ECA
Digital tem problemas, mas já protege crianças
No
começo de junho, um enorme boneco inflável do torso do bilionário Elon Musk sem
camisa apareceu na Times Square, famoso ponto turístico de Nova York. Na sua
barriga, a figura inflável de 12 metros trazia os dizeres: “O Grok faz
pornografia infantil”.
O
protesto se seguia a um clamor público depois que o X liberou a possibilidade
do Grok fazer vídeos e fotos sexualizadas, permitindo deepfakes de pessoas
reais e até de crianças. Em janeiro, o X desabilitou a funcionalidade
possibilidade, mas os danos já haviam sido feitos.
A
estátua ficou ali um dia inteiro, e foi obra do grupo AI Now (SAIN),
coalizão que luta pelo uso seguro de
Inteligência Artificial nos EUA. Mas o protesto deixou claro que, embora a
revolta contra violações de direitos pelas Big Techs alcance cidadãos do mundo
todo, alguns países conseguiram se preparar para confrontá-las, mas os EUA,
não. Os norte-americanos não podem esperar que seu governo os ajude a garantir
seus direitos frente às Big Techs.
Aqui no
Brasil, o escândalo do Grok teve um desfecho bem diferente. Depois de ser
interpelado pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), a Secretaria
Nacional do Consumidor (Senacom), ambos subalternos ao Ministério da Justiça, e
pelo Ministério Público Federal (MPF), o X alegou ter modificado a ferramenta,
vetando a criação de vídeos sexualizados de crianças e proibindo vídeos de
pessoas feitos sem a sua autorização. As autoridades estão agora verificando se
isso é verdade.
Essa
força-tarefa só foi possível depois da aprovação do ECA Digital, uma legislação
inovadora que estabelece obrigações e responsabilidades para as plataformas
digitais garantirem que os direitos das crianças não podem ser violados nos
seus produtos.
O ECA
Digital, sancionado no dia 17 de setembro de 2025, tem o objetivo de ampliar a
proteção de crianças e adolescentes já garantidas pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) desde 1990 impondo também às plataformas responsabilidades
sobre o ambiente digital.
A lei
as obriga a adicionar medidas eficazes de verificação de idade dos usuários,
proíbe o uso de perfilamento comportamental para publicidade e monetização,
veta o uso de imagem de crianças sexualizadas e que usem “linguagem adulta”.
Também propõe mudanças no design das plataformas usadas por crianças (como o
fim do scroll infinito) e exige que crianças e adolescentes com menos de 16
anos só possam usar as redes sociais se estiverem vinculadas a um responsável.
Além
dessas regras, a lei impõe que as plataformas sejam obrigadas a identificar e
excluir conteúdos de abuso sexual, aliciamento de menores e estupro, além de
produzir relatórios para a ANPD do que foi excluído ou denunciado.
A ANPD
foi estabelecida como órgão responsável por fiscalizar as empresas.
“A
gente já tinha notificado o X duas vezes”, explica o Secretário Nacional do
Consumidor, Ricardo Morishita. Segundo ele, o esforço conjunto com a ANPD
ajudou a ampliar o escopo das ações, incluindo outras empresas além do X. “A
gente notificou o Google, o Facebook, e o ChatGPT, que é da Open AI. Então, a
gente ampliou esse tipo de monitoramento, até como medida de prevenção. É
pedagógico”.
Morishita
afirma que o Grok era “de longe o mais preocupante”, mas não é a única
ferramenta que permite vídeos do tipo sem autorização. “O dever é que os
produtos não acarretem riscos anormais e imprevisíveis para o consumidor”.
A multa
por descumprimento pode chegar até R$ 50 milhões e, para vigiar se o Grok está
de fato cumprindo o combinado, a ANPD conta com a participação cidadã. No final
de maio, a agência abriu um canal de denúncias sobre casos de violação do ECA
Digital.
No
primeiro mês foram enviados 43 requerimentos, uma média de 1,4 por dia. Os
brasileiros denunciaram, por exemplo, que ainda existem conteúdos com
pornografia infantil sendo monetizados nas plataformas. Mas a denúncia mais
recorrente é sobre a falta de medidas que garantam que as crianças e
adolescentes acessem conteúdo impróprio, inadequado ou proibido. Foram 13
denúncias com este teor, uma a cada dois dias.
<><>
Crianças Preservadas
O ECA
Digital entrou em vigor em março de 2026, mas as plataformas tiveram ainda mais
três meses de prazo para se adequarem às regras.
A
partir de junho, começou uma revolução silenciosa.
Nos
seus primeiros meses de vida, o filho de Giovana Motta, nascido no final de
2025, já povoava o feed da influenciadora no Instagram. Imagens do bebê no café
da manhã, da sua festa de aniversário temática, em viagens para a Grécia, Suíça
e Itália e até do primeiro banho de praia se misturavam a posts promovendo
marcas. A influenciadora, com 1,3 milhão de seguidores, sempre expôs o filho. A
partir de junho ele passou a aparecer com o rosto coberto.
Isso
porque o ECA Digital obriga os pais a obter um alvará da Justiça para permitir
a exposição de influenciadores menores de idade. Por isso, após uma denúncia,
Motta teve a conta suspensa pela Meta, junto com dezenas de outras.
“Maldita
lei, tanta coisa seria acontecendo no mundo e implicam com coisas besta”,
escreveu a influenciadora nos seus canais.
A conta
foi reabilitada depois, quando ela pediu o alvará.
O
pedido de alvará deve garantir limites ao número de postagens, informar fontes
de renda e contratos com marcas – uma parte da receita deve ser depositada em
conta para a criança – e limite de horário das atividades, que não podem
prejudicar o período escolar.
As
punições são severas. Redes sociais podem sofrer multas e suspensão imediata da
geração de rendimentos na plataforma. Os pais podem responder por exploração de
trabalho infantil artístico irregular e até perder a guarda da criança.
Ao
traduzir regras do ECA para o ambiente online, a nova lei atinge o cerne das
plataformas de tecnologia ao confrontar um modelo de negócios historicamente
amparado na coleta massiva de dados e no engajamento compulsivo para fins de
perfilamento comportamental.
Para
Julia Abad, coordenadora do Programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do
Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), ao se tratar de crianças e
adolescentes, a proteção deve justamente prevalecer sobre os interesses
comerciais.
<><>
Há avanços, mas também há problemas
Impulsionado
pela comoção causada pelo vídeo do influenciador Felca sobre a adultização de
crianças, que registrou 34 milhões de visualizações em cinco dias, o ECA
Digital tramitou com celeridade e foi aprovado por unanimidade, unindo direita
e esquerda, apesar da resistência inicial de bolsonaristas, que chegaram a
dizer que ele seria “censura”.
Porém,
indefinições sobre as ferramentas de aferição de idade dos usuários suscitam
preocupação no influenciador brasileiro que ajudou a impulsionar a lei. Em
entrevista em março de 2026, Felca cobrou um método padronizado para a
verificação.
“Cada
plataforma, cada jogo, cada rede social faz de um jeito. Alguns sites menores
simplesmente não vão suportar a pressão e às vezes deixam desistir, outros
sites colocam a verificação facial, que é inefetiva”, criticou em entrevista ao
Roda Viva. Ele também ressaltou a restrição do Mario Kart Tour para menores de
18 anos, imposta pela versão brasileira da Google Play Store, para evitar
riscos de punição legal, como exemplo de aplicação “imatura” dos critérios de
idade da legislação.
Por
outro lado, um dos prós do ECA Digital, para Rafael Zanatta, codiretor da ONG
de proteção de dados e direitos digitais Data Privacy, é que ele obriga métodos
menos invasivos de retenção de dados, incluindo a recomendação de eliminar, e
não manter, dados para fins comerciais que não aqueles específicos da
verificação de idade.
Para
ele, esta parte da legislação pode, inclusive, ter como efeito colateral
positivo um avanço rumo a mais soberania tecnológica do Brasil: “A indução do
mercado de aferição de dados vai se desdobrar nos próximos anos, sem que haja
um intervencionismo econômico sobre uma única forma de se fazer”.
Porém,
um dos principais pontos do texto, a criação do Centro Nacional de Proteção à
Criança e ao Adolescente, sob o guarda-chuva da Polícia Federal (PF), ainda não
se concretizou. A estrutura deverá receber os relatórios das plataformas
digitais, filtrar denúncias sobre conteúdo criminoso e direcionar informações
para os órgãos competentes.
A nova
instituição é inspirada no Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e
Exploradas (NCMEC), dos EUA, que inclusive fornece informações a autoridades
brasileiras.
À
Agência Pública, a PF informou que o Centro “está em fase de planejamento e
construção, tanto em termos de alocação de pessoas, estruturação de hardware e
criação de software para recebimento das notificações obrigatórias das
empresas”.
Até
meados de julho o órgão estava “estudando como funcionam outras cibertyplines
[sistemas para envio de denúncias] do mundo, bem como as adaptações que devem
ser feitas ao modelo brasileiro”. A PF não disse qual a estimativa para início
das operações do Centro, que, segundo a corporação, depende de outras etapas
ainda em andamento.
<><>
Na Europa e nos EUA
Quando
comparado com os EUA, especialistas concordam que o Brasil saiu na frente na
proteção às crianças no ambiente digital.
Desde
1998, os EUA possuem uma legislação federal para proteger a privacidade das
crianças online, a Lei de Proteção da Privacidade On-line das Crianças de 1998.
Mas ela é menos rígida que o ECA Digital – por isso, a regulação acaba ficando
a cargo dos estados.
Na
Califórnia, há leis mais endurecidas que a nacional. No estado que abriga o
Vale do Silício, a legislação determina por exemplo que as plataformas não
podem vender os dados de menores de idade sem o consentimento dos pais ou dos
usuários. O estado permite ainda que menores solicitem a remoção de conteúdos
em sites, serviços online e aplicativos.
Ainda
assim, segundo especialistas ouvidos pelo CalMatters, o marco legal do estado
governado pelos democratas também é mais frouxo se comparado à lei brasileira.
Alguns
dos maiores obstáculos são a Primeira Emenda da Constituição americana, que
garante a liberdade de expressão e o fato que o Vale do Silício enxerga leis
mais rígidas como uma ameaça ao seu futuro.
“Leis
internacionais podem colocar mais limites no conteúdo acessado por menores de
idade porque em outros países não há os
mesmos direitos à expressão que nos EUA, por causa da Primeira Emenda”, afirma
Mariana Olaizola Rosenblat, especialista em lei e tecnologia da New York
University (NYU).
Mas
embora a Primeira Emenda dos EUA não tenha validade fora daquele país, ela
impacta o debate regulatório até mesmo aqui no Brasil.
Passados
cinco meses desde a entrada em vigor do ECA Digital, Julia Abad, do Idec,
afirma que representantes das plataformas seguem apresentando a regulação como
“excessivamente complexa ou mesmo incompatível com a dinâmica dos serviços
digitais, ao mesmo tempo em que propõem respostas que preservam suas próprias
estruturas de poder e seus modelos de negócio”.
Rafael
Zanatta lembra que, historicamente, estas empresas sempre tiveram resistência a
normas de proteção de crianças. Ele diz que na época da aprovação da Lei de
Proteção da Privacidade On-line das Crianças nos EUA “elas também protestaram e
disseram que era uma violação de liberdade de expressão”.
“Alegaram
que impor regras excessivas para as plataformas, como, por exemplo, obrigá-las
a elaborar um relatório de impacto sobre perfilamento de crianças, seria uma
violação da Primeira Emenda”. Para ele, este argumento não faz o menor sentido
no Brasil.
A
lógica é chamada pela pesquisadora da Texas Tech University (EUA), Marina
Petric, de “fundamentalismo da primeira emenda”.
“O
discurso dos EUA é integrado à arquitetura das plataformas como um padrão
universal. Quem não aceita este preceito é enquadrado como adepto da censura.
Mas a liberdade de expressão que é definida por um lado e só vale para uma
parte não é liberdade de expressão. É ferramenta de poder”, diz.
Este
mesmo argumento tem embasado ações de pressão e retaliação do governo dos EUA
contra o Brasil, como a recente imposição de 25% de tarifas sobre exportações
com base em uma investigação realizada pelo Escritório Comercial dos EUA (USTR,
na sigla em inglês), que decidiu com base na seção 301. A decisão afirma haver
“práticas desleais” contra empresas americanas, tendo como primeiro item o
comércio digital e o PIX.
A Casa
Branca alega que há excesso de regulação contra suas empresas digitais. O
Itamaraty alega que é uma questão de soberania nacional.
<><>
Dificuldades também nos EUA
Os
problemas enfrentados por crianças no ambiente online são iguais nos EUA e no
Brasil, e alguns especialistas apontam que os EUA poderiam “importar” algumas
das provisões do ECA digital.
Este
ano, o Congresso norte-americano está debatendo o Projeto de Lei de Segurança
Digital e Internet para Crianças, que ampliaria as proteções da Lei de 1998,
incluindo a proibição da segmentação publicitária online voltada para crianças
e adolescentes.
No
entanto, a lei tem enfrentado críticas não só das Big Techs, como também de
defensores da segurança infantil por não impor obrigações legais
suficientemente fortes. Assim, parece que a lei está fadada ao fracasso.
Além
disso, o argumento sobre a Primeira Emenda tem sido frequentemente usado em
batalhas judiciais movidas pela indústria de tecnologia contra leis que limitam
o conteúdo que seus algoritmos exibem – como contra a lei da Califórnia.
Mariana
Olaizola Rosenblat, consultora de políticas sobre tecnologia e direito no Stern
Center for Business and Human Rights, da Universidade de Nova York, aponta que
já existem algumas convergências entre as regulamentações no Brasil e no Estado
da Califórnia.
“Acho
que há bastante sobreposição, mas elas divergem principalmente por
características constitucionais específicas do sistema jurídico dos EUA”, disse
ela.
Olaizola
Rosenblat afirma que cláusulas do ECA Digital, como a exigência de que sites de
redes sociais ofereçam ferramentas de supervisão parental, poderiam ser
importadas para os EUA.
Essas
ferramentas permitem que os pais controlem os recursos e o conteúdo que seus
filhos veem, inclusive estabelecendo limites para mensagens, tempo de tela,
reprodução automática e recompensas. Ela destaca que a Califórnia também
aprovou disposições como configurações de privacidade por padrão para usuários
infantis e limites à publicidade.
Mas
tanto Howard quanto Olaizola Rosenblat acreditam que a principal barreira para
uma lei de privacidade infantil mais rigorosa nos EUA é uma única questão: a
influência do dinheiro da indústria de tecnologia.
“De
longe, a maior razão é o poder do dinheiro e o fato de que nosso sistema é
unicamente vulnerável a este poder”, disse Howard.
“Acho
que o principal problema é o lobby tecnológico, que é muito bem-sucedido nos
EUA e talvez não tão bem-sucedido em outras jurisdições como o Brasil”, disse
Olaizola Rosenblat. “Porque eles sabem que a coisa mais ameaçadora para eles
seria uma lei federal nos EUA.”
Procurada
pela Agência Pública, a Meta informou que produz relatórios de transparência há
anos e que tem um relacionamento com as autoridades brasileiras “que vai além
do mero cumprimento de obrigações formais”. Segundo a empresa, isso inclui
reuniões e respostas a questionamentos feitos pelas autoridades. A empresa
disse ainda que trabalha com várias camadas para a aferição de idade dos
usuários.
O X não
tem representante de comunicação no Brasil. O Google enviou o link — já
disponível publicamente — com as medidas adotadas pela empresa para proteção de
crianças e adolescentes.
Fonte:
Por Maria Martha Bruno, Natalia Viana e Colin Lecher, da Agencia Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário