da obra História Natural, do historiador romano
Plínio, O Velho (c. 23-79).
"Esse
livro era uma enciclopédia global de tudo, e há um par de seções dedicadas a
monstros e povos monstruosos", afirma Mittman, por videoconferência, à BBC
News Brasil.
O
pesquisador recorda que Plínio reciclou material de fontes mais antigas, como o
grego Heródoto (485 a.C.-425 a.C.). O chamado pai da história, por sua vez,
teria se inspirado nas obras dos também historiadores Ctésias (séculos 5º-6º
a.C.) e Megástenes (350 a.C.-290 a.C.).
Para
uma corrente de pesquisadores, São Cristóvão Cinocéfalo seria produto de um
erro de tradução.
O termo
teria resultado da confusão ou interpolação de "cananeu" (khananaíos
em grego e cananaeus em latim), que designa o nativo da Cananeia, onde
Cristóvão teria nascido, e "canino" (kynikós em grego e caninus em
latim).
Outros
afirmam que, em São Cristóvão Cinocéfalo, convergem o cristianismo e as
religiões do Egito antigo, com os deuses Anubis e Hermanubis, representados com
corpo humano e cabeça de chacal, ligados aos rituais da morte.
Essas
divindades eram chamadas de condutoras de almas (psicopompos) do mundo terreno
para o além-túmulo, uma possível correspondência com a proteção de São
Cristóvão aos peregrinos.
Uma
terceira abordagem enfatiza que, por 2,4 mil anos, a arte e a cultura europeias
registraram a existência de povos cinocéfalos, sendo a figura do santo apenas
um episódio relativamente recente dessa longa tradição.
"Na
mentalidade medieval, o transcendente, o maravilhoso, o fantástico e o
sobrenatural estavam mesclados ao imanente", diz Luciana Amendola Imbriani
Kreidel, advogada e pesquisadora independente em Direito e História da Arte.
"Uma
pessoa da época, fosse alguém do povo, fosse do clero, não acharia estranho um
santo ter cabeça de cachorro", acrescenta.
Essa
percepção era tão generalizada, ela afirma, que teria sido incluída nas mais
altas expressões culturais da época. É ainda o que mostram os tratados
teológicos de Santo Agostinho de Hipona (354-430) e São Isidoro de Sevilha (c.
560-636), repletos de referências a gigantes e outros seres fabulosos.
O mesmo
traço aparece nos mapas-múndi de Ebstorf (1234-1240) e de Hereford (1276-1285)
e nos livros de viagem de Marco Polo (1254-1324) e John Mandeville, o autor
fictício de As Viagens de Sir John Mandeville, escrito entre 1357 e 1371.
"[O
mundo medieval] era um mundo ainda encantado, em que ninguém achava estranhos
os gigantes mencionados pela Bíblia", diz a pesquisadora.
A falta
de evidências sobre o São Cristóvão histórico levou o Concílio Vaticano 2º,
responsável pela principal atualização da vida e do pensamento da Igreja
Católica no século 20, a suprimi-lo do Calendário Romano Geral.
Mas a
decisão não significou o banimento do santo. Cristóvão continua gozando de
grande popularidade entre os fiéis, como mostra o bairro da zona norte do Rio
de Janeiro que leva seu nome e abriga uma tradicional feira de produtos
nordestinos.
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Como surgiu a tradição do santo com cabeça de cachorro
Coube
ao frei dominicano italiano Jacopo de Varazze (c. 1230-1298) estabelecer a
versão mais difundida da vida de São Cristóvão — que, curiosamente, não
menciona a cabeça de cachorro.
Em sua
influente Legenda Áurea, um calhamaço de 1.080 páginas na edição brasileira da
editora Companhia das Letras, o autor esmiúça as trajetórias de 153 santos.
O livro
está repleto de episódios chamativos, como a deglutição de Santa Margarida de
Antióquia por um dragão e o encontro de Santo Antônio com um centauro e um
sátiro.
O
registro sobre São Cristóvão não é menos fantástico: gigante de 12 côvados
(equivalentes a cerca de 5,4 metros de altura, ou 23 centímetros mais alto do
que Davi de Michelangelo), ele resolve colocar sua força incomum a serviço de
distintos amos, de um rei e até de Satanás.
Acaba
decepcionado com ambos: enquanto o monarca persigna-se ao ouvir o nome do
demônio, Satanás foge da cruz. Decidido a servir a Cristo, que se afigura como
mais poderoso, Cristóvão é batizado por um eremita.
Ao
perceber que o neófito é incapaz de se ajoelhar e rezar, seu conversor
prescreve-lhe a missão de ajudar transeuntes a atravessar um ameaçador curso
d'água.
Um dia,
ao carregar um menino pelo rio, o gigante sente-se esmagado por um peso
descomunal e diz à criança que parece suportar o mundo inteiro nos ombros.
O
menino responde-lhe que não se preocupe porque carrega não apenas o mundo como
seu Criador: é Jesus Cristo.
Ao
chegar à margem oposta, o Senhor orienta-o a plantar o próprio cajado na terra,
apenas para vê-lo florido e com frutos no dia seguinte.
Apesar
da popularidade da obra de Varazze, para muitos eruditos a narrativa da Legenda
Áurea — coletânea de biografias de santos e histórias bíblicas — sobre São
Cristóvão não passa de uma alegoria.
"É
um belo poema cristão", garante o frei agostiniano Martinho Lutero
(1483-1546), inspirador da Reforma protestante.
No
século 17, a Acta Sanctorum, do jesuíta flamengo Jean Bolland (1596-1665) e
colaboradores, que pela primeira vez busca estudar as vidas dos santos com base
em critérios históricos e filológicos, desacredita igualmente o Cristóvão de
Varazze.
Quando
a Legenda Áurea foi publicada, no final do século 18, o culto de São Cristóvão
Cinocéfalo já existia havia cerca de 800 anos.
O
registro mais antigo de uma igreja dedicada a São Cristóvão é de 452 d.C., na
região da Bitínia (atual Turquia). Mais tarde, durante o reinado do imperador
romano Justiniano (527–565), já existia em um mosteiro no Monte Sinai uma
imagem de São Cristóvão representado com cabeça de cachorro.
Em uma
obra de comentários bíblicos chamada Hermeneia, sobre o Livro dos Atos dos
Apóstolos, São Cristóvão é descrito como "um dos cinocéfalos" (em
grego, cynocephaloi), isto é, um integrante de um povo de seres com cabeça de
cachorro.
Luciana
Kreidel observa que, no pensamento medieval, era comum situar cinocéfalos e
outros povos monstruosos no chamado Oriente, que incluía Ásia e África.
"Oriente,
para eles [europeus], era tudo que estava fora da Europa, a grande distância e
acessível somente por meio de notícias trazidas pelos viajantes", afirma.
A lista
incluía antropófagos, himantópodes (dotados de pernas descomunais),
trogloditas, blêmios e epífagos (sem cabeça, com olhos, boca e nariz no
tronco), amictiras (caracterizados pelos lábios gigantescos), ciápodes (com uma
única perna), etíopes mauritanos (de pele escura), psambari (sem orelhas),
falantes por gestos (desprovidos de linguagem oral) e bebedores de canudo (sem
nariz e lábios).
Segundo
Kreidel, o imaginário relativo a esses seres era construído por uma espécie de
telefone sem fio, por meio do qual o objeto era alterado à medida que ia sendo
descrito.
"Um
bom exemplo é o caso do unicórnio, criatura que nenhum europeu medieval jamais
viu, mas sobre cuja existência não pairava dúvida, uma vez que seus supostos
chifres apareciam nas praias mediterrâneas", diz a pesquisadora.
Para
alguns historiadores, ela lembra, o unicórnio foi provavelmente composto a
partir de descrições de rinocerontes por viajantes vindos da Ásia e da
observação de chifres de narval (baleia de médio porte) no litoral europeu.
Mittman
nota que, desde a Antiguidade clássica, a natureza dos cinocéfalos era alvo de
um grande debate: seriam eles humanos ou não humanos?
No
mundo greco-romano, sustenta o professor, essa dualidade não era exatamente
incomum. "Eles estavam acostumados com criaturas semi-humanas como
centauros, faunos, o deus Pã", reflete.
"A
imagem do cão é popular porque se trata de um animal familiar, que mesmo
pessoas ricas costumam levar para suas casas", afirma o professor,
acrescentando que o convívio com animais era muito mais estreito no mundo
antigo do que na atualidade.
Para os
cristãos, essa questão tinha um significado religioso importante. Se essas
criaturas monstruosas fossem, na verdade, seres humanos, elas também deveriam
receber a pregação do cristianismo, ser catequizadas e convertidas, seguindo a
ordem de Jesus de "ensinar todas as nações" (Mateus 28:19-20).
Mittman
lembra que, em um texto atribuído falsamente a Santo Agostinho, o bispo de
Hipona dirige-se à terra dos cinocéfalos para pregação.
Um
documento gnóstico egípcio do século 4° assegura que São Bartolomeu converteu
ao cristianismo um cinocéfalo antropófago chamado Cristiano (Christianus), que
teve seu nome mudado para Cristóvão (Christophorus).
"Creio
que isso é uma ferramenta útil na construção do argumento da natureza universal
da salvação", afirma Mittman.
A
cristianização dos povos com cabeça canina deixa em aberto uma outra
interrogação: ao se converter, esses seres adquirem feições humanas?
De
acordo com diversas versões, Cristóvão foi prisioneiro de guerra dos romanos
nas bordas do Império, forçado a servir como soldado e martirizado por sua fé
em Antióquia, na Síria.
Alguns
desses registros sustentam que o convertido teria pertencido à tribo dos
marmaritas, povo originário da atual Líbia (antiga Marmárica), que na
Antiguidade se acreditava povoada por canibais e cinocéfalos.
A Acta
Sanctorum relaciona duas tumbas atribuídas ao santo, uma em Constantinopla e
outra na Galácia.
A mesma
obra lista relíquias espalhadas por igrejas da Itália (um ombro na Basílica de
São Pedro, um braço na Igreja de Santa Maria da Porta Emília, outro em Ravena,
ossos de um braço em Brindisi, um pedaço de ombro em Rossano, um osso da
garganta e a língua em Verona), na Espanha (um pedaço de mandíbula em Astorga,
um braço em Santiago de Compostela), na Alemanha (uma lâmina de ombro na
Basílica de São Severino, um dedo com as Cartuxas e um dente com as freiras de
Macabeus na mesma cidade, todas em Colônia), na Bélgica e na França.
Algumas
dessas relíquias invocam fortemente a ideia do santo gigantesco da Legenda
Áurea e são, por isso, alvo de ceticismo na Acta Sanctorum.
"Em
Denain [na Bélgica], entre as freiras beneditinas, [existe] um prodigioso dente
[atribuído a São Cristóvão] (e por isso mesmo com razão suspeita para
nós)", escrevem os autores da obra moderna.
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Do imaginário medieval à proibição pela Igreja Ortodoxa
Se na
Europa ocidental referências ao santo com cabeça canina praticamente
desaparecem depois do século 4°, o mesmo não ocorre na parte oriental do
continente, onde o historiador da arte alemão Walter Loeschke listou em 1965 um
total de 70 representações de São Cristóvão Cinocéfalo na Grécia, na Bulgária,
na Rússia e na Romênia.
O autor
sublinha que essas imagens foram produzidas a partir do século 15 e que não há
provas de sua ocorrência no período anterior, embora o mito do cinocéfalo
derive da chamada antiguidade tardia.
A
professora de estética Lucia Dantas, da Universidade de São Bento, diz que São
Cristóvão Cinocéfalo pode ser comparado a um novelo de conexões e
sobrevivências imagéticas e religiosas.
"Aprendemos
que existe nas artes uma ruptura entre o mundo antigo e medieval, de um lado, e
o da Renascença e do Iluminismo, de outro, mas muitos elementos sobrevivem,
embora de forma não orgânica e não linear", reflete.
Lucia
explica que, depois do Cisma do Oriente (1054), no qual a Igreja Católica
dividiu-se em Romana e Ortodoxa, floresceu a tradição greco-eslava do ícone,
onde a imagem de São Cristóvão Cinocéfalo, antes corriqueira em toda a
cristandade, encontrou abrigo.
Conforme
a professora, a Patrística grega, corrente teológica fortemente influenciada
pelo platonismo e que moldaria o pensamento ortodoxo, enfatizava a ideia de que
a arte sacra deve buscar o simbolismo e a alegoria e não representar o mundo
como ele é.
"Na
linguagem pictórica dos ícones gregos e, depois, russos, cada elemento,
incluindo a auréola ou halo, a cor das roupas e os objetos em cada mão, remetem
a uma chave interpretativa", assinala.
Essa
mentalidade permitia reacomodar a figura do santo cinocéfalo, que, de
representação realista de ser fantástico, passava a remeter a sentidos
ecumênicos.
Lucia
observa que, à medida que a Rússia, grande herdeira da tradição religiosa e
cultural greco-eslava, buscava aproximação com a Europa já sob a égide do
Iluminismo, o Cinocéfalo desaparece da iconografia ortodoxa.
Longe
de ser espontâneo, o fenômeno obedeceu a uma diretriz da alta hierarquia em
Moscou.
"A
Igreja Ortodoxa efetivamente proibiu, a partir do século 18, representações
como a de São Cristóvão Cinocéfalo", afirma a professora.
Fonte:
BBC News Brasil

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