sexta-feira, 31 de julho de 2026

O dilema da Arábia Saudita para se manter fora da guerra entre EUA e Irã

Arábia Saudita enfrenta um difícil dilema. Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro deste ano, os sauditas têm procurado se manter fora do conflito.

Mas depois de sofrer ataques vindos de três frentes, os sauditas perderam a paciência. Nesta semana, o país realizou, em conjunto com os EUAataques contra milícias apoiadas pelo Irã no Iraque que, segundo os sauditas, vêm lançando drones contra o reino saudita.

O dilema para a Arábia Saudita agora é decidir se continuará revidando para tentar impedir novos ataques ou se buscará reduzir as tensões, talvez fazendo pagamentos a alguns de seus adversários.

Mas quem está atacando quem e por quê?

Primeiro, um pouco de contexto. De modo geral, há dois lados no conflito que atinge o Golfo e outras regiões do Oriente Médio há cinco meses.

De um lado estão o Irã, especialmente o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, e seus aliados, como os houthis, no Iêmen, grupo tribal que assumiu o controle de grande parte do país em 2014.

O Irã também apoia as Forças de Mobilização Popular (PMF) no Iraque, grupo paramilitar que teria realizado 30 ataques com drones contra a Arábia Saudita e que agora foi alvo de retaliação.

Há ainda o Hezbollah (grupo político e militar xiita que opera no Líbano), que continua sendo uma força relevante, mas atualmente mantém um perfil discreto.

Do lado oposto do conflito estão os EUA, com as poderosas forças de seu Comando Central (Centcom, na sigla em inglês), além dos países árabes do Golfo e da Jordânia, envolvidos em diferentes graus.

Israel continua sendo um aliado próximo dos EUA, mas atualmente não participa ativamente da guerra.

Mais recentemente, o Irã tem concentrado seus ataques com drones e mísseis contra Jordânia, Kuwait e Bahrein. O país também ataca navios comerciais que tentam atravessar o estreito de Ormuz sem seguir as novas regras e rotas impostas pelo Irã.

A participação de milícias iraquianas e dos houthis é um fenômeno relativamente recente e mostra que, sem um acordo de paz duradouro entre os EUA e o Irã, a região corre o risco de se envolver cada vez mais em um conflito em expansão.

Há vários motivos para a Arábia Saudita tentar evitar ser arrastada para uma guerra em larga escala.

O governante de fato do país, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman — MBS, como é popularmente conhecido — , lançou uma estratégia conhecida como Visão 2030.

O objetivo é reduzir a dependência do reino das receitas do petróleo e desenvolver setores nacionais modernos e dinâmicos, capazes de oferecer empregos com boas perspectivas às centenas de milhares de jovens que concluem a escola ou a universidade e entram no mercado de trabalho todos os anos.

Parte da Visão 2030 envolve atrair investimentos estrangeiros. O plano também prevê a construção de estruturas como centros de dados, vulneráveis a ataques.

Isso não funcionará se a Arábia Saudita permanecer sob a ameaça constante de drones lançados pelos houthis, do outro lado de sua fronteira sul, ou de mísseis balísticos disparados diretamente pelo Irã.

Em setembro de 2019, os sauditas sofreram um forte abalo.

Em meio às tensões com o Irã, a Arábia Saudita descobriu que uma milícia iraquiana apoiada pelo Irã havia lançado uma série de drones contra duas de suas instalações petrolíferas mais importantes, em Abqaiq e Khurais.

Na época, levantou-se a hipótese de que o ataque tivesse partido dos houthis. Mas visitei o local logo depois e pude ver claramente que os danos nas estruturas estavam todos voltados para o norte.

O ataque interrompeu metade das exportações sauditas de petróleo durante vários dias e serviu de alerta a Arábia Saudita sobre a vulnerabilidade de sua infraestrutura crítica.

Na segunda-feira (27/7), imagens de satélite mostraram que a instalação petrolífera de Abqaiq havia sido novamente atingida por drones lançados por milícias iraquianas apoiadas pelo Irã.

Há ainda a interrupção do escoamento do petróleo, que continua sendo a principal fonte de sustentação da economia saudita.

O Irã retaliou aos ataques dos EUA e de Israel em fevereiro ao praticamente fechar o estreito de Ormuz, rota marítima estratégica entre o país e o Golfo por onde transitavam 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.

Em resposta, os sauditas transportaram o máximo possível de petróleo, cerca de 5 milhões de barris por dia, pelo oleoduto que atravessa o país de leste a oeste até o terminal de exportação de Yanbu, na costa oposta, banhada pelo mar Vermelho.

De lá, o petróleo era carregado em navios-tanque, que seguiam para o sul, entravam no mar da Arábia e partiam rumo aos mercados asiáticos.

Até aí, tudo bem.

Mas, em 13 de julho, os sauditas bombardearam o aeroporto de Sanaá, nos arredores da capital do Iêmen, controlado por forças rebeldes houthis. O governo iemenita apoiado pela Arábia Saudita assumiu a autoria do ataque e afirmou que pretendia impedir o pouso de um avião iraniano. Em retaliação, os houthis atacaram os aeroportos sauditas de Abha e Jizan.

Mais preocupante para a Arábia Saudita é o fato de os houthis terem começado a atacar navios sauditas no mar Vermelho, tornando extremamente perigosa a passagem pelo estreito de Bab el-Mandab (outra via marítima crucial para a economia global), no extremo sul do mar Vermelho. Isso, por sua vez, interrompe as exportações sauditas de petróleo para a Ásia.

A Arábia Saudita passou sete anos tentando obrigar os houthis a se render por meio de bombardeios, mas fracassou.

A guerra que devastou o Iêmen foi um dos piores desastres humanitários de nosso tempo, e seus efeitos ainda são sentidos.

Em 2022, a Arábia Saudita concordou com uma trégua instável com os houthis, e houve relatos de pagamentos. Mas agora o país mais rico da região volta a enfrentar a ameaça de ataques com drones e mísseis vindos do vizinho ao sul, ao mesmo tempo que sofre ataques do Iraque, ao norte.

Nada disso estava previsto nos planos da Visão 2030.

¨      Iraque vai elaborar plano de defesa em meio a ataques conjuntos efetuados por EUA e Arábia Saudita

O Conselho de Segurança Nacional do Iraque decidiu nesta quarta-feira (29) elaborar um plano abrangente para garantir a segurança do país após os ataques conjuntos entre Estados Unidos e Arábia Saudita realizados no início do dia.

Em comunicado, o Conselho de Segurança Nacional afirmou que, após uma reunião realizada em caráter de emergência, ficou decidido a implementação de "um plano de segurança abrangente para fortalecer o controle em todo o país, enfrentar qualquer violação da soberania do Iraque e impedir que qualquer origem de ameaça use o território iraquiano para ameaçar os estados vizinhos".

Em resposta ao ataque, o conselho instruiu o Ministério das Relações Exteriores do país a agir em conformidade com o direito internacional e a Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), documentar o incidente e proteger os direitos legítimos do Iraque.

"O comunicado enfatizou que abordar e responder a tais ataques é responsabilidade exclusiva do governo iraquiano e de suas instituições estatais constitucionais."

Comando Central dos EUA afirmou na noite de terça-feira (28) que caças norte-americanos e sauditas atacaram o que descreveu como "terroristas alinhados ao Irã" no leste do Iraque, em resposta a ataques aéreos com drones contra bases norte-americanas e infraestrutura saudita registrados nas últimas 72 horas.

Segundo um comunicado publicado no Telegram pelas Forças de Mobilização Popular, 20 pessoas foram mortas e outras 32 ficaram feridas durante os ataques saudita e norte-americano contra instalações no território iraquiano.

¨      Emirados Árabes Unidos envidam esforços para atenuar crise do conflito iraniano, relata especialista

Os Emirados Árabes Unidos miram evitar a escalada entre os Estados do Golfo e o Irã, afirmou à Sputnik a pesquisadora em diplomacia e mídia Randa Alhammadi, da Academia Diplomática Anwar Gargash.

Segundo ela, os Emirados Árabes Unidos combinam medidas de oposição resoluta aos ataques em seu território e infraestrutura com medidas de apoio contínuo à diplomacia mirando uma resolução pacífica.

"Os Emirados Árabes Unidos apoiam o direito internacional, a liberdade de navegação e a necessidade de um acordo negociado, evitando uma abordagem que possa transformar o conflito em um confronto permanente entre os Estados do Golfo e o Irã", disse ela.

Na avaliação dela, a estratégia do país inclui medidas práticas para melhorar a sustentabilidade econômica na região. O país realiza eventos diplomáticos e promove, ao mesmo tempo, a diversificação nas esferas de economia e segurança, acrescentou Alhammadi.

"A expansão das instalações portuárias e logísticas na costa leste, particularmente em Fujairah, reflete os esforços de longo prazo para reduzir a dependência das rotas que passam pelo estreito de Ormuz", destacou.

Em 8 de julho, o presidente dos EUADonald Trump, anunciou que o cessar-fogo alcançado com o Irã na noite de 18 de junho não era mais válido. Após a declaração, os militares dos EUA realizaram várias séries de ataques contra o Irã.

O Comando Central das Forças Armadas dos EUA alegou que isso teria sido feito em resposta às ações do Irã contra embarcações comerciais que atravessaram o estreito de Ormuz.

Teerã respondeu com ataques a bases norte-americanas em vários países do Oriente Médio, fechou o estreito de Ormuz e também acusou Washington de violar o memorando sobre a cessação das hostilidades.

<><> Não é possível concluir acordo sobre Ormuz sem considerar interesses de Estados vizinhos, diz analista

Um futuro acordo sobre o estreito de Ormuz deve levar em conta os interesses de todos os Estados costeiros, afirmou à Sputnik a pesquisadora em diplomacia e mídia Randa Alhammadi, da Academia Diplomática Anwar Gargash.

Mais cedo, os ministros das Relações Exteriores de seis países do golfo Pérsico discutiram a garantia dos direitos de navegação no estreito de Ormuz, que até agora continua fechado.

"Um acordo feito exclusivamente entre o Irã e Omã poderia contribuir para a desescalada, mas não deve dar a nenhum Estado poder unilateral sobre a hidrovia internacional nem ignorar os legítimos interesses de segurança de outros Estados costeiros do Golfo", disse Alhammadi.

Segundo a especialista, para que, por exemplo, os Emirados Árabes Unidos aceitem e apoiem tal acordo, ele deve ser transparente, juridicamente válido e estar em conformidade com o direito internacional do mar.

O mais importante é que o futuro documento garanta a liberdade de navegação irrestrita e não discriminatória, sublinhou a analista.

"Os Emirados Árabes Unidos aguardam consultas formais, já que seus portos, exportações de energia, comércio e segurança nacional são diretamente afetados", acrescentou.

Em 8 de julho, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que o cessar-fogo alcançado com o Irã na noite de 18 de junho não era mais válido. Após a declaração, os militares dos EUA realizaram várias séries de ataques contra o Irã.

Teerã respondeu com ataques a bases norte-americanas em vários países do Oriente Médio, fechou o estreito de Ormuz e também acusou Washington de violar o memorando sobre a cessação das hostilidades.

¨      Trump está 'exasperado' com falta de unidade sobre Irã entre liderança militar dos EUA, diz jornal

O presidente norte-americano, Donald Trump, está irritado com a falta de progresso na resolução do conflito iraniano e a falta de consenso estratégico entre seus principais conselheiros militares, informou um jornal britânico citando um alto funcionário estadunidense não identificado.

Segundo o jornal The Independent, a liderança militar dos Estados Unidos não tinha uma estratégia clara sobre quanto tempo e o que era necessário fazer para chegar ao ponto final do conflito.

O chefe da Casa Branca não esperava que o atual conflito no Oriente Médio fosse "uma guerra longa e prolongada", afirmou ao jornal uma fonte não identificada.

"O presidente está exasperado. Não creio que ele acreditasse que seria tão difícil conseguir que os iranianos concordassem com um acordo", disse um aliado anônimo de Trump, citado por um veículo da mídia ocidental.

De acordo com a publicação, a raiz do descontentamento da administração Trump está na falta de acordo sobre o que fazer na guerra, que começou com os ataques aéreos conjuntos EUA-Israel em 28 de fevereiro, que rapidamente levou à retaliação iraniana, ao fechamento do estreito de Ormuz e, consequentemente, a um impasse.

"Obtivemos uma série de vitórias táticas, mas agora enfrentamos uma derrota estratégica sem orientação política clara ou uma decisão sobre para onde ir", destacou o alto funcionário norte-americano.

Em 8 de julho, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que o cessar-fogo alcançado com o Irã na noite de 18 de junho não era mais válido. Após a declaração, os militares dos EUA realizaram várias séries de ataques contra o Irã.

Teerã respondeu com ataques a bases norte-americanas em vários países do Oriente Médio, fechou o estreito de Ormuz e também acusou Washington de violar o memorando sobre a cessação das hostilidades.

¨      Conflito entre EUA e Irã chega a impasse diplomático e militar, acredita ex-funcionário do Pentágono

O conflito entre Estados Unidos e Irã chegou a um impasse, pois as partes não enxergam benefícios na ação militar e tampouco acreditam na eficácia das negociações, afirmou ao jornal norte-americano a ex-alta funcionária do Pentágono, Dana Stroul.

Em entrevista ao The Washington Post, Stroul afirmou que tanto Teerã quanto Washington são agora incapazes de chegar a uma resolução pacífica negociada. Os dois países continuam realizando ataques "de uma posição de fraqueza", sugeriu a observadora.

"Há um pessimismo crescente em ambas as capitais sobre a incapacidade das partes de chegar a um acordo diplomático", disse Stroul.

Segundo a especialista, o presidente norte-americano, Donald Trump, não está preparado para realizar operações militares de grande escala, já que tais passos poderiam minar seu apoio político nas eleições de meio de mandato para o Congresso dos EUA neste outono (no Hemisfério Norte).

Por sua vez, o Irã vê nessa situação uma "única alavanca de pressão máxima", salientou a ex-funcionária do Pentágono.

Em 8 de julho, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que o cessar-fogo alcançado com o Irã na noite de 18 de junho não era mais válido. Após a declaração, os militares dos EUA realizaram várias séries de ataques contra o Irã.

Teerã respondeu com ataques a bases norte-americanas em vários países do Oriente Médio, fechou o estreito de Ormuz e também acusou Washington de violar o memorando sobre a cessação das hostilidades.

¨      EUA gastaram quase 2 mil mísseis de defesa antiaérea na guerra com Irã

Durante o confronto com o Irã, os EUA utilizaram mais de 1.500 mísseis Patriot e 200 interceptores THAAD, enfrentando um déficit significativo de recursos de defesa antiaérea diante de uma possível escalada do conflito, segundo um relatório de um centro analítico estadunidense.

O relatório destaca que, entre 27 de fevereiro e 27 de julho, os EUA utilizaram entre 1.503 e 1.571 mísseis Patriot, além de entre 174 e 218 interceptores THAAD.

"Em 27 de fevereiro, os estoques totalizavam 2.330 mísseis Patriot e 452 mísseis THAAD. No entanto, em 27 de julho, o número desses mísseis nos arsenais havia diminuído para 759-827 e 234-278 unidades, respectivamente", detalha o material.

De acordo com o centro analítico, o esgotamento dos estoques pode obrigar os EUA e seus aliados a correrem mais riscos na interceptação de mísseis.

Não há uma alternativa viável aos sistemas Patriot e THAAD para combater ameaças balísticas, e os navios da Marinha dos EUA equipados com mísseis da classe Standard geralmente estão muito distantes, conclui o comunicado.

Foi justamente nesse contexto de esgotamento de seus próprios estoques de defesa antiaérea que os EUA receberam um novo pedido de Kiev. Conforme noticiado anteriormente por um portal estadunidense, o atual líder ucraniano, Vladimir Zelensky, solicitou ao presidente dos EUA, Donald Trump, o fornecimento urgente de 300 mísseis para os sistemas Patriot até o inverno europeu.

No entanto, em Washington, a escassez dessas munições já havia sido apontada repetidamente, devido às operações militares no Oriente Médio e à capacidade limitada de produção.

 

Fonte: BBC News/Sputnik Brasil


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