Se
Lula cair, o Brasil vai junto
Tarifas,
minerais críticos, Big Techs, BRICS, agro, indústria, guerra híbrida, eleições
e a disputa entre Estados Unidos e China fazem parte de um mesmo tabuleiro.
Este artigo demonstra, com base em fatos e no realismo político, por que a
defesa da soberania brasileira ultrapassa governos, partidos e ideologias, e
por que o futuro do país pode depender da eleição mais importante desde a
redemocratização.
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Quando a história bate à porta
Há
momentos em que um país deixa de disputar apenas uma eleição e passa a disputar
o direito de decidir o próprio futuro. O Brasil chegou a esse momento.
A
ligação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping, realizada nesta
segunda-feira, 27 de julho, foi muito mais do que uma conversa entre dois
chefes de Estado. Foi a manifestação pública de uma escolha estratégica
construída ao longo de meses de crescente pressão econômica, diplomática e
política sobre o Brasil. Em um mundo marcado por tarifas, sanções, disputas
tecnológicas, guerra híbrida, operações de influência e competição por recursos
estratégicos, Lula sinalizou que o país não abrirá mão de conduzir sua política
externa segundo seus próprios interesses.
A
conversa ocorreu poucos dias depois de uma nova escalada das tensões entre
Brasília e Washington. Em vez de responder ao aumento da pressão internacional
reduzindo sua margem de manobra, o governo brasileiro aprofundou o diálogo com
a China, ampliou negociações comerciais, discutiu inteligência artificial,
satélites, fertilizantes, minerais críticos e novas formas de cooperação
tecnológica. O gesto ultrapassa em muito a relação bilateral entre os dois
países. Ele afirma um princípio que atravessa toda a história das nações
soberanas: nenhum país pode construir seu futuro permitindo que outro escolha
seus parceiros, seus mercados ou os limites de sua política externa.
É
justamente nesse ponto que grande parte do debate brasileiro perde o foco. O
que está acontecendo não pode ser reduzido à polarização entre esquerda e
direita, nem explicado apenas pelas disputas eleitorais de 2026. O centro da
questão é outro. A ordem internacional atravessa sua maior reorganização desde
o fim da Guerra Fria. O controle das cadeias produtivas, dos minerais críticos,
da energia, dos alimentos, da inteligência artificial, das infraestruturas
digitais e das grandes rotas comerciais tornou-se o principal eixo da disputa
pelo poder global. E poucos países ocupam uma posição tão estratégica nesse
tabuleiro quanto o Brasil.
É sob
essa perspectiva que as decisões de Lula precisam ser compreendidas. Não como
episódios isolados da política cotidiana, mas como respostas a uma disputa
muito maior do que um governo, um partido ou uma eleição. Talvez, quando este
período for analisado pelas próximas gerações, a ligação entre Lula e Xi
Jinping deixe de ser lembrada apenas como mais um encontro diplomático. Talvez
seja reconhecida como o momento em que o Brasil, diante de uma pressão
crescente para redefinir seu lugar no mundo, decidiu reafirmar um princípio
elementar da soberania: o direito de escolher, por si mesmo, o seu próprio
destino.
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O país que voltou ao centro do mundo
Durante
muito tempo, acostumamo-nos a imaginar que os grandes conflitos internacionais
aconteciam sempre longe daqui. Oriente Médio, Leste Europeu, Mar do Sul da
China, Ártico. O Brasil parecia um espectador privilegiado de uma disputa
travada entre as grandes potências. Essa percepção já não corresponde à
realidade.
O
século XXI deslocou o centro da competição internacional. O poder deixou de ser
medido apenas pela capacidade militar e passou a depender, cada vez mais, do
controle das cadeias produtivas, da energia, dos alimentos, da inteligência
artificial, dos minerais críticos, das infraestruturas digitais, das rotas
comerciais e das tecnologias capazes de sustentar a próxima revolução
industrial. Poucos países reúnem tantas dessas condições quanto o Brasil.
O país
concentra uma das maiores produções agrícolas do planeta, possui reservas
estratégicas de petróleo, abriga parte significativa dos minerais
indispensáveis à transição energética e à indústria de alta tecnologia, dispõe
de uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, controla uma extensa faixa
do Atlântico Sul e ocupa posição central nas cadeias globais de alimentos,
energia e matérias-primas. Ao mesmo tempo, participa dos BRICS, integra o
Mercosul, mantém relações diplomáticas com praticamente todos os grandes polos
de poder e preserva capacidade de diálogo simultâneo com Oriente e Ocidente.
Não se trata apenas de um grande mercado consumidor. Trata-se de um dos poucos
países capazes de influenciar a reorganização econômica e geopolítica do século
XXI.
É
justamente por isso que a disputa em torno do Brasil não pode ser interpretada
como um episódio isolado da política nacional. Quando uma potência busca
preservar sua posição dominante em um sistema internacional que se transforma
rapidamente, ela procura reduzir as incertezas em torno dos ativos considerados
estratégicos. Nesse contexto, minerais críticos, infraestrutura energética,
cadeias industriais, plataformas digitais, corredores logísticos, mercados
consumidores e alianças internacionais deixam de ser temas separados. Passam a
compor uma mesma arquitetura de poder.
É esse
o erro mais frequente do debate brasileiro. Discutimos tarifas sem
relacioná-las às cadeias produtivas. Falamos de minerais sem conectá-los à
inteligência artificial. Tratamos as Big Techs como um problema exclusivamente
regulatório, ignorando que elas também integram uma disputa por dados,
tecnologia e influência política. Observamos a aproximação entre Brasil e China
como se fosse apenas uma decisão diplomática, quando ela faz parte de uma
transformação muito mais ampla da economia mundial. Separados, esses
acontecimentos parecem desconexos. Juntos, revelam uma lógica difícil de
ignorar.
Compreender
essa lógica é o primeiro passo para entender por que o Brasil voltou ao centro
da disputa internacional. O segundo é responder a uma pergunta ainda mais
decisiva: por que, dentro desse novo tabuleiro, Luiz Inácio Lula da Silva
passou a representar um obstáculo estratégico para interesses que ultrapassam,
em muito, as fronteiras da política brasileira?
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Por que Lula se tornou um obstáculo
Lula
não se tornou um problema para determinados centros de poder porque fala em
soberania. Tornou-se um problema porque começou a exercê-la.
Desde
que retornou à Presidência, o Brasil recusou o papel de aliado automático de
qualquer potência. Preservou relações com os Estados Unidos, aprofundou a
parceria com a China, fortaleceu os BRICS, reativou a integração sul-americana
e voltou a defender uma ordem internacional menos concentrada. Essa política
não representa uma troca de dependência. Representa a tentativa de ampliar a
margem de escolha do país em um mundo dividido por interesses cada vez mais
agressivos.
Essa
margem de escolha possui valor econômico concreto. Ela permite ao Brasil
negociar mercados sem aceitar alinhamentos compulsórios, atrair investimentos
de diferentes origens, proteger setores estratégicos, disputar tecnologia e
impedir que recursos decisivos para o futuro sejam entregues apenas como
matéria-prima barata. É nesse ponto que política externa, desenvolvimento e
soberania deixam de ser conceitos abstratos. Um país que não controla as
condições de exploração de seus minerais, o destino de seus dados, suas
infraestruturas digitais e suas principais cadeias produtivas não controla
plenamente a própria economia.
Lula
também contrariou uma expectativa antiga: a de que o Brasil continuaria grande
o suficiente para fornecer recursos, mas politicamente limitado demais para
disputar poder. Ao defender a industrialização vinculada à transição
energética, exigir transferência de tecnologia, propor comércio em moedas
locais, apoiar a reforma das instituições multilaterais e reivindicar
protagonismo para o Sul Global, o governo brasileiro deixou claro que não
pretende aceitar uma inserção internacional baseada apenas na exportação de
commodities e na importação de tecnologia.
É essa
combinação que explica a intensidade das pressões. Tarifas, ameaças comerciais,
campanhas de deslegitimação, ofensivas contra a regulação das plataformas e
tentativas de condicionar a política externa brasileira pertencem a campos
diferentes, mas convergem sobre o mesmo objetivo: reduzir a capacidade de
decisão do Estado. Nenhum desses instrumentos precisa derrubar formalmente um
governo para ser eficaz. Basta elevar o custo de suas escolhas, dividir sua
base social, pressionar setores econômicos e transformar a defesa do interesse
nacional em fonte permanente de instabilidade.
O
principal obstáculo representado por Lula, portanto, não é ideológico. É
estratégico. Sua presença impede que o Brasil seja facilmente incorporado à
esfera de influência de um único bloco e preserva espaço para um projeto
nacional autônomo. Isso não significa ausência de contradições, concessões ou
limites. Significa apenas reconhecer o dado essencial do presente: entre as
lideranças com capacidade real de governar o país, Lula é aquela que reúne
legitimidade popular, experiência internacional e força política para resistir
a pressões que ultrapassam qualquer mandato.
É por
isso que o conflito em torno de seu governo não pode ser compreendido apenas
pela lógica da oposição partidária. O que está em disputa não é somente quem
ocupará o Palácio do Planalto. É quem terá poder para definir os parceiros do
Brasil, orientar seus investimentos, controlar seus ativos estratégicos e
estabelecer os limites de seu desenvolvimento.
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O equívoco que pode custar uma geração
Talvez
o maior erro da atual conjuntura brasileira seja imaginar que esta disputa
produzirá vencedores internos. Não produzirá. Se a capacidade de decisão
estratégica do Estado brasileiro for reduzida, perderão governos, empresários,
trabalhadores, investidores e consumidores. Perderá o próprio país.
A
prosperidade de qualquer economia depende de sua liberdade para decidir onde
investir, com quem negociar, quais setores proteger, quais tecnologias
desenvolver e quais cadeias produtivas pretende construir. Nenhum país alcançou
desenvolvimento sustentado abrindo mão dessas escolhas. As grandes potências
defendem diariamente seus interesses industriais, tecnológicos, financeiros e
comerciais. Não há razão para que o Brasil seja o único a renunciar aos seus.
Essa
constatação interessa tanto ao produtor rural quanto ao industrial, ao
exportador, ao empreendedor, ao pesquisador e ao trabalhador. Mercados
externos, crédito, investimentos, inovação e estabilidade institucional não
florescem em economias cuja estratégia nacional é determinada por interesses
alheios. Quanto menor a autonomia do Estado, menor também a capacidade de gerar
riqueza de forma contínua.
É
justamente por isso que a soberania pertence às nações que desejam preservar
sua capacidade de construir o próprio futuro. Países que abdicam dessa condição
podem continuar produzindo, exportando e crescendo por algum tempo, mas passam
a fazê-lo dentro de limites definidos por outros. Com o tempo, deixam de
disputar os setores de maior valor agregado, tornam-se dependentes de
tecnologias desenvolvidas no exterior e veem diminuir sua influência sobre os
rumos da economia mundial.
É sob
essa perspectiva que a eleição de 2026 ultrapassa a alternância normal do
poder. O que estará em julgamento não será apenas um governo, mas a
continuidade de uma estratégia de inserção internacional baseada na autonomia
decisória. É uma escolha entre preservar a capacidade de negociar a partir dos
próprios interesses ou aceitar que as decisões fundamentais sobre
desenvolvimento, tecnologia e integração econômica sejam condicionadas por
pressões externas.
Essa é
a questão que antecede todas as outras. Antes de discutir quem governará o
Brasil, será preciso decidir se o país continuará governando a si mesmo.
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A história não escolhe líderes perfeitos
Seria
um erro transformar essa análise em um julgamento moral sobre Luiz Inácio Lula
da Silva. Como toda liderança política de longa trajetória, seu governo acumula
acertos, erros, concessões, limites e decisões passíveis de crítica. Nenhum
processo histórico relevante foi conduzido por personagens livres de
contradições. A história nunca ofereceu essa possibilidade.
A
questão decisiva, portanto, não é saber se Lula governou sem falhas. É
compreender qual papel ele ocupa neste momento específico da história
brasileira. Em política, a relevância de uma liderança não é determinada apenas
por suas virtudes ou defeitos, mas pela posição que ela passa a ocupar diante
das circunstâncias. Há momentos em que indivíduos deixam de representar apenas
seus partidos e passam a representar determinadas possibilidades históricas.
É
exatamente isso que parece ocorrer hoje. A permanência de Lula no centro da
política nacional deixou de interessar apenas aos seus eleitores ou aos seus
adversários. Tornou-se um fator diretamente relacionado à capacidade de o
Brasil preservar uma política externa independente, manter relações
equilibradas com diferentes polos de poder e continuar ampliando sua margem de
decisão em um cenário internacional cada vez mais conflituoso.
Isso
não significa que outro governo, no futuro, não possa defender os mesmos
objetivos. Significa apenas reconhecer a realidade concreta do presente. Entre
as lideranças que disputam o poder, nenhuma reúne, neste momento, a mesma
combinação de legitimidade política, experiência internacional, capacidade de
negociação e reconhecimento externo para sustentar essa estratégia sem romper a
estabilidade institucional do país.
É
justamente por isso que reduzir a eleição de 2026 a uma simples disputa entre
nomes, partidos ou preferências ideológicas significa ignorar a dimensão
histórica do que está em jogo. Em determinados períodos, as sociedades não
escolhem apenas governos. Escolhem quais possibilidades desejam preservar para
o futuro.
Essa é
a razão pela qual o debate ultrapassa a figura de Lula. O verdadeiro
protagonista desta história nunca foi um homem. É o direito de uma nação
decidir, com autonomia, os caminhos do seu próprio desenvolvimento.
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Se Lula cair, o Brasil cai junto
A frase
que dá título a este artigo não deve ser compreendida como um exercício de
fidelidade partidária nem como uma afirmação sobre a indispensabilidade de
qualquer indivíduo. A história sempre encontra novos líderes. O que ela não
substitui com facilidade são as oportunidades perdidas.
O
Brasil atravessa um daqueles momentos em que as escolhas políticas produzem
consequências que ultrapassam um mandato presidencial. Em um mundo marcado pela
disputa por tecnologia, recursos estratégicos, cadeias produtivas e influência
geopolítica, preservar a capacidade de decidir tornou-se o principal patrimônio
de qualquer nação. Sem ela, desenvolvimento deixa de ser projeto e passa a
depender da vontade de terceiros.
É nesse
contexto que a permanência de Lula adquire um significado que transcende sua
trajetória pessoal. Independentemente das críticas que se possam fazer ao seu
governo, é sob sua liderança que o Brasil voltou a ocupar um espaço relevante
na reorganização da ordem internacional, ampliou sua margem de negociação,
fortaleceu relações com diferentes polos de poder e reafirmou que não pretende
abrir mão de sua autonomia estratégica. Não se trata de um julgamento sobre um
homem. Trata-se de uma avaliação sobre o lugar que o país escolhe ocupar no
século XXI.
Toda
geração enfrenta um momento em que precisa decidir se administrará as
circunstâncias ou se tentará influenciá-las. O Brasil chegou novamente a esse
ponto. Permanecer como fornecedor periférico de recursos estratégicos,
subordinado às decisões das grandes potências, ou consolidar-se como um ator
capaz de negociar, produzir tecnologia, agregar valor e exercer influência
compatível com sua dimensão territorial, econômica e política são caminhos
profundamente distintos. A diferença entre eles começa na preservação da
soberania.
Talvez
seja por isso que o debate em torno de 2026 desperte reações tão intensas
dentro e fora do país. O que está em disputa não é apenas a sucessão
presidencial. É a continuidade, ou a interrupção, de uma estratégia que
devolveu ao Brasil capacidade de escolha em um período de acelerada
transformação da ordem mundial.
Se essa
capacidade for preservada, outros governos poderão aperfeiçoá-la, ampliá-la ou
até substituí-la por projetos mais eficazes. Mas, se ela for interrompida
agora, reconstruí-la poderá exigir décadas. A história demonstra que países
raramente perdem sua soberania de uma só vez. Eles a cedem lentamente, decisão
após decisão, até perceberem que já não controlam os rumos do próprio
desenvolvimento.
É por
isso que, diante da conjuntura atual, a frase que dá título a este artigo deixa
de ser uma declaração sobre Lula e passa a expressar uma advertência sobre o
Brasil. Se Lula cair, poderá cair junto a estratégia que recolocou o país como
protagonista de seu próprio destino. E oportunidades históricas, ao contrário
das eleições, quase nunca oferecem uma segunda chance.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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